quinta-feira, 25 de junho de 2026

A frágil autoridade evangélica de Flávio Bolsonaro

A queda de nove pontos percentuais de Flávio Bolsonaro entre os evangélicos nas intenções de voto para a Presidência da República, registrada pela pesquisa Quaest poucos dias após a sua participação na Marcha para Jesus 2026, produziu uma enxurrada de perguntas e explicações. Além das repercussões sobre o Caso Master e vínculos com Daniel Vorcaro, tem sido recorrente uma comparação com Jair Bolsonaro: Flávio não teria o mesmo carisma do pai.

Portanto, carisma seria um aspecto importante na construção pública de uma identidade religiosa capaz de produzir reconhecimento.

Se a pergunta sobre a legitimidade da identidade evangélica nos parece pouco produtiva, o desafio está em compreender como essa identidade é construída publicamente e quais elementos permitem que ela seja reconhecida como legítima por outros evangélicos.

Sua trajetória religiosa pode ajudar a pensar essa questão.

Embora existam registros de que Flávio frequentava igrejas batistas desde a juventude, sua presença pública como evangélico ganha visibilidade apenas em 2016, quando participa, ao lado do pai, de um batismo no Rio Jordão. Mais do que um rito de ingresso em uma comunidade de fé, aquele episódio foi amplamente percebido como um gesto simbólico de aproximação entre Jair Bolsonaro e o universo evangélico em um momento decisivo de sua projeção política, na véspera de 2018.

O primeiro batismo realizado segundo os ritos de uma igreja local acontece apenas em 2024, quando Flávio e sua esposa, Fernanda Bolsonaro, são batizados na Comunidade das Nações, em Brasília – DF, fundada pelo Bispo JB Carvalho.

Em janeiro de 2026, já como pré-candidato à Presidência, e 10 anos após o primeiro batismo, ele retorna ao Rio Jordão para renovar o rito. Nas redes sociais, afirma que já era batizado, mas desejava renovar sua fé justamente no lugar onde, segundo a tradição cristã, Jesus foi batizado.

A viagem reúne um conjunto significativo de imagens. Além do Rio Jordão, Flávio aparece no Muro das Lamentações, usando quipá e realizando uma oração lida pelo celular. Cada um desses elementos comunica pertencimento religioso, mas também permite perguntar como determinadas performances produzem autenticidade pública.

Algo semelhante pode ser observado na centralidade dos símbolos judaicos. O Rio Jordão, o Muro das Lamentações e o uso do quipá dialogam com uma gramática religiosa amplamente difundida entre segmentos neopentecostais brasileiros, que atribuem especial valor espiritual à Terra Santa. Ao mesmo tempo, quando esses símbolos aparecem concentrados em viagens e cerimônias públicas, tornam-se parte de uma performance religiosa que busca produzir visibilidade e reconhecimento.

No último mês, a agenda de campanha de Flávio em eventos evangélicos tem se intensificado. Registros compartilhados em suas redes sociais mostram o investimento em associações de sua imagem como homem de fé, que compartilha repertórios de uma experiência comunitária em igrejas. No palco da Marcha pra Jesus, Flávio foi acompanhado pelo público ao entoar Hino da Vitória, canção que se tornou clássica no fim da década de 1990, gravada pela cantora Cassiane.

Dias depois, outro registro seu acompanhando animadamente a letra da mesma música durante culto de uma Assembleia de Deus em Belém (PA) passou a circular em diferentes perfis voltados a notícias do universo gospel. A repetição no curto espaço de tempo aponta para a construção pública de quem busca reconhecimento coletivo a partir de um dos elementos mais centrais ao imaginário evangélico: a música gospel. Repetir a letra, no entanto, aponta para as limitações de Flávio em mostrar domínio sobre o álbum completo.

A aposta de Flávio em driblar acusações de que seria um “falso evangélico” busca se concretizar através de uma inserção mais orgânica, em que se mistura repertórios mais diretamente religiosos, como a oração, os símbolos judaico-cristãos e a música gospel, com discursos sobre moral e família. Se, de um lado, suas falas públicas nesses eventos têm repetido jargões utilizados por políticos evangélicos da extrema-direita – como a ênfase na “batalha espiritual” para explicar a polarização com a esquerda –, por outro, os recorrentes esforços em pedir orações por Jair Bolsonaro e repetir frases de campanha do ex-presidente, como “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, vinculam sua imagem à do filho escolhido, herdeiro eleito para vingar injustiças feitas contra o pai.

Há, porém, um aspecto que atravessa toda essa trajetória. Ela nunca se afasta da figura de Jair Bolsonaro. O primeiro batismo acontece ao lado do pai. A renovação do batismo repete um gesto anteriormente realizado por ele. Nas redes sociais, Flávio escreve que “mais uma vez” segue seus passos. Em um culto recente, afirmou não ter dúvidas de que Jair Bolsonaro é “um escolhido de Deus” e que sua missão ainda não terminou.

Sua narrativa religiosa parece organizar-se menos em torno de um chamado próprio do que dar continuidade de uma missão herdada.

Essa construção dialoga com uma imagem profundamente presente nas tradições bíblicas: a do filho mais velho, responsável por preservar o legado da família. Mas as próprias narrativas bíblicas relativizam continuamente essa lógica. A herança pode ser transmitida; a eleição, não. O reconhecimento da vocação nunca decorre automaticamente da sucessão familiar. Talvez aí esteja um dos principais desafios de Flávio Bolsonaro.

Durante a ascensão política de Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro exerceu um papel decisivo como mediadora religiosa de sua candidatura. Sua trajetória de fé, sua linguagem de oração e sua imagem pública como mulher evangélica ofereceram inteligibilidade religiosa a uma liderança cuja identidade confessional sempre foi marcada por ambiguidades. Em muitos momentos, Michelle não apenas acompanhava Jair Bolsonaro; ela produzia mediações que tornavam sua candidatura reconhecível dentro do universo evangélico.

Flávio disputa esse mesmo espaço em condições bastante diferentes. Sua trajetória religiosa é mais recente, sua narrativa permanece fortemente ancorada na figura paterna e sua construção pública não conta com uma mediação equivalente.

O retrato de família pintado nessa pré-campanha do presidenciável permanece incompleto. Seus registros em eventos religiosos até agora não mostram a esposa ao seu lado. A imagem de Fernanda Bolsonaro como uma mulher discreta, com poucas aparições públicas ao lado do marido, contrasta com o comando familiar e autoridade religiosa adotados por Michelle durante as campanhas de Jair Bolsonaro. Sua presença nos púlpitos, em pregações solo para mulheres ou simplesmente acompanhando o marido, realçava o lugar destinado à esposa sábia e virtuosa, que edifica o lar ao servir à igreja.

Diante dessas e outras lacunas, o fortalecimento de uma identidade evangélica para Flávio – que, vale ressaltar, também não se vê compensado pelo apoio de Michelle – multiplicam-se batismos, viagens a Israel, cultos, participações em grandes eventos evangélicos e demonstrações públicas de fé.

Talvez estejamos observando, menos a consolidação de uma identidade religiosa, do que um esforço contínuo de produção pública de autenticidade. E essa autenticidade não pode ser decretada. Ela precisa ser reconhecida.

É justamente aí que reside um ponto frequentemente negligenciado no debate público sobre evangélicos e eleições. Ao contrário da imagem de um eleitorado passivo, conduzido exclusivamente por lideranças religiosas, os próprios evangélicos participam ativamente da produção da legitimidade política.

Essa mudança de foco devolve agência a um grupo frequentemente retratado no debate público como uma massa homogênea conduzida por suas lideranças. A construção da legitimidade religiosa não depende apenas da estratégia dos candidatos nem da chancela de pastores influentes. São eles que observam trajetórias, compartilham testemunhos, reconhecem coerências e incoerências, interpretam performances religiosas e atribuem – ou não – categorias como “chamado”, “testemunho” e “unção” às lideranças que disputam sua confiança.

Sob essa perspectiva, o desafio de Flávio Bolsonaro talvez não seja convencer os evangélicos de que professa a mesma fé. Há apenas quatro meses para as eleições, parece não haver tempo de produzir uma trajetória religiosa que seja reconhecida como portadora de autoridade própria. Afinal, heranças familiares podem ser transmitidas. Mas legitimidade religiosa, como tantas vezes mostram as próprias narrativas bíblicas, nunca é apenas herdada; ela precisa ser continuamente reconhecida por uma comunidade de fé.

•        Flávio pode esperar a PF com a casa bem arrumadinha. Por Moisés Mendes

Se a Polícia Federal batesse hoje na mansão e em outros endereços de Flávio Bolsonaro, em operação de busca e apreensão, poderia encontrar caixas vazias de chocolates da fantástica loja do senador no Rio. Não acharia mais nada, nem os chocolates da franquia. Só as caixas sem nada dentro.

Seria frustrante para os que perguntam, inclusive na grande imprensa golpista: por que Flávio não sofreu busca e apreensão, como Jaques Wagner e Ciro Nogueira, se confessou que mordia Daniel Vorcaro e admitiu ter recebido dinheiro do banqueiro?

Nesse cenário, a dúvida deixa de ser por que não fizeram busca na casa de Flávio e é trocada por uma interrogação que tem resposta previsível: o que seria achado hoje de relevante e comprometedor na mansão de R$ 6 milhões e em gabinetes de Flávio?

Sabe-se que, sem busca e apreensão, não existiriam os inquéritos do golpe. Nem julgamentos, nem a condenação de Bolsonaro como chefe da organização criminosa que envolvia generais incompetentes até como golpistas.

Mas a busca precisa acontecer na hora certa e ter a sorte de bater na casa de descuidados ou arrogantes, como é o caso de Vorcaro. Porque só a certeza da blindagem e da impunidade permitiu que oito celulares dele fossem apreendidos.

Quantos celulares Flávio tem em seu nome, se é que tem? Quantos celulares usa em nome de ajudantes? Quantos tem em casa? O que a PF encontraria hoje em celulares e computadores de Flávio, se ele sabe o que não deve fazer para ser flagrado com minutas, como aconteceu com seu pai e os cúmplices da extrema direita?

Mauro Cid foi flagrado porque, por ingenuidade, considerava-se protegido e inalcançável, pela proximidade com o chefão. Frederick Wassef, advogado de Bolsonaro, foi surpreendido pela PF num restaurante de Brasília, em agosto de 2023. Tinha quatro celulares.

Dias depois, debochou dos investigadores: nenhum daqueles aparelhos tinha informações que pudessem comprometê-lo. Os celulares que poderiam ter alguma coisa continuavam com ele. Acharam nos quatro celulares informações sobre venda e recompra das joias das Arábias de Bolsonaro. Mas o inquérito foi arquivado pela Procuradoria-Geral da República.

O véio da Havan teve dois celulares apreendidos, em duas operações, em 2020 e em 2022, e também avisou que a PF não encontraria nada contra ele. Como todos os outros, não forneceu as senhas e se transformou em caso único: os aparelhos são considerados impenetráveis e nunca foram devassados.

É um dos grandes mistérios das investigações que envolvem figuras acusadas de golpismo. Por que os peritos da PF não conseguiram entrar nos celulares do véio da Havan, que é investigado em três frentes? Ele está nos inquéritos das fake news, dos tios do zap que tramavam o golpe em 2022 e dos crimes da pandemia. Nenhum inquérito tem desfecho.

Sem a devassa em computadores e celulares, quase nada do que envolve a extrema direita seria destrinchado, em qualquer investigação, e não só na que pegou a quadrilha do golpe.

Esperar que uma operação de busca e apreensão contra Flávio dê resultado agora, com a casa arrumadinha para receber a PF, é torcer por um milagre. Flávio Bolsonaro escapou de todas as investigações e conseguiu anular no Supremo tudo o que foi feito pelo Ministério Público sobre as rachadinhas.

Bolsonaro e seus filhos estão impunes até hoje por crimes comuns dos quais foram ou ainda são acusados. O pai está preso em casa por causa do golpe fracassado. Eduardo foi condenado porque ameaçou o Supremo. Mas não há nenhuma condenação da família por participação em crimes com dinheiro.

Pedir busca e apreensão agora é oferecer ao filho ungido a chance de dizer que não acharam nada. O que resta é esperar que mais provas apareçam nos celulares dos outros, como a maior de todas as provas até agora — aquela do áudio em que Flávio morde Vorcaro e pede mais dinheiro para o filme do pai.

A prova da mordida estava no celular de Vorcaro. Mas sabemos o que andam dizendo, com a ajuda de juristas: que Flávio queria financiar uma obra cultural e que não há indício de que o dinheiro seja propina, como nos casos de Jaques Wagner e Ciro Nogueira. O que seria de nós sem os juristas que explicam tudo.

 

Fonte: Por Andréa Laís  e Lorena Mochel da Casa Galileia/Brasil 247

 

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