Richard
Miskolci: O cerco ao pluralismo na universidade
Na USP,
uma professora de ciência política encontrou seu carro vandalizado com a frase
“Fora nazistas” pelo simples fato de portar um adesivo com a bandeira da
Ucrânia. Na UFSCar, um professor foi exposto nas redes sociais e teve o veículo
riscado com xingamentos após explicar a uma aluna as origens e as diferentes
vertentes do feminismo: marxista, liberal e anarquista.
Na
UFPE, uma professora do curso de cinema se deparou com seu carro riscado de
ponta a ponta e com manifestantes portando cartazes chamando-a de criminosa. A
situação tornou-se insustentável até que ela se transferiu para outro curso. Na
mesma instituição, um professor de filosofia tornou-se alvo de ameaças de morte
e pichações em seu gabinete, como “Stalin matou foi pouco”, e foi forçado a
instalar grades de ferro em sua própria sala e a circular pelo campus sob
escolta da guarda universitária.
Esses
exemplos não são isolados, mas parte de um fenômeno maior. Investigação
conduzida por pesquisadores da UFF, USP e UFPR já catalogou mais de 120 casos
semelhantes (Daflon et alli, 2026). Os dados revelam que as vítimas incluem não
apenas professores, mas também técnicos, funcionários terceirizados e
estudantes. Na UFOP, em 2022, estudantes do curso de medicina que participaram
de uma festa à fantasia vestidos como a turma do desenho animado “A corrida
maluca” foram denunciados por suposto black face e terminaram suspensos, alguns
desistindo da universidade.
A
análise dos conflitos mostra que eles não cabem sempre na divisão entre
esquerda e direita e sim na oposição entre democracia e autoritarismo. Apesar
disso, tornou-se um tabu evocar casos como estes. Tem-se argumentado que tais
embates seriam uma parte inevitável da democratização do acesso ao ensino
superior e que os denunciar seria uma reação contra políticas de inclusão. O
que estabelece uma associação preconceituosa entre diversidade e violência
porque presume que ela explicaria ou justificaria ataques a membros da
universidade.
Afastada
a questionável tese de que esses conflitos seriam inevitáveis e explicados pela
maior diversidade dos seus quadros atuais, resta explorar outras, ancoradas na
realidade material e nas disputas políticas que têm moldado as instituições.
Como
patrimônio da sociedade brasileira, as universidades públicas estão sob um
escrutínio crescente, especialmente à medida que mais jovens alcançam o ensino
superior. No entanto, o cenário é de desigualdades: dos cerca de 10 milhões de
estudantes universitários no país, mais da metade está no ensino a distância e
cerca de 80% em instituições privadas. Isso faz com que as universidades
públicas e o ensino presencial sejam vistos como um privilégio pela maior parte
da população que, embora não usufrua delas diretamente, sabe que são mantidas
com dinheiro público.
Esse
distanciamento reflete-se na imagem institucional. Uma pesquisa da More in
common com a Quaest (2025) revelou que a maior parte da população tem uma visão
negativa sobre a universidade pública. Esse dado parece contradizer a
excelência e o protagonismo científico das instituições, ignorando sua
transformação profunda desde a implementação das ações afirmativas, que
permitiram que deixassem de atender apenas às elites. O fato, porém, é que o
levantamento mostra que as instituições são encaradas por grande parte dos
cidadãos – inclusive entre eleitores de esquerda – como redutos ideológicos que
priorizam uma forma questionável de atuação política.
Dentro
dos campi, essa politização assume contornos de uma imposição normativa sobre
como a diversidade deveria operar. Como bem explicaram Daflon, Rizzi e Vaz
(2026), existe um “essencialismo” equivocado no debate: presume-se que toda
mulher é feminista, que todo aluno negro se identifica com o movimento negro, e
que todo estudante pobre é de esquerda. Tais visões buscam impor uma identidade
política obrigatória ao alunato, além de venderem a falsa ideia de que não
havia pesquisas e campos voltados ao estudo do feminismo, racismo e temas
similares antes das ações afirmativas.
A
essencialização da diversidade e sua politização como identidades romantiza a
realidade estudantil e revela uma miopia política ao buscar um “novo sujeito
histórico” descolado de suas reais condições materiais e históricas. É
impossível ignorar, nesse contexto, a precariedade material das instituições.
As universidades públicas federais operam hoje com um orçamento inferior à
metade do que tinham em 2014, apesar de serem mais numerosas e contarem com
muito mais alunos.
Esse
contingente maior de estudantes demanda, por sua vez, mais apoio para
permanência e conclusão dos estudos – como demonstrou a recente greve
estudantil nas estaduais paulistas, que provou que “apenas entrar” não basta: é
preciso garantir alimentação, moradia e meios de estudo.
A
deterioração das condições de trabalho de docentes e técnicos compromete a
pesquisa e o ensino, alimentando também a competição interna por recursos
escassos e cargos com funções gratificadas – em especial os recém-criados para
gerir o novo perfil estudantil. Há, portanto, razões materiais concretas que
ajudam a compreender as tensões nas relações institucionais, ainda que grupos
vinculados às políticas de identidade prefiram apontar a maior diversidade
interna como a única origem dos conflitos.
Os
crescentes conflitos nas universidades brasileiras se inserem no quadro
analisado pelo sociólogo palestino Sari Hanafi (2025) como fenômeno
internacional associado ao que ele conceitua como “liberalismo simbólico”. Uma
concepção política que se caracteriza por ser liberal-progressista em seus
ideais, mas profundamente iliberal em suas ações, pois valida o autoritarismo
do silenciamento e o cancelamento de quem diverge. Saei Hanafi acrescenta que
tal postura não consegue respeitar como as pessoas deliberam sobre sua própria
moralidade, tentando impor uma política de identidades extremamente divisiva.
Nesse
ambiente onde o pluralismo intelectual e político é recusado, a conformidade
ideológica torna-se a norma. Ilana Redstone (2025) afirma que o dissenso passou
a ser visto como uma falha moral. O que talvez seja o mais grave: convicções
morais absolutas tomaram o lugar do debate racional, disseminando o que a
socióloga chama de “armadilha da certeza”. Quando argumentos baseados em
pesquisa são substituídos pela imposição de convicção ideológica, a primeira
vítima é o debate aberto, respeitoso e seguro.
Atualmente,
nas universidades brasileiras, os conflitos e as violências mostram o
encolhimento do espaço para a divergência. O que resta é a ameaça, a
perseguição e – diante de qualquer pesquisa ou dado de que se discorde – o
autoritarismo do argumento ad hominem, que se volta contra o indivíduo em vez
da ideia. Não raro, impetrados por autodeclarados defensores de direitos
humanos, mas que incitam ataques a colegas e estudantes por não comungarem de
sua visão sobre o papel social da universidade.
Tenta-se
impor uma visão que lida com temas, pesquisas e seus resultados como tendo que
servir às suas causas às custas do rigor científico e metodológico. A
radicalização também se sustenta na crença de que a diversidade deve servir de
base para uma militância assentada em “saberes essencializados” que competiriam
com a ciência. Tais saberes e pretensas “novas epistemologias”, embora se
apresentem como vanguardistas, já têm quase meio século e enfrentam críticas e
refutações inerentes a qualquer corrente que se torna o novo establishment.
Na
tentativa de usar saberes como armas contra a pesquisa metodologicamente
orientada e baseada em quadros analíticos rigorosos, os grupos que
essencializam identidades buscam trazê-los para a universidade em espírito
populista. A retórica de que origem sociodemográfica traria consigo uma relação
unívoca entre saber, identidade e posição política só consegue avançar reagindo
a críticas como se fossem discriminações, tentando justificar o injustificável:
o uso da violência para a imposição do que há muito é conhecido como pensamento
único.
A
universidade, como espaço plural, deve acolher e debater todas as visões sobre
seu papel. A mera presunção de superioridade moral e defesa ideológica de uma
causa não são suficientes neste debate, em que pesquisas e argumentos racionais
deveriam predominar. Dentre as diferentes visões sobre a universidade, há as
que – acolhendo as diferenças e celebrando a diversidade conquistada desde as
ações afirmativas – priorizam compromisso político calcado na qualidade da
formação oferecida e da produção científica que a fortalece.
Boa
parte das violências apresentadas no início desse artigo envolvem tentativas de
impor perspectivas autoritárias a fórceps, sob disfarce de justiça social.
Trata-se de fenômeno que não espelha a polarização política corrente em várias
sociedades, mas sim o mais específico da polarização afetiva em que
adversários, frequentemente do mesmo campo político, são convertidos em
inimigos e o debate democrático substituído por campanhas para seu expurgo e
eliminação.
Max
Weber já alertava, em A ciência como vocação, para o poder dos ideólogos de
oferecerem crenças políticas no lugar do pensamento crítico. Oferta atualizada,
desta vez sob a desculpa esfarrapada de defender equidade, como se o
compromisso com a igualdade fosse monopólio de um único grupo político da
universidade, justamente o que só consegue se impor pela força e não por seus
feitos no campo do conhecimento.
A
preocupação com a emancipação de segmentos historicamente subalternizados
poderia levar à formação para a autonomia intelectual e o pensamento crítico,
não a adesão a sectarismos autoritários. No entanto, o cerceamento ao
pluralismo busca justamente interditar a crítica por meio da imposição de um
pensamento único.
Diante
desse quadro de erosão democrática, um grupo de professores de diversas áreas e
estados reuniu-se no Centro MariAntonia da USP. Surgiu dali o Manifesto pelo
Pluralismo e a Liberdade Acadêmica (pluralismoacademico.org), que conta com
amplo apoio de acadêmicos, técnicos e profissionais de outros campos, como o
jornalismo. A iniciativa busca sensibilizar a comunidade – inclusive sindicatos
docentes, até agora reticentes – contra a violência política nas universidades.
A
iniciativa surgiu após uma anterior, da qual fiz parte com colegas de
universidades como a UFBA, a UFPE e a UFMG. Tentamos, sem sucesso, conseguir o
apoio dos sindicatos para essa causa inseparável das condições de trabalho no
ensino superior brasileiro. A erosão democrática e o cerco ao pluralismo também
ameaçam a autonomia universitária, algo agravado pelo orçamento comprimido que
torna universidades cada vez mais dependentes de emendas parlamentares que
podem trazer consigo pressões ideológicas a elas e seus docentes. O que pode
tolher a liberdade de cátedra, um direito e uma responsabilidade, a de falar a
partir de dados e evidências contra a demagogia e o charlatanismo.
A
partir do exposto, é possível voltar ao quadro inicial de conflitos e
violências contra docentes, estudantes e técnicos da comunidade universitária
sublinhando que o problema enfrentado pelas instituições é o conflito entre
democracia e autoritarismo, entre pluralismo e pensamento único, entre
valorizar o debate qualificado de ideias ou a violência política. A defesa do
pluralismo e a liberdade acadêmica é antídoto para o contexto que enfrentamos
cotidianamente e uma contribuição para valorizar a instituição universidade em
sua relação com a sociedade brasileira.
A
universidade pública responde à sociedade e não o contrário; ignorar o que a
população pensa ou espera da instituição é descolar-se da realidade. Cabe
respeitar a visão coletiva, pois são os cidadãos que financiam e a quem a
universidade deve servir.
Sem
condições de debate civilizado e pluralidade, caminhamos para o agravamento das
cisões internas, a multiplicação dos expurgos e a piora da imagem pública da
universidade, o que retirará o apoio necessário para recompor seu orçamento e
evitar que termine sucateada.
• Roberto Rafael Dias da Silva: Ensino
noturno - como reinventar a escola pública?
Poucos
espaços educacionais revelam de forma tão explícita as contradições da
democratização da educação brasileira quanto o ensino médio noturno.
Historicamente associado às juventudes trabalhadoras, às trajetórias escolares
interrompidas e às camadas populares urbanas, o noturno constituiu uma das
principais estratégias de ampliação do acesso à escolarização no Brasil
contemporâneo. Entretanto, sua expansão também tornou visíveis os limites de
uma democratização frequentemente construída mais pela ampliação quantitativa
das matrículas do que pela efetiva transformação das condições de permanência,
aprendizagem e reconhecimento dos estudantes.
Nas
últimas décadas, o Brasil ampliou significativamente o acesso à educação
básica. A universalização quase completa do ensino fundamental e a expansão do
ensino médio representam mudanças importantes na história educacional do país.
Contudo, a democratização da escola nunca ocorreu de forma homogênea. Ao
contrário, foi marcada por desigualdades persistentes entre territórios,
classes sociais e trajetórias juvenis. O ensino médio noturno tornou-se, nesse
cenário, uma espécie de fronteira social da escola pública brasileira: um
espaço que acolhe estudantes que trabalham, jovens com histórico de reprovação,
sujeitos atravessados pela precarização da vida urbana e por experiências de
exclusão escolar.
A
existência do noturno sempre esteve associada a uma promessa democrática
relevante, qual seja: permitir que jovens trabalhadores pudessem estudar sem
abandonar completamente suas condições de sobrevivência. Em muitos casos, foi o
ensino noturno que garantiu o primeiro acesso de amplos setores populares à
educação secundária. Entretanto, a história dessa modalidade também evidencia
uma contradição estrutural. O mesmo sistema que ampliava o acesso
frequentemente produzia formas diferenciadas e precarizadas de escolarização.
Durante
décadas, consolidou-se uma espécie de dualidade silenciosa: por um lado,
escolas mais estruturadas, estáveis e academicamente valorizadas no período
diurno; por outro, escolas mais frágeis, improvisadas e socialmente
desvalorizadas no período noturno. Não raramente, o ensino médio noturno operou
com menor carga horária efetiva, alta rotatividade docente, dificuldades de
infraestrutura e currículos pouco conectados às experiências juvenis. A
democratização do acesso, portanto, não eliminou as desigualdades; em muitos
casos, apenas deslocou a exclusão para dentro da própria experiência escolar.
Essa
questão torna-se ainda mais relevante quando observamos as transformações
recentes das juventudes brasileiras. Os estudantes do ensino médio noturno já
não podem ser compreendidos apenas pela categoria “trabalhador-estudante”,
embora ela permaneça central. São jovens atravessados por novas formas de
sociabilidade, pela cultura digital, pela instabilidade econômica, pela
precarização do trabalho e por trajetórias de vida marcadas por intensas
pressões sociais. Muitos conciliam estudo, emprego informal, deslocamentos
urbanos longos e responsabilidades familiares. Outros chegam à escola depois de
experiências reiteradas de fracasso escolar, produzindo relações frágeis de
pertencimento com a instituição.
Nesse
contexto, interpretações simplificadoras sobre o chamado “desinteresse” ou
“desengajamento” juvenil tornam-se insuficientes. Parte significativa do debate
público tende a atribuir às novas gerações uma suposta incapacidade de
concentração ou falta de compromisso com a escola. Contudo, talvez seja
necessário inverter a pergunta. Em vez de questionar apenas por que os jovens
perderam o interesse pela escola, talvez devêssemos perguntar em que medida a
escola perdeu a capacidade de produzir sentido para diferentes juventudes.
Tal
deslocamento analítico afasta interpretações simplificadoras sobre as novas
gerações e recoloca no centro do debate as experiências efetivamente vividas
pelos estudantes. Muitos jovens demonstram enorme capacidade de engajamento em
práticas culturais, artísticas ou esportivas, redes digitais, atividades
colaborativas e demais formas contemporâneas de produção simbólica. O problema
parece residir menos numa ausência natural de interesse e mais na dificuldade
das instituições escolares em reconhecer novas linguagens, temporalidades e
expectativas juvenis.
As
reformas curriculares recentes evidenciaram parte dessas tensões. O debate
sobre flexibilização curricular, competências e itinerários formativos foi
apresentado, em grande medida, como estratégia de modernização do ensino médio.
Entretanto, muitas dessas reformas demonstraram debilidades pedagógicas
importantes. Em diversos contextos, a reorganização curricular ocorreu sem
condições estruturais adequadas, sem ampla participação estudantil e sem
enfrentar os problemas históricos da desigualdade escolar.
No caso
do ensino médio noturno, tais desafios tornam-se ainda mais agudos. A ampliação
da carga horária, por exemplo, pode representar uma proposta formalmente
igualitária, mas socialmente excludente quando desconsidera as condições reais
de vida dos estudantes trabalhadores. Oferecer exatamente a mesma organização
temporal do diurno não garante necessariamente justiça educacional. Como é de
nosso conhecimento, a igualdade formal pode produzir novas desigualdades quando
ignora diferenças concretas de existência.
Isso
não significa defender uma “escola menor” para os jovens pobres. O desafio
consiste justamente no contrário: pensar formas mais democráticas de garantir o
direito ao conhecimento sem reproduzir modelos escolares rigidamente
organizados para um estudante idealizado, geralmente distante da realidade das
juventudes populares brasileiras. Uma das grandes tarefas do ensino médio
contemporâneo, em termos políticos e pedagógicos, talvez seja reinventar a
escola como comunidade educativa. Afinal, sua crise ultrapassa os limites do
currículo e da gestão, alcançando dimensões relacionais, culturais e
democráticas. Faz-se preciso lamentar que muitas escolas, em sua oferta no
noturno, perderam progressivamente sua capacidade de produzir vínculos
coletivos duradouros entre estudantes, professores e territórios sociais.
Por
isso, cresce a importância de perspectivas que defendem formas mais
colaborativas e intergeracionais de aprendizagem, às quais nos filiamos neste
debate. A escola do século XXI talvez precise deixar de operar exclusivamente
como espaço de transmissão de conteúdos para tornar-se ambiente de convivência
democrática, escuta e construção compartilhada de experiências educativas. Isso
implica compreender os estudantes como sujeitos portadores de trajetórias,
culturas e saberes, capazes de edificar coletivamente experiências democráticas
de aprendizagem.
O
ensino médio noturno permanece, assim, como um dos maiores desafios da educação
brasileira contemporânea. Ele expõe os limites históricos da democratização
escolar, mas também revela possibilidades importantes de reinvenção da escola
pública. Afinal, talvez a principal tarefa democrática da educação hoje não
seja apenas ampliar matrículas ou reformar currículos, mas reconstruir
condições efetivas para que diferentes juventudes possam reconhecer sentido,
dignidade e pertencimento na experiência escolar. Nesse horizonte, o ensino
médio noturno permanece como uma das mais importantes expressões do compromisso
público com a formação humana, oferecendo a milhares de jovens trabalhadores a
possibilidade de edificar, por meio da educação, novos caminhos de autonomia,
reconhecimento e emancipação social.
Fonte:
A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário