Liszt
Vieira: Avanço da direita e declínio da democracia
A
vitória da extrema direita, por margem apertada, nas eleições do Peru e da
Colômbia, e o autoritarismo cada vez mais reforçado do governo dos EUA
recolocam na ordem do dia o tema do declínio da democracia e sua relação com o
capitalismo.
Durante
grande parte do século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial,
difundiu-se a ideia de que capitalismo e democracia liberal eram parceiros
inseparáveis. O crescimento econômico, a ampliação do consumo e a expansão dos
direitos políticos pareciam caminhar juntos. A queda do Muro de Berlim em 1989
e o desmoronamento da União Soviética em 1991 reforçaram essa percepção. Muitos
autores acreditavam que a democracia liberal representava o estágio final da
evolução política das sociedades modernas.
Nas
primeiras décadas do século XXI, entretanto, essa associação passou a ser
questionada. O avanço de governos autoritários, a concentração crescente da
riqueza, o enfraquecimento dos partidos políticos e a influência cada vez maior
do poder econômico sobre as decisões públicas indicam uma crise profunda da
democracia liberal. Ao mesmo tempo, observa-se que o capitalismo globalizado
continua funcionando e acumulando riqueza mesmo em países onde as liberdades
democráticas são limitadas. Surge então uma questão central: o capitalismo
ainda pode conviver com a democracia liberal para sobreviver? Ou prefere
regimes autoritários?
Antes
de abordar essa questão, com o objetivo de organizar as ideias, peço licença ao
leitor para lembrar rapidamente o conceito clássico e moderno de democracia.
<><>
O conceito clássico de democracia
O
conceito clássico de democracia tem suas origens na Grécia Antiga,
especialmente em Atenas, no século V a.C. A palavra democracia significa
literalmente “governo do povo”. Na concepção clássica, a democracia era
entendida como a participação direta dos cidadãos nas decisões políticas da
comunidade.
Em
Atenas, os cidadãos reuniam-se em assembleias para debater e votar leis,
decidir sobre questões de guerra e paz e deliberar sobre assuntos públicos. Não
havia representantes eleitos para governar em nome da população, como ocorre
nas democracias modernas. O exercício do poder era direto, mas as mulheres,
escravos e estrangeiros não eram considerados cidadãos e, portanto, não
participavam da vida política da polis.
O ideal
democrático clássico estava baseado em princípios como a igualdade perante a
lei (isonomia), a liberdade de expressão (isegoria) e a participação ativa dos
cidadãos nas decisões coletivas. A democracia era vista não apenas como uma
forma de governo, mas também como uma prática de cidadania, na qual os
indivíduos assumiam responsabilidades na condução dos assuntos públicos.
A
experiência ateniense tornou-se uma referência fundamental para o pensamento
político ocidental. Os conceitos de soberania popular, igualdade perante a lei,
participação política e busca do bem comum influenciaram as democracias
modernas, baseadas na democracia representativa, face à existência de
sociedades mais populosas e complexas.
<><>
O conceito moderno de democracia
O
conceito moderno de democracia desenvolveu-se a partir dos séculos XVII e
XVIII, influenciado pelo pensamento iluminista, pelas revoluções liberais e
pela formação dos Estados nacionais. Diferentemente da democracia clássica
ateniense, baseada na participação direta dos cidadãos, a democracia moderna
fundamenta-se principalmente na representação política, ou seja, os cidadãos
elegem representantes para governar em seu nome.
A
democracia moderna está associada aos princípios da soberania popular, da
igualdade jurídica, dos direitos individuais e do Estado de Direito. O poder
político é considerado legítimo quando deriva da vontade popular expressa por
meio de eleições livres, periódicas e competitivas. Além disso, o governo deve
estar submetido às leis e à Constituição, garantindo limites ao exercício do
poder.
Pensadores
como John Locke, Montesquieu e Jean-Jacques Rousseau contribuíram para a
formulação dos princípios democráticos modernos. Locke defendeu os direitos
naturais e o governo baseado no consentimento dos governados; Montesquieu
formulou a teoria da separação dos poderes; Rousseau destacou a soberania
popular como fundamento da legitimidade política. No século XX, a democracia
passou a ser entendida não apenas como um sistema eleitoral, mas também como um
regime que protege direitos civis, políticos e sociais. Ou seja, a democracia
passou a ser vista como uma forma de existência social.
A
democracia moderna reconhece a importância da participação da sociedade civil,
dos movimentos sociais, da imprensa livre e das instituições independentes para
fiscalizar o poder público. Dessa forma, ela busca conciliar governo da maioria
com proteção dos direitos das minorias. Em síntese, o conceito moderno de
democracia refere-se a um regime político baseado na representação, na
soberania popular, nas eleições livres, no respeito aos direitos fundamentais e
na limitação do poder por meio de instituições e leis.
Mais do
que um método de escolha de governantes, a democracia moderna constitui um
sistema de garantias políticas e jurídicas voltado para a liberdade, a
igualdade e a participação dos cidadãos na vida pública.
<><>
A democracia liberal em crise
Durante
décadas, o modelo da democracia liberal foi considerado compatível com o
desenvolvimento capitalista porque garantia estabilidade institucional,
proteção da propriedade privada e previsibilidade para os investimentos.
Entretanto, vários fatores contribuíram para sua erosão. A globalização
econômica reduziu a capacidade dos Estados nacionais de controlar os mercados.
Muitas
decisões fundamentais passaram a ser influenciadas por grandes corporações
transnacionais, organismos financeiros internacionais e fluxos globais de
capitais. Muitas empresas transnacionais possuem orçamento maior do que a
maioria dos países que, na prática, tornaram-se províncias.
Esse
fenômeno produz uma sensação de impotência política. Os cidadãos votam, mas
percebem que questões decisivas, ligadas à economia, escapam ao controle
democrático. A desconfiança nas instituições cresce e abre espaço para
lideranças autoritárias que prometem soluções rápidas para problemas complexos.
Além disso, a revolução digital transformou profundamente a esfera pública.
Redes sociais ampliaram a circulação de informações, mas também facilitaram a
disseminação de desinformação, fake news, discursos de ódio e manipulação
política.
Numa
sociedade de massas, tem peso enorme a manipulação do voto pela mídia, redes
sociais, internet, e pelo uso e abuso de fake news, que disputam e muitas vezes
prevalecem sobre a realidade na conquista do voto. Isso leva grande número de
eleitores a votarem contra seus próprios interesses. Pior ainda, no Rio de
Janeiro e Baixada Fluminense, por exemplo, metade das cidades está controlada
pelas milícias, que impõem seus candidatos sob ameaças e influenciam a escolha
até de governador do estado.
É bom
lembrar que, após o governo de Benedita da Silva, do PT, de abril de 2002 a
janeiro de 2003 – do qual me coube a honrosa tarefa de ser o Secretário de Meio
Ambiente – todos os governadores subsequentes foram processados por corrupção e
até mesmo presos.
A
manipulação de uma eleição começa antes e se intensifica durante o processo
eleitoral. O desvio de votos em papel é coisa do passado. A grande mídia
comercial sempre teve um peso importante na formação da opinião pública, mas a
manipulação eletrônica em larga escala teve seu início com a empresa Cambridge
Analytica ao manipular o desejo do eleitor com informações distorcidas e falsas
durante o processo eleitoral do Brexit, que afastou o Reino Unido da União
Europeia em junho de 2016.
Pouco
depois, essa experiência se repetiu com êxito na eleição de Donald Trump em
novembro de 2016 e posteriormente na eleição de Jair Bolsonaro no Brasil em
2018.
Na
realidade, os regimes democráticos, dominados por uma elite política e
econômica, foram em geral incapazes de atender às necessidades da maioria da
população, que se tornou presa fácil de fake news e do discurso religioso,
principalmente evangélico. Nossa civilização, tributária do Iluminismo, está em
crise. Muita gente não quer mais saber dos fatos da realidade. Quer ouvir o
discurso que coincide com suas crenças. Como dizia Marcel Proust, “os fatos não
penetram no mundo onde vivem nossas crenças”.
<><> O capitalismo contemporâneo
dispensa a democracia
Existe
uma tensão crescente entre capitalismo e democracia, pois as exigências dos
mercados financeiros frequentemente entram em conflito com as demandas sociais
por igualdade, proteção social e participação política. O capitalismo
neoliberal, consolidado desde os anos 1980, promoveu privatizações,
desregulamentação financeira e redução da intervenção estatal, enfraquecendo os
serviços públicos e ampliando as desigualdades sociais. A concentração de renda
e patrimônio atingiu níveis elevados em diversas partes do mundo.
Nesse
contexto, a influência do poder econômico sobre a política tornou-se mais
intensa. Grandes grupos empresariais, plataformas digitais e fundos de
investimento exercem enorme capacidade de pressão sobre governos e parlamentos.
A desigualdade econômica converte-se em desigualdade política, enfraquecendo o
princípio democrático da igualdade entre os cidadãos.
O
neoliberalismo entrou em crise em todo o mundo capitalista e começa a se
despedir da democracia liberal em favor de governos autoritários de índole
neofascista. Os liberais, como sói acontecer, apoiam ditaduras quando seus
interesses econômicos estão ameaçados.
Em
recente artigo, “La derecha está desapareciendo: la opción es entre la
izquierda y la extrema derecha”, Boaventura Sousa Santos ressalta que no
capitalismo contemporâneo não é a democracia quem regula o capitalismo, é o
capitalismo quem regula a democracia. E as instituições financeiras
internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, passaram a exigir o modelo
neoliberal para financiar os países em desenvolvimento.
Estamos
ameaçados de uma nova guerra mundial, enfrentamos um colapso ecológico
iminente, assistimos ao fim do direito internacional e ao fim da distinção
entre democracia e autocracia. A direita tradicional que defendia a democracia
liberal está desaparecendo e sendo substituída pela extrema direita
neofascista. O que restou dela hoje passou a legitimar ditaduras.
Nas
últimas décadas, diversos países assistiram ao fortalecimento de lideranças que
contestam elementos centrais da democracia liberal. Embora mantenham eleições,
esses governos frequentemente atacam a independência do Judiciário, restringem
a liberdade de imprensa, enfraquecem instituições de controle e concentram
poder, em geral no Executivo. As instituições democráticas continuam existindo
formalmente, mas sua substância é progressivamente reduzida.
Esses
regimes são chamados de “democracias iliberais”, um eufemismo para ditadura. O
voto permanece, mas o que predomina é o exercício autoritário de poder sem
mecanismos de fiscalização.
O
fascismo clássico destruiu a democracia de fora para dentro. O neofascismo usa
a democracia, faz o jogo da democracia para ganhar a eleição e destruir a
democracia a partir de dentro. Outro ponto importante a ser considerado é o
fato de o neofascismo se alimentar da crise do neoliberalismo e seus dogmas de
Estado mínimo, privatização de serviços públicos, transformação de direitos em
mercadoria.
Do
ponto de vista econômico, muitos setores empresariais consideram vantajosos
governos fortes capazes de implementar reformas rapidamente, conter conflitos
sociais e garantir estabilidade para os negócios. As elites econômicas costumam
aceitar restrições à democracia quando consideram seus interesses ameaçados. E
passam a apoiar ditaduras, apoiadas também diretamente pelos EUA, como foi o
caso das diversas ditaduras militares latino-americanas.
Hoje,
os EUA desenvolvem uma nova aliança militar na América Latina com diversos
países governados pela direita: Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Costa
Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá,
Trinidad Tobago. Com a vitória da direita no Peru e agora na Colômbia, mais
dois países vão provavelmente integrar essa aliança militar. E com a Venezuela
“tutelada”, a resistência ao imperialismo americano ficará praticamente
reduzida ao Brasil e México, considerando Cuba um caso à parte.
Os
principais desafios são a redução das desigualdades sociais, o controle
democrático sobre o poder econômico, a regulação das plataformas digitais, o
combate à desinformação, a ampliação da participação cidadã e a proteção do
meio ambiente. Sem respostas para esses problemas, a confiança popular nas
instituições tende a diminuir, e o apoio à extrema direita tende a aumentar.
Também será necessário redefinir a relação entre economia e política. Uma
democracia efetiva exige que os cidadãos possam influenciar decisões que afetam
suas vidas. Quando os mercados financeiros e as grandes corporações adquirem
poder excessivo, a soberania popular fica enfraquecida.
A crise
contemporânea da democracia revela uma tensão crescente entre os princípios
democráticos e as dinâmicas do capitalismo, principalmente em sua globalizada
vertente financeira. Embora durante décadas tenha predominado a ideia de que
capitalismo e democracia avançariam juntos, a experiência recente mostra que o
capitalismo passou a preferir formas autoritárias de poder.
O
enfraquecimento das instituições democráticas, a concentração de riqueza, a
influência crescente dos grandes grupos econômicos e a ascensão de governos
autoritários sugerem que o capitalismo contemporâneo pode dispensar a
democracia e apoiar ditaduras de extrema direita. O desafio do século XXI
consiste em reconstruir instituições capazes de subordinar a economia aos
interesses da sociedade e preservar os valores democráticos diante das pressões
do mercado e das tendências autoritárias.
O
futuro da democracia dependerá, em grande medida, da capacidade das sociedades
de enfrentar essa tensão e de reafirmar a primazia da cidadania sobre o poder
econômico. Para isso, será necessário buscar novas utopias sinalizando
esperanças para o futuro, como é o caso, hoje, do ecossocialismo.
Fonte:
A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário