A
obra que trouxe à tona o cemitério do maior porto da escravidão brasileiro
Chegar
ao momento de finalmente cavar o chão de onde morava foi uma vitória para
Merced e Petrucio Guimarães dos Anjos: 8 de janeiro de 1996 foi o primeiro dia
da obra tão sonhada pelos dois.
Os
pedreiros abriram buracos para as colunas que dariam um segundo andar à casa da
família, que deveria ter bastante espaço para as três filhas pequenas do casal
poderem correr e brincar.
Mas, na
hora do almoço, um deles, seu José, sentou-se ao lado de Merced, intrigado com
o que tinha visto.
"Nas
escavações dos buracos, encontramos muitos ossos de cachorro... Acho que os
antigos proprietários enterravam ossos no quintal!", ele contou a Merced,
como ela relembra à BBC News Brasil.
Aquela
tarde acabaria mudando a vida dela para sempre e descortinando um processo de
transformação na região portuária do Rio de Janeiro.
Foi a
primeira casa própria da família, que antes morava de aluguel. Depois de
conseguir fazer a compra, se mudaram para lá e ficaram mais seis anos juntando
dinheiro, até finalmente terem economizado para uma reforma muito necessária.
O
imóvel, no bairro da Gamboa, datava de 1866, quando a ocupação residencial da
região portuária se estabeleceu. Merced achou estranha aquela história dos
ossos e pediu para ver.
"Fui
lá, mexi nos entulhos e encontrei uma arcada dentária de um adulto. Falei, 'Seu
José, isso não é de cachorro, é de gente! Olha só. É igualzinha à nossa.' Ele
fez o sinal da cruz", lembra ela.
"Aí
tinha uma arcada dentária pequenininha. Eu falei: 'Seu José, isso aqui é de uma
criança'. Aí, ele começou a chorar. Todo mundo ficou ali parado, olhando. Fui
botando os ossos em um cantinho, depois separando em caixas. Tinha muito osso
quebrado."
Seguiu-se
uma sessão de especulação. "Pensamos mil coisas. 'Os antigos donos da casa
mataram pessoas e enterraram aqui!' Ou então, 'Não, é um serial killer
[assassino em série]!'"
No
mesmo dia, Merced chamou um vizinho entendido na história da região portuária.
Ele chegou à sua casa com um livro antigo. Um mapa indicava o caminho para um
cemitério próximo aos mercados onde se vendiam pessoas escravizadas.
"Ele
falou: 'Você mora em cima de um cemitério. Você acaba de descobrir o cemitério
dos escravizados'", lembra Merced.
"Eu
falei, 'Caraca. O que eu faço com isso?'."
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'Essa história era escondida'
O dia
marcou a redescoberta do Cemitério dos Pretos Novos, que funcionou entre
aproximadamente 1770 e 1830, e onde Merced estima que 40 mil pessoas tenham
sido enterradas.
Sabia-se
da existência do cemitério por registros históricos. Mas o local exato havia se
perdido, apagado sob a cidade em expansão.
A
expressão "pretos novos" era usada para designar os cativos
recém-desembarcados no Brasil, que ainda não falavam português.
"Hoje,
digo que encontrei aqui um holocausto. O holocausto negro", diz Merced,
com os olhos marejando ao lembrar do impacto de ver as ossadas sob a própria
casa, inclusive arcadas dentárias miúdas com botõezinhos de dentes permanentes
ainda nascendo.
"A
gente não tinha ideia dessa história", lembra Merced, que mora na região
portuária desde menina.
"Ninguém
comentava que aqui havia sido um entreposto de venda de pessoas para a
escravidão. Essa história era escondida."
Em
2011, a descoberta do Cais do Valongo durante as obras do Porto Maravilha, como
ficou conhecida a remodelação da região para os Jogos Olímpicos, lançou
holofotes na conexão da região portuária do Rio de Janeiro com o passado da
escravidão no Brasil.
Em
1774, o vice-rei Marquês do Lavradio transferiu o desembarque dos escravizados
da rua Direita, a atual Primeiro de Março, para a região da praia do Valongo,
que ficava fora dos limites da cidade — afastando do centro uma atividade vista
como "incômoda" e "anti-higiênica" pelas elites.
Estima-se
que 1 milhão de pessoas escravizadas tenham aportado no Valongo até sua
desativação, em 1831.
O Rio
foi a cidade que mais recebeu pessoas escravizadas no Brasil — e cerca de 300
mil morreram antes mesmo de chegar, de acordo com pesquisa recente da Emory
University, nos Estados Unidos.
Em
2017, a Unesco, braço das Nações Unidas para educação, ciência e cultura,
reconheceu o Cais do Valongo como Patrimônio Mundial, ajudando a criar um
chamariz para visitas guiadas que hoje movimentam a região, ensinando sobre a
história e promovendo a memória desse passado.
Mas não
havia nada disso quando a família Guimarães dos Anjos decidiu reformar sua
casa, 15 anos antes da redescoberta do Valongo.
Eram os
anos 1990, e o viaduto da Perimetral seguia intacto, lançando sua pesada sombra
sobre a região portuária.
Fora da
academia, não se falava da região como porta de chegada de africanos
escravizados ou dos mercados em que eram vendidos nos arredores.
Ainda
assim, Merced sabia estar diante de um incontornável "tesouro
histórico", uma relíquia material dos horrores da escravidão.
Aos
poucos, começou a abrir sua casa para visitas em datas pontuais, como os dias
da Consciência Negra e da Abolição, e na comemoração do aniversário do achado.
"Foi difícil. Porque quem ia querer conhecer um cemitério?"
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'Valas onde corpos eram jogados'
As
visitas foram se avolumando, assim como o incentivo de amigos do movimento
negro para criar uma instituição e poder lutar pelo local.
Faz 21
anos que a família e ativistas fundaram o Instituto de Pesquisa e Memória
Pretos Novos (IPN), em 13 de maio de 2005, no dia da Abolição.
O que
seria a garagem da casa foi convertida em um memorial com uma exposição
permanente.
No
quintal, que teria árvores e uma sonhada piscina, funcionam um café, uma loja e
uma biblioteca especializada na história do tráfico atlântico, da escravização
e da diáspora negra.
A
missão do IPN é "pesquisar, estudar, investigar e preservar o patrimônio
material e imaterial africano e afro-brasileiro" e promover atividades
educativas para promover "reflexão sobre a escravidão e suas sequelas para
os princípios de igualdade racial no Brasil".
Merced,
que hoje tem 69 anos, está lá "todos os dias, todas as horas". Passou
a dedicar a vida ao instituto, desde seu primeiro encontro "com as pessoas
que vieram de África".
O
Brasil, último país do Ocidente a abolir a escravidão, foi o maior destino de
escravizados nas Américas, tendo recebido cerca de 4,8 milhões de africanos ao
longo de mais de três séculos.
"De
alguma forma, elas me pediram para que não deixasse que fossem
esquecidas", diz Merced.
O casal
ainda mora na casa de 1866, parede com parede com o espaço aberto ao público.
"Quando você quebra o chão da minha casa, debaixo do contrapiso você já
acha osso, à flor da terra", conta Merced.
Até o
ano passado, o IPN recebeu cerca de 300 mil visitantes — isso sem contar as
pessoas que participam das caminhadas educativas que promove na região, no
Circuito de Herança Africana.
No
principal espaço expositivo, painéis, dados e imagens trazem informações sobre
o tráfico atlântico e sobre o Cemitério dos Pretos Novos.
Uma
janela de vidro no chão revela o sítio arqueológico abaixo, uma terra vermelha
marmoreada, entremeada por incontáveis pedaços de ossos. Falar em
"cemitério" ou em "enterro" denota um respeito que não
havia ali.
"Eram
valas onde os corpos eram jogados de qualquer jeito. Por causa do mau cheiro,
fazia-se uma queima desses corpos. As valas eram tão cheias que os corpos
embaixo eram quebrados, cobertos por outros restos mortais", descreve
Merced.
O
cemitério era o destino dos que morriam após a terrível travessia atlântica,
contraindo doenças como varíola e disenteria; ou sucumbiam nos armazéns nos
arredores do Valongo, onde os cativos recém-chegados eram expostos para venda.
Merced
ressalta que não se tratava de um cemitério clandestino. Os óbitos eram
registrados pela Igreja Católica, e o IPN conseguiu obter 12 anos de registros
que restam intactos.
"O
cemitério fica debaixo de quatro casas. Um lugar que tem mais ou menos 40 mil
pessoas. Um lugar onde estão bebês, crianças, jovens, mulheres, inclusive
mulheres grávidas. Pessoas que eram de Moçambique, do Congo, de Angola e
algumas da Costa do Marfim", relata Merced.
A
maioria dos mortos foi listada de forma anônima, registrando-se apenas a data
de morte, os navios em que chegaram e de onde eram trazidos. Quando havia um
nome, muitas vezes era o do "senhor" a quem o cativo se destinava.
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'Um lugar singular'
Os 21
anos do IPN foram marcados pela abertura de uma extensão para o instituto.
O
Centro Cultural Pretos Novos, na vizinha rua do Livramento, será destinado a
saraus, rodas de samba, exposições de arte, oficinas, lançamentos de livros,
clube de leitura para crianças em visitas escolares. São atividades que o IPN
já promove, mas tinha pouco espaço para receber.
Merced
diz que a inauguração foi feita "no amor" e com muito suor, como tem
sido desde o início da história do instituto.
"O
imóvel estava muito ruinzinho, mas conseguimos reformar com ajuda de amigos.
Cada um dava uma coisa, a tinta, a mão de obra, a parte elétrica... Fizemos uma
maquiagem, mas ficou bonita!"
Ela
agora busca recursos para reformar o segundo andar do imóvel, que tem uma área
ainda maior. "Estamos 'na pista' pedindo a ajuda de todos", diz.
Merced
ficou esperançosa após conversas recentes com o Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico (BNDES), que mostrou interesse em investir no novo
centro cultural.
Desde
2023, quando lançou a chamada Iniciativa Valongo, o banco vem investindo na
Pequena África e no entorno do Cais do Valongo.
O BNDES
diz que está "em tratativas" com o IPN para formalizar uma parceria
para o novo centro cultural, "com projeto conceitual em elaboração".
As
conversas se dão no âmbito da elaboração do Distrito Cultural Pequena África,
um plano estratégico de requalificação urbana que busca "valorizar a
memória e a cultura afro-brasileiras, enquanto impulsiona o desenvolvimento por
meio do turismo, da economia criativa e da melhoria da infraestrutura".
Merced
sonha em ter apoios permanentes para o instituto, que lhe permitam dormir sem
se preocupar com a conta de luz. Ela relata que manter o instituto tem sido uma
luta, sempre buscando fomento público por meio de editais ou emendas
parlamentares. Mas são recursos que vão e vêm.
"Aqui
não é qualquer lugar. É um lugar singular. Mas a gente fica catando recursos,
pedindo esmola, fazendo economias, lutando por editais com o coração na boca. É
difícil isso. A gente só quer segurança de que vai conseguir abrir e fechar
todo dia."
A
descoberta do vizinho Cais do Valongo deu muita visibilidade para a história da
escravidão na região portuária, mas Merced se pergunta por que o cais recebe
tão mais atenção do que o cemitério, já que são duas marcas do mesmo passado.
"O
cais era onde chegavam; e o cemitério, onde ficavam. O cais é pedra, aqui são
corpos."
Perguntada
se tem a sensação de missão cumprida após 21 anos à frente do IPN, Merced diz
que está longe disso.
"Ainda
tem muito o que fazer. Isso é muito frágil. Se eu dormir um pouquinho, isso
acaba. Toda memória, se você deixar um dia sem falar, apaga."
Fonte:
BBC News Brasil

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