sexta-feira, 26 de junho de 2026

Seria o trabalhador brasileiro “improdutivo”?

Ao se discutir o Fim da Escala 6×1 e a Redução da Jornada de Trabalho muitos aspectos têm que ser levados em conta: o equilíbrio entre vida familiar e laboral, a Vida Além do Trabalho, as questões da saúde física e mental, a ecologia, as questões raciais e de gênero, etc. Todos esses aspectos são mais importantes que os fatores econômicos. No entanto, no debate público têm peso os argumentos sobre a produtividade do trabalho. No que tange aos aspectos econômicos essa é a questão fulcral. Porque podemos afirmar, com suporte de todas as teorias econômicas, que em havendo crescimento de produtividade do trabalho ela pode ser repassada para os trabalhadores em forma de crescimento salarial ou redução da jornada, sem que essa distribuição gere algum tipo de dificuldade às empresas ou à economia do país, como recessão, desemprego ou inflação.

<><> Baixa produtividade do trabalho

Muito se fala que o trabalhador brasileiro tem baixa produtividade. É falso, e justamente por isso esse texto propõe uma distinção essencial entre o conceito tradicional de produtividade do trabalho e um novo conceito, o de produtividade do trabalhador. Vamos começar a discussão por uma afirmação parecida, mas muito diferente: de que a produtividade do trabalho no Brasil é baixa. Perceberam a diferença? Quem sustenta que a produtividade do trabalhador é baixa joga toda a culpa do reduzido desempenho no trabalhador. Ao dizer que a produtividade do trabalho é baixa tira-se o foco do trabalhador e joga-se luz para todos os aspectos que envolvem o processo produtivo, inclusive para a gestão empresarial.

A produtividade do trabalho normalmente é medida pelo Produto Interno Bruto (PIB) dividido pelo número de ocupados, ou ainda pelo número de horas trabalhadas. Portanto, pode-se perceber que quando medimos a produtividade do trabalho de toda a nação, utilizando o PIB como sendo um dos valores outros fatores são mais importantes que a mão de obra, para que o crescimento ocorra. Destaco quatro deles: infraestrutura do país, desenvolvimento tecnológico, cultura empresarial e mão de obra.

Quando falamos de infraestrutura estamos nos referindo a estradas, ferrovias, portos, aeroportos, armazéns, energia, escolas, universidade, instituições de pesquisa e sistema financeiro − o que Michael Porter (1993) chamaria de fatores competitivos de uma nação. Quando a referência é o desenvolvimento tecnológico estamos nos referindo a quantidade e qualidade da tecnologia que participa do processo produtivo: conexões 6G, softwares, robôs, IAs, sistemas ciber-físicos, etc. Analisando apenas esses dois aspectos, já dá para perceber porque a produtividade do trabalho no Brasil é baixa. Mas o terceiro aspecto, que é muito pouco falado, também tem peso significativo, a cultura empresarial. Nela destacamos a alta rotatividade do trabalho, invariavelmente para baixar “custos”, e a falta de treinamento fornecido pelas empresas. Mas além desses dois aspectos que são mensuráveis e, portanto, não abrem espaço para maiores discussões, podemos destacar também a gestão do negócio e sua opção recorrente de concorrer preferencialmente pela redução dos custos e não pelo aumento de produtividade e qualidade dos produtos e serviços, a gestão da mão de obra com seus baixos salários e péssimas condições de trabalho, as técnicas organizacionais e a (in) eficiência dos gastos dos recursos das empresas.

Quando chegamos para falar do quarto aspecto, já podemos perceber que o menos culpado pela baixa produtividade do trabalho no Brasil é o trabalhador. Podemos ir além e dizer que ele é a vítima das condições de trabalho. Porque a sua parte ele está fazendo – basta ver o aumento do nível de escolaridade da sociedade brasileira, e particularmente dos trabalhadores, nos últimos quarenta anos. No entanto a cultura empresarial, ao invés de ter o trabalhador como parceiro prefere maltratá-lo, tê-lo como terceirizado, intermitente, estagiário, autônomo exclusivo, parcial, temporário, por tempo determinado e agora plataformizado. É evidente que esse empregador, que gere a sua mão de obra de forma a evitar que ela tenha um vínculo sólido com a empresa, não valoriza o trabalhador e não vai investir nele.

<><> A alta produtividade do trabalhador brasileiro

Iniciei o artigo propondo diferenciar os conceitos de produtividade do trabalho e produtividade do trabalhador. Vimos como se mede a produtividade do trabalho: divide-se o PIB pelo número de ocupados ou de horas trabalhadas. Sabemos que na formação do PIB a infraestrutura bem como a utilização de tecnologias e a gestão do negócio são importantes. Como podemos medir a produtividade do trabalhador sem que ele tenha que carregar o peso de todas as mazelas do país? Proponho como forma de isolar a variável trabalho que meçamos a produtividade do trabalhador pela divisão do valor do que é produzido em uma hora trabalhada pelo custo do trabalho por hora. Ou dizendo de outra forma, vamos ver quanto cada dólar pago para o trabalhador é transformado em dólar de produto final.

Sob essa nova perspectiva o cenário muda completamente. O trabalhador brasileiro só perde em termos de produtividade, e por muito pouco, para o peruano, e ganha com folga de todos os demais países selecionados. Logo, sob essa perspectiva podemos afirmar que a produtividade do trabalhador brasileiro é alta, ou melhor, que é muito alta.

Feita essa comparação estática vamos ver como evoluiu a produtividade do trabalho no Brasil. Vamos aos números: a última pesquisa da FGV-OPRB (Bonelli, 2026) indica que a produtividade do trabalho no Brasil cresceu 34,2% desde a última redução da jornada de trabalho em 1988, até 2025. Estudo meu em parceria com Eduarda Muller (Muller e Calvete, 2026) aponta um crescimento de 12% nos últimos 12 anos. Isso é pouco? Isso é muito? Com certeza não é uma evolução maravilhosa, mas tampouco podemos dizer que é um desastre. Num cálculo grosseiro, temos um crescimento médio de 1% ao ano. Pode ser bom, principalmente quando levamos em conta o motivo da discussão atual. Os empresários dizem que com a redução da jornada de Trabalho de 44 para 40 horas semanais o custo da produção pode aumentar em até 10%. É um limite superior hipotético — sabemos todos que não vai acontecer. Mas, e se acontecesse? Ao olharmos para trás vemos que nos últimos dez anos a produtividade do trabalho cresceu esses 10%. Logo, o setor empresarial terá condições de absorver esse aumento de custo.

Porque não vai acontecer um aumento de custo da mão de obra em 10%? Porque para isso os empresários terão que contratar novos trabalhadores na exata medida da redução da jornada de trabalho, ou seja 10%. Nas experiências reais de redução da jornada de trabalho isso não aconteceu, e não irá se dar agora. O primeiro ponto a se destacar é que em muitos casos já existem nas empresas trabalhadores com jornadas inferiores às 44 horas semanais, portanto a redução da jornada de trabalho não se aplicaria a todo pessoal. O segundo aspecto é que alguns efeitos da redução da jornada de trabalho já atuariam como fatores compensadores, como o aumento da produtividade do trabalhador e a diminuição do absenteísmo. O terceiro fator é a própria busca das empresas por outras formas de compensar a redução da jornada sem que seja necessária a contratação de novos trabalhadores, como a intensificação do ritmo de trabalho, o ajuste na gestão da mão de obra, a substituição de mão de obra por capital, a contratação parcial de trabalhadores e o aumento de horas extras esporadicamente. Por fim, ainda como opções para a não contratação, a redução da produção e a redução da margem de lucro. Portanto, podemos supor que o aumento do custo da mão de obra ficará abaixo dos 10%. Quem sabe algo em torno de 5%?

<><> Considerações finais

Sob a perspectiva tradicional, a produtividade do trabalho norte-americana é de U$ 81,30 e a nossa é de U$ 21,20, portanto baixa. No entanto, sob a nova perspectiva proposta, o cenário muda completamente. Para cada dólar gasto com o trabalhador brasileiro ele devolve U$ 3,41 e para cada dólar gasto com o trabalhador norte-americano ele devolve US$ 1,89. Logo, sob essa perspectiva podemos afirmar que a produtividade do trabalhador brasileiro é alta, ou melhor, é muito alta.

Para encerrar esse pequeno artigo, pergunto: Onde reside o problema para a redução da jornada de trabalho no Brasil? Não podemos dizer que é na baixa produtividade do trabalhador brasileiro, ela é muito boa. Não podemos dizer que o crescimento da produtividade do trabalho no Brasil é pequeno, ele é bom sim. Onde está o problema?

•        Alcolumbre e patrões querem excluir 70% trabalhadores do Brasil do fim da 6X1

A proposta da PEC do Senado, de autoria do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de campanha de Flávio Bolsonaro, foi feita sob medida para os empresários. E não demorou muito para que isso se tornasse público. Na semana passada, 3.000 patrões publicaram uma carta assinada por eles na qual eles defendem a PEC de Marinho.

Isso porque essa PEC prevê uma série de exceções para o fim da escala 6x1, a maior delas é a que retira da proposta todos os trabalhadores do setor de serviços. Segundo dados da PNAD/Contínua, 70% da força de trabalho empregada hoje no Brasil está no setor de serviços. São inclusive os setores que mais exercem algum tipo de contrato de trabalho na 6x1, como nos hotéis, restaurantes, telemarketing, vendedor de shopping e tantos outros. São trabalhadores em geral mais jovens, os que mais têm ódio da escala 6x1 e querem ter uma vida além do trabalho.

Como se não bastasse, a PEC dos bolsonaristas e do Davi Alcolumbre propõe um retrocesso ainda maior que a escala 6x1. Essa PEC está sendo chamada de “PEC do trabalho flexível”, porque propõe a liberação de jornadas sem jornada de trabalho fixa, podendo ser estabelecida a partir do acordo entre patrão e empregado. Embora no texto da proposta essa flexibilização se restrinja aos limites da CLT (portanto prevê uma carga horária máxima), na prática o texto irá permitir a escala 7x0.

O trabalhador passará a receber por hora trabalhada, o que abre caminho para que os patrões burlem (como sempre fazem) os limites da CLT para estender a jornada e explorar muito mais, ou diminuir em momento de dificuldade para preservar seus lucros pagando salários mais baixos. Uma proposta que se apoia e aprofunda a reforma trabalhista do Temer de 2017, que não à toa teve como autor, na época, o mesmo bolsonarista Rogério Marinho que agora elaborou essa PEC.

Enquanto Alcolumbre costura esse ataque com os patrões, boicotando qualquer votação do fim da escala 6x1, condicionando a votação à inclusão de partes da PEC do “trabalho flexível” à PEC aprovada na Câmara, o governo Lula negocia por trás dos bastidores os nossos direitos. Semana passada, o governo retirou o pedido de urgência do PL 1838/2026, um outro projeto que tratava do fim da escala 6x1 na Câmara, dando tempo para o Senado, o Centrão e o empresariado avançarem com a PEC do “trabalho flexível”.

A cada dia fica mais claro que confiar nas negociações institucionais é um erro que custa caro aos trabalhadores. Alcolumbre, que foi apoiado pelo governo para comandar o Senado, agora atua como fiador dos interesses patronais. O mesmo Senado que governa para os banqueiros, militares, latifundiários e empresários não passa de uma instituição reacionária, que sequer deveria existir, pois serve apenas como uma revisora de qualquer medida que possa beneficiar minimamente a classe trabalhadora.

Cada dia sem que se efetive um chamado a uma greve geral que pare o país pelo fim da 6x1, mais chances temos de que essa pauta seja derrotada pela direita, pelos empresários e pela estratégia de negociações institucionais do governo. As burocracias sindicais da CUT e do CTB precisam romper com a sua paralisia cúmplice dos acordos do Lula e convocarem urgentemente essa greve geral. São várias categorias do país que estão entrando em greve por essa proposta, como os rodoviários de Manaus, do Rio de Janeiro, os garis de João Pessoa, que inclusive conquistaram o fim da 6x1 antes da greve começar. É esse caminho a ser seguido e que Erika Hilton e o PSOL ignoram quando seguem apostando nas negociações no Congresso.

O chamado do VAT a greve geral pelo 6x1 precisa se efetivar em cada local de trabalho e estudo, pressionando as centrais sindicais, seu chamado não pode se limitar a pressionar essas instituições reacionárias. O próximo dia 30 de junho precisa ser um dia de grande mobilização que sirva como ponta pé para fazer com que a greve geral seja convocada, se inspirando na enorme força da luta dos bolivianos contra Rodrigo Paz e seus ataques pró-imperialistas e pró-patronais.

 

Fonte: Por Cássio da Silva Calvete, em Outras Palavras/Esquerda Diário

 

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