Corrupção,
contaminação e violações: quem é a Glencore, mineradora que tenta obter
vantagens por 30 anos de Milei
“Nosso
propósito é obter de maneira responsável os produtos que fazem avançar a vida
cotidiana”, afirma em sua página eletrônica a Glencore,
uma das maiores corporações mineradoras do mundo. A declaração contradiz um
histórico de denúncias tão amplo que abrange desde a contaminação ambiental até
os danos à saúde, passando pelo desalojamento forçado e pela corrupção, até
chegar à cumplicidade com o genocídio na Palestina. Atualmente, a empresa opera
em mais de 30 países da África, América do Norte e do Sul, Oceania e Europa,
onde extrai, transforma, transporta, armazena e comercializa cobre, cobalto,
zinco, níquel, carvão e petróleo, além de produtos agrícolas. Na Argentina, a
presença da Glencore remonta à exploração de Bajo la Alumbrera, o primeiro
projeto de megamineração a céu aberto do país. Hoje, é a empresa que está por
trás dos projetos de cobre MARA (Mineração Agua Rica-Alumbrera), em Catamarca,
e El Pachón, em San Juan. Com o aplauso do governo nacional, a empresa
solicitou os benefícios do Regime de Incentivos para Grandes Investimentos
(RIGI), apesar da falta de licença social e de um histórico tão amplo quanto
sua área de influência.
<><>
Glencore nas classificações
Com
sede em Baar, na Suíça, a Glencore é uma das maiores corporações mineradoras do
mundo. Segundo uma classificação mundial, em 2025 ocupou o décimo lugar por seu
valor de mercado. Um ano antes, outra classificação a havia colocado no
primeiro posto em receitas. Mas essas não são as únicas listas em que a
Glencore ocupa posições de destaque: seu nome aparece repetidamente em diversos
relatórios do Centro de Informação sobre Empresas e Direitos Humanos (CIEDH) da
Organização das Nações Unidas (ONU), devido às denúncias de violação de
direitos humanos nos países onde atua. “A Glencore está vinculada a 70
denúncias de abuso, a maior quantidade atribuída a uma empresa no
monitoramento, pelo segundo ano consecutivo”, afirma o relatório publicado em
2023, que reúne denúncias realizadas entre 2010 e 2022 contra empresas vinculadas
à extração de minerais para a chamada “transição energética”. No relatório mais
recente, de 2025, os números não são melhores. A Glencore continua liderando a
lista, com 80 denúncias por violações de direitos ambientais, dos povos
indígenas e comunidades locais, além de direitos trabalhistas.
<><>
Com o nome do pai
Criada
em 1974, a empresa foi inicialmente batizada com o nome de seu fundador: Marc
Rich and Company. Em sua página eletrônica, a companhia afirma que nasceu “como
uma empresa comercial” e cresceu até tornar-se “um importante produtor e
comercializador de commodities” ligadas a setores diversos, como o automotivo,
siderúrgico, energético, de fabricação de baterias e petrolífero. O que a
narrativa histórica oficial omite é que o fundador da empresa fugiu para a
Europa em 1983, depois que o Poder Judiciário dos EUA, onde vivia, o acusou de
negociar petróleo iraniano durante a chamada “crise dos reféns” — acontecimento
político envolvendo os EUA e o Irã entre 1979 e 1981 — e de sonegar US$ 50
milhões em impostos.
De seu
novo domicílio na Suíça, Rich continuou fazendo negócios. Em 1990, adquiriu a
Südelektra, empresa que, após várias reestruturações, foi rebatizada como
Xstrata. Em 1994, vendeu sua primeira companhia que, por decisão dos novos
proprietários, abandonou o nome de seu fundador e passou a chamar-se Glencore. Em
2013, as duas empresas se fundiram, dando origem à Glencore Xstrata PLC, que um
ano depois simplificou sua denominação para Glencore PLC. No meio do caminho,
Rich foi beneficiado por um indulto assinado por Bill Clinton no último dia de
seu mandato, em 2001. As suspeitas em torno da medida — que não seguiu o
procedimento habitual — motivaram uma investigação judicial que revelou, entre
outros aspectos, doações da ex-esposa de Rich ao Comitê Nacional Democrata, à
Biblioteca Presidencial Clinton e à campanha ao Senado de Hillary Clinton.
<><>
Crescer à força de subornos
A
consolidação da Glencore no mercado de matérias-primas caminhou lado a lado com
um histórico de corrupção.
Em
2022, a empresa declarou-se culpada pelo pagamento de subornos e pela
manipulação de mercado no contexto de um processo investigado pela Promotoria
do Distrito Sul de Nova York, nos EUA. Na época, a investigação revelou uma
complexa trama que se estendeu por pelo menos uma década, entre 2007 e 2018,
envolvendo empregados e agentes da Glencore, além de intermediários e
funcionários da Nigéria, Camarões, Costa do Marfim, Guiné Equatorial, República
Democrática do Congo (RDC), Brasil e Venezuela. Calcula-se que a empresa
destinou mais de US$ 100 milhões ao pagamento de subornos e comissões para
garantir negócios de forma irregular, simular contratos de consultoria e pagar
faturas superfaturadas.
Damian
Williams, o promotor responsável pelo processo, resumiu o caso da seguinte
forma: “A Glencore pagou subornos para garantir contratos petrolíferos. A
Glencore pagou subornos para evitar auditorias governamentais. A Glencore
subornou juízes para fazer desaparecer ações judiciais. No fundo, a Glencore
pagou subornos para ganhar dinheiro, centenas de milhões de dólares. E fez isso
com a aprovação e até mesmo o incentivo de seus altos executivos.”
Em
novembro de 2022, um tribunal britânico condenou a Glencore por subornar
funcionários da Nigéria, Camarões, Costa do Marfim, Guiné Equatorial e Sudão do
Sul para obter acesso a contratos petrolíferos nesses países. O juiz do caso,
Peter Fraser, classificou as operações — realizadas pelo menos entre 2011 e
2016 — como um caso de “corrupção corporativa em grande escala”, segundo
relatório da BBC.
Dois
anos depois, em 2024, a Procuradoria-Geral da Suíça declarou a Glencore culpada
porque sua “organização inadequada” não impediu o pagamento de subornos na
República Democrática do Congo (RDC). Com o pagamento de uma multa, a empresa
evitou um processo que poderia ter exposto a compra de minas de cobre e cobalto
na RDC por valores muito inferiores aos de mercado. O caso teve início a partir
de uma denúncia da organização suíça Public Eye, quando as operações da empresa
vieram à tona com a divulgação dos documentos financeiros conhecidos como Paradise
Papers.
<><>
O desembarque da Glencore na Argentina
A
Glencore opera na Argentina desde 2013, quando sua fusão com a Xstrata lhe
conferiu a participação majoritária na Minera Alumbrera, com 50% das ações (a
Yamana Gold possuía 12,5% e a Goldcorp, 37,5%). Essa aliança foi estruturada
como uma União Transitória de Empresas (UTE), da qual também participavam o
Estado nacional, a província de Catamarca e a Universidade Nacional de Tucumán,
por meio da Jazidas Mineiras Aguas de Dionisio (YMAD).
A YMAD
é a entidade interestatal que o governador Raúl Jalil negociou com o atual
governo nacional em troca de abandonar o bloco União pela Pátria e permitir que
o La Libertad Avanza se tornasse a primeira minoria na Câmara dos Deputados. Bajo
la Alumbrera — uma jazida de ouro, cobre e molibdênio localizada no oeste de
Catamarca — foi a primeira a ser explorada na modalidade conhecida como
mineração a céu aberto no país. Por isso, Melina Zocchi, integrante da
Assembleia El Algarrobo, de Andalgalá, a define como um “caso exemplar”.
Durante
duas décadas, a empresa acumulou denúncias que vão da contaminação ao
contrabando de terras raras. Em 2017, um tribunal de Tucumán a condenou por
contaminar duas localidades da província. Em outro processo, também em Tucumán
e que já se arrasta há mais de duas décadas, dois gerentes da empresa foram
processados pela contaminação da bacia Salí-Dulce. Agora, aguarda-se uma
decisão da Corte Suprema de Justiça da Nação para levá-los a julgamento.
Mas
esses não são os únicos casos denunciados pelos moradores.
Zocchi
menciona o deslocamento dos habitantes do povoado de Vis Vis, em Andalgalá, em
razão da contaminação da bacia Amanao-Vis Vis e dos quatro vazamentos
provocados por rupturas do mineroduto que foram comprovados. Embora a empresa
tenha anunciado o encerramento das atividades em Bajo la Alumbrera em 2018, o
plano de reativação avançou tão rapidamente que poucos meses depois os
moradores souberam pelos jornais da autorização concedida pelo governo liderado
por Jalil. Para a Assembleia El Algarrobo, porém, a reativação de Alumbrera é,
na realidade, uma forma de avançar discretamente com a exploração de Agua Rica,
jazida localizada na nascente do rio Andalgalá, em área glacial e periglacial. O
anúncio do projeto provocou uma mobilização popular em 2010 porque ameaça
“nossa fonte de água, tanto para a vida da população quanto para a produção”,
afirma Zocchi.
Os dois
projetos — Alumbrera e Agua Rica — foram integrados ao projeto MARA, atualmente
propriedade da Glencore, por meio de um acordo que a Justiça Federal investiga
por possíveis crimes de corrupção. O processo já conta com duas empresas e oito
funcionários formalmente acusados.
<><>
El Pachón: um glacial em jogo e um lixão ilegal
“O
risco ambiental mais importante é que está situado sobre um glacial de rocha”,
afirma Raúl Orduña, da Assembleia pela Água do Vale de Calingasta, ao falar do
projeto El Pachón, localizado nesse
departamento da província de San Juan. Para ilustrar a gravidade da situação,
ele explica que o glacial ficaria, literalmente, “sem seu talho”, ou seja, no
interior da cava aberta pelas explosões. Além de estar catalogado pelo
Instituto Argentino de Nivologia, Glaciologia e Ciências Ambientais (Ianigla),
a própria empresa reconhece a existência desse glacial como um obstáculo à
exploração. Tanto é assim que a Xstrata, antecessora da Glencore, foi a segunda
empresa a recorrer à Justiça contra a Lei Nacional 26.639, conhecida como Lei
de Glaciares, quando ela foi aprovada em 2010. Caso o projeto avance,
“atentaria contra uma das bases de nosso sistema hídrico, que é
níveo-pluvio-glacial”, explica Orduña, detalhando que ele é formado pelas
precipitações de neve, pelas chuvas e pelo derretimento dos glaciares. Além
disso, a exploração dessa jazida de cobre, molibdênio e prata afetaria tanto a
quantidade quanto a qualidade da água da bacia do rio San Juan, a mais
importante da província, por estar situada nas nascentes de seu principal
afluente, o rio Branco. Drenagem ácida, dispersão de partículas provocada pelas
detonações e movimentação de solos são alguns dos fatores que afetariam a
qualidade da água, enumera Orduña.
Quanto
à quantidade, ele denuncia que: “Por essas distorções do sistema jurídico,
Pachón possui uma concessão permanente de uso de água de 1.152 litros por
segundo, apesar de não ter o Informe de Impacto Ambiental (IIA) aprovado.” Em
seguida, dimensiona o volume: “Isso equivale a quase 100 milhões de litros de
água por dia.” Ainda sem entrar em operação, o projeto já acumula antecedentes
judiciais.
Em
2017, um tribunal federal de San Juan obrigou a Glencore a retirar mais de 40
milhões de toneladas de escombros que a mineradora chilena Los Pelambres havia
despejado na área concedida a El Pachón. Os resíduos tinham até nome: Cerro
Amarillo. E já haviam contaminado corpos d’água. Além disso, “denunciamos
oportunamente a usurpação do traçado da rota provincial 402”, afirma Orduña. Um
portão instalado no meio do caminho impede a passagem dos moradores e sinaliza
a área como propriedade mineradora.
Um
documento da Direção Provincial do Sistema Viário tampouco ajuda a esclarecer a
situação: “A rota mencionada encontra-se em uma situação muito particular; na
prática, trata-se de uma servidão mineradora concedida pelo Ministério de Minas
em favor do projeto El Pachón.” A controvérsia reside no fato de que o conceito
de rota remete ao uso público, enquanto servidão mineradora indica uso privado
— e ambos aparecem simultaneamente na mesma documentação.
<><>
Deslocamentos forçados na Colômbia
Há
quatro décadas, a Glencore extrai carvão em La Guajira, departamento colombiano
banhado pelo mar do Caribe. Cerrejón é o nome do projeto, que abrange a
extração, o transporte ferroviário e a exportação do minério. Durante esse
período, a empresa acumulou denúncias por violações de direitos humanos contra
comunidades indígenas e afrodescendentes, além de contaminação ambiental.
A
espoliação territorial por meio de negociações fraudulentas, compra irregular
de terras e expropriações provocou o deslocamento forçado de pelo menos nove
comunidades. Mas não foram apenas o engano e o uso da força que estiveram por
trás desses desalojamentos. A degradação da bacia do rio Ranchería também levou
ao abandono de terras, afetando economias tradicionais, a saúde da população e
os modos de vida locais. A essa violência do despejo soma-se a violência das
armas.
Um
relatório da organização PAX revela a colaboração da Glencore e da Drummond —
mineradora de capital estadunidense — com grupos paramilitares entre 1996 e
2006. Depoimentos de ex-funcionários e ex-comandantes paramilitares confirmam
as denúncias sobre a atuação e o financiamento desses grupos armados na
proteção das minas e da ferrovia utilizada para o transporte do carvão.
<><>
Metais pesados na água e nos corpos do Peru
No
Peru, a Glencore opera, entre outras, as minas de cobre Antapaccay — da qual é
proprietária exclusiva — e Antamina, cuja propriedade majoritária compartilha
com a australiana BHP. Diversos estudos apontam elevados níveis de mercúrio,
arsênio, alumínio e chumbo na água de Espinar, na região de Cusco, onde está
localizada a mina Antapaccay. Embora a empresa negue responsabilidade, pelo
menos seis relatórios do Organismo de Avaliação e Fiscalização Ambiental
(OEFA), entidade estatal peruana, associam a contaminação às operações
mineradoras.
Entre
2022 e 2025, o Ministério da Saúde registrou numerosos casos de pessoas
contaminadas por arsênio na área de influência de Antamina. “Três anos
consecutivos de análises de metais pesados mostram que não se trata de um
episódio isolado, mas de um problema estrutural”, denuncia a organização
peruana Red Muqui.
<><>
Chile: a lei e a armadilha
O
Segundo Tribunal Ambiental do Chile anulou a Resolução de Qualificação
Ambiental (RCA) para a ampliação do projeto de cobre e molibdênio Doña Inés de
Collahuasi, no norte do país, e ordenou o retorno do processo à etapa de
avaliação ambiental. A decisão teve origem em uma denúncia apresentada em 2023
pelas associações indígenas Wilamasi de Pescadores Mamq’uta e Aymara de Caleta
Chanavaya. As entidades sustentam que o projeto afeta os ambientes marinho e
terrestre ocupados por essas comunidades desde tempos ancestrais, comprometendo
suas atividades econômicas, tradições, práticas espirituais e formas de
organização cultural.
Em
entrevista ao Terra Viva, Javier Arroyo Olea, integrante do
Observatório Latino-Americano de Conflitos Ambientais (OLCA), sediado no Chile,
questiona o alcance da sentença e adverte que se trata de “uma anulação
fragmentada e não integral”, que acaba respaldando o projeto por parte da
institucionalidade ambiental chilena. De fato, a própria Glencore, proprietária
de 44% do empreendimento, afirmou em comunicado que a decisão judicial “se
limita a dois aspectos específicos relacionados à análise dos efeitos sobre a
comunidade local e o ambiente marinho”, razão pela qual “não espera atualmente
nenhum impacto imediato sobre a produção”.
<><>
Um histórico de danos ambientais no Chile
“A
Glencore tem um histórico de impactos ambientais em operações extrativas no
norte do Chile”, afirma Arroyo Olea. Na região de Antofagasta, a corporação
controla integralmente o projeto de cobre Lomas Bayas e o complexo metalúrgico
Altonorte. Em 2022, por exemplo, “a Superintendência do Meio Ambiente (SMA)
abriu um processo sancionatório contra a transnacional, mas ele foi suspenso
porque a empresa apresentou um plano de cumprimento”, explica Arroyo Olea. Ele
acrescenta: “Essa é uma fragilidade do sistema chileno, em que a empresa pode
escapar de sua responsabilização desde que assuma determinados compromissos.”
O
processo teve origem em uma denúncia da Direção Geral de Águas, que constatou a
redução da vazão de um aquífero e verificou que a empresa não monitorava o uso
da água conforme exigido pela licença ambiental. Segundo Arroyo Olea, isso
afetou “a presença de exemplares da rãzinha-do-Loa”, espécie atualmente
ameaçada.
Em
2018, a SMA sancionou a empresa por descumprimentos relacionados ao complexo
Altonorte, entre eles a não execução de seu programa de recuperação
paisagística e a ausência das estruturas destinadas a detectar afloramentos de
água provenientes do depósito de rejeitos. Embora a corporação tenha sido
multada, Arroyo Olea considera que a punição foi insuficiente: “Essa dimensão é
insuficiente diante do impacto causado ao meio ambiente, assim como da
responsabilidade político-social por essas falhas.”
Há
poucos dias, a Glencore voltou a ser notícia porque “ampliou seus interesses no
Chile ao investir na Chilean Cobalt Corp, empresa de origem estadunidense que
impulsiona projetos de extração de cobalto e terras raras”, acrescenta. Ao
analisar a presença da empresa no país, Arroyo Olea afirma que: “Em um país que
se caracterizou como mineiro, a permanência e a expansão dos interesses da
transnacional foram enquadradas por um discurso político que acolhe esse tipo
de investimento ao mesmo tempo em que enfraquece a institucionalidade
ambiental.” E conclui: “Essa institucionalidade não foi capaz de limitar os
impactos da empresa.”
<><>
Denúncias de trabalho infantil no Congo
Em
2019, a organização International Rights Advocates apresentou uma ação civil
contra cinco grandes empresas de tecnologia nos EUA, representando 14 famílias
da República Democrática do Congo. A ação apontava a responsabilidade dessas
empresas pela compra de cobalto extraído por crianças em uma mina pertencente à
Glencore. Embora, em 2024, o tribunal tenha absolvido as empresas de tecnologia
— a Glencore não figurava entre as rés —, a decisão não descartou a existência
de trabalho infantil na cadeia de fornecimento.
Não era
a primeira vez que acusações desse tipo atingiam a Glencore. Em 2012, uma
investigação da emissora britânica BBC obteve registros em
vídeo do trabalho realizado por crianças em uma concessão mineradora da empresa
na RDC. Como no caso anterior, a corporação negou qualquer responsabilidade
pelas acusações.
<><>
Lucrar com o genocídio na Palestina
A
relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para os territórios
palestinos ocupados, Francesca Albanese, incluiu a Glencore em uma lista de
empresas que “se beneficiaram da economia israelense de ocupação ilegal,
apartheid e agora genocídio”. Segundo o relatório Da economia da
ocupação à economia do genocídio, publicado em junho de 2025, a Glencore é
uma das principais fornecedoras de carvão para a geração de eletricidade em
Israel. De acordo com o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), 22%
da eletricidade israelense depende do carvão, que “fornece energia aos
assentamentos coloniais ilegais de Israel no território palestino ocupado,
assim como à indústria que alimenta o genocídio, o apartheid e a ocupação
ilegal israelense contra o povo palestino”.
A
energia elétrica é um insumo essencial para a atividade industrial, setor em
que a indústria militar ocupa papel de destaque em Israel. Segundo dados
referentes ao período de 2014 a 2018, as exportações de armas representaram 25%
das receitas totais da indústria israelense, colocando o país na posição de
oitavo maior exportador de armamentos do mundo. “Os conglomerados extrativos e
mineradores, embora forneçam energia para uso civil, impulsionaram as
infraestruturas militares e energéticas de Israel, ambas utilizadas para criar
condições de vida projetadas para destruir o povo palestino”, afirma Albanese
no relatório.
Além de
ser “um dos maiores produtores e exportadores mundiais de carvão térmico e
siderúrgico transportado por via marítima”, como destaca a própria empresa, a
Glencore também possuía, até janeiro deste ano, um dos portos privados da
Colômbia de onde partiam carregamentos desse mineral para Israel. No relatório,
Albanese informa que 60% do carvão importado por Israel entre 2023 e 2024 veio
da Colômbia e foi fornecido por Glencore e Drummond, até que um decreto do
presidente Gustavo Petro proibiu os embarques, ainda que sem conseguir
interrompê-los completamente. Outros 15% do carvão foram fornecidos a Israel
pela Glencore a partir da África do Sul, onde a corporação anglo-suíça possui
quatro jazidas desse mineral.
Albanese
menciona explicitamente a cumplicidade e a responsabilidade compartilhada das
empresas denunciadas, que: “Contribuem, em última instância, para toda uma
economia que impulsiona, abastece e torna possível este genocídio” e que “lucra
e facilita as violações e os crimes cometidos no território palestino ocupado”.
Enquanto os ataques israelenses a Gaza continuam, autoridades israelenses e
palestinas convergem em um ponto: o número de pessoas mortas no território
palestino desde outubro de 2023 gira em torno de 70 mil. Uma investigação de
campo publicada pela revista The Lancet Global Health estima
que o total de vítimas fatais já alcançava 75.200 apenas até janeiro do ano
passado.
Mais da
metade das vítimas, segundo o estudo, são meninas e meninos, mulheres e idosos.
<><>
A solidariedade como resistência
Comunidades
e organizações dos territórios onde a Glencore atua formaram coalizões com
organizações da Suíça e do Reino Unido, países onde estão localizadas suas
sedes, para denunciar a responsabilidade da empresa por violações de direitos
humanos e agressões à natureza em diferentes partes do mundo. “Diante disso,
não há outro caminho senão continuar unindo forças e denunciando
constantemente, na Justiça, nas ruas e por meio de ações voltadas à proteção de
nossas fontes de água e de nossos territórios, que são a única garantia de
presente e futuro para os povos”, afirma Zocchi. Com esse objetivo,
organizações europeias realizam há anos manifestações no mesmo dia e local em
que os investidores da Glencore promovem sua assembleia anual. Dessa forma, as
vozes e denúncias provenientes da República Democrática do Congo, Colômbia,
Peru, Argentina e outros países chegam às ruas suíças. “A solidariedade entre o
Norte Global e o Sul Global é estratégica para nós”, afirma a integrante da
Assembleia El Algarrobo. Diante do poder corporativo, Zocchi enfatiza a
importância da união entre os povos: “Seguimos construindo solidariedade para
ter força em todas as lutas que travamos.”
Fonte:
Por Ana Chayle, na Agência Terra Viva

Nenhum comentário:
Postar um comentário