Seria
o trabalhador brasileiro “improdutivo”?
Ao se
discutir o Fim da Escala 6×1 e a Redução da Jornada de Trabalho muitos aspectos
têm que ser levados em conta: o equilíbrio entre vida familiar e laboral, a
Vida Além do Trabalho, as questões da saúde física e mental, a ecologia, as
questões raciais e de gênero, etc. Todos esses aspectos são mais importantes
que os fatores econômicos. No entanto, no debate público têm peso os argumentos
sobre a produtividade do trabalho. No que tange aos aspectos econômicos essa é
a questão fulcral. Porque podemos afirmar, com suporte de todas as teorias
econômicas, que em havendo crescimento de produtividade do trabalho ela pode
ser repassada para os trabalhadores em forma de crescimento salarial ou redução
da jornada, sem que essa distribuição gere algum tipo de dificuldade às
empresas ou à economia do país, como recessão, desemprego ou inflação.
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Baixa produtividade do trabalho
Muito
se fala que o trabalhador brasileiro tem baixa produtividade. É falso, e
justamente por isso esse texto propõe uma distinção essencial entre o conceito
tradicional de produtividade do trabalho e um novo conceito, o de produtividade
do trabalhador. Vamos começar a discussão por uma afirmação parecida, mas muito
diferente: de que a produtividade do trabalho no Brasil é baixa. Perceberam a
diferença? Quem sustenta que a produtividade do trabalhador é baixa joga toda a
culpa do reduzido desempenho no trabalhador. Ao dizer que a produtividade do
trabalho é baixa tira-se o foco do trabalhador e joga-se luz para todos os
aspectos que envolvem o processo produtivo, inclusive para a gestão
empresarial.
A
produtividade do trabalho normalmente é medida pelo Produto Interno Bruto (PIB)
dividido pelo número de ocupados, ou ainda pelo número de horas trabalhadas.
Portanto, pode-se perceber que quando medimos a produtividade do trabalho de
toda a nação, utilizando o PIB como sendo um dos valores outros fatores são
mais importantes que a mão de obra, para que o crescimento ocorra. Destaco
quatro deles: infraestrutura do país, desenvolvimento tecnológico, cultura
empresarial e mão de obra.
Quando
falamos de infraestrutura estamos nos referindo a estradas, ferrovias, portos,
aeroportos, armazéns, energia, escolas, universidade, instituições de pesquisa
e sistema financeiro − o que Michael Porter (1993) chamaria de fatores
competitivos de uma nação. Quando a referência é o desenvolvimento tecnológico
estamos nos referindo a quantidade e qualidade da tecnologia que participa do
processo produtivo: conexões 6G, softwares, robôs, IAs, sistemas ciber-físicos,
etc. Analisando apenas esses dois aspectos, já dá para perceber porque a
produtividade do trabalho no Brasil é baixa. Mas o terceiro aspecto, que é
muito pouco falado, também tem peso significativo, a cultura empresarial. Nela
destacamos a alta rotatividade do trabalho, invariavelmente para baixar
“custos”, e a falta de treinamento fornecido pelas empresas. Mas além desses
dois aspectos que são mensuráveis e, portanto, não abrem espaço para maiores
discussões, podemos destacar também a gestão do negócio e sua opção recorrente
de concorrer preferencialmente pela redução dos custos e não pelo aumento de
produtividade e qualidade dos produtos e serviços, a gestão da mão de obra com
seus baixos salários e péssimas condições de trabalho, as técnicas
organizacionais e a (in) eficiência dos gastos dos recursos das empresas.
Quando
chegamos para falar do quarto aspecto, já podemos perceber que o menos culpado
pela baixa produtividade do trabalho no Brasil é o trabalhador. Podemos ir além
e dizer que ele é a vítima das condições de trabalho. Porque a sua parte ele
está fazendo – basta ver o aumento do nível de escolaridade da sociedade
brasileira, e particularmente dos trabalhadores, nos últimos quarenta anos. No
entanto a cultura empresarial, ao invés de ter o trabalhador como parceiro
prefere maltratá-lo, tê-lo como terceirizado, intermitente, estagiário,
autônomo exclusivo, parcial, temporário, por tempo determinado e agora
plataformizado. É evidente que esse empregador, que gere a sua mão de obra de
forma a evitar que ela tenha um vínculo sólido com a empresa, não valoriza o
trabalhador e não vai investir nele.
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A alta produtividade do trabalhador brasileiro
Iniciei
o artigo propondo diferenciar os conceitos de produtividade do trabalho e
produtividade do trabalhador. Vimos como se mede a produtividade do trabalho:
divide-se o PIB pelo número de ocupados ou de horas trabalhadas. Sabemos que na
formação do PIB a infraestrutura bem como a utilização de tecnologias e a
gestão do negócio são importantes. Como podemos medir a produtividade do
trabalhador sem que ele tenha que carregar o peso de todas as mazelas do país?
Proponho como forma de isolar a variável trabalho que meçamos a produtividade
do trabalhador pela divisão do valor do que é produzido em uma hora trabalhada
pelo custo do trabalho por hora. Ou dizendo de outra forma, vamos ver quanto
cada dólar pago para o trabalhador é transformado em dólar de produto final.
Sob
essa nova perspectiva o cenário muda completamente. O trabalhador brasileiro só
perde em termos de produtividade, e por muito pouco, para o peruano, e ganha
com folga de todos os demais países selecionados. Logo, sob essa perspectiva
podemos afirmar que a produtividade do trabalhador brasileiro é alta, ou
melhor, que é muito alta.
Feita
essa comparação estática vamos ver como evoluiu a produtividade do trabalho no
Brasil. Vamos aos números: a última pesquisa da FGV-OPRB (Bonelli, 2026) indica
que a produtividade do trabalho no Brasil cresceu 34,2% desde a última redução
da jornada de trabalho em 1988, até 2025. Estudo meu em parceria com Eduarda
Muller (Muller e Calvete, 2026) aponta um crescimento de 12% nos últimos 12
anos. Isso é pouco? Isso é muito? Com certeza não é uma evolução maravilhosa,
mas tampouco podemos dizer que é um desastre. Num cálculo grosseiro, temos um
crescimento médio de 1% ao ano. Pode ser bom, principalmente quando levamos em
conta o motivo da discussão atual. Os empresários dizem que com a redução da
jornada de Trabalho de 44 para 40 horas semanais o custo da produção pode
aumentar em até 10%. É um limite superior hipotético — sabemos todos que não
vai acontecer. Mas, e se acontecesse? Ao olharmos para trás vemos que nos
últimos dez anos a produtividade do trabalho cresceu esses 10%. Logo, o setor
empresarial terá condições de absorver esse aumento de custo.
Porque
não vai acontecer um aumento de custo da mão de obra em 10%? Porque para isso
os empresários terão que contratar novos trabalhadores na exata medida da
redução da jornada de trabalho, ou seja 10%. Nas experiências reais de redução
da jornada de trabalho isso não aconteceu, e não irá se dar agora. O primeiro
ponto a se destacar é que em muitos casos já existem nas empresas trabalhadores
com jornadas inferiores às 44 horas semanais, portanto a redução da jornada de
trabalho não se aplicaria a todo pessoal. O segundo aspecto é que alguns
efeitos da redução da jornada de trabalho já atuariam como fatores
compensadores, como o aumento da produtividade do trabalhador e a diminuição do
absenteísmo. O terceiro fator é a própria busca das empresas por outras formas
de compensar a redução da jornada sem que seja necessária a contratação de
novos trabalhadores, como a intensificação do ritmo de trabalho, o ajuste na
gestão da mão de obra, a substituição de mão de obra por capital, a contratação
parcial de trabalhadores e o aumento de horas extras esporadicamente. Por fim,
ainda como opções para a não contratação, a redução da produção e a redução da
margem de lucro. Portanto, podemos supor que o aumento do custo da mão de obra
ficará abaixo dos 10%. Quem sabe algo em torno de 5%?
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Considerações finais
Sob a
perspectiva tradicional, a produtividade do trabalho norte-americana é de U$
81,30 e a nossa é de U$ 21,20, portanto baixa. No entanto, sob a nova
perspectiva proposta, o cenário muda completamente. Para cada dólar gasto com o
trabalhador brasileiro ele devolve U$ 3,41 e para cada dólar gasto com o
trabalhador norte-americano ele devolve US$ 1,89. Logo, sob essa perspectiva
podemos afirmar que a produtividade do trabalhador brasileiro é alta, ou
melhor, é muito alta.
Para
encerrar esse pequeno artigo, pergunto: Onde reside o problema para a redução
da jornada de trabalho no Brasil? Não podemos dizer que é na baixa
produtividade do trabalhador brasileiro, ela é muito boa. Não podemos dizer que
o crescimento da produtividade do trabalho no Brasil é pequeno, ele é bom sim.
Onde está o problema?
• Alcolumbre e patrões querem excluir 70%
trabalhadores do Brasil do fim da 6X1
A
proposta da PEC do Senado, de autoria do senador Rogério Marinho (PL-RN),
coordenador de campanha de Flávio Bolsonaro, foi feita sob medida para os
empresários. E não demorou muito para que isso se tornasse público. Na semana
passada, 3.000 patrões publicaram uma carta assinada por eles na qual eles
defendem a PEC de Marinho.
Isso
porque essa PEC prevê uma série de exceções para o fim da escala 6x1, a maior
delas é a que retira da proposta todos os trabalhadores do setor de serviços.
Segundo dados da PNAD/Contínua, 70% da força de trabalho empregada hoje no
Brasil está no setor de serviços. São inclusive os setores que mais exercem
algum tipo de contrato de trabalho na 6x1, como nos hotéis, restaurantes,
telemarketing, vendedor de shopping e tantos outros. São trabalhadores em geral
mais jovens, os que mais têm ódio da escala 6x1 e querem ter uma vida além do
trabalho.
Como se
não bastasse, a PEC dos bolsonaristas e do Davi Alcolumbre propõe um retrocesso
ainda maior que a escala 6x1. Essa PEC está sendo chamada de “PEC do trabalho
flexível”, porque propõe a liberação de jornadas sem jornada de trabalho fixa,
podendo ser estabelecida a partir do acordo entre patrão e empregado. Embora no
texto da proposta essa flexibilização se restrinja aos limites da CLT (portanto
prevê uma carga horária máxima), na prática o texto irá permitir a escala 7x0.
O
trabalhador passará a receber por hora trabalhada, o que abre caminho para que
os patrões burlem (como sempre fazem) os limites da CLT para estender a jornada
e explorar muito mais, ou diminuir em momento de dificuldade para preservar
seus lucros pagando salários mais baixos. Uma proposta que se apoia e aprofunda
a reforma trabalhista do Temer de 2017, que não à toa teve como autor, na
época, o mesmo bolsonarista Rogério Marinho que agora elaborou essa PEC.
Enquanto
Alcolumbre costura esse ataque com os patrões, boicotando qualquer votação do
fim da escala 6x1, condicionando a votação à inclusão de partes da PEC do
“trabalho flexível” à PEC aprovada na Câmara, o governo Lula negocia por trás
dos bastidores os nossos direitos. Semana passada, o governo retirou o pedido
de urgência do PL 1838/2026, um outro projeto que tratava do fim da escala 6x1
na Câmara, dando tempo para o Senado, o Centrão e o empresariado avançarem com
a PEC do “trabalho flexível”.
A cada
dia fica mais claro que confiar nas negociações institucionais é um erro que
custa caro aos trabalhadores. Alcolumbre, que foi apoiado pelo governo para
comandar o Senado, agora atua como fiador dos interesses patronais. O mesmo
Senado que governa para os banqueiros, militares, latifundiários e empresários
não passa de uma instituição reacionária, que sequer deveria existir, pois
serve apenas como uma revisora de qualquer medida que possa beneficiar
minimamente a classe trabalhadora.
Cada
dia sem que se efetive um chamado a uma greve geral que pare o país pelo fim da
6x1, mais chances temos de que essa pauta seja derrotada pela direita, pelos
empresários e pela estratégia de negociações institucionais do governo. As
burocracias sindicais da CUT e do CTB precisam romper com a sua paralisia
cúmplice dos acordos do Lula e convocarem urgentemente essa greve geral. São
várias categorias do país que estão entrando em greve por essa proposta, como
os rodoviários de Manaus, do Rio de Janeiro, os garis de João Pessoa, que
inclusive conquistaram o fim da 6x1 antes da greve começar. É esse caminho a
ser seguido e que Erika Hilton e o PSOL ignoram quando seguem apostando nas
negociações no Congresso.
O
chamado do VAT a greve geral pelo 6x1 precisa se efetivar em cada local de
trabalho e estudo, pressionando as centrais sindicais, seu chamado não pode se
limitar a pressionar essas instituições reacionárias. O próximo dia 30 de junho
precisa ser um dia de grande mobilização que sirva como ponta pé para fazer com
que a greve geral seja convocada, se inspirando na enorme força da luta dos
bolivianos contra Rodrigo Paz e seus ataques pró-imperialistas e pró-patronais.
Fonte:
Por Cássio da Silva Calvete, em Outras Palavras/Esquerda Diário

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