Maria
Luiza Süssekind: NO BRASIL, NECROPOLÍTICA NA EDUCAÇÃO NÃO É METÁFORA
O
Brasil quase universalizou a educação básica. Quase. Entre 6 e 14 anos, a taxa
de frequência escolar chegou a 99,5%. Uma conquista real, que custou décadas de
investimento e pressão da sociedade civil. Uma revolução comparável a qualquer
dos países mais festejados pelas reformas educacionais no que se refere à curva
de crescimento da oferta e da permanência. Mas, olhar só para o meio da curva é
uma escolha política, e uma omissão. Nas pontas, o sistema falha de forma
sistemática e silenciosa. E sabe disso.
Em
2023, segundo o IBGE, 61,3% das crianças de zero a três anos não frequentavam
creche nem escola no Brasil — seis em cada dez. Reclamar dos resultados da
alfabetização, por exemplo, sem olhar para esse dado é, no mínimo, ingenuidade.
Em 2022, na outra extremidade, apenas 66,7% dos jovens entre 15 e 17 anos do
quarto mais pobre da população estavam no ensino médio ou tinham concluído a
educação básica, contra 90,4% entre os mais ricos. Reclamar dos resultados de
proficiência do ensino médio sem considerar o quanto esta etapa é uma demanda
legal recente, e mais recente ainda seus financiamento e metas, beira a
irresponsabilidade. O Censo Escolar de 2022 contabilizou 1,04 milhão de
crianças entre 4 e 17 anos completamente fora do sistema. A concentração maior
está exatamente nas duas pontas: os pequenos e os quase adultos pobres. Esses
números raramente aparecem nos debates dos reformadores dos currículos.
O que
proponho aqui é que esses fenômenos não são falhas isoladas. São expressões de
um mesmo processo que tenho chamado de necrocurrículo.
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A qualidade que deixa uns de fora
Desde
2015, o centro da política educacional brasileira é a Base Nacional Comum
Curricular, apresentada como instrumento de equidade: uma mesma base para todos
garantiria que nenhuma criança ficasse para trás. O argumento é sedutor. E é,
em parte, uma armadilha.
O
modelo de “qualidade” que a BNCC carrega vem de uma lógica de mercado:
padronizar, medir, ranquear. Professores que deveriam ser reconhecidos como
intelectuais tornam-se executores de roteiros, julgados por indicadores que
pouco dizem sobre as condições e resultados concretos de seu trabalho.
Estudantes testados por uma mesma régua, como se chegassem à sala de aula com
as mesmas condições e exigidos a produzirem resultados iguais. A BNCC,
obviamente, não produz sozinha essas desigualdades, mas ajuda a legitimá-las
quando transforma diferenças estruturais em diferenças de desempenho.
Os que
não atingem as metas – previsivelmente os mais pobres, os negros, os que
carregam para dentro e para fora da escola o peso do que a escola não resolve –
são declarados fracos, reprováveis, sem jeito. Nesse modelo, o fracasso é
sempre atribuído ao indivíduo. A responsabilidade institucional desaparece. A
engrenagem que o fabrica fica intocada. Intocada, apesar de a Constituição de
1988 e a LDB serem explícitas: os 12 anos de educação básica são um direito,
não uma meta. O mecanismo é perverso porque converte problemas coletivos em
falhas individuais. A ausência de creche vira desinteresse familiar. A evasão
provocada pela pobreza vira falta de esforço. O fracasso produzido por
desigualdades históricas vira deficiência do estudante ou do professor. A política
desaparece e sobra apenas a culpa.
Segundo
dados do Censo Escolar de 2023 analisados pelo UNICEF, 21,6% dos estudantes do
ensino médio público apresentavam distorção idade-série de dois anos ou mais.
Chegaram ao ensino médio já marcados por reprovações acumuladas, produzidas em
grande parte por um currículo que não reconhece o que sabem, por escolas que se
perdem respondendo aos documentos e testes não respondem aos territórios, e por
condições de vida que o sistema ignora. Cerca de 30% cursam o ensino médio à
noite, em condições muito mais precárias. Mais de 60% dos que evadem pertencem
aos 40% mais pobres do país.
Duas
mortes, um mesmo mecanismo
Tenho
nomeado esse processo de necrocurrículo: a política educacional que, na busca
pela homogeneização, apaga as histórias, os saberes e as existências de
estudantes, professores e comunidades que não cabem no modelo eurocêntrico e
adultocêntico que se pretende universal. A morte, aqui, opera com avaliações e
reprovações, com a invisibilidade sistemática de quem não performa nos
indicadores. A morte fora do sistema e a morte dentro do sistema têm a mesma
raiz. O 1,04 milhão que não chega à escola e o estudante que chega, mas é
declarado fracasso partilham a mesma condição: são os que o sistema decidiu,
por ação ou omissão, não proteger.
Na
formulação de Achille Mbembe, a necropolítica é o poder de decidir quem deve
viver e quem pode morrer, quem é descartável. No Brasil, esse poder opera
também nas políticas educacionais. Opera quando municípios pequenos e pobres
não têm capacidade de abrir creches, e os órgãos de controle não obrigam nem o
legislativo aprova o financiamento o suficiente. Opera quando jovens de 16 anos
precisam escolher entre estudar e trabalhar, e o sistema os deixa escolher
sozinhos. Opera quando uma BNCC é debatida com sofisticação enquanto 1,04
milhão de crianças não estão em lugar nenhum para recebê-la.
Falar
de necropolítica na educação não é metáfora. Quando crianças e jovens ficam
fora de qualquer escola, tornam-se vulneráveis ao abuso, ao trabalho precoce, à
exploração e às múltiplas formas de violência. São, em sua maioria, crianças
faveladas, negras, filhas de mães solo que sustentam sozinhas a família em
condições precárias. Não estar na escola não é um vazio neutro: é uma exposição
concreta ao risco de vida. O sistema que as deixa fora não ignora esses riscos.
Convive com eles. Toda política de morte depende de pactos explícitos e
implícitos que tornam determinadas perdas socialmente aceitáveis. O problema se
dilui entre governo central e subnacionais até virar responsabilidade de cada
mãe, de cada criança, de cada diretora de escola.
A morte
também chega para os que conseguem entrar. O jovem de 16 anos que frequenta o
ensino médio noturno, mas, passa o dia entregando comida por valores vis,
pedalando jornadas extenuantes em bicicletas alugadas, não tem bom desempenho
na escola por falta de vontade. Tem por falta de tempo, de sono, de comida, de
futuro visível. Desigualdade, injustiças sociais e curriculares são marcas
coletivas e históricas que vitimam pessoas tornando-as individualmente culpadas
pelo próprio fracasso, pela própria violência, pela própria morte. O currículo
que não o reconhece, a escola que o reprova, o estado que o deixa escolher
sozinho entre estudar e trabalhar: todos participam.
O
Índice de Vulnerabilidade da Juventude Negra à Violência, lançado em novembro
de 2024 pelo Ministério da Igualdade Racial em parceria com o Fórum Brasileiro
de Segurança Pública, Banco Mundial e Unesco, torna o argumento incontornável:
jovens negros com ensino superior têm mais chances de serem assassinados do que
jovens brancos com o mesmo nível de escolaridade. A escolaridade protege – mas
o racismo estrutural impõe um teto sobre essa proteção. Jovens negros têm 2,7
vezes mais chances de serem vítimas de homicídio do que jovens brancos, e
pessoas negras representaram 77% dos homicídios registrados no país em 2023. A
morte nas pontas do sistema escolar e a morte literal nas periferias e nas
favelas não são fenômenos separados. São o mesmo processo de descartabilidade
operando em velocidades diferentes. Quem sai da escola aos 16 anos porque
precisa trabalhar está no mesmo continuum de quem morre aos 21 entregando
comida de bicicleta. O sistema que não garantiu a primeira proteção também não
garante a segunda.
Os
dados deixam claro de quem estamos falando. Entre as crianças e adolescentes
com alguma privação, os negros e indígenas chegam a 72,5% contra 49,2% dos
brancos, segundo a UNICEF. Em 2022, 33,1 milhões de brasileiros não tinham
garantia do que comer, 14 milhões a mais do que antes da pandemia. As crianças
dessas famílias são as mesmas que não chegam à creche e que abandonam o ensino
médio. São filhos de mães solo, em sua maioria jovens, negras, morando em
ocupações precárias, cujos lares concentram ao mesmo tempo fome, ausência de
renda e ausência de escola. A evasão segue o mapa da desigualdade com precisão:
estados com maior índice de Gini registram sistematicamente maior abandono
escolar no ensino médio, e mais de 60% dos que saem pertencem aos 40% mais
pobres do país. Estamos falando de crianças indígenas, quilombolas,
ribeirinhas, negras, periféricas, filhas da classe trabalhadora precarizada.
Não se
trata de afirmar uma causalidade mecânica entre evasão escolar e homicídio, mas
de reconhecer que ambas as situações são produzidas pelas mesmas estruturas de
desigualdade e vulnerabilidade. As pesquisas mostram que os efeitos cumulativos
da exclusão escolar começam na primeira infância e se consolidam na
adolescência e na transição para a vida adulta. O sistema que as deixa fora não
é cego a quem são. É exatamente por saber quem são que as deixa.
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O que já funcionou, e por quê?
A
Constituição de 1988 distribuiu responsabilidades: os municípios cuidam da
educação infantil, os estados do ensino médio, a União normatiza e financia
ambos. O desenho tem lógica. O problema é quando ele se torna cobertura para a
omissão.
Municípios
pequenos e pobres – que são a maioria no Brasil – não têm receita nem
capacidade técnica para construir e manter redes de creche. Estados com maior
desigualdade registram sistematicamente maior evasão no ensino médio. A
responsabilidade se fragmenta entre entes federados, e o que sobra para a
criança e o jovem é o vazio entre as competências de cada um. A fragmentação
federativa produz uma espécie de terra de ninguém institucional onde direitos
existem juridicamente, mas não encontram quem os garanta.
Nenhuma
política pública será eficiente, como aponta a literatura sobre implementação,
se não dialogar com as demais áreas do governo e com os entes federados. Quando
essa articulação falha, quem paga são as pontas. Não adianta ter financiamento
e políticas bem desenhadas, sem consenso, elas perdem tração.
A
primeira infância e o ensino médio são as duas etapas onde o sistema mais
falha. E não é coincidência que sejam também as duas etapas onde a pressão
política é mais fraca. A criança de zero a três anos não vota, não protesta,
não aparece em rankings. Sua mãe, na maioria das vezes jovem, pobre e
frequentemente sozinha, não tem organização política que a represente com
força. O jovem de 16 anos que abandona a escola tampouco vota na maioria dos
casos, e quando vota está longe dos centros onde as decisões são tomadas. O
sistema cresceu onde a pressão era mais visível. As pontas ficaram para depois.
O depois ainda não chegou.
Há
sinais de que o governo federal começa a reconhecer os limites desse arranjo.
Em 2025, o Ministério da Educação criou a Subsecretaria da Política Nacional
Integrada da Primeira Infância (SNPPI) reconhecendo explicitamente que os
municípios precisam de apoio para dar conta da tarefa. A secretaria lançou
recentemente um edital de R$9 milhões para que universidades públicas construam
“cuidotecas”, espaços de acolhimento para filhos de estudantes – sobretudo mães
jovens e pobres – que precisam de suporte concreto para permanecer na
graduação. A iniciativa é pequena diante da magnitude do problema, mas o gesto
político importa: a União reconhece seu papel de coordenador e indutor das
políticas.
A
criação da Subsecretaria da Política Nacional Integrada da Primeira Infância e
o apoio a iniciativas como as cuidotecas revelam algo frequentemente ignorado
pelos debates sobre qualidade: estudar depende de condições concretas de
cuidado. Mães jovens não abandonam a escola ou a universidade porque lhes falta
motivação. Muitas vezes abandonam porque lhes falta quem cuide de seus filhos.
O problema não é pedagógico. É material. Seria injusto, porém, ignorar o que
mudou. Diante de uma desigualdade estrutural das mais severas do mundo, o Bolsa
Família – combinado com a ampliação de vagas, a construção de escolas e outras
políticas sociais das últimas décadas – produziu efeitos imensos na garantia do
acesso e da permanência escolar. Foi essa arquitetura de proteção social que
explica, em grande medida, a conquista do meio da curva: crianças pobres
chegando e ficando na escola dos 6 aos 14 anos em proporções antes
inimagináveis, e também, a ampliação do ensino médio e a “chegada” de grupos
historicamente excluídos aos campi de ensino superior.
O
Pé-de-Meia estende essa lógica ao ensino médio, e as novas políticas para a
primeira infância tentam alcançar a outra ponta. O caminho é o mesmo que já
funcionou: reconhecer que, para quem vive na pobreza, estudar só é possível
quando há condições materiais mínimas que tornem o estudo uma opção real. Em
2024, o programa Pé-de-Meia, que oferece incentivo financeiro para estudantes
de baixa renda permanecerem no ensino médio, registrou redução de 43% no
abandono escolar entre seus beneficiários, indicam os primeiros resultados. O
número é expressivo e indica algo que reformas curriculares não conseguem
atingir: o que mantém um jovem pobre fora da escola não é falta de currículo
adequado. É fome, é necessidade de trabalhar, é a conta que não fecha. Qualidade
sem condições materiais de acesso é um eufemismo.
A morte
nas pontas, real e escolar, e a morte no meio, não são tragédias separadas. A
“qualidade” celebrada nos documentos oficiais, nos rankings e nas conferências
convive, sem constrangimento, com milhões de crianças e jovens fora de qualquer
escola, com jovens negros morrendo a 2,7 vezes a taxa dos brancos, com mães
sozinhas escolhendo entre pagar o aluguel e matricular o filho na creche. Essa
convivência não é paradoxo. Currículos, políticas educacionais e sistemas de
avaliação nunca tratam apenas de aprendizagem. Eles expressam projetos de
nação: definem quem conta, quem merece investimento público e quais vidas serão
consideradas parte do futuro de todos.
Se
nosso projeto de nação inclui mais que o Hexa do futebol, a grandeza de adiar o
fim do mundo, como propôs Ailton Krenak, começa por recusar que esse projeto de
descartabilidade seja inevitável.
Fonte:
Outras Palavras/Le Monde

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