Brasil
gasta 3 vezes mais após desastres do que em prevenção
Especialistas
costumam defender que o Brasil deveria investir mais e melhor na prevenção de
desastres, especialmente diante do avanço do aquecimento global e da mudança
climática.
Os
números, porém, mostram uma realidade diferente: desde 2012, a União gastou
cerca de três vezes mais com ações de resposta e recuperação – após eventos
como inundações e deslizamentos – do que com medidas para preveni-los.
Segundo
o Painel de Recursos para Gestão de Riscos e Desastres do Tribunal de Contas da
União (TCU), só o governo federal gastou R$ 21,5 bilhões em resposta e
recuperação – categoria que inclui socorro às vítimas, restabelecimento de
serviços e obras de reconstrução de infraestrutura. Já nas ações de prevenção,
que abrigam medidas para evitar ou reduzir os impactos dos desastres, o
investimento foi de R$ 6,8 bilhões.
Numa
auditoria, o TCU também encontrou falhas na política de prevenção, como a falta
de monitoramento e avaliação das ações, o mapeamento insuficiente de áreas de
risco e a existência de 37% de obras inacabadas ou paralisadas.
Com
base nessa análise, em novembro do ano passado, o tribunal emitiu determinações
e recomendações, sobretudo ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento
Regional (MIDR), que abriga a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil
(Sedec).
"O
país ainda opera em modelo predominantemente reativo, voltado à resposta e
reconstrução, em detrimento da prevenção – vertente que, conforme evidências
internacionais, proporciona o maior retorno social e econômico a longo
prazo", avaliou o ministro-relator Walton Alencar Rodrigues.
"Conclui-se que o Brasil ainda não consolidou uma cultura de prevenção
compatível com a frequência e a gravidade dos desastres naturais que o
acometem."
<><>
Redução de pessoas afetadas
Em
resposta, o MIDR argumentou que os dados do painel não capturam todos os
investimentos, gerando um "viés de subestimação da prevenção", uma
vez que estados e municípios também executam ações nessa área. O ministério
afirmou ainda haver diversas medidas em curso para ampliar ações preventivas,
como o Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil, lançado em novembro do ano
passado.
Segundo
o MIDR, o plano "contém 163 metas, pactuadas entre 29 órgãos e entidades
de 15 ministérios, e reflete o compromisso coordenado do Estado brasileiro com
a proteção de sua população, integrando, de forma inédita, políticas de
ordenamento territorial, saúde, meio ambiente, mudanças climáticas, educação,
assistência social e infraestrutura".
Embora
o MIDR afirme haver limitações no painel do TCU, o próprio Plano Nacional de
Proteção e Defesa Civil utilizou os dados do painel para fazer análises e
projeções, ressaltando que ele não reflete todas as ações e políticas públicas
do governo federal sobre desastres.
Numa
simulação, o plano comparou o cenário atual a outro em que os investimentos em
prevenção e mitigação seriam priorizados. Neste caso, haveria uma redução de
44,8% no total de pessoas afetadas por desastres como alagamentos, inundações e
vendavais.
O
documento também recomendou ampliar a prevenção. "Há uma crescente ênfase
na necessidade de investir mais em medidas preventivas e de mitigação, visando
reduzir os riscos e as vulnerabilidades antes que os desastres ocorram, em vez
de focar apenas na recuperação e na resposta durante e após desastres."
<><>
Políticas públicas pós-desastres
"Política
pública no país só se faz pós-desastre, isso é um histórico que ainda não
resolvemos. E a verba pós-desastre é sempre maior do que a verba de prevenção
porque é uma verba muito mais fácil de ser aplicada", analisa a geógrafa
Bianca Carvalho Vieira, da Universidade de São Paulo (USP).
Vieira
liderou um estudo publicado em 2024 na revista científica Journal of Mountain
Science, que analisou as principais políticas públicas para reduzir os
desastres, com foco especial em deslizamentos de terra. A pesquisa concluiu que
leis, programas e órgãos de proteção civil surgiram após eventos catastróficos,
que já haviam causado mortes, desabrigados e prejuízos econômicos bilionários.
Um
exemplo é a criação da primeira Defesa Civil do Brasil, em 1966, no Rio de
Janeiro, após deslizamentos e inundações generalizadas. Também o Centro
Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e a
Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (PNPDEC) surgiram após a tragédia
que atingiu a Região Serrana do Rio de Janeiro e deixou mais de 900 mortos em
2011.
Apesar
do fortalecimento dos instrumentos de gestão de risco nas últimas décadas, as
políticas brasileiras demonstram limitações frente ao cenário climático atual,
concluiu o estudo. "A destruição e as perdas resultantes das catástrofes
mais recentes no Brasil permanecem consideráveis e, em inúmeros casos,
irreparáveis, ressaltando deficiências e desafios críticos tanto na
implementação quanto na prestação de contas dessas políticas."
Na
análise da professora, uma das principais limitações é a falta de recursos
humanos nas Defesas Civis. Muitos municípios não têm mapas de suscetibilidade e
de risco, enquanto outros, mesmo com esses instrumentos, veem o avanço de
habitações em áreas vulneráveis, além de enfrentarem escassez de pessoal para
monitoramento.
Esse
cenário dificulta a preparação para fenômenos como o El Niño, que pode causar
eventos extremos como chuvas, secas e incêndios. "Não nos preparamos para
o El Niño. Ele vai chegar com força total, nossas áreas de risco continuam
crescendo. Agora é trabalhar no sentido de reduzir o número de vítimas fatais.
É tocar a sirene, retirar a população em tempo hábil, porque não nos
preparamos", afirmou Vieira.
Segundo
o MIDR, a Sedec coordena ações de preparação e monitoramento do El Niño, em
articulação com estados, municípios e órgãos técnicos, além de ampliar sistemas
de alerta e realizar exercícios para cenários críticos.
<><>
A cheia no Rio Grande do Sul
"O
desastre de 2024 no Rio Grande do Sul revelou a profundidade de um problema que
se prolonga e a distância entre o que se sabe que deve ser feito e o que
efetivamente é feito." A frase faz parte do estudo Gestão Pública,
Governança e Riscos de Desastres no Brasil, publicado em junho deste ano pelo
Centro de Direitos Humanos e Empresas (CeDHE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
O
estudo avaliou a articulação entre União, governo estadual e municípios (Porto
Alegre, Canoas e Eldorado do Sul) no caso das inundações e deslizamentos que
deixaram 185 mortos e 23 pessoas desaparecidas.
"O
que as entrevistas desta pesquisa revelaram e o que o painel de especialistas
confirmou e aprofundou é que a crise expôs falhas pré-existentes, silenciosas,
acumuladas ao longo de anos de escolhas institucionais e omissões sistemáticas.
Relatos apontam que não há falta de instrumento jurídico no Brasil, mas de
execução."
O
coordenador do CeDHE, Thiago dos Santos Acca, avalia que é necessário mudar a
lógica. "Enquanto ficar só investindo em resposta ao desastre, vamos ficar
enxugando gelo. Porque vai ter um desastre, vão reconstruir a ponte, amanhã vai
ter outro desastre, a ponte vai cair. Precisa ter recursos para prevenção, ter
pessoas capacitadas que possam pensar em prevenção."
O
estudo aponta falhas de coordenação, falta de recursos para prevenção e
dificuldades para proteger populações vulneráveis. Para enfrentar esses
problemas, os pesquisadores defendem mais planejamento territorial, mapeamento
de riscos e uso de evidências científicas.
Na
visão do coordenador, um dos pontos para ser melhorado é a relação com a
sociedade civil. "Uma reclamação muito forte das pessoas que entrevistamos
foi a falta de participação", disse. "Precisamos criar instrumentos
formais para que as pessoas possam participar e colocar sua opinião. E que ela
seja considerada."
A
análise do TCU também mostrou que os investimentos da União em prevenção de
desastres no Rio Grande do Sul, entre 2012 e 2024, tiveram uma contribuição
limitada para enfrentar as enchentes históricas. O tribunal destacou que essa
fragilidade aumentou a vulnerabilidade da população e reduziu a resiliência dos
municípios gaúchos.
O TCU
identificou, por exemplo, que quatro termos de compromisso firmados em 2012
para estudos e projetos nas bacias dos rios Jacuí, Gravataí e Sinos, no valor
de R$ 39,4 milhões, não foram concluídos após mais de uma década. "Esses
estudos eram o passo inicial obrigatório para a contratação de obras de grande
porte que poderiam ter mitigado os efeitos das calamidades."
Após o
desastre, segundo o TCU, a previsão de investimento no Rio Grande do Sul é de
R$ 6,5 bilhões.
Fonte:
DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário