quinta-feira, 25 de junho de 2026

Como o crime gera onda de "bukelização" na América Latina

Poucos anos atrás, a chamada "onda rosa" parecia consolidar uma nova hegemonia política na América Latina. Impulsionados pela insatisfação popular com desigualdades agravadas pela pandemia de covid-19, governos de esquerda chegaram ao poder em alguns dos principais países da região, incluindo Brasil, Chile, Colômbia e Peru. Em meados da década, porém, o cenário mudou de forma significativa.

Uma nova onda conservadora avança pelo continente. De Buenos Aires a Bogotá, passando por Santiago, Quito e Lima, candidatos de direita e de perfil populista vêm conquistando espaço ao prometer soluções rápidas para problemas que há décadas desafiam os governos latino-americanos: violência, crime organizado, imigração irregular e crescimento econômico insuficiente.

A eleição do colombiano Abelardo de la Espriella neste domingo (21/06) se tornou o episódio mais recente desse movimento. Uma vitória que confirmou uma tendência já observada em países como Argentina, Chile, Equador e Peru, onde lideranças conservadoras conseguiram capitalizar o descontentamento popular com a situação econômica e a sensação crescente de insegurança.

<><> Segurança pública alimenta guinada

O principal combustível da atual guinada à direita é a segurança pública. Embora a taxa média de homicídios na América Latina tenha diminuído em relação aos níveis registrados uma década atrás, a expansão do crime organizado e o crescimento de delitos como extorsão, sequestros e tráfico de drogas transformaram a segurança na principal preocupação do eleitorado em muitos países.

A natureza do crime também mudou. Organizações criminosas já não dependem apenas do tráfico internacional de cocaína. Hoje controlam minas ilegais, redes de extorsão, rotas migratórias e economias paralelas inteiras em bairros urbanos e regiões periféricas.

No Peru, comerciantes e transportadores enfrentam cobranças sistemáticas de grupos criminosos. No Equador, gangues ligadas a cartéis mexicanos e colombianos desencadearam uma escalada de violência sem precedentes. Na Colômbia, grupos armados continuam ocupando regiões pouco controladas pelo Estado.

Diante desse cenário, propostas de longo prazo defendidas por setores progressistas – como reformas policiais, fortalecimento da Justiça, prevenção da violência e inclusão social – passaram a competir com promessas mais imediatas e de forte apelo popular.

<><> Modelo Bukele

Foi nesse ambiente que Nayib Bukele, presidente de El Salvador, se transformou em modelo para parte da direita latino-americana. Seu combate agressivo às gangues, baseado em prisões em massa e forte militarização da segurança, reduziu drasticamente os índices de violência no país e lhe garantiu índices recordes de aprovação.

Mesmo enfrentando críticas de organizações de direitos humanos, o chamado "modelo Bukele" passou a inspirar candidatos em diversos países da região.

Discursos de campanha apresentando os imigrantes como criminosos e defendendo estratégias rigorosas de segurança popularizadas por Bukele garantiram a candidatos conservadores o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e mobilizaram eleitores descontentes, apesar das preocupações de que essas táticas possam incentivar violações dos direitos humanos ou ameaçar a democracia.

<><> Combate ao crime como bandeira

"Há uma nova direita emergente que colabora intensamente em toda a região e com os Estados Unidos por meio do movimento Maga, que também usa o combate ao crime como bandeira para mobilização política", afirmou Enrique Roig, vice-presidente da organização sem fins lucrativos Human Rights First e ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA. "É mais fácil vender a ideia de prender pessoas do que lidar com as razões pelas quais principalmente jovens ingressam em gangues em países como El Salvador."

Embora o populismo tenha obtido sucesso em diferentes espectros políticos, apenas a direita tem oferecido soluções de curto prazo para a segurança, que fazem os eleitores "se sentirem mais seguros em seis meses", mesmo que isso exija "sacrificar a democracia e os direitos humanos", avalia Adam Isacson, diretor de supervisão de defesa da organização Washington Office on Latin America (Wola).

Segundo ele, propostas da esquerda, como programas comunitários de prevenção da violência, melhor treinamento policial e reformas no sistema judiciário e prisional, levam mais tempo para produzir resultados.

"É exatamente o que deveria ser feito, mas a paciência das pessoas acaba", resalta Isacson sobre as propostas de longo prazo. "Então surgem os Bukeles do mundo dizendo: 'Quer se sentir melhor? Deixe conosco.'"

No Peru, onde os casos de extorsão aumentaram cinco vezes nos últimos cinco anos, Keiko Fujimori avançou rapidamente para o segundo turno presidencial de 7 de junho com uma plataforma baseada em lei e ordem. Ela prometeu empregar as Forças Armadas nas prisões e nas fronteiras, apoiando-se no legado autoritário de seu falecido pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, cuja trajetória permanece controversa.

Na Costa Rica, abalada por níveis recordes de homicídios relacionados ao narcotráfico, os eleitores escolheram, em fevereiro, a populista conservadora Laura Fernández, atraídos por sua plataforma de combate rigoroso ao crime. Em Honduras, o empresário Nasry Asfura venceu as eleições de dezembro após receber o apoio de Trump como aliado na luta contra os chamados "narcocomunistas".

<><> Crime organizado se expande

Segundo a organização InSight Crime, especializada no estudo do crime organizado nas Américas, a taxa média de homicídios na América Latina e no Caribe caiu mais de 5% no último ano em comparação com 2024, atingindo uma média de aproximadamente 17,6 homicídios por 100 mil habitantes.

No entanto, existem exceções importantes. As mortes relacionadas ao narcotráfico aumentaram no Peru e na Colômbia, os maiores produtores de cocaína do mundo, assim como no Equador, cujos principais portos são vistos pelos traficantes como uma porta de entrada para os mercados europeus.

No ano passado, as autoridades registraram 2.400 homicídios no Peru e 14.780 na Colômbia, os maiores números observados em ambos os países desde pelo menos 2020. No Equador, os assassinatos cresceram expressivos 31% em relação ao ano anterior, chegando a 9.216 casos.

Grande parte da violência no Equador é atribuída às gangues criminosas. Durante a pandemia, cartéis do México, da Colômbia e dos Bálcãs ampliaram suas operações no país e recrutaram habitantes locais, desencadeando uma disputa sangrenta pelas rotas do tráfico de drogas. Os confrontos também se estenderam ao sistema prisional, onde centenas de detentos foram mortos desde 2021.

As autoridades equatorianas registraram ainda mais de 16.100 casos de extorsão no ano passado – uma redução em relação aos 23 mil registrados em 2024 – embora especialistas alertem que esse tipo de crime continua amplamente subnotificado.

<><> Oportunidade para os populistas

Há quatro anos, os eleitores chilenos rejeitaram o político ultraconservador José Antonio Kast e elegeram o ex-presidente Gabriel Boric, um jovem ex-líder estudantil que prometia enfrentar as desigualdades sociais históricas do Chile.

No ano passado, porém, o temor diante do aumento da criminalidade – frequentemente associado pela mídia ao crescimento da população de imigrantes venezuelanos – favoreceu Kast e contribuiu para seu retorno ao poder.

À medida que organizações criminosas venezuelanas, como a gangue Tren de Aragua, aproveitaram a onda de migração em massa para expandir suas atividades e se infiltrar em redes de tráfico de pessoas após a pandemia, o Chile, tradicionalmente considerado um dos países mais seguros da América Latina, passou a registrar uma explosão sem precedentes de roubos de veículos, sequestros e tiroteios.

De acordo com o Ministério do Interior chileno, a taxa de homicídios no país aumentou 30%, alcançando o pico de 6,7 por 100 mil habitantes entre 2021 e 2022. Embora tenha diminuído desde então, permanece acima dos níveis anteriores a 2021. Outros crimes violentos continuam em alta, especialmente os sequestros, que cresceram quase 180% nos últimos quatro anos.

Inspirado por Bukele – e após visitar suas megaprisões em El Salvador durante a campanha – Kast derrotou com ampla margem sua adversária de esquerda em dezembro, prometendo construir um grande muro na fronteira, endurecer as condições carcerárias para membros de gangues e deportar centenas de milhares de imigrantes em situação irregular.

Em troca das promessas de segurança, muitos eleitores minimizaram suas posições contrárias ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, bem como sua defesa da ditadura de Augusto Pinochet.

<><> Criminalidade beneficiou Keiko no Peru

No Peru, apesar do legado controverso do condenado Alberto Fujimori, a candidatura de sua filha se beneficiou da escalada da criminalidade violenta, quatro anos após sua derrota para o professor Pedro Castillo.

Com o slogan "Peru com ordem", Keiko Fujimori obteve a maior votação no primeiro turno realizado em abril. Com mais de 99% das urnas apuradas do segundo turno, realizado em 7 de junho, ela tinha ligeira vantagem sobre Roberto Sánchez, herdeiro político do preso Pedro Castillo, de cerca de 40 mil votos.

Especialistas afirmam que o apetite popular por medidas rígidas – historicamente associadas às ditaduras de direita do século 20 na região – cresceu à medida que diminuía a confiança da população nas instituições estatais e aumentava a insatisfação com a democracia.

<><> Desafio para a esquerda

"O raciocínio costuma ser: 'a democracia não conseguiu manter minha família e eu seguros, então talvez a própria democracia seja parte do problema'", afirmou Eduardo Moncada, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Columbia.

Isso representa um desafio significativo para a esquerda latino-americana, que em muitos países tem enfrentado economias estagnadas, escândalos de corrupção e dificuldades para cumprir promessas de reforma social.

Até mesmo políticos progressistas, como Jeannette Jara, no Chile, e Roberto Sánchez, no Peru, adaptaram seus discursos ao novo contexto político. O presidente uruguaio Yamandú Orsi descreveu o modelo de Bukele como um exemplo digno de estudo. Já o governo de centro-esquerda da Guatemala decretou estado de emergência para combater a violência das gangues e recebeu apoio da administração Trump no combate ao narcotráfico.

<><> Teste da realidade no Equador

Mas as ambições linha-dura dos governantes recém-eleitos têm esbarrado nas dificuldades práticas de administrar democracias complexas e com limitações orçamentárias, como Equador e Chile. Esses países diferem bastante de El Salvador, onde o partido de Bukele possui ampla maioria no Legislativo.

Durante sua campanha de 2023, o presidente equatoriano Daniel Noboa prometeu prender líderes de gangues em prisões flutuantes e construir megaprisões. Após assumir o cargo, abandonou a proposta das embarcações-prisão, e seu governo levou até novembro para inaugurar a primeira megaprisão.

"Construir megaprisões não tem sido tão simples nem tão direto porque o país atravessa uma situação financeira muito difícil e porque Noboa ainda se vê como um democrata", explica Beatriz García Nice, analista de políticas públicas do centro de pesquisa Stimson Center.

<><> Desgaste de Kast no Chile

No Chile, o governo de José Antonio Kast já enfrenta desgaste diante da dificuldade de cumprir promessas de deportações em massa e soluções rápidas para a criminalidade. Quase três meses após a sua posse, pesquisas indicam que uma parcela cética da população não percebe grandes diferenças entre sua política de segurança e a de seu antecessor de esquerda.

Seu governo realizou apenas dois voos de deportação, apesar de ter prometido deter e expulsar imediatamente mais de 300 mil imigrantes sem status legal. Além disso, seu discurso tornou-se mais moderado. No mês passado, ele foi alvo de críticas ao afirmar que a promessa de deportação em massa era apenas "uma metáfora".

Mesmo ao anunciar novas medidas de segurança em um discurso realizado em 1º de junho – incluindo a proibição de benefícios sociais para condenados por agressão a policiais – Kast procurou reduzir as expectativas de seus apoiadores.

"Governar, como muitos de vocês sabem, significa assumir responsabilidade diante da realidade, especialmente quando ela é difícil", declarou. "Estou avançando passo a passo porque isso não é algo que acontece da noite para o dia."

<><> Déficits descambam em protestos

Líderes de direita na Argentina, Chile, Peru e Colômbia ganharam apoio com promessas de cortes de impostos, redução do tamanho do governo e flexibilização das regras para mineração e combustíveis fósseis. No entanto, muitos enfrentam déficits orçamentários, o que os obriga a implementar cortes de gastos impopulares que têm provocado protestos.

A Bolívia declarou estado de emergência neste fim de semana e começou a remover bloqueios que haviam paralisado o país por mais de 50 dias, enquanto sindicatos e outros grupos protestavam contra as medidas de austeridade adotadas pelo presidente de centro-direita Rodrigo Paz.

No Chile, o índice de aprovação de Kast despencou após a guerra com o Irã que levou seu governo a aumentar os preços dos combustíveis, enquanto as medidas de austeridade do presidente argentino Javier Milei têm sido recebidas com protestos recorrentes.

<><> Desafios de segurança continuam

Os desafios de segurança persistem, apesar das promessas de combate rigoroso ao crime. No Equador, os homicídios aumentaram 30% no ano passado, e o governo de Noboa atribuiu o aumento às disputas territoriais entre facções criminosas dissidentes que competem pelo controle.

Os homicídios também cresceram na Costa Rica sob o governo do populista de direita Rodrigo Chaves. Sua sucessora, Laura Fernández, prometeu uma guerra contra o crime, mas os índices de homicídio continuam elevados, à medida que o pequeno país da América Central se tornou um importante ponto de trânsito para a cocaína sul-americana destinada aos Estados Unidos e à Europa.

Na Colômbia, Abelardo de la Espriella assume um país marcado pela presença de grupos armados, economias ilegais e profundas divisões políticas. Sua vitória apertada e um Congresso fragmentado indicam que a implementação de uma agenda de mudanças encontrará obstáculos significativos.

O mesmo desafio vale para o Peru, onde Keiko Fujimori, caso confirmada sua vitória, chegaria ao poder prometendo restaurar a ordem em um país cada vez mais impactado pela violência e pela instabilidade institucional.

 

Fonte: DW Brasil

 

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