Lula
e o “home-office” de Neymar
Pronto!
Se era esse o incentivo que o craque Neymar e seus companheiros de seleção
brasileira precisavam para se motivarem pessoalmente,jogarem um futebol melhor
do que vêm apresentando e ganharem a Copa do Mundo,que façam bom uso da piada
que o presidente Lula sobre o sistema “home-office”que o jogador do Santos tem
cumprido há algum tempo. Mesmo não tendo mentido,Lula poderia ter perdido essa
piada e evitado oferecer munição a seus odiadores.Já que estamos falando de
futebol, eu diria que Lula deu um passe errado e acabou armando um contra
ataque perigoso para o time adversário. E a extrema-direita – que costuma cair
na área e pedir pênaltis inexistentes - já está se aproveitando do “vacilo”
para jogar mais lenha na fogueira da polarização política no país.
Lula
errou na piada, mas não cometeu nenhum crime ao fazê-la. Como presidente da
República, ele sabe que tudo o que ele disser terá um peso maior para a opinião
pública. Portanto, deveria se policiar um pouco mais nas falas de improviso.
Obviamente que, tendo ele ironizado um jogador que, além de ser o principal
talento do futebol brasileiro nos últimos 15 anos – gostemos ou não de sua
figura – ainda é apoiador declarado da família Bolsonaro, as reações do outro
lado seriam imediatas e, para variar, desproporcionais à piada feita por ele.
Insisto que Lula não deveria ter feito a piada, e defendo que Neymar não
precisava ouvi-la porque nem deveria ter sido convocado para a Copa. Estamos
falando de um quase ex-jogador em atividade, que não consegue fazer três jogos
seguidos sem precisar ficar uns vinte se recuperando fisicamente.
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Vale
lembrar que Neymar já tinha virado piada mundial na Copa da Rússia, em 2018,
devido ao seu corte de cabelo estilo “arara amarela” e aos seus intermináveis
rolamentos no gramado após sofrer uma falta. Naquele ano, o jogador estava em
sua primeira temporada pelo Paris Saint-Germain, da França, de onde sairia -
também como piada - em 2023, com torcedores do clube francês festejando a sua
partida estendendo uma faixa no estádio Parque dos Príncipes com os dizeres:
"Neymar: Finalmente nos livramos do malcriado". Porém, o nosso craque
incompreendido, que sempre tem uma desculpa para justificar os seus atos, rumou
para a Arábia Saudita a fim de provar que a torcida do PSG havia sido ingrata
com ele. Lá chegando, se deparou com o técnico português Jorge Jesus, conhecido
pelo seu temperamento “linha dura” e sua língua sem papas. Para tristeza de
Neymar, o Jesus encontrado não era o mesmo que ele gosta de exibir 100% na
faixa que costuma usar na cabeça, e o menino “trintão”, que imaginava ter
chegado ao céu para ficar em repouso engordando ainda mais a sua conta
bancária, foi lançado ao inferno da rejeição e dispensado pelo Jesus que não
perdoa, sob a avaliação de que ele não tinha condições físicas para jogar num
alto nível de intensidade.
Jesus
pagou o preço por ter revelado as reais condições físicas do craque brasileiro
e foi pregado na cruz pelo pai de Neymar, que teria interferido na contratação
do treinador português pela CBF, temendo que seu filho nunca mais fosse
convocado para a seleção brasileira. Sob os gritos de “Ancelotti!”, o
ex-técnico do Flamengo viu o seu sonho de treinar a nossa seleção ser
sepultado, sem esperanças de ressurreição no terceiro dia. Neymar, uma vez
mais, sai como vítima de uma história que ele sempre consegue manter mal
contada. Lula não é nem o Jesus português, nem o Jesus Salvador, mas pode ter
atraído para si uma pesada cruz composta por alguns milhões de brasileiros
apaixonados por futebol e defensores de Neymar, que, inevitavelmente, irão
politizar a piada feita por ele, esquecendo-se de um certo presidente que fez
piadas muito piores e com coisas muito mais sérias do que ironizar um jogador
de futebol que não joga, de fato.
Se Lula tivesse feito piada com pessoas
morrendo por falta de ar em meio a uma pandemia que vitimou letalmente
setecentas mil pessoas, muita gente se sentiria menos ofendida e mais
representada. Afinal, nem se compara chamar de “maricas” milhões de cidadãos e
cidadãs assolados pelo medo de uma contaminação por um vírus letal, com ferir o
ego de um jogador em plena decadência física e técnica, mas que muitos
acreditam que pode trazer o tão sonhado hexacampeonato mundial para o país. O
fato é que Lula, mesmo tendo sido imprudente na piada, mais uma vez pode ajudar
o país a ter uma conquista importante. Caso Neymar e os demais jogadores se
unam para responder a ele dentro de campo, mostrando que não foram para a Copa
do Mundo para servirem de chacota e trazendo a taça para o Brasil, sua piada
terá sido uma bela assistência para a conquista do título. Caso Neymar não
consiga jogar e seus companheiros também não consigam compensar a sua ausência
dentro de campo, Lula terá desmascarado mais uma grande farsa neste país de
tantos ídolos e mitos que não passam de uma piada.
• A Copa da festa e a da hipocrisia. Por
Luís Delcides
Uma
bela aula de política, como diz a Susana Botár, durante a sua fala no DCM da
última terça-feira. Na última segunda-feira o Irã, após o empate de 2 x 2
contra a Nova Zelândia em seu jogo de estreia na Copa do Mundo, o capitão da
equipe Mehdi Taremi e o auxiliar-técnico Saide Alhouei foram retidos e não
puderam embarcar com o restante da delegação, conforme informações do site
Banda B.
“Não há
motivos para esse tipo de prática, é pura cretinice… São jogadores
profissionais, atletas e não há razão para tratamento discriminatório…(…), é
uma atitude antidiscriminatória, antiesportiva e o Irã está num momento de
assinatura de acordo… (…) É injusta por si só… É pra desestabilizar os
jogadores na copa…” enfatiza Susana Bótar no DCM desta terça-feira, 16/06.
Ao
mesmo tempo da multiplicidade de países representados, jogos diversos e algumas
estreias de muita luta, há impedimentos. Cães farejadores revistando bagagens
dos jogadores uruguaios, jornalistas revistados de forma humilhante – caso da
Karine Alves, ao passar por abordagem constrangedora pela polícia imigratória
nos Estados Unidos.
E como
fica, defensor da liberdade de expressão? Como faz para aquele que vem com o
argumento: “Ah, mas as big techs vão dominar o mundo e pra quê leis?” – vindo
da boca de uma moça evangélica esse absurdo. Opa, vamos contar até 10 e pensar
um pouco nesse absurdo vivenciado em 25 anos de um jovem século estranho?
Desse
modo, é necessário colocar os olhos na literatura, especialmente em Albert
Camus, em “O Estrangeiro”. Na segunda parte do livro, o fio condutor da
história traz a história da prisão e de inúmeras vezes que foi interrogado.
Logo, tratava-se de interrogatórios de identidade, onde se pergunta nome,
morada, profissão e local de nascimento.
Já,
James Hillman, em “o Código do Ser” compreende sobre a necessidade da coragem
para aceitar a coleira apertada. Por mais que os sujeitos ignorem o que
perturba, a mente é a ultima faculdade a ceder onde há um cabo de guerra entre
o chamado do coração e o plano da mente.
Assim,
é a Copa do Mundo 2026. Sim, é o cabo de guerra entre o chamado do coração –
torcer, festejar, comprar ingredientes para preparar petiscos e receber os
amigos – e o plano da mental diante da hipocrisia do ocidente, do duplo padrão
seletivo ao classificar negros, latinos e árabes como suspeitos, terroristas.
Ao
trazer a compreensão de Byung Chul-Han em “Capitalismo e impulso de morte:
ensaios e entrevistas” a globalização elimina todas as diferenças de forma
violenta com o intuito de acelerar a comunicação e a circulação de capital.
Nesse sentido a extrema-direita, se aproveita e venda a ideia de saudade, traz
sensação de medo e cria a “couraça do caráter”, como diz Wilheim Reich, em
“Análise do Caráter”.
A
colonização juntamente com a extrema-direita iguala tudo, reduz ao mesmo nível
e monetiza o mundo. Para Byung Chul-Han, a singularidade do outro perturba o
contexto global imposto na cabeça das pessoas. A supremacia do contexto global
reage com nacionalismo, regionalismo e provincialismo.
Enquanto
isso, a solidão do jogador que deixa a sua casa, família para jogar em um país
desconhecido e ser tratado com um “pacote” suspeito. É o jogador Uruguaio, em
vez do perfume da esposa, o suor da camisa e o odor do cachorro, deu-se lugar a
revista humilhante pela polícia migratória.
Sim, a
Copa continua. No entanto, é o ajuntamento do cheiro do preconceito, a
xenofobia, ou para Byung Chul-Han o conformismo – que ao mesmo tempo exige-se
uma autenticidade vã se dá lugar a supressão da estrangeridade, onde esta se
coloca como obstáculo às trocas de capital e informação. É a maior festa da
terra com nítidos sinais de hipocrisia.
Fonte:
Por Ricardo Nêggo Tom, em Brasil 247/Outras Palavras

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