Atendimentos
por glaucoma quase dobram no Brasil em 10 anos; doença avança sem sintomas e
pode causar cegueira
A alta
silenciosa do glaucoma no Brasil tem ampliado o alerta de especialistas para a
importância do diagnóstico precoce. Entre 2015 e 2025, os registros de
atendimentos ambulatoriais para tratar a doença praticamente dobraram no país,
com aumento de 99,5%, segundo dados do Ministério da Saúde.
Dados
da pasta indicam ainda que os as internações por glaucoma de ângulo aberto (o
mais comum) aumentaram em 238,3% no mesmo período.
Considerada
uma das principais causas de cegueira irreversível, a enfermidade costuma
evoluir sem sintomas nas fases iniciais e pode comprometer de forma definitiva
a visão quando não é identificada e tratada a tempo.
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O que é o glaucoma e por que ele pode causar cegueira
Apesar
de ser frequentemente associado ao aumento da pressão ocular, o glaucoma é, na
verdade, uma doença do nervo óptico. A diretora da Sociedade Brasileira de
Oftalmologia, Maria Vitória Moura Brasil, explica que a doença é de uma
neuropatia óptica crônica e progressiva, em que o aumento da pressão
intraocular funciona como o principal fator de risco para o dano ao nervo.
Quando
a pressão dentro do olho aumenta, as fibras que formam o nervo óptico podem ser
destruídas gradualmente. Como consequência, ocorre perda visual progressiva,
geralmente começando pela visão periférica.
O
problema é que essa perda costuma passar despercebida durante anos. Na maior
parte dos casos, o paciente só percebe alterações quando a doença já atingiu
estágio avançado, com comprometimento importante do campo visual.
“O dano
causado ao nervo óptico é irreversível. O que foi perdido não pode ser
recuperado”, alerta a especialista.
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Doença silenciosa é a forma mais comum
O
glaucoma é dividido em dois grandes grupos:
• glaucoma de ângulo aberto: mais
frequente e caracterizado pela evolução lenta e silenciosa. Nesse caso, a
drenagem do líquido interno do olho torna-se ineficiente, favorecendo a
elevação gradual da pressão ocular. A perda visual progride sem provocar sintomas
perceptíveis nas fases iniciais.
• glaucoma de ângulo fechado: pode se
manifestar de forma mais aguda. Quando ocorre um bloqueio repentino da drenagem
do líquido ocular, a pressão aumenta rapidamente e pode provocar sintomas como
dor ocular, visão embaçada e percepção de halos ao redor das luzes. Esse tipo
pode evoluir rapidamente e apresentar crises agudas com dor intensa,
vermelhidão, náuseas e queda súbita da visão.
Além da
forma primária, o glaucoma também pode ser secundário a outras condições, como
múltiplas cirurgias oculares, inflamações crônicas, diabetes e doenças
sistêmicas.
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Casos aumentam com o envelhecimento da população
Dados
do Ministério da Saúde mostram que os atendimentos ambulatoriais relacionados
ao glaucoma primário de ângulo aberto passaram de 2.118.490 em 2015 para
4.226.682 em 2025. Já os registros de glaucoma primário de ângulo fechado
cresceram de 52.731 para 112.643 no mesmo período, alta de 113,6%.
O
ministério esclarece que esses números correspondem ao total de atendimentos
realizados e não ao número de pessoas, já que um mesmo paciente pode ser
atendido mais de uma vez.
De
acordo com a oftalmologista do Instituto de Assistência Médica ao Servidor
Público Estadual de São Paulo (Iamspe) Denise Salvalaggio, o aumento acompanha
o envelhecimento populacional e a ampliação do acesso aos serviços de saúde. As
campanhas de conscientização também têm contribuído para que mais pessoas
recebam o diagnóstico precocemente.
A
prevalência da doença aumenta com a idade e a incidência tende a ser maior após
os 40 anos. Embora existam casos na infância e na juventude, é nessa faixa
etária que os especialistas recomendam atenção redobrada.
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Diagnóstico depende de consultas regulares
Como o
glaucoma costuma ser assintomático, o exame oftalmológico de rotina é
considerado a principal ferramenta para identificar a doença.
Durante
a consulta, o médico avalia o fundo de olho para analisar o aspecto do nervo
óptico e mede a pressão intraocular. Caso haja suspeita, exames complementares
podem ser solicitados, como campo visual, tomografia de coerência óptica e
avaliação da córnea.
Segundo
a médica Moura Brasil, esses exames estão disponíveis no sistema de saúde e são
fundamentais tanto para confirmar o diagnóstico quanto para acompanhar a
progressão da doença.
A
recomendação é que a população realize consultas oftalmológicas periódicas,
especialmente após os 40 anos. Pessoas com histórico familiar de glaucoma,
diabetes, uso prolongado de corticoides, hipertensão ou trauma ocular devem
iniciar o acompanhamento o quanto antes.
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Tratamento controla a doença, mas não reverte danos
Embora
não tenha cura, o glaucoma pode ser controlado quando diagnosticado
precocemente.
O
objetivo do tratamento é reduzir a pressão intraocular para impedir ou retardar
a progressão do dano ao nervo óptico. Para isso, podem ser utilizados colírios,
procedimentos a laser ou diferentes técnicas cirúrgicas, dependendo do tipo e
da gravidade da doença.
“O
paciente precisa entender que o glaucoma tem controle. Com diagnóstico precoce
e tratamento adequado, é possível preservar a visão e manter uma vida normal”,
afirma a diretora da Sociedade Brasileira de Oftalmologia.
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Impactos vão além da perda visual
A
campanha Maio Verde 2026, promovida pela Sociedade Brasileira de Glaucoma,
destaca que os efeitos da doença ultrapassam a visão.
Segundo
a entidade, a perda progressiva do campo visual pode dificultar atividades como
dirigir, ler, subir escadas, manter o equilíbrio e realizar tarefas domésticas
de forma independente.
Dados
reunidos pela campanha apontam que pacientes com glaucoma apresentam risco
aumentado de quedas, lesões e acidentes de trânsito. Além disso, a doença está
associada a impactos emocionais importantes: entre 19% e 25% dos pacientes
apresentam quadros de depressão, 25% convivem com ansiedade e 47% relatam
distúrbios do sono.
A
principal mensagem dos especialistas é que o diagnóstico precoce continua sendo
a melhor estratégia para preservar não apenas a visão, mas também a autonomia,
a segurança e a qualidade de vida dos pacientes.
Fonte:
g1

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