Dyepeson
Martins: Flávio Bolsonaro e Zema são aplaudidos por empresários ao criticarem
CLT e leis ambientais
Temas
que dividem bancadas no Congresso Nacional ganharam uma defesa uníssona nas
falas dos pré-candidatos à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL) e
Romeu Zema (Novo), na sabatina de presidenciáveis realizada pela Confederação
Nacional da Indústria (CNI), na segunda-feira (22), em Brasília. Ambos deixaram
o evento sob aplausos após a sinalização de apoio irrestrito aos
posicionamentos dos empresários a respeito da flexibilização de leis
trabalhistas e da legislação ambiental no Brasil.
As
declarações foram realizadas num contexto de fragilização de normas ambientais
e enquanto a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre o fim da Escala 6×1
permanece estagnada no Senado após aprovação na Câmara dos Deputados, em 27 de
maio. A resistência do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), em
avançar na matéria segue os interesses da Indústria a favor de um texto
alternativo que estabeleça um sistema por hora trabalhada a partir da
negociação entre patrão e funcionário.
As
falas dos empresários foram marcadas por críticas do empresariado à política
tributária do governo Lula, ao custo da energia elétrica e às taxas de
financiamento. Não houve, em momento algum, discussões sobre a atuação de casas
de apostas online, as bets, setor apontado pela própria CNI como motor do
endividamento nacional, conforme estudo divulgado pela federação em abril deste
ano.
Além do
senador Flávio Bolsonaro e Romeu Zema, que deixou o governo de Minas Gerais
para concorrer ao Planalto, Ronaldo Caiado (PSD), que renunciou ao cargo de
governador de Goiás para entrar na disputa, participou da sabatina. Os demais
pré-candidatos declinaram do convite da CNI.
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Milei de “exemplo” e a CLT como vilã
As
sabatinas ocorreram separadamente, sem qualquer encontro entre os
pré-candidatos. O primeiro a subir ao palco foi Romeu Zema. Ele abordou a
experiência como empresário e os “sucessos” que, segundo ele, foram
conquistados à frente do governo mineiro. Além disso, não mediu esforços para
atacar o atual modelo trabalhista adotado no Brasil, sobretudo o regime de
Consolidação de Leis do Trabalho (CLT), assinado por Getúlio Vargas em maio de
1943 diante da pressão nacional por mais direitos estabelecidos em lei.
O
pré-candidato do Novo disse que o Brasil precisa voltar “pelo menos” às
diretrizes da reforma trabalhista aprovada em 2017, no governo de Michel Temer.
A reforma trabalhista nunca foi revogada, mas alguns pontos foram considerados
inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal (STF), como dispositivo que
criava um tabelamento em indenizações por danos morais baseado no salário do
próprio trabalhador.
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Por que isso importa?
• A partir do próximo mês, 20 de julho, os
partidos iniciam a definição dos candidatos para eleições para presidente da
República, senadores, deputados federais, governadores e deputados estaduais;
• Em publicação após a aprovação da PEC
que acaba com a escala 6×1 na Câmara dos Deputados em maio, a CNI afirmou que
considera “inadequado e inoportuno o texto da PEC que reduz a jornada de
trabalho, com reflexos na escala 6×1”.
Desde a
sua promulgação, a Reforma Trabalhista é amplamente criticada por entidades
sindicais por dar brecha à precarização, insegurança e exploração por parte de
empresas. Zema ainda criticou a judicialização de ações na Justiça do Trabalho.
“Nós
temos um lobby aqui do judiciário, não sei de mais onde, que tudo que avança
nesse país é desfeito. Alguém ser demitido e entrar questionando 500 pontos
para ver o que que cola e não ter nenhuma penalidade é quase que ter bilhete de
loteria premiado na mão. (…) Como a CLT, a esquerda morre de amor por ela, nós
vamos deixá-la; e nós teremos uma opção para a CLT. Regime de trabalho por
hora. Isso vai formalizar milhões de brasileiros que hoje não conseguem
contrato de trabalho formal”, afirmou.
Flávio
Bolsonaro foi o segundo a ser sabatinado e iniciou a apresentação de propostas
com o discurso de “prosperidade”, narrativa adotada por figuras da mesma esfera
ideológica, como o presidente da Argentina, Javier Milei. As relações
diplomáticas e econômicas entre Argentina e EUA foram comparadas pelo
pré-candidato pelo PL com as brasileiras. “Olha a diferença [de importância]
que os EUA dão ao Brasil com o que eles fazem na Argentina”. Mesmo com o apoio
do presidente americano, Donald Trump, Milei enfrenta desaprovação de 64,5% dos
argentinos em meio a taxa de desemprego de 7,8% e casos de corrupção na gestão.
“Vamos
garantir que as pessoas possam ter creches, onde seus filhos vão ser tratados e
bem cuidados, de preferência perto das suas residências. Muitas mães que hoje
não conseguem trabalhar por ter uma escala de trabalho enrijecida, travada,
[poderiam] ter liberdade para montar sua própria jornada de trabalho e ter onde
deixar seus filhos”, afirma o senador.
Flávio
ainda propôs suspender a atual reforma tributária, embora a Indústria tenha
atuado em favor da aprovação da proposta no Congresso. Conforme o
pré-candidato, a suspensão seria uma estratégia para revisar e reduzir ainda
mais a carga de tributos ao longo dos anos e, assim, criar uma “agenda
negativa” para reduzir o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) a 20%.
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Ataque à comunidade e defesa de exploração em territórios
Mesmo
com a aprovação e sanção da nova Lei de Licenciamento Ambiental, criticada por
ambientalistas e entidades do setor, os três participantes do evento defenderam
ainda mais flexibilização no processo de autorização e fiscalização de
empresas. Em 27 de novembro de 2025, o Congresso Nacional derrubou 52 dos 63
vetos presidenciais que tentavam dificultar a fragilização do processo de
autorização de empreendimentos. Um dos pontos mais polêmicos, foi a derrubada
do veto que impedia o licenciamento simplificado a projetos de médio potencial
poluidor, como as barragens de Brumadinho e Mariana.
Como
exemplo do que mudaria, se eleito, Zema citou as interferências do Judiciário
em defesa de comunidades tradicionais para a construção do rodoanel na região
metropolitana de Belo Horizonte. A licença concedida ao governo mineiro para a
obra foi suspensa pela Justiça Federal, em outubro de 2025, após ação da
Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais sobre
territórios potencialmente afetados pelo empreendimento.
“A obra
está parada porque uma comunidade que se diz, mas não é tradicional, precisa se
manifestar e não se manifesta. Mais de um ano de atraso. O que nós temos que
mudar no Brasil é principalmente essa questão que atrasa grandes projetos”,
pontuou.
Flávio
também citou povos tradicionais e defendeu a exploração de terras indígenas.
Além disso, o pré-candidato criticou a atuação de órgãos ambientais, como o
Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO).
“Vamos
devolver a autonomia para os povos indígenas, para os povos quilombolas, eles
resolvem o que fazem na sua terra e no seu subsolo também. Ibama e ICMBIO: vai
ser necessário cortar praticamente essa burocracia. Tem que acabar com
império”, declarou.
Ao
citar as atuais normas de licenciamento ambiental, Ronaldo Caiado afirmou que
criaram-se “chavões” sobre o agronegócio e que o setor está preocupado com a
preservação do meio ambiente. Ele prometeu “recuperar mananciais e nascentes” e
reforçou que terá os interesses da indústria na agenda presidencial.
“Não
podemos adotar no governo a política do ‘não’. O cidadão que não pode nada tem
dois interesses: ou não quer assumir responsabilidade ou deseja cobrar uma
propina”.
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Mudança climática como questão política. Por Cândido
Grzybowski
Apesar
das evidências, cada vez mais robustas, as direitas autoritárias espalhadas
pelo mundo, com suas diferenças, tem em comum uma sistemática negação da grande
questão da mudança climática no nosso bem comum, o Planeta Terra, como se não
fosse algo fundamentado cientificamente. Atitude semelhante aconteceu com a
pandemia da Covid, que ceifou tantas vidas, e foi definida como uma
“gripezinha”.
Fantasmas
e monstros são algo que a literatura trata até de forma criativa, estimulando a
imaginação. Mas outra coisa é fantasiar um fenômeno, cientificamente
provado, como a mudança do clima, afirmando que é apenas uma ameaça
de ordem política e enganosa, não um processo natural desencadeado pela
ação humana. Isto apesar de que as notícias de eventos climáticos extremos –
temporais, enchentes, ondas de calor insuportáveis – estão presentes em
qualquer parte do mundo, com grandes estragos e perda de vidas humanas. Ou
seja, o clima é um dos grandes sistemas naturais reguladores das condições da
vida na Terra. Mas já afetamos a sua integridade e ultrapassamos os limites. E
sua causa é sobretudo os modos de nos relacionar com a generosidade da
natureza, especialmente a economia extrativista, a energia fóssil, modos de
consumo e vida, com prioridade de carros individuais para a mobilidade,
do capitalismo que temos, a serviço da acumulação de riqueza de uma
parcela minúscula de donos de tudo.
Trago
este tema para reflexão porque ele se tornou algo que turbina o autoritarismo
reacionário, em suas múltiplas modalidades, presente em praticamente todos os
países.[1] Precisamos ter
claro o fato, também evidente e robustamente provado pela ciência, que o
problema é de todos mas de forma diferenciada. Uns são mais responsáveis do que
outros. Ou seja, a mudança climática já ultrapassou o limite e virou uma questão
política de disputa e negação da desigualdade social, não reconhecida como tal
por amplas forças reacionárias e autoritárias, como uma onda mundial, que as
negam e tentam impedir qualquer medida de mitigação ou enfrentamento direto das
questões climáticas.
As
formas sob as quais as direitas pregam a negação da mudança climática tem
muitas expressões, que precisamos levar em consideração nas análises e nas
lutas democráticas. Primeiro, as direitas autoritárias tentam negar a mudança
climática comprovada pela ciência do clima, como se fosse uma agenda
inventada pelas esquerdas. Talvez este esforço de culpar as esquerdas
faça parte de todas as direitas autoritárias em sua diversidade, como se
a ciência climática fosse invenção de esquerdas pelo mundo e não diagnóstico
científico, tentando desqualificar a própria ciência e a capacidade dos
cientistas em diagnosticar as dinâmicas que movem a natureza. Tal negacionismo
impede que se definam agendas políticas de enfrentamento e mudança necessária
nos países, tanto na economia como nos modos de viver insustentáveis.
Mas não
podemos ignorar que as direitas autoritárias, na falta de argumentos mais
robustos para o negacionismo que as orientam – como o lepenismo na França
– até culpam os outros, como os migrantes, que não teriam cuidado com a
natureza do país que os acolhe, pois são nômades, não respeitam o território
que não é deles.
Mas há
ainda as direitas que vem na implementação de medidas contra a mudança
climática como a causa do crescimento da injustiça social e econômica. O melhor
exemplo de tais direitas autoritárias contra mudança climática é a agenda da
direita americana, especialmente com o Trump, com a sua proposta do MEGA – Make
America Great Again.
São
muitas as formas de negar. Com a redes digitais ficou facilitado difundir em
ampla escala com notícias falsas – as fakenews. Por sinal, no
mundo inteiro as direitas agem colonizando as redes digitais, com muito mais
habilidade que as esquerdas democráticas. O caso do Brasil é emblemático, onde
a direita autoritária domina.
Enfim,
não é só pelo voto que poderemos impedir o avanço das extremas direitas.
Disputar hegemonia democrática, hoje, passa necessariamente pelas redes
digitais, com alcance sem igual e muito maior do que qualquer outro veículo,
como televisão, por exemplo. Jornais são menos difusores de notícias
fundadas e mais de artigos de pensadores e analistas de direita.
Concluo
afirmando que a disputa política eleitoral está dependendo cada vez menos de
comícios e mais de quem for mais hábil no pantanoso terreno das mídias
digitais. Devemos enfrentar a questão ambiental do cuidado, compartilhamento e
convivência entre todas e todos e com a natureza, em sua fantástica diversidade
natural e social, dando maior atenção às redes digitais e impedindo
que as direitas autoritárias sejam a referência predominante.
Fonte:
Agência Pública/Sentidos e Rumos

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