sexta-feira, 26 de junho de 2026

Corrupção, contaminação e violações: quem é a Glencore, mineradora que tenta obter vantagens por 30 anos de Milei

“Nosso propósito é obter de maneira responsável os produtos que fazem avançar a vida cotidiana”, afirma em sua página eletrônica a Glencore, uma das maiores corporações mineradoras do mundo. A declaração contradiz um histórico de denúncias tão amplo que abrange desde a contaminação ambiental até os danos à saúde, passando pelo desalojamento forçado e pela corrupção, até chegar à cumplicidade com o genocídio na Palestina. Atualmente, a empresa opera em mais de 30 países da África, América do Norte e do Sul, Oceania e Europa, onde extrai, transforma, transporta, armazena e comercializa cobre, cobalto, zinco, níquel, carvão e petróleo, além de produtos agrícolas. Na Argentina, a presença da Glencore remonta à exploração de Bajo la Alumbrera, o primeiro projeto de megamineração a céu aberto do país. Hoje, é a empresa que está por trás dos projetos de cobre MARA (Mineração Agua Rica-Alumbrera), em Catamarca, e El Pachón, em San Juan. Com o aplauso do governo nacional, a empresa solicitou os benefícios do Regime de Incentivos para Grandes Investimentos (RIGI), apesar da falta de licença social e de um histórico tão amplo quanto sua área de influência.

<><> Glencore nas classificações

Com sede em Baar, na Suíça, a Glencore é uma das maiores corporações mineradoras do mundo. Segundo uma classificação mundial, em 2025 ocupou o décimo lugar por seu valor de mercado. Um ano antes, outra classificação a havia colocado no primeiro posto em receitas. Mas essas não são as únicas listas em que a Glencore ocupa posições de destaque: seu nome aparece repetidamente em diversos relatórios do Centro de Informação sobre Empresas e Direitos Humanos (CIEDH) da Organização das Nações Unidas (ONU), devido às denúncias de violação de direitos humanos nos países onde atua. “A Glencore está vinculada a 70 denúncias de abuso, a maior quantidade atribuída a uma empresa no monitoramento, pelo segundo ano consecutivo”, afirma o relatório publicado em 2023, que reúne denúncias realizadas entre 2010 e 2022 contra empresas vinculadas à extração de minerais para a chamada “transição energética”. No relatório mais recente, de 2025, os números não são melhores. A Glencore continua liderando a lista, com 80 denúncias por violações de direitos ambientais, dos povos indígenas e comunidades locais, além de direitos trabalhistas.

<><> Com o nome do pai

Criada em 1974, a empresa foi inicialmente batizada com o nome de seu fundador: Marc Rich and Company. Em sua página eletrônica, a companhia afirma que nasceu “como uma empresa comercial” e cresceu até tornar-se “um importante produtor e comercializador de commodities” ligadas a setores diversos, como o automotivo, siderúrgico, energético, de fabricação de baterias e petrolífero. O que a narrativa histórica oficial omite é que o fundador da empresa fugiu para a Europa em 1983, depois que o Poder Judiciário dos EUA, onde vivia, o acusou de negociar petróleo iraniano durante a chamada “crise dos reféns” — acontecimento político envolvendo os EUA e o Irã entre 1979 e 1981 — e de sonegar US$ 50 milhões em impostos.

De seu novo domicílio na Suíça, Rich continuou fazendo negócios. Em 1990, adquiriu a Südelektra, empresa que, após várias reestruturações, foi rebatizada como Xstrata. Em 1994, vendeu sua primeira companhia que, por decisão dos novos proprietários, abandonou o nome de seu fundador e passou a chamar-se Glencore. Em 2013, as duas empresas se fundiram, dando origem à Glencore Xstrata PLC, que um ano depois simplificou sua denominação para Glencore PLC. No meio do caminho, Rich foi beneficiado por um indulto assinado por Bill Clinton no último dia de seu mandato, em 2001. As suspeitas em torno da medida — que não seguiu o procedimento habitual — motivaram uma investigação judicial que revelou, entre outros aspectos, doações da ex-esposa de Rich ao Comitê Nacional Democrata, à Biblioteca Presidencial Clinton e à campanha ao Senado de Hillary Clinton.

<><> Crescer à força de subornos

A consolidação da Glencore no mercado de matérias-primas caminhou lado a lado com um histórico de corrupção.

Em 2022, a empresa declarou-se culpada pelo pagamento de subornos e pela manipulação de mercado no contexto de um processo investigado pela Promotoria do Distrito Sul de Nova York, nos EUA. Na época, a investigação revelou uma complexa trama que se estendeu por pelo menos uma década, entre 2007 e 2018, envolvendo empregados e agentes da Glencore, além de intermediários e funcionários da Nigéria, Camarões, Costa do Marfim, Guiné Equatorial, República Democrática do Congo (RDC), Brasil e Venezuela. Calcula-se que a empresa destinou mais de US$ 100 milhões ao pagamento de subornos e comissões para garantir negócios de forma irregular, simular contratos de consultoria e pagar faturas superfaturadas.

Damian Williams, o promotor responsável pelo processo, resumiu o caso da seguinte forma: “A Glencore pagou subornos para garantir contratos petrolíferos. A Glencore pagou subornos para evitar auditorias governamentais. A Glencore subornou juízes para fazer desaparecer ações judiciais. No fundo, a Glencore pagou subornos para ganhar dinheiro, centenas de milhões de dólares. E fez isso com a aprovação e até mesmo o incentivo de seus altos executivos.”

Em novembro de 2022, um tribunal britânico condenou a Glencore por subornar funcionários da Nigéria, Camarões, Costa do Marfim, Guiné Equatorial e Sudão do Sul para obter acesso a contratos petrolíferos nesses países. O juiz do caso, Peter Fraser, classificou as operações — realizadas pelo menos entre 2011 e 2016 — como um caso de “corrupção corporativa em grande escala”, segundo relatório da BBC.

Dois anos depois, em 2024, a Procuradoria-Geral da Suíça declarou a Glencore culpada porque sua “organização inadequada” não impediu o pagamento de subornos na República Democrática do Congo (RDC). Com o pagamento de uma multa, a empresa evitou um processo que poderia ter exposto a compra de minas de cobre e cobalto na RDC por valores muito inferiores aos de mercado. O caso teve início a partir de uma denúncia da organização suíça Public Eye, quando as operações da empresa vieram à tona com a divulgação dos documentos financeiros conhecidos como Paradise Papers.

<><> O desembarque da Glencore na Argentina

A Glencore opera na Argentina desde 2013, quando sua fusão com a Xstrata lhe conferiu a participação majoritária na Minera Alumbrera, com 50% das ações (a Yamana Gold possuía 12,5% e a Goldcorp, 37,5%). Essa aliança foi estruturada como uma União Transitória de Empresas (UTE), da qual também participavam o Estado nacional, a província de Catamarca e a Universidade Nacional de Tucumán, por meio da Jazidas Mineiras Aguas de Dionisio (YMAD).

A YMAD é a entidade interestatal que o governador Raúl Jalil negociou com o atual governo nacional em troca de abandonar o bloco União pela Pátria e permitir que o La Libertad Avanza se tornasse a primeira minoria na Câmara dos Deputados. Bajo la Alumbrera — uma jazida de ouro, cobre e molibdênio localizada no oeste de Catamarca — foi a primeira a ser explorada na modalidade conhecida como mineração a céu aberto no país. Por isso, Melina Zocchi, integrante da Assembleia El Algarrobo, de Andalgalá, a define como um “caso exemplar”.

Durante duas décadas, a empresa acumulou denúncias que vão da contaminação ao contrabando de terras raras. Em 2017, um tribunal de Tucumán a condenou por contaminar duas localidades da província. Em outro processo, também em Tucumán e que já se arrasta há mais de duas décadas, dois gerentes da empresa foram processados pela contaminação da bacia Salí-Dulce. Agora, aguarda-se uma decisão da Corte Suprema de Justiça da Nação para levá-los a julgamento.

Mas esses não são os únicos casos denunciados pelos moradores.

Zocchi menciona o deslocamento dos habitantes do povoado de Vis Vis, em Andalgalá, em razão da contaminação da bacia Amanao-Vis Vis e dos quatro vazamentos provocados por rupturas do mineroduto que foram comprovados. Embora a empresa tenha anunciado o encerramento das atividades em Bajo la Alumbrera em 2018, o plano de reativação avançou tão rapidamente que poucos meses depois os moradores souberam pelos jornais da autorização concedida pelo governo liderado por Jalil. Para a Assembleia El Algarrobo, porém, a reativação de Alumbrera é, na realidade, uma forma de avançar discretamente com a exploração de Agua Rica, jazida localizada na nascente do rio Andalgalá, em área glacial e periglacial. O anúncio do projeto provocou uma mobilização popular em 2010 porque ameaça “nossa fonte de água, tanto para a vida da população quanto para a produção”, afirma Zocchi.

Os dois projetos — Alumbrera e Agua Rica — foram integrados ao projeto MARA, atualmente propriedade da Glencore, por meio de um acordo que a Justiça Federal investiga por possíveis crimes de corrupção. O processo já conta com duas empresas e oito funcionários formalmente acusados.

<><> El Pachón: um glacial em jogo e um lixão ilegal

“O risco ambiental mais importante é que está situado sobre um glacial de rocha”, afirma Raúl Orduña, da Assembleia pela Água do Vale de Calingasta, ao falar do projeto El Pachón, localizado nesse departamento da província de San Juan. Para ilustrar a gravidade da situação, ele explica que o glacial ficaria, literalmente, “sem seu talho”, ou seja, no interior da cava aberta pelas explosões. Além de estar catalogado pelo Instituto Argentino de Nivologia, Glaciologia e Ciências Ambientais (Ianigla), a própria empresa reconhece a existência desse glacial como um obstáculo à exploração. Tanto é assim que a Xstrata, antecessora da Glencore, foi a segunda empresa a recorrer à Justiça contra a Lei Nacional 26.639, conhecida como Lei de Glaciares, quando ela foi aprovada em 2010. Caso o projeto avance, “atentaria contra uma das bases de nosso sistema hídrico, que é níveo-pluvio-glacial”, explica Orduña, detalhando que ele é formado pelas precipitações de neve, pelas chuvas e pelo derretimento dos glaciares. Além disso, a exploração dessa jazida de cobre, molibdênio e prata afetaria tanto a quantidade quanto a qualidade da água da bacia do rio San Juan, a mais importante da província, por estar situada nas nascentes de seu principal afluente, o rio Branco. Drenagem ácida, dispersão de partículas provocada pelas detonações e movimentação de solos são alguns dos fatores que afetariam a qualidade da água, enumera Orduña.

Quanto à quantidade, ele denuncia que: “Por essas distorções do sistema jurídico, Pachón possui uma concessão permanente de uso de água de 1.152 litros por segundo, apesar de não ter o Informe de Impacto Ambiental (IIA) aprovado.” Em seguida, dimensiona o volume: “Isso equivale a quase 100 milhões de litros de água por dia.” Ainda sem entrar em operação, o projeto já acumula antecedentes judiciais.

Em 2017, um tribunal federal de San Juan obrigou a Glencore a retirar mais de 40 milhões de toneladas de escombros que a mineradora chilena Los Pelambres havia despejado na área concedida a El Pachón. Os resíduos tinham até nome: Cerro Amarillo. E já haviam contaminado corpos d’água. Além disso, “denunciamos oportunamente a usurpação do traçado da rota provincial 402”, afirma Orduña. Um portão instalado no meio do caminho impede a passagem dos moradores e sinaliza a área como propriedade mineradora.

Um documento da Direção Provincial do Sistema Viário tampouco ajuda a esclarecer a situação: “A rota mencionada encontra-se em uma situação muito particular; na prática, trata-se de uma servidão mineradora concedida pelo Ministério de Minas em favor do projeto El Pachón.” A controvérsia reside no fato de que o conceito de rota remete ao uso público, enquanto servidão mineradora indica uso privado — e ambos aparecem simultaneamente na mesma documentação.

<><> Deslocamentos forçados na Colômbia

Há quatro décadas, a Glencore extrai carvão em La Guajira, departamento colombiano banhado pelo mar do Caribe. Cerrejón é o nome do projeto, que abrange a extração, o transporte ferroviário e a exportação do minério. Durante esse período, a empresa acumulou denúncias por violações de direitos humanos contra comunidades indígenas e afrodescendentes, além de contaminação ambiental.

A espoliação territorial por meio de negociações fraudulentas, compra irregular de terras e expropriações provocou o deslocamento forçado de pelo menos nove comunidades. Mas não foram apenas o engano e o uso da força que estiveram por trás desses desalojamentos. A degradação da bacia do rio Ranchería também levou ao abandono de terras, afetando economias tradicionais, a saúde da população e os modos de vida locais. A essa violência do despejo soma-se a violência das armas.

Um relatório da organização PAX revela a colaboração da Glencore e da Drummond — mineradora de capital estadunidense — com grupos paramilitares entre 1996 e 2006. Depoimentos de ex-funcionários e ex-comandantes paramilitares confirmam as denúncias sobre a atuação e o financiamento desses grupos armados na proteção das minas e da ferrovia utilizada para o transporte do carvão.

<><> Metais pesados na água e nos corpos do Peru

No Peru, a Glencore opera, entre outras, as minas de cobre Antapaccay — da qual é proprietária exclusiva — e Antamina, cuja propriedade majoritária compartilha com a australiana BHP. Diversos estudos apontam elevados níveis de mercúrio, arsênio, alumínio e chumbo na água de Espinar, na região de Cusco, onde está localizada a mina Antapaccay. Embora a empresa negue responsabilidade, pelo menos seis relatórios do Organismo de Avaliação e Fiscalização Ambiental (OEFA), entidade estatal peruana, associam a contaminação às operações mineradoras.

Entre 2022 e 2025, o Ministério da Saúde registrou numerosos casos de pessoas contaminadas por arsênio na área de influência de Antamina. “Três anos consecutivos de análises de metais pesados mostram que não se trata de um episódio isolado, mas de um problema estrutural”, denuncia a organização peruana Red Muqui.

<><> Chile: a lei e a armadilha

O Segundo Tribunal Ambiental do Chile anulou a Resolução de Qualificação Ambiental (RCA) para a ampliação do projeto de cobre e molibdênio Doña Inés de Collahuasi, no norte do país, e ordenou o retorno do processo à etapa de avaliação ambiental. A decisão teve origem em uma denúncia apresentada em 2023 pelas associações indígenas Wilamasi de Pescadores Mamq’uta e Aymara de Caleta Chanavaya. As entidades sustentam que o projeto afeta os ambientes marinho e terrestre ocupados por essas comunidades desde tempos ancestrais, comprometendo suas atividades econômicas, tradições, práticas espirituais e formas de organização cultural.

Em entrevista ao Terra Viva, Javier Arroyo Olea, integrante do Observatório Latino-Americano de Conflitos Ambientais (OLCA), sediado no Chile, questiona o alcance da sentença e adverte que se trata de “uma anulação fragmentada e não integral”, que acaba respaldando o projeto por parte da institucionalidade ambiental chilena. De fato, a própria Glencore, proprietária de 44% do empreendimento, afirmou em comunicado que a decisão judicial “se limita a dois aspectos específicos relacionados à análise dos efeitos sobre a comunidade local e o ambiente marinho”, razão pela qual “não espera atualmente nenhum impacto imediato sobre a produção”.

<><> Um histórico de danos ambientais no Chile

“A Glencore tem um histórico de impactos ambientais em operações extrativas no norte do Chile”, afirma Arroyo Olea. Na região de Antofagasta, a corporação controla integralmente o projeto de cobre Lomas Bayas e o complexo metalúrgico Altonorte. Em 2022, por exemplo, “a Superintendência do Meio Ambiente (SMA) abriu um processo sancionatório contra a transnacional, mas ele foi suspenso porque a empresa apresentou um plano de cumprimento”, explica Arroyo Olea. Ele acrescenta: “Essa é uma fragilidade do sistema chileno, em que a empresa pode escapar de sua responsabilização desde que assuma determinados compromissos.”

O processo teve origem em uma denúncia da Direção Geral de Águas, que constatou a redução da vazão de um aquífero e verificou que a empresa não monitorava o uso da água conforme exigido pela licença ambiental. Segundo Arroyo Olea, isso afetou “a presença de exemplares da rãzinha-do-Loa”, espécie atualmente ameaçada.

Em 2018, a SMA sancionou a empresa por descumprimentos relacionados ao complexo Altonorte, entre eles a não execução de seu programa de recuperação paisagística e a ausência das estruturas destinadas a detectar afloramentos de água provenientes do depósito de rejeitos. Embora a corporação tenha sido multada, Arroyo Olea considera que a punição foi insuficiente: “Essa dimensão é insuficiente diante do impacto causado ao meio ambiente, assim como da responsabilidade político-social por essas falhas.”

Há poucos dias, a Glencore voltou a ser notícia porque “ampliou seus interesses no Chile ao investir na Chilean Cobalt Corp, empresa de origem estadunidense que impulsiona projetos de extração de cobalto e terras raras”, acrescenta. Ao analisar a presença da empresa no país, Arroyo Olea afirma que: “Em um país que se caracterizou como mineiro, a permanência e a expansão dos interesses da transnacional foram enquadradas por um discurso político que acolhe esse tipo de investimento ao mesmo tempo em que enfraquece a institucionalidade ambiental.” E conclui: “Essa institucionalidade não foi capaz de limitar os impactos da empresa.”

<><> Denúncias de trabalho infantil no Congo

Em 2019, a organização International Rights Advocates apresentou uma ação civil contra cinco grandes empresas de tecnologia nos EUA, representando 14 famílias da República Democrática do Congo. A ação apontava a responsabilidade dessas empresas pela compra de cobalto extraído por crianças em uma mina pertencente à Glencore. Embora, em 2024, o tribunal tenha absolvido as empresas de tecnologia — a Glencore não figurava entre as rés —, a decisão não descartou a existência de trabalho infantil na cadeia de fornecimento.

Não era a primeira vez que acusações desse tipo atingiam a Glencore. Em 2012, uma investigação da emissora britânica BBC obteve registros em vídeo do trabalho realizado por crianças em uma concessão mineradora da empresa na RDC. Como no caso anterior, a corporação negou qualquer responsabilidade pelas acusações.

<><> Lucrar com o genocídio na Palestina

A relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para os territórios palestinos ocupados, Francesca Albanese, incluiu a Glencore em uma lista de empresas que “se beneficiaram da economia israelense de ocupação ilegal, apartheid e agora genocídio”. Segundo o relatório Da economia da ocupação à economia do genocídio, publicado em junho de 2025, a Glencore é uma das principais fornecedoras de carvão para a geração de eletricidade em Israel. De acordo com o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), 22% da eletricidade israelense depende do carvão, que “fornece energia aos assentamentos coloniais ilegais de Israel no território palestino ocupado, assim como à indústria que alimenta o genocídio, o apartheid e a ocupação ilegal israelense contra o povo palestino”.

A energia elétrica é um insumo essencial para a atividade industrial, setor em que a indústria militar ocupa papel de destaque em Israel. Segundo dados referentes ao período de 2014 a 2018, as exportações de armas representaram 25% das receitas totais da indústria israelense, colocando o país na posição de oitavo maior exportador de armamentos do mundo. “Os conglomerados extrativos e mineradores, embora forneçam energia para uso civil, impulsionaram as infraestruturas militares e energéticas de Israel, ambas utilizadas para criar condições de vida projetadas para destruir o povo palestino”, afirma Albanese no relatório.

Além de ser “um dos maiores produtores e exportadores mundiais de carvão térmico e siderúrgico transportado por via marítima”, como destaca a própria empresa, a Glencore também possuía, até janeiro deste ano, um dos portos privados da Colômbia de onde partiam carregamentos desse mineral para Israel. No relatório, Albanese informa que 60% do carvão importado por Israel entre 2023 e 2024 veio da Colômbia e foi fornecido por Glencore e Drummond, até que um decreto do presidente Gustavo Petro proibiu os embarques, ainda que sem conseguir interrompê-los completamente. Outros 15% do carvão foram fornecidos a Israel pela Glencore a partir da África do Sul, onde a corporação anglo-suíça possui quatro jazidas desse mineral.

Albanese menciona explicitamente a cumplicidade e a responsabilidade compartilhada das empresas denunciadas, que: “Contribuem, em última instância, para toda uma economia que impulsiona, abastece e torna possível este genocídio” e que “lucra e facilita as violações e os crimes cometidos no território palestino ocupado”. Enquanto os ataques israelenses a Gaza continuam, autoridades israelenses e palestinas convergem em um ponto: o número de pessoas mortas no território palestino desde outubro de 2023 gira em torno de 70 mil. Uma investigação de campo publicada pela revista The Lancet Global Health estima que o total de vítimas fatais já alcançava 75.200 apenas até janeiro do ano passado.

Mais da metade das vítimas, segundo o estudo, são meninas e meninos, mulheres e idosos.

<><> A solidariedade como resistência

Comunidades e organizações dos territórios onde a Glencore atua formaram coalizões com organizações da Suíça e do Reino Unido, países onde estão localizadas suas sedes, para denunciar a responsabilidade da empresa por violações de direitos humanos e agressões à natureza em diferentes partes do mundo. “Diante disso, não há outro caminho senão continuar unindo forças e denunciando constantemente, na Justiça, nas ruas e por meio de ações voltadas à proteção de nossas fontes de água e de nossos territórios, que são a única garantia de presente e futuro para os povos”, afirma Zocchi. Com esse objetivo, organizações europeias realizam há anos manifestações no mesmo dia e local em que os investidores da Glencore promovem sua assembleia anual. Dessa forma, as vozes e denúncias provenientes da República Democrática do Congo, Colômbia, Peru, Argentina e outros países chegam às ruas suíças. “A solidariedade entre o Norte Global e o Sul Global é estratégica para nós”, afirma a integrante da Assembleia El Algarrobo. Diante do poder corporativo, Zocchi enfatiza a importância da união entre os povos: “Seguimos construindo solidariedade para ter força em todas as lutas que travamos.”

 

Fonte: Por Ana Chayle, na Agência Terra Viva

 

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