O
lulismo e os riscos de evitar os confrontos
Em
artigo recentemente publicado, Edgar dos Anjos problematiza a possível relação
causal entre a moderação reformista dos governos petistas e o fortalecimento da
extrema direita no Brasil. Segundo ele, a principal explicação para o apelo
popular do atual populismo de direita não encontra respaldo nas malogradas
tentativas de conciliação dos Governos Lula e Dilma com as elites econômicas e
políticas do País. A variável explicativa estaria, antes de tudo, na força
reativa dessas elites contra quaisquer inflexões políticas que possam
desencadear, ainda que timidamente, mudanças na estrutura social brasileira.
Utilizando-se
do caso representado pelo Governo Dilma (2011-2016), o Prof. Edgar sustenta que
a Nova Matriz Econômica daquela época consistiu em uma série de ações que
tinham como objetivo o enfraquecimento do rentismo – lógica econômica que busca
a reprodução do capital sem os possíveis inconvenientes da produção real. Ainda
que limitada em seu escopo transformativo, a emergência de uma política
econômica que pudesse minar os interesses do capital financeiro encontraria,
por assim dizer, uma forte resistência dos setores que se beneficiavam do
favorecimento do capital improdutivo e do consequente desmantelamento da
inovação e das forças produtivas nacionais. Sem desprezar a complexidade do
fenômeno em tela, Edgar tenta, no entanto, minimizar o impacto que políticas
fracassadas de conciliação e de gerenciamento de uma economia capitalista
periférica podem ter sobre a percepção que as classes populares vêm a
desenvolver acerca de uma esquerda visceralmente institucionalizada.
A
escolha do Governo Dilma como base para inferências explicativas enriquece,
potencialmente, o tipo de análise proposto pelo autor, haja vista a crescente
tensão social evidenciada no País até o golpe parlamentar de 2016. Como bem
caracterizada, a Nova Matriz Econômica foi uma tentativa de reordenamento
macroeconômico a partir da redução da taxa básica de juros, da desvalorização
cambial controlada, das desonerações fiscais e da expansão do crédito público.
Entrementes, para que sua importância possa ser bem compreendida, é fundamental
que a coloquemos em perspectiva mais ampla, comparando-a, por exemplo, com a
política econômica do governo anterior. Nesse sentido, os dois primeiros
mandatos do Presidente Lula (2003-2011) destacam-se, inevitavelmente, como
pontos referenciais para todos aqueles que tentam interpretar os erros e os
acertos dos governos progressistas no corrente período democrático.
<><>
Os Governos Lula I e II
Na
primeira década deste século, o Brasil e outras economias periféricas
beneficiaram-se da forte demanda por matérias-primas gerada pelo portentoso
desenvolvimento econômico chinês. Indubitavelmente, esse cenário externo
possibilitou a estabilização da economia nacional no começo do primeiro mandato
do Presidente Lula (2003-2007), sem que maiores reformas estruturais fossem,
necessariamente, executadas. Como sabido, o boom das commodities promoveu
um grande afluxo de divisas internacionais em nossa economia. A partir disso, a
consequente valorização cambial gerou um ciclo de consumo, expandido e
vitaminado por acertadas e imperiosas políticas de distribuição de renda, tais
como a valorização do salário mínimo e o Programa Bolsa Família (PBF). Ainda, o
crescimento impulsionado pelas exportações permitiu que o governo federal
reduzisse a vulnerabilidade de nosso balanço de pagamentos, acumulando reservas
internacionais e quitando, antecipadamente, a dívida com o Fundo Monetário
Internacional (FMI) em 2005.
O
segundo mandato (2007-2011) deu sequência a muitas das políticas sociais
sistematizadas naquele cenário de valorização cambial, mas com importantes
ajustes nos motores de crescimento da economia brasileira. Com uma política
fiscal expansionista, o governo federal estimulou ainda mais o consumo interno
e a formação bruta de capital fixo. Assim sendo, uma gama de investimentos
públicos foi projetada para que aquele ciclo de crescimento decorrente das
exportações fosse endogenizado e fortalecido por um mercado interno capaz de
sustentar a longo prazo a produção de riqueza, bem como a criação de emprego e
renda. Nesse sentido, o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC), em 2007, foi um dos principais eixos basilares do que poderia ser uma nova
fase de nosso desenvolvimento econômico – assentado, precipuamente, sobre o
mercado interno, com redistribuição de renda e com elevadas taxas de
investimento. Ainda que a crise do subprime de 2008 tenha
atingido a economia brasileira com um decréscimo de 0,1% do PIB no ano
subsequente, 2010 fechou com um forte crescimento de 7,5%, propiciando a
eleição da então candidata situacionista Dilma Rousseff.
<><>
O Governo Dilma e a Inflexão Político-Econômica
O
primeiro mandato da Presidenta Dilma (2011-2015), analisado pelo Prof. Edgar, é
de fundamental interesse para que possamos qualificar o debate em torno das
decisões tomadas pelos governos petistas. Contrariamente à política econômica
de Lula II, o Governo Dilma promoveu um ajuste fiscal em seu primeiro ano,
reduzindo o investimento público e contendo alguns gastos governamentais. Isso
tudo porquanto a chamada Nova Matriz Econômica tinha como objetivo não mais a
indução do crescimento via expansão da demanda agregada, mas sim a redução dos
custos de produção para o empresariado nacional. É importante ressaltar que a
adoção desse novo referencial macroeconômico convergia com a agenda defendida
por algumas entidades patronais, em especial aquelas ligadas às indústrias de
transformação, fortemente castigadas por anos de valorização cambial e de forte
concorrência asiática.
Se, por
um lado, o reconhecimento brasileiro da China como economia de mercado em 2004
suscitou reações hostis de parte dos industriais ao Governo Lula, convém
recordar, por outro, que a Nova Matriz Econômica sedimentou, temporariamente,
uma parceria entre o governo federal e a Federação das Indústrias do Estado de
São Paulo (Fiesp), então comandada por Paulo Skaf. A aproximação entre os dois
grupos políticos era tamanha, que o mesmo industrial que estimulou o golpe
parlamentar de 2016 concorreu ao governo do estado de São Paulo pelo Partido
Socialista Brasileiro (PSB) em 2010 – um partido originalmente socialista -, em
que pesem suas fortes inclinações liberais. Nessa toada, o governo federal
promoveu desonerações fiscais para o setor industrial e expandiu a política de
créditos subsidiados via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES) a fim de que os beneficiários dessas medidas aumentassem seus
investimentos.
O
problema, subestimado pela equipe do então Ministro da Fazenda Guido Mantega, é
que, em um cenário econômico ainda tensionado pela crise de 2008, a diminuição
dos investimentos públicos não poderia ser, satisfatoriamente, substituída pelo
aumento dos investimentos privados. Como o aumento do consumo gerado pelo
governo Lula refletiu, em um primeiro momento, o atendimento de uma demanda
interna reprimida desde a crise cambial de 1999, era imprescindível que nosso
crescimento econômico fosse salvaguardado com o prosseguimento de uma política
de expansão dos investimentos públicos. Se às históricas baixas taxas de
formação bruta de capital fixo for adicionado o cenário de incerteza pós-crise
de 2008, o recuo dos investimentos públicos torna-se ainda mais reprovável,
sobretudo quando o promotor desse ajuste foi um governo cujo principal polo
ideológico era de centro-esquerda. Em outros termos, o ajuste fiscal de 2011
não foi compensado pelo aumento dos investimentos privados, haja vista que as
desonerações tributárias serviram apenas para que seus beneficiários
recompusessem suas margens comprimidas pela alta competitividade dos
manufaturados asiáticos. Em um ambiente de incertezas como aquele, não havia,
pois, demanda suficiente para justificar a expansão dos desejados investimentos
privados.
Para
além das desonerações tributárias e da expansão do crédito subsidiado, a busca
pelo achatamento dos custos de produção refletiu-se também em uma política
monetária menos restritiva. Nesse sentido, é importante ressaltar que, a
despeito da expansão fiscal do segundo governo Lula, a política monetária de
seus oito anos foi altamente restritiva. O mandato de Henrique Meirelles à
frente do Banco Central (2003-2011) manteve a economia brasileira refém de
capitais improdutivos, apesar do forte influxo de divisas internacionais gerado
pelo superávit da balança comercial. Dilma, por sua vez, tinha em mente o
louvável objetivo de baixar os juros que inviabilizavam os investimentos,
comprimiam a taxa média de retorno do capital e aumentavam os passivos das empresas.
Dessa forma, no segundo ano de sua presidência, o Comitê de Política Monetária
(Copom) chegou a definir a taxa básica de juros (Selic) em 7,25%, nível mais
próximo ao dos juros internacionais.
Como a
redução dos juros básicos, se definida isoladamente, pode não reunir as
condições necessárias para que os tomadores de empréstimos gastem, de fato,
menos com os juros incidentes sobre suas dívidas, o Governo Dilma utilizou,
ainda, os bancos públicos para forçar uma redução dos juros efetivos. Com um
setor bancário fortemente concentrado e oligopolizado, a baixa competitividade
protegia a manutenção de altos spreads, encarecendo diferentes
modalidades de crédito e restringindo o consumo das famílias e o investimento
das empresas. Sendo assim, tanto o Banco do Brasil (BB) como a Caixa Econômica
Federal (CEF) foram centrais para a tentativa de convergência dos juros
brasileiros aos juros internacionais. A esse respeito, convém relembrar que a
institucionalização da agiotagem na economia brasileira fundamenta-se na
justificativa de que, sem juros altos, a moeda tende a se desvalorizar e a
impulsionar a inflação. A âncora cambial, originalmente necessária para o
enfrentamento de ataques especulativos nos anos 1990, é uma das heranças do
Plano Real (1994). No entanto, desvirtuada de sua função primária, acabou
viciando a burguesia nacional em ganhos fáceis e imediatos, fazendo do rentismo
a figura de proa de nossa economia.
O
aumento do gasto tributário também foi uma das medidas adotadas pelo governo de
Dilma Rousseff para baixar o custo da produção industrial. Sob os pretextos de
estimular a formação bruta de capital fixo e de conceder um maior protagonismo
ao setor privado, a expansão das desonerações serviu, na verdade, como uma
válvula de escape para setores fortemente pressionados pela entrada de
manufaturados chineses no mercado doméstico. Como mencionado antes, em vez de
expandir a produção, sua resposta lógica foi recompor, defensivamente, suas
apertadas margens. Diante da ineficácia de tal política em relação a seu
objetivo original, a redução do crescimento nos anos subsequentes piorou a
situação de debilidade fiscal, visto que o Estado passava, então, a renunciar a
receitas em benefício de alguns setores empresariais. Em outros termos, o
governo federal, que já auferia pouco com as desonerações setoriais, passou a
arrecadar ainda menos em um cenário de baixo crescimento. A consequente geração
de déficits fiscais tornou o Estado, mais uma vez, refém da banca financeira,
sedenta pelo recrudescimento dos juros e pela redução do aparato estatal.
No ano
de 2011, contrariamente ao almejado pelo governo Dilma, o real manteve-se
sobrevalorizado. Se, por um lado, esse cenário continuava pressionando a
competitividade da indústria nacional, por outro, a sobrevalorização cambial
ajudava a manter a inflação no teto da meta daquele ano, em 6,5%. Entretanto,
diferentemente da década anterior, o câmbio forte não respondia mais ao impacto
gerado pelo boom das commodities, mas sim aos
efeitos da liquidez internacional promovida pelo Federal Reserve (Fed).
Para resgatar a economia estadunidense da forte recessão gerada pela já citada
crise do subprime, o Fed injetou um montante
trilionário de dólares nos balanços patrimoniais dos bancos mais expostos à
insolvência das hipotecas. Dessa forma, o Quantitative Easing (QE)
permitiu àquela autoridade monetária comprar diferentes ativos financeiros, de
modo a evitar que todo um emaranhado de títulos podres continuasse minando as
carteiras dos maiores bancos de investimento de Wall Street após
a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008.
Com a
liberalização da conta de capital nos anos 1990, nosso balanço de pagamentos
tornou-se vulnerável à volatilidade de capitais internacionais mais ou menos
especulativos. Sejam eles aportados em ativos de carteira ou em investimentos
diretos, os fluxos de entrada e de saída desses capitais pressionam o câmbio
brasileiro, acentuando, por conseguinte, a exposição de nossa economia a
choques externos. Ainda que, em 2011, o Brasil não mais se beneficiasse de um
grande influxo de divisas gerado por sua balança comercial, o real continuava
sobrevalorizado graças à ausência de mecanismos de controle nos mercados
financeiros. O legado do famigerado Consenso de Washington ainda assombrava,
pois, a execução de uma política econômica mais autônoma e assertiva. A busca
por um cenário macroeconômico mais favorável para as indústrias nacionais
exportadoras esbarrava na fluidez dos capitais internacionais.
<><>
As Fragilidades da Nova Matriz Econômica
Retomando-se,
sinteticamente, algumas das medidas que constituíram a Nova Matriz Econômica, é
possível inferir que a lógica por trás de sua implementação buscava,
corretamente, a reindustrialização do País. Após anos de desindustrialização de
nossa economia e de reprimarização de nossa pauta de exportações, a inflexão
almejada corrigiria um equivocado percurso traçado por nossos formuladores de
políticas nas últimas décadas. A agenda progressista como um todo – desde o
fortalecimento do Estado Social, garantido pela Constituição Cidadã (1988), até
a concretização de uma sociedade mais igualitária em termos de gênero, de raça
e de orientação sexual – só pode ser defendida, coerentemente, a partir de uma
reordenação política que faça da economia uma base para o bem-estar humano. Em
um país como o Brasil, com mais de 200 milhões de pessoas, somente uma
estratégica reindustrialização tem o condão de alcançar tal conjuntura.
Não
obstante o acertado objetivo inicial do Governo Dilma, as medidas implementadas
mostraram-se, parcialmente, equivocadas. Com a escala potencial do mercado
brasileiro, não faz sentido privilegiar o mercado externo em detrimento do
consumo interno. A escandalosa desigualdade que condena inúmeras gerações de
jovens negros e periféricos a diversas formas de marginalização social só pode
ser reparada com o provimento de políticas públicas abrangentes e
intersetoriais. As demandas sociais historicamente negligenciadas – tais como
os direitos à moradia, ao trabalho, à saúde, à educação e à terra – só podem
ser atendidas com a atuação de um Estado que não esteja mais a serviço dos
mesmos interesses privados que perfizeram nossa história como Nação. A
universalização do saneamento básico, o fortalecimento do Sistema Único de
Saúde (SUS), a qualificação da educação pública, o desenvolvimento de novas
tecnologias, as reformas agrária e urbana, as políticas de mitigação e de
adaptação às mudanças climáticas, tudo isso resume o ponto de partida para um
desenvolvimento mais justo, soberano e sustentável.
Essas
necessárias reparações históricas só podem ser efetivadas por meio da expansão
de serviços sociais e de investimentos, com o protagonismo estratégico do
Estado. Como se não bastasse o consumo inerente a uma massa populacional como a
nossa, o preenchimento dessas lacunas, deliberadamente criadas por um projeto
de poder excludente e autoritário, dar-nos-ia a possibilidade de enfrentar mais
eficientemente as condições materiais que nos condenam à situação de periferia
do sistema-mundo. Por mais que a história de outros países possa nos ensinar
lições sobre as melhores vias para o desenvolvimento e para a inserção
internacional independente, é preciso que a contemplemos sob uma perspectiva
política e social brasileira. Dessa forma, são as demandas sociais de nosso
povo que devem nortear a busca por um Estado que ampare a efetiva construção de
uma sociedade mais igualitária.
Apesar
das relevantes diferenças contextuais, a Nova Matriz Econômica de 2011 foi uma
tentativa de reprodução, com cores verde-amarelas, do modelo de desenvolvimento
adotado por países asiáticos, especialmente os denominados Tigres Asiáticos
(Cingapura, Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan). O notável salto de
desenvolvimento dessas economias durante os anos 1970 e 1980 baseou-se, entre
outros fatores, na priorização do mercado externo. Sua posterior convergência
econômica (catch-up) em relação às economias industriais do Norte Global
deu-se como consequência de um vigoroso projeto de industrialização financiado
tanto por poupança externa (sobretudo capitais japoneses) como por capitais
internos. Entretanto, para que o impulso inicial e a consolidação de tal modelo
fossem concretizados, impôs-se um elevado ônus social aos seus trabalhadores,
situação totalmente incompatível com as conquistas sociais inscritas em nossa
Constituição Federal e com as mais variadas lutas populares no Brasil.
Com o
intuito de fortalecer a poupança interna e de assegurar o financiamento da
industrialização, aqueles Estados asiáticos impuseram um forte arrocho salarial
e renunciaram à construção de uma rede de seguridade social. Até mesmo o Japão,
ao atingir um elevadíssimo grau de desenvolvimento econômico na década de 1980,
optou por usar o excedente de capitais de sua balança comercial para financiar
o Tesouro norte-americano. Por uma decisão essencialmente política, Tóquio
canalizou seus capitais para serem reciclados no exterior, seja na forma de
investimentos diretos ou de aplicações financeiras. O baixo consumo interno, a
alta poupança doméstica e a contenção dos custos de produção constituíram,
portanto, uma arquitetura mais ampla com medidas que foram aplicadas consoante
vantagens comparativas, correlações de forças políticas e estratégias de
desenvolvimento particulares de uma região bastante diferente da historicidade
latino-americana.
<><>
As Contradições do Reformismo
Indubitavelmente,
a força reativa das elites econômicas de nosso País não pode ser menosprezada.
Afinal, muitas das lutas sociais atualmente travadas resultam de demandas
sociais negligenciadas por um secular modelo de organização social extrativista
e excludente. Todavia, não é possível ignorar os erros cometidos por coalizões
políticas encabeçadas por alguns segmentos progressistas nacionais. Nesse
sentido, é fundamental que não apenas a malograda política de conciliação de
interesses seja debatida e repensada, como também a formulação de um projeto
político verdadeiramente comprometido com os desafios que se impõem ao Brasil
da corrente quadra histórica. Em uma democracia liberal como a nossa, o
desencanto com as instituições políticas vigentes não permite mais à esquerda,
por mais institucionalizada que possa ser, buscar a reindustrialização nacional
sem a satisfação das principais demandas populares.
Apesar
de ter formado um dos maiores e mais diversificados parques industriais do Sul
Global na segunda metade do século anterior, o Brasil não reuniu condições para
superar o que se convencionou chamar de fordismo periférico. Em outros termos,
enquanto os capitalismos europeu e estadunidense baseavam-se na expansão do
consumo de suas sociedades, o Brasil condenou a maior parte de sua população ao
restrito consumo de bens de consumo popular. O acesso a bens de consumo
duráveis, fundamental departamento para o processo de industrialização,
limitava-se a uma pequena classe média urbana com poder aquisitivo suficiente
para a aquisição de eletrodomésticos, de carros e de outros produtos mais
sofisticados. Sem consumo de massa, preteria-se o fortalecimento do mercado
interno a favor da manutenção de uma mesma organização social hierárquica e
excludente.
Não é
possível tampouco desejável que às classes trabalhadoras seja prometido um
futuro melhor, exigindo-se delas mais sacrifícios, paciência e compreensão. A
excessiva institucionalização de uma parte da esquerda tornou-a, meramente,
gestora de uma economia capitalista, inerente e irrevogavelmente desigual.
Indubitavelmente, os equívocos da Nova Matriz Econômica não explicam, sem o
auxílio de outras variáveis intervenientes e secundárias, a ascensão da extrema
direita no Brasil. Eles evidenciam, porém, que diante da primeira debacle
econômica, a esquerda, apartada de sua base social, viu-se pressionada e
estrangulada por uma coalizão de atores políticos hostis a todo e qualquer
avanço social. Com as tensões sociais crescentes, o Governo Dilma II (reeleita
em 2014) acentuou suas incoerências, confundindo algozes com salvadores. Os
erros estratégicos e os deslizes táticos misturaram-se à agonia de uma
Presidência alienada de sua missão histórica.
Mesmo
quando a alternativa a um excessivo e resignado pragmatismo provém de uma
extrema direita antinacional e antipopular, o desfecho costuma trazer
destruição e sofrimento. Como as preferências políticas são moldadas tanto por
condicionantes materiais como ideológicas, a direita reacionária é capaz de
mobilizar a generalizada insatisfação com as instituições em benefício de seu
projeto de poder. Lutemos, pois, para que os erros do passado não tornem a
afligir o presente!
Fonte:
Por Guilherme Backes, em Outras Palavras

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