Cian
Barbosa: Idiocracia digital e o totalitarismo do entretenimento
Dentre
os muitos aspectos da digitalização contemporânea, um deles é tão presente
quanto tácito. Com a plataformização generalizada, as mídias digitais passaram
a organizar, a partir de redes proprietárias, a circulação da informação
condicionada a formatos determinados e cada vez mais homogêneos. Umas das
características desse processo é a submissão de toda diferença qualitativa das
informações e conteúdos à forma das redes estruturadas a partir de princípios
da propaganda e do condicionamento, de inspiração behaviorista na sua origem
(levando ao que pode ser chamado de behaviorismo de dados hoje), além da
parametrização algorítmica, voltada para a captura da atenção, que automatiza a
distribuição dos conteúdos, sua circulação e alcance. Isso descamba no imperativo
do engajamento, que acaba produzindo aberrações midiáticas decadentes, com
consequências mais sérias do que pode parecer em uma análise menos atenta.
A
demanda pelo engajamento e pela captura da atenção organiza, nas redes, a
produção de ganchos, formatos, clichês e cacoetes que passam a compor a própria
estética dos conteúdos midiáticos de redes como o Instagram e o Tik Tok, onde a
“produção de conteúdos” turva a distância entre consumidor e produtor. Ao mesmo
tempo, a necessidade de ampliar uma base cativa de “seguidores” – um termo
revelador, que poderia ser levado mais a sério em suas implicações e
polissemias – tende à adesão e reprodução acrítica de tendências que, por outro
lado, parecem se tornar cada vez mais apelativas. O exagero, o absurdo, o
ridículo e, por vezes, até mesmo o risco, tornam-se instrumentos da própria
demanda por engajamento, revelando dimensões perversas desse imperativo.
Assim,
todo tipo de conteúdo, toda gama de gêneros, assuntos, temas, toda a variedade
de questões possíveis; tudo é achatado sob a lógica da tela e do scroll
infinito, onde receitas culinárias, músicas, piadas, cortes de filmes,
entrevistas, escândalos políticos, manifestações culturais, polêmicas baratas,
imagens de destruição e morticínio em guerras, dentre tantas outras coisas
extremamente discrepantes em termos qualitativos, são dispostas lado à lado de
acordo com a metrificação do usuário, orientada para mantê-lo engajado,
aumentando seu “tempo de tela” – o tempo de tela médio dos brasileiros hoje, a
propósito, excede 9 horas diárias, passando o tempo médio de sono e sendo um
dos maiores registrados mundialmente.
Essa
justaposição de conteúdos completamente díspares, que chega a ser um tanto
quanto obscena, implica também em outra tendência: cada vez mais, todas as
coisas são organizadas a partir da forma e pelo imperativo do entretenimento.
De canais esportivos até debates políticos, passando por programas culturais e
notícias econômicas, chegando enfim na divulgação científica e até mesmo na
comunicação de políticas governamentais: tudo precisa tornar-se entretenimento.
Assim, a esfera do entretenimento se expande e passa a formatar, em alguma
medida, praticamente todas as outras. Não apenas formatar; os princípios do
entretenimento passam a infiltrar diversos campos, inclusive aqueles onde a
lógica própria é (ou deveria ser) radicalmente oposta a tais princípios.
A
incompatibilidade entre o entretenimento enlatado e o debate sobre a vida
política de um país ou o estatuto corrente de um genocídio são (ou deveriam
ser) auto-evidentes, mas a pervasividade do entretenimento generalizado parece
descambar para um cinismo geral de ordem “prática”, uma espécie de realismo
midiático: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do midiatismo
digital de plataformas. Absolutamente tudo deve ser submetido ao princípio do
entretenimento porque essa é a regra imutável do jogo e, assim, produzindo
conteúdos, produz-se também seus consumidores com uma promessa de “politização”
pelo entretenimento “político”; com a promessa de criticidade pela
espetacularização da “crítica”; tendo como justificativa de efetividade o
argumento mais tecnocrático possível: números, alcances, estatísticas, dados,
tabelas, gráficos. Somos impelidos a nos tornar empreendedores de nossas
próprias audiências, sem sequer questionar isso.
Vemos
isso hoje nos “debates” políticos em canais do Youtube, que são pensados, em
primeiro lugar, para produzir cortes de vídeos curtos viralizáveis, fomentar
engajamento e angariar seguidores para distintos membros. Não há política aí,
ao menos não em qualquer sentido emancipatório. É assim desde a parceria entre
“comunicadores”, que são fundamentalmente influenciadores, até os formatos
“berlinda” onde, em uma espécie de gangbang ideológico, uma pessoa precisa
“debater” com outras vinte que sustentam uma posição contrária. É curioso
inclusive como o crescente moralismo das últimas gerações, com sua famosa
retórica anti-pornografia, parece autorizar a dissipação de características
reprimidas do excesso pornográfico a muitas outras formas de “conteúdo” – que
são muitas vezes moralmente condenáveis, apesar de não serem sexualmente
obscenos.
O assim
chamado “debate público”, cada vez mais organizado por empresas e plataformas
privadas que têm como princípio a parametrização voltada à lógica da
mercadoria, passa à radicalização de tendências que já eram presentes no século
passado, mas agora se agudizam, na medida em que não só os espaços para tratar
de assuntos complexos passam a ser cada vez mais suprimidos, mas as próprias
condições de possibilidade para lidar com a complexidade são minadas de saída,
por dentro. A redução da atenção, a aceleração da produção e circulação de
informação, a imediatez, o hiper-estímulo e a espetacularização somam-se ao
totalitarismo do entretenimento: aquilo que não é moldado para entreter, não
interessa, perde espaço, por vezes não é sequer produzido por não atender às
demandas do consumo vazio. Assim, a própria esfera política é corroída pela
lógica do entretenimento, que se torna o próprio meio estético de implosão do
político. Um exemplo recente desse colapso de absurdos é o Ultimate Fighting
Championship, o UFC, do trumpista Dana White, ter sido levado para dentro da
própria Casa Branca: o espetáculo contemporâneo de gladiadores passa a ocorrer
na sede da presidência estadunidense.
O
exercício da reflexão e do pensamento crítico, basilares para qualquer formação
de pensamento real e para todo processo de politização, dependem justamente de
um espaço negativo, de lacunas e hiâncias que por vezes são angustiantes, de
tempo e espaço que não sejam decompostos pela fragmentação oriunda do enxame de
estímulos constantes. Ao mesmo tempo, uma característica central do
entretenimento é a abordagem do espectador enquanto consumidor passivo, algo
diametralmente oposto com o que seria necessário para lidar com assuntos
complexos, sensíveis, com a formação política e o debate teórico, as disputas
ideológicas e os temas centrais para o trato da chamada “coisa pública”. A
digitalização, somada à infraestrutura digital da informação, que se reduz a um
restrito monopólio de algumas poucas empresas, também é capaz de produzir
pseudo-relevâncias – tanto de assuntos quanto de personalidades.
Esse é
inclusive parte do mercado midiático das redes e de seu apelo: a “oportunidade”
de todos disputarem uma posição de destaque no horizonte da influência de
pequenas, médias ou grandes massas, desde que se dobrem ao totalitarismo da
forma espetacular de entretenimento vazio que deve ser o imperativo obedecido
em todas as esferas. Os efeitos disso são evidentes, apesar de cinicamente
ignorados: o esvaziamento, a superficialidade, a ridicularização, a
infantilização do “público”, ganham escala e atualização imprescindíveis. A
indústria digital da imbecilização é não só efeito, mas o objetivo final do
entretenimento totalitário.
Como na
comédia pastiche de 2006, Idiocracy, onde um imbecil médio é congelado por um
experimento científico, acordando 500 anos no futuro, onde confronta-se com a
imbecilidade geral das massas e, por contraste, parece um gênio, temos hoje a
aceleração desse cenário fictício, em uma dimensão que pretende-se cômica mas é
cada vez mais trágica, a começar pelo lapso temporal: não foram necessários 500
anos, mas apenas duas décadas de aceleração do complexo digital global para nos
encontrarmos às portas do reino da idiotia.
Nossa
crítica aqui, todavia, não deve ser lida como uma defesa elitista do
pensamento, e sim como um alerta de que, para podermos desfrutar da frivolidade
necessária, do humor idiota e da imbecilidade pueril que, por muitas vezes, nos
resgata da dimensão acachapante de uma realidade global em vias de colapso
(afinal, todos deveriam ter o direito de desfrutar de alguma bobagem ou
futilidade vez ou outra), é fundamental reconhecermos que a generalização dessa
mesma imbecilidade, por vezes, é o próprio pavimento para o colapso do qual ela
supostamente nos alivia.
• O que é violência algorítmica e como
enfrentar esse problema
Há dez
anos, o influenciador digital e cientista da comunicação Christian Gonzatti, de
33 anos, denuncia a violência algorítmica, argumentando que os algoritmos de
redes sociais costumam dar menos visibilidade a alguns conteúdos de temática
LGBTQIA+ produzidos por ele sem transparência quanto aos termos que seriam
supostamente "proibidos" pelo sistema.
Gonzatti,
que também é professor na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos),
começou a publicar conteúdos culturais classificados como "nerd"
dentro do segmento LGBTQIA+ em um canal chamado Viado Nerd.
"O
algoritmo não lê contexto. Não via ‘viado' como uma ressignificação, da maneira
que historicamente o movimento faz a partir de termos criados originalmente
para difamar e caluniar. A página começou a ser denunciada e a plataforma as
acatou, como se o espaço fosse de veiculação de discursos de ódio",
recorda ele.
De lá
para cá, mesmo rebatizando o projeto de Diversidade Nerd, ele continua sendo
frequentemente classificado de forma errônea pelas plataformas ou, acredita,
muitas vezes tendo seus posts rebaixados em relevância conforme algumas
terminologias adotadas. "Se coloco a palavra gay ou lésbica na legenda,
por exemplo, o alcance é menor", afirma.
Esse
não é um caso específico. Há violência algorítmica quando sistemas de
reconhecimento facial classificam de forma pejorativa traços ligados a etnias
não brancas, quando a inteligência artificial (IA) produz e distribui deep
fakes para destruir a reputação de alguém e até quando modelos automatizados
buscam interferir no comportamento das pessoas.
"Muitas
vezes estou já dirigindo há 10 horas, 12 horas, sem parar e, quando penso em
encerrar o dia, recebo mensagem no aplicativo que estou a uma corrida de ganhar
um bônus. Quando vejo, fico 14 horas trabalhando direto, sem parar nem para
comer", conta um motorista de aplicativo que atua em São Paulo – mas pede
para não ser identificado.
"Neste
caso, os algoritmos forçam as pessoas a aumentar a produtividade de um jeito
que não reconhece os limites naturais da humanidade. É violência", afirma
o cientista da computação e jornalista Alexandre Gonçalves, professor e
pesquisador na Universidade de Illinois Urbana-Champaign, nos Estados Unidos.
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Agressão automatizada
Professor
de mídia e democracia na Universidade de Maryland, também nos Estados Unidos, o
jornalista Daniel Trielli explica que violência algorítmica é um "tipo de
agressão ou ataque que depende ou se integra a sistemas computacionais
automatizados". Isto inclui não só algoritmos de redes sociais, mas também
plataformas de vigilância digital e ferramentas de inteligência artificial.
Esses meios podem intensificar os modos tradicionais de violência e também
possibilitam novas maneiras de violência.
O
exemplo mais corriqueiro seria a disseminação de fake news via redes sociais.
"Quando alguém espalha esse conteúdo, os algoritmos amplificam o alcance
de mensagem que têm apelo emocional", explica Trielli.
O termo
violência algorítmica passou a ser utilizado no início da década passada – por
acadêmicos, intelectuais e artistas engajados na problemática. Pesquisadores na
Unisinos, a jurista e professora Haide Maria Hupffer e o advogado Gabriel Cemin
Petry explicam que o termo foi fundamentado com propriedade a partir do livro
Topologia da Violência, do filósofo Byung-Chul Han.
"Não
há uma pessoa única que tenha ‘inventado' a expressão. Ela faz parte de um
campo mais amplo de debates sobre discriminação algorítmica, opressão, racismo,
colonialismo de dados e injustiça automatizada", comenta a assistente
social Bruna Irineu, professora na Universidade Federal de Mato Grosso e
coautora do livro Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+.
No
cerne da questão está o fato de que os algoritmos não são neutros. Criados por
pessoas, empresa e instituições que foram alçadas a ocupar papéis hegemônicos
em sociedades alicerçadas em pilares de racismo, sexismo e outras desigualdades
estruturais, esses sistemas tendem a reproduzir este "pensamento"
preponderante. Afinal, de forma muito simplificada, as ferramentas de
inteligência artificial são treinadas a partir da exposição de milhões de
conteúdos e decisões oriundos da mente humana.
"Podemos
dizer que violência algorítmica acontece quando sistemas automatizados,
plataformas digitais, inteligências artificiais, mecanismos de busca, redes
sociais ou bancos de dados produzem, reproduzem e amplificam desigualdades
sociais", define a antropóloga Larissa Pelúcio, professora na Universidade
Estadual Paulista (Unesp) e coautora do livro Violência Algorítmica e Vidas
LGBTQIAPN+.
"Ela
aparece quando uma tecnologia decide quem será visto, quem será silenciado,
quem será considerado suspeito, quem terá acesso a oportunidades, crédito,
emprego, circulação, reconhecimento ou proteção", acrescenta.
Irineu
completa frisando que a violência algorítmica não cria a desigualdade, mas
organiza, amplifica, potencializa, automatiza e dá mais relevância a uma
desigualdade que já estava presente na sociedade.
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Discriminação digital
No
Brasil, o problema é potencializado por diversas razões. Pelúcio ressalta que a
sociedade brasileira já é marcada por formas "naturalizadas de violência
institucional". No caldo nacional, há uma combinação peculiar entre
"intensa presença digital e profundas desigualdades sociais".
Para a
antropóloga, são ingredientes fundamentais para conferir gravidade à questão.
Ela frisa ainda que há, no panorama brasileiro, uma "centralidade da
violência contra populações negras, indígenas, periféricas e LGBTQIAPN+".
Hupffer
e Petry dão um exemplo que ilustra o problema. Em 2021, o Conselho Nacional de
Justiça criou um grupo de trabalho para realizar um diagnóstico em processos
criminais para evitar condenação de inocentes. Partiram de estudos da
Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro que demonstravam os efeitos do
racismos estrutural no sistema, em âmbito nacional. Segundo a pesquisa, em 83%
dos casos de reconhecimento facial equivocado que levou pessoas inocentes à
prisão preventiva, os encarcerados eram pessoas negras.
Se
dados assim forem usados para treinamento de algoritmos, argumentam os
pesquisadores, a consequência seria a automatização de falhas que prejudicam os
afrodescendentes. É o racismo estrutural, portanto, se tornando racismo
digital.
Além
disso, para as pesquisadoras Pelúcio e Irineu há a questão do "pânico
moral" ligado às plataformas digitais. "Os algoritmos de engajamento
tendem a favorecer conteúdos que provocam medo, indignação e conflito. Isso faz
com que discursos de ódio e desinformação ganhem escala e velocidade",
pontua Irineu.
O
cientista da computação Gonçalves explica que esse cenário tende a ser mais
complicado no Brasil pelo papel periférico que o país ocupa na construção
dessas tecnologias. Como é um setor que importa muito as soluções, os dados
muitas vezes não são adequados para as diferenças demográficas brasileiras.
"Pode gerar decisões ainda mais enviesadas", argumenta ele.
Mas os
juristas Hupffer e Petry lembram que o Brasil "explicitamente
reconheceu" a proteção de dados pessoais como um direito fundamental, a
partir de emenda constitucional de 2022. Além disso, a Lei Geral de Proteção de
Dados do país carrega o princípio da não discriminação. Ou seja: ao menos no
arcabouço jurídico e legislativo, há um amparo.
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Educação e regulação
Não há
uma panaceia para resolver o problema. Há um conjunto de medidas que precisam
ser tomadas. A começar pela educação, os esforços de letramento digital em
busca do exercício consciente de uma cidadania online. "É muito importante
educar para que todos entendam a maluquice que é o fato de darmos todos os
nossos dados para as empresas de tecnologia", comenta Gonçalves.
Especialistas
também cobram regulação do setor das big techs. "Precisamos de leis e
políticas públicas que responsabilizem plataformas e empresas de tecnologias
por danos algorítmicos", afirma a antropóloga Pelúcio. O influenciador
Gonzatti também defende que as plataformas tenham mais transparência em suas
diretrizes algorítmicas.
Em um
espectro mais profundo, Pelúcio e Irineu entendem ser necessária uma técnica
amparada por justiça social, em um esforço envolvendo auditorias independentes
e revisão em bases de dados com participação de grupos afetados pelo desenho
das tecnologias. "Não se trata de corrigir viés como se fosse um pequeno
defeito técnico, mas de reconhecer que muitos sistemas são construídos sobre
desigualdades históricas", afirma Irineu.
Fonte:
Opera Mundi/DW Brasil

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