Igualzinho
ao Master: Entenda o passo a passo da fraude de que é acusado o Digimais, banco
de Edir Macedo
O
Brasil acordou sob o impacto de uma ostensiva ação policial que joga luz sobre
as entranhas estruturais de uma instituição bancária de médio porte. Deflagrada
na manhã desta terça-feira (23), a Operação Miragem mobilizou mais de 50
policiais federais para o cumprimento de nove mandados de busca e apreensão
expedidos pela Justiça Federal em São Paulo. A ofensiva mira desarticular um
sofisticado e perigoso esquema de maquiagem contábil e fraudes sistemáticas
conduzido na gestão do Banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir
Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). O desdobramento judicial
foi severo: além das buscas e da quebra dos sigilos bancário e fiscal, foi
determinado o sequestro e o bloqueio de bens e valores dos investigados no
montante drástico de até R$ 670.348.945,70.
A
tônica das investigações aponta para uma repetição quase milimétrica de táticas
predatórias que o mercado financeiro já testemunhou em episódios passados de
outras instituições liquidadas, como o extinto Banco Master. O cerne do
problema reside na manipulação deliberada de balanços para forjar uma solidez
financeira inexistente, captando recursos de maneira agressiva no varejo
enquanto os ativos reais da instituição eram paulatinamente corroídos por
práticas de gestão temerária.
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Mecanismo da “lavanderia contábil”: A mágica dos R$ 199 milhões fictícios
Para
compreender a gravidade do estratagema que enganava os órgãos de controle, é
preciso destrinchar a engenharia contábil montada pelos administradores do
banco. O expediente consistia em utilizar ativos de valor quase nulo, inflá-los
artificialmente por meio de sucessivas reavaliações e registrá-los no balanço
para criar uma falsa sensação de solvência e ocultar prejuízos acumulados.
As
auditorias técnicas que embasaram a ação policial identificaram o uso de uma
ação judicial datada de 1967 contra a União. Os gestores do banco utilizaram
fundos de investimento estruturados para adquirir fatias desse processo em
diferentes etapas, promovendo aumentos de valor sem qualquer justificativa real
ou lastro econômico. O resultado prático dessa manobra foi a geração de uma
renda puramente fictícia de R$ 199 milhões nos demonstrativos da instituição.
O passo
a passo dessa valorização artificial operou em duas fases bem delimitadas:
• Primeira etapa: Inicialmente, um fundo
de investimento denominado ID112 adquiriu uma fatia de 7,7% dos direitos
creditórios dessa ação de 1967 pelo custo real de R$ 9 milhões. Após uma série
de transferências internas entre diferentes fundos, essa mesma parcela teve seu
valor contabilizado saltar para R$ 100 milhões. Em seguida, outra fração de
9,25% da mesma ação foi comprada por R$ 22 milhões e, sob o mesmo expediente de
reavaliação, foi inflada até atingir R$ 130 milhões nos livros do banco.
• Segunda etapa: Dando sequência ao
processo, os gestores adquiriram mais duas parcelas dos direitos creditórios,
desembolsando R$ 20 milhões por cada uma delas. Ambas passaram pela mesma
valorização artificial e foram lançadas individualmente pelo montante de R$
174,5 milhões.
Somados
os valores, uma operação que custou originalmente R$ 71 milhões aos cofres da
estrutura acabou convertida na impressionante cifra de R$ 741,3 milhões nos
balanços patrimoniais transmitidos ao órgão regulador.
Quando
o Banco Central detectou a manobra e exigiu formalmente que a instituição
financeira refizesse os cálculos e registrasse os papéis pelo seu valor
original de custo, os administradores desenharam um novo drible regulatório.
Para não expor o rombo contábil e evitar a perda do valor inflado, o banco
celebrou um contrato simulado de venda a prazo dessas cotas para a sua própria
holding controladora, a B.A Empreendimentos, jogando o recebimento desse
dinheiro para o ano de 2032. Com isso, o lucro inexistente continuou figurando
nos balanços, mas sob a rubrica de “valores a receber”. Como esse contrato
estipulava a incidência de juros de IPCA mais 0,5% ao ano, a fiscalização
identificou a operação como um financiamento ilegal e vedado da instituição
financeira para o seu próprio controlador.
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Uso perverso do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) como chafariz de recursos
Paralelamente
à maquiagem de seus ativos, a instituição financeira precisava manter o fluxo
de caixa ativo para sustentar a estrutura e honrar as retiradas diárias. Para
isso, os executivos replicaram a exata estratégia de captação que marcou a
trajetória do Banco Master: a utilização do Fundo Garantidor de Crédito (FGC)
como uma espécie de fiador involuntário de uma política de captação predatória.
O banco
passou a emitir massivamente Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e outros
títulos de renda fixa direcionados ao varejo, atraindo investidores pessoas
físicas por meio de plataformas digitais com a promessa de rentabilidades
substancialmente acima dos parâmetros praticados pela média do mercado. O
principal argumento de venda utilizado para dissipar qualquer receio dos
clientes era de que, independentemente da saúde do banco, o dinheiro estava
integralmente protegido pelo teto regulatório do FGC.
Enquanto
o dinheiro entrava pela impressão de títulos protegidos, os recursos eram
canalizados para fundos estruturados e veículos recém-criados que apresentavam
valorizações meteóricas em curtíssimo espaço de tempo. O grande perigo reside
no fato de que parcela expressiva dessas aplicações e estruturas não contava
com demonstrações financeiras devidamente auditadas, funcionando como
caixas-pretas longe do escrutínio dos auditores tradicionais. Essa combinação
de captação agressiva baseada na garantia do fundo com a ocultação de ativos
deteriorados gerou um risco sistêmico agudo para o bolso de quem confiou suas
economias à instituição.
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Das origens tradicionais ao controle da Igreja Universal
A
história da instituição financeira que hoje se encontra no centro do escândalo
confunde-se com as transformações tecnológicas do próprio mercado nacional. O
banco foi fundado originalmente em 1981 na cidade de Porto Alegre, no Rio
Grande do Sul, sob a denominação de Banco Renner, operado pela tradicional
família gaúcha de mesmo nome.
As
mudanças estruturais profundas começaram a se desenhar em 2009, quando o bispo
Edir Macedo ingressou na instituição como acionista minoritário. A virada
definitiva de chave ocorreu no ano de 2020, quando o antigo Banco Renner foi
integralmente reestruturado para atuar no segmento de contas digitais e teve
sua marca alterada para Digimais. Foi neste período que o fundador da Igreja
Universal e proprietário da RecordTV adquiriu a totalidade das ações através de
uma holding vinculada ao seu grupo empresarial, assumindo o controle absoluto
da operação e passando a ditar os rumos estratégicos do negócio.
Desde
então, a cadeira de comando passou por danças sucessivas de cadeiras e costuras
de bastidores que evidenciam o cenário de instabilidade e tentativas de repasse
do controle. Em dezembro de 2025, Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do
Brasil e da Petrobras, foi homologado pelo Banco Central e assumiu o comando do
Banco Digimais como o novo CEO. Logo em sequência, em janeiro de 2025, Edir
Macedo chegou a transferir o controle da instituição para o empresário Maurício
Quadrado, mas o grupo de Quadrado, rebatizado recentemente de BlueBank, acabou
desistindo do negócio em função da recente deterioração do mercado e sequer
enviou toda a documentação necessária para o Banco Central, mesmo após a
transação ter sido aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica
(Cade).
Mais
recentemente, em abril deste ano, o cenário mudou novamente quando o BTG
Pactual, do banqueiro André Esteves, anunciou publicamente em comunicado aos
investidores um acordo para comprar o Digimais, operação cujo valor não foi
divulgado e cuja conclusão definitiva permanecia condicionada à abertura de
prazo para propostas concorrentes de outros interessados e às devidas
homologações do Cade e do Banco Central.
Um fato
que chama a atenção do setor financeiro é a conexão de personagens que orbitam
esse mercado. O empresário Maurício Quadrado, que ensaiou a compra do Digimais
no início de 2025 por meio do BlueBank antes de recuar e não enviar a
documentação final ao Banco Central, foi sócio e chefe de investimentos do
Banco Master entre os anos de 2020 e 2024, período em que a instituição
acelerou sua expansão por meio de aquisições agressivas de mercado.
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Responsabilização criminal e alvos na mira da Justiça
As
investigações conduzidas pelas autoridades apontam que a prática reiterada de
ocultação da verdadeira situação econômico-financeira do banco diante dos
órgãos fiscalizadores configura uma série de crimes previstos na Lei nº
7.492/1986, que rege os delitos contra o Sistema Financeiro Nacional. Os
investigados responderão pelas condutas de gestão fraudulenta, inserção de
dados falsos em demonstrativos contábeis e a realização de operações de crédito
terminantemente vedadas pela legislação vigente.
Embora
figure como o controlador integral e responsável pelas principais diretrizes e
decisões da instituição, o bispo Edir Macedo não foi alvo de mandados de busca
e apreensão nesta fase da operação pelo fato de residir no exterior. Contudo,
as medidas de restrição patrimonial da Justiça Federal não o pouparam: o líder
religioso foi formalmente incluído nas ordens judiciais de quebra de sigilos
bancário e fiscal, bem como no bloqueio e sequestro de bens que visa garantir o
ressarcimento dos valores fraudados.
Abaixo
do controlador, a linha de comando executiva do banco foi amplamente atingida
pelas ordens de busca, apreensão e quebras de sigilo autorizadas pela Justiça:
• João Luiz Urbaneja: Na condição de
presidente do conselho de administração da instituição.
• Thiago Rodrigues Urbaneja:
Diretor-presidente do banco e também integrante do conselho de administração.
• João Alves de Campos e Marcelo de Lima
Brasil: Executivos diretamente ligados à diretoria do banco.
• Rodrigo Ruggero: Apontado como parte do
corpo de investigados da operação.
• Rodrigo Balassiano e José Roberto
Giancoli Filho: Identificados como alvos vinculados operacionalmente aos fundos
de investimento estruturados e às empresas associadas que viabilizavam a
movimentação dos papéis inflados.
O cerco
judicial e policial montado nesta manhã escancara como o ambiente dos bancos
digitais de médio porte e suas ramificações contábeis em fundos de investimento
não auditados podem se tornar instrumentos de alto risco para o mercado e, de
forma imediata, para o patrimônio dos clientes. Ao operarem sob uma miragem
contábil que simulava lucros milionários sustentados por processos antigos
superfaturados e captações infladas pelo FGC, os gestores preservavam lucros
corporativos irreais enquanto os ativos e as garantias reais de quem depositou
a confiança na instituição marchavam em direção ao colapso estrutural.
• Edir Macedo usou mesma estratégia do
Master de Vorcaro, diz a PF
Polícia
Federal acusa o Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, de ter
adotado uma estratégia semelhante à utilizada pelo Banco Master de Daniel
Vorcaro, recorrendo à proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para
sustentar uma situação financeira considerada artificialmente favorável.
Segundo
relatório enviado à Justiça no âmbito da Operação Miragem, a instituição teria
superavaliado ativos e manipulado registros contábeis para aparentar solvência
perante os órgãos de fiscalização. Para os investigadores, a proposta de venda
do banco ao BTG Pactual depende de um aporte de R$ 7 bilhões do FGC, o que
transferiria ao sistema de proteção o prejuízo causado pela gestão da
instituição.
Na
avaliação da PF, isso permitiria aos controladores e administradores preservar
seus patrimônios pessoais, enquanto o ônus financeiro seria absorvido pelo
fundo criado para proteger os depositantes.
Os
investigadores afirmam que, se a negociação com o BTG não for concluída, o
Digimais poderá ser liquidado.
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Banco de Edir Macedo acumulou perdas bilionárias
A PF
também reconstituiu a trajetória do banco. Fundado em 1981 como Banco Renner, a
instituição foi adquirida gradualmente por Edir Macedo e sua mulher, Ester
Bezerra, entre 2013 e 2020, quando passou a se chamar Digimais.
Segundo
a corporação, a administração implementou operações que provocaram
desequilíbrios contábeis e levaram a um patrimônio líquido negativo bilionário
no início de 2026. Após a liquidação do Banco Master, também foi identificada
uma exposição de cerca de R$ 600 milhões do Digimais a carteiras de crédito da
instituição.
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Banco Central apontou manipulação contábil
As
investigações começaram após o Banco Central comunicar à Polícia Federal e ao
Ministério Público Federal suspeitas de irregularidades cometidas por
dirigentes do Digimais e pela controladora B.A. Empreendimentos e
Participações.
De
acordo com a PF, um fundo ligado ao banco registrou ativos avaliados em R$ 741
milhões, embora o custo de aquisição fosse de aproximadamente R$ 71 milhões. O
Banco Central determinou a correção dos balanços em 2023, mas os investigadores
afirmam que a instituição realizou uma operação com a própria controladora para
manter os ativos inflados nos demonstrativos financeiros.
A
manobra, descrita como uma operação “Zé com Zé”, teria permitido ao banco
manter uma aparência de saúde financeira e, segundo a PF, pode configurar
crimes de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos
contábeis e concessão irregular de crédito.
A
Operação Miragem, deflagrada nesta terça-feira (23), resultou em mandados de
busca e apreensão, quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados e
bloqueio de até R$ 670 milhões em bens e valores. Até o momento, Edir Macedo e
o Banco Digimais não haviam se manifestado sobre as acusações.
Fonte:
Fórum

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