Valdemar
Figueredo (Dema): O cambista com trajes de sacerdote
Tendo
Jesus entrado no templo, expulsou todos os que ali vendiam e compravam; também
derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E
disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém,
a transformais em covil de salteadores (Mateus 21.12-13)...
Jesus
conseguiu terminar com o comércio no templo? Não.
Em
melhores termos, naquele dia específico, ele conseguiu interromper o comércio
que se realizava no templo de Jerusalém. Deu prejuízo, mas não chegou a
inviabilizar os negócios. Comprometeu o lucro daquele dia, mas nada que não
pudesse ser recuperado na alta temporada por ocasião da Festa de Páscoa.
Simultaneamente
às maravilhas operadas e ensinadas por Jesus, havia uma estrutura comercial em
curso que utilizava os símbolos religiosos. Nesse sentido, a revolta de Jesus
com os cambistas não foi o suficiente para acabar com a feira de produtos
religiosos no templo de Jerusalém.
Não por
sua vontade ou consentimento, o mestre de Nazaré “não foi bem-sucedido” no
projeto de acabar com o comércio no templo. Contrariado, conviveu com essas
estruturas. Eventualmente foi olhado pelos cambistas do culto como uma ameaça
ao lucro.
A
radicalização da rixa dos sacerdotes em relação a Jesus teve forte motivação
comercial e financeira.
<><>
Cambistas
Ocasião
da Páscoa, judeus de diversos cantos iam ao templo em Jerusalém. A motivação
primeira era o culto, solenidade religiosa. Mas, nos pátios do templo, os
homens pagavam o imposto anual em guichês. Portanto, o templo nos festejos da
Páscoa também se transformava num centro comercial.
O
pagamento só era aceito na moeda local. “Tinha que ser pago numa moeda tíria
padronizada e não em dinheiro romano padrão”.
O que
seria “moeda tíria”?
O
Shekel de Tiro (também conhecido como moeda de Tiro) foi uma moeda de prata de
alta pureza cunhada na antiga cidade fenícia de Tiro (atual Líbano). Com
circulação entre 126 a.C. e 67 d.C., tornou-se a única moeda aceita para o
pagamento do imposto do Templo em Jerusalém.
Estava
dado o ensejo para a prática abusiva do câmbio.
Os
peregrinos faziam a conversão da moeda, seja para pagar o imposto obrigatório
ou para comprar os animais para o sacrifício e consagração no culto.
Ostentar
com oferta cara podia se transformar em visibilidade para atrair bons negócios.
Funcionava o marketing do poder atrativo das ofertas gordas. Digo, animais
gordos e caros eram sacrificados para Deus e por tabela atraiam os olhares dos
investidores em potencial.
Quem
credenciava os vendedores? Quem emitia o certificado de qualidade dos animais
destinados ao abate no ritual de Páscoa? Os sacerdotes, além de cumprirem os
ritos de culto no templo, se ocupavam do comércio no pátio.
Montavam
sistemas comerciais e financeiros em que suas famílias eram as principais
beneficiárias, vindo logo após os seus achegados.
Jesus
os expôs, mas não o suficiente para parar os seus negócios.
<><>
Compradores
Percebam
que a fúria do mestre não se restringiu aos vendedores, ele expulsou também os
compradores.
Nem
todo freguês de sacerdote é inocente. Participa da feira no pátio enquanto o
culto acontece. Sabe que a proximidade do altar pode ajudar a conquistar novas
e vultosas transações.
Jesus
teve que lidar com sujeitos ambiciosos que entendiam que a consagração
religiosa podia se transformar em investimentos para futuros negócios.
No
templo, o crente cliente louva. No pátio, compra.
No
templo, o fiel interessado aprende. No pátio, procura promoções.
No
templo, a comunhão dos santos ambiciosos. Nos átrios, networking religioso.
Jesus
entendeu que os consumidores que iam ao templo por ocasião da Páscoa e se
distraíam no comércio que ocorria no pátio não eram inocentes, sabiam o que
estava acontecendo e participavam do comércio como parte do culto.
O
mestre escandalizado e injuriado não poupou a clientela que se fazia de
inocente útil.
>>>>
Identificação dos sacerdotes cambistas em atividade
<><>
Cobram pela mediação
Câmbio
é basicamente a operação de troca. Quando a moeda de um país é revertida na
moeda de outro país. Portanto, o
cambista é quem opera a transação, faz o negócio e obtém algum valor pela sua
mediação.
Em
termos religiosos, o cambista se coloca como mediador entre Deus e os fiéis.
Pela sua condição de mediador espiritual, cobra pelo seu trabalho.
Como
vimos no registro de Mateus (o publicano), o abuso do poder espiritual pode
assumir a feição de cambistas.
<><>
Conflito de interesses
Diversas
corporações profissionais elaboram códigos de ética exatamente para orientar
condutas quando do exercício da atividade. Não é a mesma coisa que a
Constituição com as suas leis positivas e estatutárias, mas um plano de
intenções e normas para o grupo específico no cumprimento da atividade
profissional.
Imagina
o sacerdote que acaba de oficializar o culto, ainda com os paramentos e adornos
sacros que o distingue, desce do altar e vai para o pátio se inteirar do fluxo
de caixa da barraca “z7” que pertence ao seu filho primogênito…
Imagina
o mesmo sacerdote, ainda com cheiro de incenso, ainda com vestes de ver a Deus,
participando de uma animada e descontraída conversa no pátio no pós-culto. Na
rodinha, o prefeito e o juiz da cidade se confraternizam. O consagrado
sacerdote, no mesmo tom solene em que evocou o sermão, pede favores aos irmãos.
Revela que tem orado para Deus destravar a sua causa na justiça que se
transformou num fardo financeiro…
<><>
Moeda de troca só no mercado
Na
igreja, o dinheiro que circula no culto é a moeda de dupla face: gratidão e
compromisso com a missão da comunidade local.
Jesus
não estimula a relação de barganha, mas a conscientização da consagração.
Dessa
forma, na linguagem de Jesus aprendida e registrada pelo publicano (coletor de
impostos) Mateus, a comunidade de fé não é movida pelo dinheiro.
<><>
Quem cobra ágio é o agiota
Quando
alguém que se entende ungido para mediar a relação entre as pessoas e Deus
cobra valores monetários abusivos pelos serviços prestados, não é papel de
sacerdote.
Já
vimos, em uma reflexão anterior, a fala de Jesus: “Todo trabalhador é digno de
seu salário” (Lucas 10.7).
Logo, a
questão da qual nos ocupamos não ignora a ética social ou justiça trabalhista.
O que é razoável, legal e saudável pode se transformar em abuso.
Jesus
está chamando atenção para a gula de dinheiro por parte de quem diz estar
trabalhando para Deus em favor das pessoas. O ponto é sensível, tão delicado
que não devemos deixar degenerar algo tão sagrado em algo tão mesquinho.
É só
para constar, sabemos que uma das ênfases da Reforma Protestante foi justamente
a ideia de “sacerdócio universal”. Por causa de Jesus, de uma vez por todas, há
livre acesso a Deus. Tal postulado teológico trouxe prejuízos financeiros ao
clero que se pretendia cobradores de pedágios para quem pretendia se aproximar
de Deus.
A
figura do sacerdote paramentado que cobra ágio ou pedágio não faz o menor
sentido.
<><>
Infiltrados na seara evangélica: guias de turismo e cabos eleitorais
O
turismo religioso é um fenômeno antigo que mobiliza os crentes, sejam eles
hindus, islâmicos, judeus, budistas, esotéricos, católicos, protestantes,
evangélicos, espíritas ou religiosos de matriz africana.
Busca-se
reviver nos espaços sagrados as experiências das antigas gerações. A busca pela
mística dos ancestrais. Tentativa de conectar-se espiritualmente, revivendo a
história e pisando em solo santo.
Observo
no meu entorno religioso a versão do turismo promovido por certas lideranças
evangélicas. Caravanas guiadas por pastores e líderes de igrejas em ascensão
com destino à Europa, Turquia e Israel.
No caso
das caravanas para os Estados Unidos, a busca não é pelas relíquias do passado,
nem pelas ruínas de antigos templos, muito menos pelos sítios arqueológicos.
Caravanas vendidas como imersão nas grandes igrejas que merecem ser olhadas lá
e imitadas aqui em chão brasileiro, supõem.
Agências
customizam viagens para Israel por motivos óbvios. A Terra Santa que fora
pisada pelos heróis bíblicos.
O
pacote Turquia oferece o tour pelas sete igrejas do apocalipse: Éfeso, Esmirna,
Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laudiceia.
Conquanto
os lugares sejam atrativos para os consumidores evangélicos, os guias das
caravanas são figuras estratégicas para fidelizar pequenos grupos, oferecer os
pacotes para os clientes em potencial e andar à frente do rebanho nos cenários
de searas e pastos verdejantes.
Ganham
o quê com isso? Depende.
Há
várias modalidades de contratos. Cito dois exemplos hipotéticos.
Um
pastor local que consegue fechar o pacote para 40 membros da sua congregação,
provavelmente, será gratificado viajando de graça, com direito a uma
acompanhante. Plano quase caseiro em que o elo entre as agências e os crentes
recebe como comissão o pacote de viagem.
Enquanto,
noutro extremo, líderes evangélicos de grande expressão, que superaram a
condição de pastor local, exercendo influências regionais ou nacionais, além
das módicas gratificações como translado e hospedagem, recebem comissões
proporcionais ao montante arrecadado pelas agências.
Seria
leviano da minha parte dizer que esses contratos correm em segredo. Prefiro ser
mais cuidadoso dizendo que tais contratos não são transparentes para os
turistas crentes que se habituaram a crer sem ver.
Pela
narrativa até aqui, estamos diante de relações comerciais legais.
Evidente
que, no processo de atração dos clientes, foram acionadas as relações de
confiança. Um líder religioso se apresentou como guia turístico. A propaganda
apontou tanto para um lugar como para uma pessoa de referência. Não é qualquer
um que consegue atrair turistas com poder aquisitivo para fazer roteiros
religiosos.
Podemos
não gostar dos expedientes relatados, mas daí a dizer que é ilegal, seria um
exagero.
No
entanto, sob o ponto de vista ético, podemos denunciar a imoralidade. A falta
de transparência sugere oportunismo, para dizer o mínimo.
Um
número significativo de líderes evangélicos que exploram este filão de mercado
não utiliza apenas o carisma pessoal. Fazem uso ostensivo das instituições
religiosas. Embora não lhes pertençam, usam as estruturas eclesiásticas como se
fossem suas.
Conquistam
clientes para comprar os pacotes de viagens durante o culto, entre o momento de
cânticos e a pregação. Autorizam que os funcionários das agências montem
barracas nos corredores e espaços anexos ao templo. Disponibilizam os dados do
rol de membros para que o telemarketing das agências personalize as abordagens
e customize os pacotes.
Seja
para arregimentar 40 pessoas ávidas pelo batismo no Rio Jordão ou 400 pastores
para imersão nas megaigrejas trumpistas, os líderes dispostos a fechar
contratos com agências de viagens especializadas em roteiros evangélicos
geralmente usam as estruturas eclesiásticas.
Neste
caso, pode não ser uma obrigação legal, mas, certamente, é um dever moral ser o
mais transparente possível.
Quanto
cada parte está ganhando com o tour espiritual de dezenas, centenas ou milhares
de fiéis? É segredo? Não interessa?
Caso a
igreja e as suas estruturas não fossem usadas para atração de clientes, vai lá,
dava para chamar isso de relações privadas.
Sugiro
um paralelo, trazendo para nossa reflexão outra paisagem que também faz parte
do roteiro das igrejas evangélicas.
Guias
de turismo evangélicos nos roteiros santos fazem lembrar os cabos eleitorais
evangélicos nas eleições.
Ambos,
guias de turismo e cabos eleitorais, que atuam para fidelizar evangélicos, não
são afeitos à transparência. Os contratos firmados não são publicizados como se
fossem de interesse público. Fica parecendo que essas relações são meramente de
feição fraterna cristã.
Uma
coisa é usar as fachadas tombadas dos templos históricos para dizer que ali
está uma igreja, outra bem distinta é o uso das estruturas eclesiásticas para
fins políticos eleitorais.
Diferente
do guia de turismo, o pastor cabo-eleitoral ganha proporcionalmente à
quantidade de eleitores convencidos e não a pacotes de viagens vendidos.
Por
óbvio, quem consegue enfileirar duzentos eleitores na congregação não vale
tanto como os guias que conseguem fidelizar dois mil ou dois milhões de
turistas. Patamares de influência e valores pessoais distintos.
O
mercado sabe aferir os valores, tanto dos que conseguem atrair turistas quanto
dos que conseguem definir votos. Não sabemos quais, mas deduzimos que as
contrapartidas estão para além da retórica em torno dos valores alegados na
agenda moral.
A essa
altura, será que alguém acredita que oração no templo por candidatos em período
eleitoral, com ampla repercussão nas respectivas mídias e redes sociais dos
grupos evangélicos afeitos às disputas eleitorais/partidárias, é de graça?
O voto
carimbado pela oração custa caro. Bem mais caro do que um pacote de viagens do
turismo religioso.
Quem
consegue fazer a mediação entre crentes e agências de viagens age como se fosse
natural ser gratificado com comissão.
Quem
consegue transformar congregações evangélicas em zonas eleitorais age como se
fosse merecedor de reconhecimento, gratificações e, quiçá, comissões.
• Abuso espiritual e masculinidade
O abuso
de poder se manifesta em diversas modalidades: físico, saber, econômico,
sexual, etário, hierárquico, emocional, verbal, geográfico, doméstico…
Nesta
coluna, pretendo destacar o abuso espiritual realizado em nome de Deus. Quando
o abusador diz possuir autoridade dada por Deus para dizer o que diz e fazer o
que faz.
Max
Weber teorizou sobre os três tipos puros de dominação, sublinhando a crença na
legitimidade do poder: Racional-Legal, Tradicional e Carismática. Sobre
especificamente o poder carismático na versão religiosa, um grupo se submete à
liderança de um dos seus membros baseado em que autoridade? A legitimidade do
poder exercido pelo líder repousa nos laços frágeis da confiança. Nesses
termos, o líder religioso tem o seu poder legitimado porque o grupo acredita
nele. No cenário de crise de confiança, a liderança espiritual se desmantela.
A linha
da fronteira entre poder religioso legítimo e abuso do poder religioso é tão
tênue que se torna invisível a olho nu.
Quando
olhado o fenômeno de longe, observadores de má vontade simplificam acusando
todo líder espiritual de abusador. Nessas generalizações preconceituosas, dizem
que é só uma questão de tempo para o líder religioso ultrapassar a linha da
fronteira e se acostumar com a condição de abusador.
Em
qualquer cenário de liderança carismática, os frágeis laços da confiança
determinam a legitimidade.
Nos
últimos dias, observamos líderes religiosos e personalidades candidatos a
influencers espirituais saírem dos seus espaços sagrados e seguros para
vocalizar nos espaços públicos o que concebem como masculinidade.
Simplificando
o arremedo da masculinidade em questão, religiosos emponderados modulam
retóricas que geralmente depreciam as fêmeas.
O abuso
espiritual consiste em colocar Deus na conversa para a partir do Jardim do Éden
acusar as fêmeas de conchavo com o tentador para infernizar a vida do macho.
Todos
os males sociais, para os apologetas da reconstrução do macho, passam pela
insubordinação feminina.
A
“heresia” mais combatida entre setores cristãos ditos tradicionalistas,
ortodoxos e/ou reformados: emancipação feminina.
Na
visada que estou apenas pincelando, reconquistar a família tradicional passa
pelo repactuar a submissão feminina.
<><>
Caso da mulher que apanhava do marido
Dia
exaustivo do médico que chegou em casa, tomou um banho morno demorado e depois
afundou na poltrona para assistir a um pouco de TV antes do jantar.
Carinhosamente
a esposa pôs a mesa. Lasanha à bolonhesa acompanhada de Couve-Flor gratinada
com molho branco. Não podia faltar nas refeições um prato com pães frescos
cortadinhos.
– E o
refrigerante?
–
Esqueci! Mas vou fazer um suco rapidinho.
Foi o
suficiente para gerar o aborrecimento dele que evoluiu para agressões verbais.
–
Trabalho que nem um cavalo de carga para que nada falte nessa casa e não
consigo beber a porra do refrigerante que gosto.
O que
mais o irritou é que ela não respondeu nada. Foi para a cozinha fazer o suco
sem esboçar qualquer reação. Levantou-se da mesa, foi atrás dela e a agrediu
com tapas, empurrões e gritos.
Aliviado
depois do seu momento de fúria, voltou à mesa e jantou, sem esquecer de beber
dois copos da limonada suíça açucarada.
Dias
após, a mulher que apanhava do marido teve a coragem de contar à mãe a
violência doméstica sofrida. A mãe a censurou e ressaltou o quanto o genro era
especial. Incentivou-a a orar e a vigiar para não dar motivos de
aborrecimentos.
Encorajada,
chegou a um consultório de psicologia à procura de ajuda. A sua fala
demonstrava a sua condição:
– Meu
marido é um homem de Deus, um homem maravilhoso, se ele me bate é porque eu
devo dar motivos. Eu não devo ser uma pessoa boa porque eu apanho de um homem
de Deus!
<><>
É fácil encontrar o discurso do abusador na voz resignada da abusada
Para
legitimar o abuso, como se fosse possível, avacalham textos bíblicos vadios
sobre estruturas sociais e familiares das comunidades rurais na Palestina no
período histórico que remete a séculos antes de Cristo.
Os
líderes religiosos, quando querem abusar, recorrem aos livros sagrados ou às
tradições em busca de legitimação. Modulam suas opiniões e taras com leituras
literais, no caso cristão, da Bíblia.
Jesus
vivia chamando os intérpretes dos textos sagrados e os líderes que comandavam a
sinagoga, escribas e sacerdotes, de hipócritas. O mestre de Nazaré, filho de
Maria e de José, acusava a duplicidade dos religiosos que abusavam do poder.
Para Jesus, o abusador espiritual é por definição um hipócrita.
“Pois
atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens;
eles, porém, nem com seu dedo querem movê-los; e fazem todas as obras a fim de
serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas
das suas vestes” (Mateus 23.4-5).
Fonte:
ICL Notícias

Nenhum comentário:
Postar um comentário