sexta-feira, 26 de junho de 2026

Valdemar Figueredo (Dema): O cambista com trajes de sacerdote

Tendo Jesus entrado no templo, expulsou todos os que ali vendiam e compravam; também derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a transformais em covil de salteadores (Mateus 21.12-13)...

Jesus conseguiu terminar com o comércio no templo? Não.

Em melhores termos, naquele dia específico, ele conseguiu interromper o comércio que se realizava no templo de Jerusalém. Deu prejuízo, mas não chegou a inviabilizar os negócios. Comprometeu o lucro daquele dia, mas nada que não pudesse ser recuperado na alta temporada por ocasião da Festa de Páscoa.

Simultaneamente às maravilhas operadas e ensinadas por Jesus, havia uma estrutura comercial em curso que utilizava os símbolos religiosos. Nesse sentido, a revolta de Jesus com os cambistas não foi o suficiente para acabar com a feira de produtos religiosos no templo de Jerusalém.

Não por sua vontade ou consentimento, o mestre de Nazaré “não foi bem-sucedido” no projeto de acabar com o comércio no templo. Contrariado, conviveu com essas estruturas. Eventualmente foi olhado pelos cambistas do culto como uma ameaça ao lucro.

A radicalização da rixa dos sacerdotes em relação a Jesus teve forte motivação comercial e financeira.

<><> Cambistas

Ocasião da Páscoa, judeus de diversos cantos iam ao templo em Jerusalém. A motivação primeira era o culto, solenidade religiosa. Mas, nos pátios do templo, os homens pagavam o imposto anual em guichês. Portanto, o templo nos festejos da Páscoa também se transformava num centro comercial.

O pagamento só era aceito na moeda local. “Tinha que ser pago numa moeda tíria padronizada e não em dinheiro romano padrão”.

O que seria “moeda tíria”?

O Shekel de Tiro (também conhecido como moeda de Tiro) foi uma moeda de prata de alta pureza cunhada na antiga cidade fenícia de Tiro (atual Líbano). Com circulação entre 126 a.C. e 67 d.C., tornou-se a única moeda aceita para o pagamento do imposto do Templo em Jerusalém.

Estava dado o ensejo para a prática abusiva do câmbio.

Os peregrinos faziam a conversão da moeda, seja para pagar o imposto obrigatório ou para comprar os animais para o sacrifício e consagração no culto.

Ostentar com oferta cara podia se transformar em visibilidade para atrair bons negócios. Funcionava o marketing do poder atrativo das ofertas gordas. Digo, animais gordos e caros eram sacrificados para Deus e por tabela atraiam os olhares dos investidores em potencial.

Quem credenciava os vendedores? Quem emitia o certificado de qualidade dos animais destinados ao abate no ritual de Páscoa? Os sacerdotes, além de cumprirem os ritos de culto no templo, se ocupavam do comércio no pátio.

Montavam sistemas comerciais e financeiros em que suas famílias eram as principais beneficiárias, vindo logo após os seus achegados.

Jesus os expôs, mas não o suficiente para parar os seus negócios.

<><> Compradores

Percebam que a fúria do mestre não se restringiu aos vendedores, ele expulsou também os compradores.

Nem todo freguês de sacerdote é inocente. Participa da feira no pátio enquanto o culto acontece. Sabe que a proximidade do altar pode ajudar a conquistar novas e vultosas transações.

Jesus teve que lidar com sujeitos ambiciosos que entendiam que a consagração religiosa podia se transformar em investimentos para futuros negócios.

No templo, o crente cliente louva. No pátio, compra.

No templo, o fiel interessado aprende. No pátio, procura promoções.

No templo, a comunhão dos santos ambiciosos. Nos átrios, networking religioso.

Jesus entendeu que os consumidores que iam ao templo por ocasião da Páscoa e se distraíam no comércio que ocorria no pátio não eram inocentes, sabiam o que estava acontecendo e participavam do comércio como parte do culto.

O mestre escandalizado e injuriado não poupou a clientela que se fazia de inocente útil.

>>>> Identificação dos sacerdotes cambistas em atividade

<><> Cobram pela mediação

Câmbio é basicamente a operação de troca. Quando a moeda de um país é revertida na moeda de outro país.  Portanto, o cambista é quem opera a transação, faz o negócio e obtém algum valor pela sua mediação.

Em termos religiosos, o cambista se coloca como mediador entre Deus e os fiéis. Pela sua condição de mediador espiritual, cobra pelo seu trabalho.

Como vimos no registro de Mateus (o publicano), o abuso do poder espiritual pode assumir a feição de cambistas.

<><> Conflito de interesses

Diversas corporações profissionais elaboram códigos de ética exatamente para orientar condutas quando do exercício da atividade. Não é a mesma coisa que a Constituição com as suas leis positivas e estatutárias, mas um plano de intenções e normas para o grupo específico no cumprimento da atividade profissional.

Imagina o sacerdote que acaba de oficializar o culto, ainda com os paramentos e adornos sacros que o distingue, desce do altar e vai para o pátio se inteirar do fluxo de caixa da barraca “z7” que pertence ao seu filho primogênito…

Imagina o mesmo sacerdote, ainda com cheiro de incenso, ainda com vestes de ver a Deus, participando de uma animada e descontraída conversa no pátio no pós-culto. Na rodinha, o prefeito e o juiz da cidade se confraternizam. O consagrado sacerdote, no mesmo tom solene em que evocou o sermão, pede favores aos irmãos. Revela que tem orado para Deus destravar a sua causa na justiça que se transformou num fardo financeiro…

<><> Moeda de troca só no mercado

Na igreja, o dinheiro que circula no culto é a moeda de dupla face: gratidão e compromisso com a missão da comunidade local.

Jesus não estimula a relação de barganha, mas a conscientização da consagração.

Dessa forma, na linguagem de Jesus aprendida e registrada pelo publicano (coletor de impostos) Mateus, a comunidade de fé não é movida pelo dinheiro.

<><> Quem cobra ágio é o agiota

Quando alguém que se entende ungido para mediar a relação entre as pessoas e Deus cobra valores monetários abusivos pelos serviços prestados, não é papel de sacerdote.

Já vimos, em uma reflexão anterior, a fala de Jesus: “Todo trabalhador é digno de seu salário” (Lucas 10.7).

Logo, a questão da qual nos ocupamos não ignora a ética social ou justiça trabalhista. O que é razoável, legal e saudável pode se transformar em abuso.

Jesus está chamando atenção para a gula de dinheiro por parte de quem diz estar trabalhando para Deus em favor das pessoas. O ponto é sensível, tão delicado que não devemos deixar degenerar algo tão sagrado em algo tão mesquinho.

É só para constar, sabemos que uma das ênfases da Reforma Protestante foi justamente a ideia de “sacerdócio universal”. Por causa de Jesus, de uma vez por todas, há livre acesso a Deus. Tal postulado teológico trouxe prejuízos financeiros ao clero que se pretendia cobradores de pedágios para quem pretendia se aproximar de Deus.

A figura do sacerdote paramentado que cobra ágio ou pedágio não faz o menor sentido.

<><> Infiltrados na seara evangélica: guias de turismo e cabos eleitorais

O turismo religioso é um fenômeno antigo que mobiliza os crentes, sejam eles hindus, islâmicos, judeus, budistas, esotéricos, católicos, protestantes, evangélicos, espíritas ou religiosos de matriz africana.

Busca-se reviver nos espaços sagrados as experiências das antigas gerações. A busca pela mística dos ancestrais. Tentativa de conectar-se espiritualmente, revivendo a história e pisando em solo santo.

Observo no meu entorno religioso a versão do turismo promovido por certas lideranças evangélicas. Caravanas guiadas por pastores e líderes de igrejas em ascensão com destino à Europa, Turquia e Israel.

No caso das caravanas para os Estados Unidos, a busca não é pelas relíquias do passado, nem pelas ruínas de antigos templos, muito menos pelos sítios arqueológicos. Caravanas vendidas como imersão nas grandes igrejas que merecem ser olhadas lá e imitadas aqui em chão brasileiro, supõem.

Agências customizam viagens para Israel por motivos óbvios. A Terra Santa que fora pisada pelos heróis bíblicos.

O pacote Turquia oferece o tour pelas sete igrejas do apocalipse: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laudiceia.

Conquanto os lugares sejam atrativos para os consumidores evangélicos, os guias das caravanas são figuras estratégicas para fidelizar pequenos grupos, oferecer os pacotes para os clientes em potencial e andar à frente do rebanho nos cenários de searas e pastos verdejantes.

Ganham o quê com isso? Depende.

Há várias modalidades de contratos. Cito dois exemplos hipotéticos.

Um pastor local que consegue fechar o pacote para 40 membros da sua congregação, provavelmente, será gratificado viajando de graça, com direito a uma acompanhante. Plano quase caseiro em que o elo entre as agências e os crentes recebe como comissão o pacote de viagem.

Enquanto, noutro extremo, líderes evangélicos de grande expressão, que superaram a condição de pastor local, exercendo influências regionais ou nacionais, além das módicas gratificações como translado e hospedagem, recebem comissões proporcionais ao montante arrecadado pelas agências.

Seria leviano da minha parte dizer que esses contratos correm em segredo. Prefiro ser mais cuidadoso dizendo que tais contratos não são transparentes para os turistas crentes que se habituaram a crer sem ver.

Pela narrativa até aqui, estamos diante de relações comerciais legais.

Evidente que, no processo de atração dos clientes, foram acionadas as relações de confiança. Um líder religioso se apresentou como guia turístico. A propaganda apontou tanto para um lugar como para uma pessoa de referência. Não é qualquer um que consegue atrair turistas com poder aquisitivo para fazer roteiros religiosos.

Podemos não gostar dos expedientes relatados, mas daí a dizer que é ilegal, seria um exagero.

No entanto, sob o ponto de vista ético, podemos denunciar a imoralidade. A falta de transparência sugere oportunismo, para dizer o mínimo.

Um número significativo de líderes evangélicos que exploram este filão de mercado não utiliza apenas o carisma pessoal. Fazem uso ostensivo das instituições religiosas. Embora não lhes pertençam, usam as estruturas eclesiásticas como se fossem suas.

Conquistam clientes para comprar os pacotes de viagens durante o culto, entre o momento de cânticos e a pregação. Autorizam que os funcionários das agências montem barracas nos corredores e espaços anexos ao templo. Disponibilizam os dados do rol de membros para que o telemarketing das agências personalize as abordagens e customize os pacotes.

Seja para arregimentar 40 pessoas ávidas pelo batismo no Rio Jordão ou 400 pastores para imersão nas megaigrejas trumpistas, os líderes dispostos a fechar contratos com agências de viagens especializadas em roteiros evangélicos geralmente usam as estruturas eclesiásticas.

Neste caso, pode não ser uma obrigação legal, mas, certamente, é um dever moral ser o mais transparente possível.

Quanto cada parte está ganhando com o tour espiritual de dezenas, centenas ou milhares de fiéis? É segredo? Não interessa?

Caso a igreja e as suas estruturas não fossem usadas para atração de clientes, vai lá, dava para chamar isso de relações privadas.

Sugiro um paralelo, trazendo para nossa reflexão outra paisagem que também faz parte do roteiro das igrejas evangélicas.

Guias de turismo evangélicos nos roteiros santos fazem lembrar os cabos eleitorais evangélicos nas eleições.

Ambos, guias de turismo e cabos eleitorais, que atuam para fidelizar evangélicos, não são afeitos à transparência. Os contratos firmados não são publicizados como se fossem de interesse público. Fica parecendo que essas relações são meramente de feição fraterna cristã.

Uma coisa é usar as fachadas tombadas dos templos históricos para dizer que ali está uma igreja, outra bem distinta é o uso das estruturas eclesiásticas para fins políticos eleitorais.

Diferente do guia de turismo, o pastor cabo-eleitoral ganha proporcionalmente à quantidade de eleitores convencidos e não a pacotes de viagens vendidos.

Por óbvio, quem consegue enfileirar duzentos eleitores na congregação não vale tanto como os guias que conseguem fidelizar dois mil ou dois milhões de turistas. Patamares de influência e valores pessoais distintos.

O mercado sabe aferir os valores, tanto dos que conseguem atrair turistas quanto dos que conseguem definir votos. Não sabemos quais, mas deduzimos que as contrapartidas estão para além da retórica em torno dos valores alegados na agenda moral.

A essa altura, será que alguém acredita que oração no templo por candidatos em período eleitoral, com ampla repercussão nas respectivas mídias e redes sociais dos grupos evangélicos afeitos às disputas eleitorais/partidárias, é de graça?

O voto carimbado pela oração custa caro. Bem mais caro do que um pacote de viagens do turismo religioso.

Quem consegue fazer a mediação entre crentes e agências de viagens age como se fosse natural ser gratificado com comissão.

Quem consegue transformar congregações evangélicas em zonas eleitorais age como se fosse merecedor de reconhecimento, gratificações e, quiçá, comissões.

•        Abuso espiritual e masculinidade

O abuso de poder se manifesta em diversas modalidades: físico, saber, econômico, sexual, etário, hierárquico, emocional, verbal, geográfico, doméstico…

Nesta coluna, pretendo destacar o abuso espiritual realizado em nome de Deus. Quando o abusador diz possuir autoridade dada por Deus para dizer o que diz e fazer o que faz.

Max Weber teorizou sobre os três tipos puros de dominação, sublinhando a crença na legitimidade do poder: Racional-Legal, Tradicional e Carismática. Sobre especificamente o poder carismático na versão religiosa, um grupo se submete à liderança de um dos seus membros baseado em que autoridade? A legitimidade do poder exercido pelo líder repousa nos laços frágeis da confiança. Nesses termos, o líder religioso tem o seu poder legitimado porque o grupo acredita nele. No cenário de crise de confiança, a liderança espiritual se desmantela.

A linha da fronteira entre poder religioso legítimo e abuso do poder religioso é tão tênue que se torna invisível a olho nu.

Quando olhado o fenômeno de longe, observadores de má vontade simplificam acusando todo líder espiritual de abusador. Nessas generalizações preconceituosas, dizem que é só uma questão de tempo para o líder religioso ultrapassar a linha da fronteira e se acostumar com a condição de abusador.

Em qualquer cenário de liderança carismática, os frágeis laços da confiança determinam a legitimidade.

Nos últimos dias, observamos líderes religiosos e personalidades candidatos a influencers espirituais saírem dos seus espaços sagrados e seguros para vocalizar nos espaços públicos o que concebem como masculinidade.

Simplificando o arremedo da masculinidade em questão, religiosos emponderados modulam retóricas que geralmente depreciam as fêmeas.

O abuso espiritual consiste em colocar Deus na conversa para a partir do Jardim do Éden acusar as fêmeas de conchavo com o tentador para infernizar a vida do macho.

Todos os males sociais, para os apologetas da reconstrução do macho, passam pela insubordinação feminina.

A “heresia” mais combatida entre setores cristãos ditos tradicionalistas, ortodoxos e/ou reformados: emancipação feminina.

Na visada que estou apenas pincelando, reconquistar a família tradicional passa pelo repactuar a submissão feminina.

<><> Caso da mulher que apanhava do marido

Dia exaustivo do médico que chegou em casa, tomou um banho morno demorado e depois afundou na poltrona para assistir a um pouco de TV antes do jantar.

Carinhosamente a esposa pôs a mesa. Lasanha à bolonhesa acompanhada de Couve-Flor gratinada com molho branco. Não podia faltar nas refeições um prato com pães frescos cortadinhos.

– E o refrigerante?

– Esqueci! Mas vou fazer um suco rapidinho.

Foi o suficiente para gerar o aborrecimento dele que evoluiu para agressões verbais.

– Trabalho que nem um cavalo de carga para que nada falte nessa casa e não consigo beber a porra do refrigerante que gosto.

O que mais o irritou é que ela não respondeu nada. Foi para a cozinha fazer o suco sem esboçar qualquer reação. Levantou-se da mesa, foi atrás dela e a agrediu com tapas, empurrões e gritos.

Aliviado depois do seu momento de fúria, voltou à mesa e jantou, sem esquecer de beber dois copos da limonada suíça açucarada.

Dias após, a mulher que apanhava do marido teve a coragem de contar à mãe a violência doméstica sofrida. A mãe a censurou e ressaltou o quanto o genro era especial. Incentivou-a a orar e a vigiar para não dar motivos de aborrecimentos.

Encorajada, chegou a um consultório de psicologia à procura de ajuda. A sua fala demonstrava a sua condição:

– Meu marido é um homem de Deus, um homem maravilhoso, se ele me bate é porque eu devo dar motivos. Eu não devo ser uma pessoa boa porque eu apanho de um homem de Deus!

<><> É fácil encontrar o discurso do abusador na voz resignada da abusada

Para legitimar o abuso, como se fosse possível, avacalham textos bíblicos vadios sobre estruturas sociais e familiares das comunidades rurais na Palestina no período histórico que remete a séculos antes de Cristo.

Os líderes religiosos, quando querem abusar, recorrem aos livros sagrados ou às tradições em busca de legitimação. Modulam suas opiniões e taras com leituras literais, no caso cristão, da Bíblia.

Jesus vivia chamando os intérpretes dos textos sagrados e os líderes que comandavam a sinagoga, escribas e sacerdotes, de hipócritas. O mestre de Nazaré, filho de Maria e de José, acusava a duplicidade dos religiosos que abusavam do poder. Para Jesus, o abusador espiritual é por definição um hipócrita.

“Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com seu dedo querem movê-los; e fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas das suas vestes” (Mateus 23.4-5).

 

Fonte: ICL Notícias

 

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