quinta-feira, 25 de junho de 2026

Lula e o “home-office” de Neymar

Pronto! Se era esse o incentivo que o craque Neymar e seus companheiros de seleção brasileira precisavam para se motivarem pessoalmente,jogarem um futebol melhor do que vêm apresentando e ganharem a Copa do Mundo,que façam bom uso da piada que o presidente Lula sobre o sistema “home-office”que o jogador do Santos tem cumprido há algum tempo. Mesmo não tendo mentido,Lula poderia ter perdido essa piada e evitado oferecer munição a seus odiadores.Já que estamos falando de futebol, eu diria que Lula deu um passe errado e acabou armando um contra ataque perigoso para o time adversário. E a extrema-direita – que costuma cair na área e pedir pênaltis inexistentes - já está se aproveitando do “vacilo” para jogar mais lenha na fogueira da polarização política no país.

Lula errou na piada, mas não cometeu nenhum crime ao fazê-la. Como presidente da República, ele sabe que tudo o que ele disser terá um peso maior para a opinião pública. Portanto, deveria se policiar um pouco mais nas falas de improviso. Obviamente que, tendo ele ironizado um jogador que, além de ser o principal talento do futebol brasileiro nos últimos 15 anos – gostemos ou não de sua figura – ainda é apoiador declarado da família Bolsonaro, as reações do outro lado seriam imediatas e, para variar, desproporcionais à piada feita por ele. Insisto que Lula não deveria ter feito a piada, e defendo que Neymar não precisava ouvi-la porque nem deveria ter sido convocado para a Copa. Estamos falando de um quase ex-jogador em atividade, que não consegue fazer três jogos seguidos sem precisar ficar uns vinte se recuperando fisicamente.

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Vale lembrar que Neymar já tinha virado piada mundial na Copa da Rússia, em 2018, devido ao seu corte de cabelo estilo “arara amarela” e aos seus intermináveis rolamentos no gramado após sofrer uma falta. Naquele ano, o jogador estava em sua primeira temporada pelo Paris Saint-Germain, da França, de onde sairia - também como piada - em 2023, com torcedores do clube francês festejando a sua partida estendendo uma faixa no estádio Parque dos Príncipes com os dizeres: "Neymar: Finalmente nos livramos do malcriado". Porém, o nosso craque incompreendido, que sempre tem uma desculpa para justificar os seus atos, rumou para a Arábia Saudita a fim de provar que a torcida do PSG havia sido ingrata com ele. Lá chegando, se deparou com o técnico português Jorge Jesus, conhecido pelo seu temperamento “linha dura” e sua língua sem papas. Para tristeza de Neymar, o Jesus encontrado não era o mesmo que ele gosta de exibir 100% na faixa que costuma usar na cabeça, e o menino “trintão”, que imaginava ter chegado ao céu para ficar em repouso engordando ainda mais a sua conta bancária, foi lançado ao inferno da rejeição e dispensado pelo Jesus que não perdoa, sob a avaliação de que ele não tinha condições físicas para jogar num alto nível de intensidade.

Jesus pagou o preço por ter revelado as reais condições físicas do craque brasileiro e foi pregado na cruz pelo pai de Neymar, que teria interferido na contratação do treinador português pela CBF, temendo que seu filho nunca mais fosse convocado para a seleção brasileira. Sob os gritos de “Ancelotti!”, o ex-técnico do Flamengo viu o seu sonho de treinar a nossa seleção ser sepultado, sem esperanças de ressurreição no terceiro dia. Neymar, uma vez mais, sai como vítima de uma história que ele sempre consegue manter mal contada. Lula não é nem o Jesus português, nem o Jesus Salvador, mas pode ter atraído para si uma pesada cruz composta por alguns milhões de brasileiros apaixonados por futebol e defensores de Neymar, que, inevitavelmente, irão politizar a piada feita por ele, esquecendo-se de um certo presidente que fez piadas muito piores e com coisas muito mais sérias do que ironizar um jogador de futebol que não joga, de fato.

 Se Lula tivesse feito piada com pessoas morrendo por falta de ar em meio a uma pandemia que vitimou letalmente setecentas mil pessoas, muita gente se sentiria menos ofendida e mais representada. Afinal, nem se compara chamar de “maricas” milhões de cidadãos e cidadãs assolados pelo medo de uma contaminação por um vírus letal, com ferir o ego de um jogador em plena decadência física e técnica, mas que muitos acreditam que pode trazer o tão sonhado hexacampeonato mundial para o país. O fato é que Lula, mesmo tendo sido imprudente na piada, mais uma vez pode ajudar o país a ter uma conquista importante. Caso Neymar e os demais jogadores se unam para responder a ele dentro de campo, mostrando que não foram para a Copa do Mundo para servirem de chacota e trazendo a taça para o Brasil, sua piada terá sido uma bela assistência para a conquista do título. Caso Neymar não consiga jogar e seus companheiros também não consigam compensar a sua ausência dentro de campo, Lula terá desmascarado mais uma grande farsa neste país de tantos ídolos e mitos que não passam de uma piada.

•        A Copa da festa e a da hipocrisia. Por Luís Delcides

Uma bela aula de política, como diz a Susana Botár, durante a sua fala no DCM da última terça-feira. Na última segunda-feira o Irã, após o empate de 2 x 2 contra a Nova Zelândia em seu jogo de estreia na Copa do Mundo, o capitão da equipe Mehdi Taremi e o auxiliar-técnico Saide Alhouei foram retidos e não puderam embarcar com o restante da delegação, conforme informações do site Banda B.

“Não há motivos para esse tipo de prática, é pura cretinice… São jogadores profissionais, atletas e não há razão para tratamento discriminatório…(…), é uma atitude antidiscriminatória, antiesportiva e o Irã está num momento de assinatura de acordo… (…) É injusta por si só… É pra desestabilizar os jogadores na copa…” enfatiza Susana Bótar no DCM desta terça-feira, 16/06.

Ao mesmo tempo da multiplicidade de países representados, jogos diversos e algumas estreias de muita luta, há impedimentos. Cães farejadores revistando bagagens dos jogadores uruguaios, jornalistas revistados de forma humilhante – caso da Karine Alves, ao passar por abordagem constrangedora pela polícia imigratória nos Estados Unidos.

E como fica, defensor da liberdade de expressão? Como faz para aquele que vem com o argumento: “Ah, mas as big techs vão dominar o mundo e pra quê leis?” – vindo da boca de uma moça evangélica esse absurdo. Opa, vamos contar até 10 e pensar um pouco nesse absurdo vivenciado em 25 anos de um jovem século estranho?

Desse modo, é necessário colocar os olhos na literatura, especialmente em Albert Camus, em “O Estrangeiro”. Na segunda parte do livro, o fio condutor da história traz a história da prisão e de inúmeras vezes que foi interrogado. Logo, tratava-se de interrogatórios de identidade, onde se pergunta nome, morada, profissão e local de nascimento.

Já, James Hillman, em “o Código do Ser” compreende sobre a necessidade da coragem para aceitar a coleira apertada. Por mais que os sujeitos ignorem o que perturba, a mente é a ultima faculdade a ceder onde há um cabo de guerra entre o chamado do coração e o plano da mente.

Assim, é a Copa do Mundo 2026. Sim, é o cabo de guerra entre o chamado do coração – torcer, festejar, comprar ingredientes para preparar petiscos e receber os amigos – e o plano da mental diante da hipocrisia do ocidente, do duplo padrão seletivo ao classificar negros, latinos e árabes como suspeitos, terroristas.

Ao trazer a compreensão de Byung Chul-Han em “Capitalismo e impulso de morte: ensaios e entrevistas” a globalização elimina todas as diferenças de forma violenta com o intuito de acelerar a comunicação e a circulação de capital. Nesse sentido a extrema-direita, se aproveita e venda a ideia de saudade, traz sensação de medo e cria a “couraça do caráter”, como diz Wilheim Reich, em “Análise do Caráter”.

A colonização juntamente com a extrema-direita iguala tudo, reduz ao mesmo nível e monetiza o mundo. Para Byung Chul-Han, a singularidade do outro perturba o contexto global imposto na cabeça das pessoas. A supremacia do contexto global reage com nacionalismo, regionalismo e provincialismo.

Enquanto isso, a solidão do jogador que deixa a sua casa, família para jogar em um país desconhecido e ser tratado com um “pacote” suspeito. É o jogador Uruguaio, em vez do perfume da esposa, o suor da camisa e o odor do cachorro, deu-se lugar a revista humilhante pela polícia migratória.

Sim, a Copa continua. No entanto, é o ajuntamento do cheiro do preconceito, a xenofobia, ou para Byung Chul-Han o conformismo – que ao mesmo tempo exige-se uma autenticidade vã se dá lugar a supressão da estrangeridade, onde esta se coloca como obstáculo às trocas de capital e informação. É a maior festa da terra com nítidos sinais de hipocrisia.

 

Fonte: Por Ricardo Nêggo Tom, em Brasil 247/Outras Palavras

 

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