Gustavo
Tapioca: Trump avança na América Latina. O Brasil é o próximo alvo
Poucas
horas após a confirmação da vitória de Abelardo de la Espriella, Donald Trump
telefonou para o presidente eleito. O secretário de Estado Marco Rubio divulgou
mensagem oficial de congratulações. Javier Milei celebrou o resultado.
Lideranças conservadoras de diversos países fizeram o mesmo. O episódio
sugere que não estejamos diante de uma simples sucessão de eleições nacionais.
Talvez estejamos assistindo à reorganização de um campo político
continental.
E,
nesse processo, o Brasil ocupa posição central.
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Da Venezuela ao Caribe
A nova
fase começou na Venezuela. O sequestro e prisão de Nicolás Maduro e a derrubado
do governo alteraram profundamente o equilíbrio político regional e demonstrou
que Washington voltava a exercer protagonismo direto na América Latina. Pouco
depois, Cuba voltou ao centro das atenções. As declarações de Trump contra
Havana e a pressão crescente sobre o regime cubano recolocaram no debate uma
velha questão geopolítica: até onde os Estados Unidos pretendem avançar para
reafirmar sua influência no hemisfério?
Cuba
continua sendo um ponto sensível porque mantém relações históricas com a Rússia
e estratégicas com a China. Pressionar Havana significa também enviar mensagens
a Moscou e Pequim. Não por acaso, o Caribe voltou a ocupar espaço
importante no discurso da administração norte-americana.
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A ultradireita continental
Ao
mesmo tempo, uma nova direita avança pela América Latina: ultradireita
continental liderada por Donald Trump.
Na
Argentina, Javier Milei chegou ao poder prometendo demolir o sistema político
tradicional. Em El Salvador, Nayib Bukele transformou a segurança pública em
sua principal fonte de legitimidade. Construiu mega prisões e ofereceu ao
governo Trump para receber presos dos EUA, incluindo migrantes. No Chile,
José Antonio Kast venceu apresentando-se como alternativa ao ciclo progressista
anterior. Agora foi a vez da Colômbia.
Os
contextos nacionais são diferentes. Mas existe um traço comum. Todos esses
líderes se apresentam como alternativas ao establishment político tradicional.
Todos cultivam uma linguagem de confronto. E todos mantêm algum grau de
proximidade com o universo político conservador e ultradireitista que gravita
em torno de Donald Trump.
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Mar-a-Lago e a reorganização hemisférica
Foi
nesse contexto que ganhou importância o encontro promovido por Trump em
Mar-a-Lago, em 7 de março de 2026, no Trump National Doral, em Miami, Flórida.
Foram convidados os governantes da América Latina, com exceção de Luís
Inácio Lula da Silva, do Brasil; Gustavo Petro, da Colômbia; e Cláudia
Sheinbaum, do Mexico.
Mais do
que uma reunião diplomática, o evento sinalizou a construção de uma rede
política transnacional baseada em temas comuns. Segurança. Imigração. Combate
ao narcotráfico, rebatizado de narcoterrorismo. Contenção da influência
chinesa. A rápida celebração da vitória colombiana por Trump, Marco
Rubio, Milei e outros dirigentes conservadores reforça essa percepção. Talvez
ainda seja cedo para falar em uma coordenação continental estruturada. Mas já
não parece possível ignorar a existência de uma crescente convergência política
entre o governo de Trump e movimentos da extrema-direita
latino-americana.
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O Paraguai no centro do continente
Outro
movimento relevante ocorreu no Paraguai. O Congresso aprovou um acordo
que amplia a presença temporária de militares norte-americanos para exercícios
e operações de cooperação. O governo insiste que não se trata da
instalação de uma base militar permanente. Mas o significado geopolítico do
acordo é evidente.
Situado
no coração da América do Sul, fazendo fronteira com Brasil, Argentina e
Bolívia, o Paraguai ocupa posição estratégica singular. Mais importante
do que discutir a existência ou não de uma base formal é observar a expansão de
uma rede de cooperação militar, inteligência e presença operacional
norte-americana na região.
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O dilema brasileiro
É
justamente nesse ponto que o Brasil se torna decisivo. A pesquisa
Datafolha divulgada neste mês mostra Lula liderando tanto no primeiro quanto no
segundo turno. O principal adversário continua sendo Flávio Bolsonaro.
Mas o
dado mais interessante talvez não esteja nos dois líderes. Está na dificuldade
da direita tradicional brasileira em encontrar um candidato competitivo. Uma
parcela expressiva do empresariado, do sistema financeiro e das elites
políticas não deseja apoiar Lula. Ao mesmo tempo, demonstra desconforto com o
bolsonarismo. O problema é que a direita ainda não encontrou uma
alternativa capaz de romper essa polarização. Governadores são testados. Novos
nomes são lançados. Velhas lideranças reaparecem. Mas nenhum deles consegue
desafiar simultaneamente Lula e Flávio Bolsonaro.
A
Colômbia resolveu esse dilema. A Argentina resolveu. O Chile resolveu. O Brasil
ainda não. Pode resolver em outubro escolhendo Lula ou o candidato da
extrema-direita, o Bolsonaro da vez, que vai tentar impedir a reeleição de
Lula. O mapa político da América do Sul ajuda a dimensionar o problema.
Argentina, Chile, Paraguai, Equador, Bolívia e Colômbia já aparecem sob
governos de direita. O Peru ainda não proclamou oficialmente o vencedor, mas
Keiko Fujimori permanece à frente. Nesse cenário, o Brasil de Lula surge como a
principal exceção continental.
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A ultradireita avança
Não é
necessário afirmar a existência de um plano explícito contra o Brasil para
perceber o que está acontecendo ao seu redor. A ultradireita continental
avança. Washington recupera protagonismo regional. Governos conservadores
ampliam sua articulação. E o Brasil continua sendo a maior economia, a maior
população e a principal potência política da América do Sul. Se existe um
país decisivo para qualquer reorganização continental, esse país é o Brasil.
Por isso, a questão central já não é apenas quem vencerá a eleição brasileira
de 2026.
À
medida que a ultradireita amplia sua influência na América Latina, o Brasil
continuará sendo uma exceção ou acabará incorporado ao mesmo movimento da
ultradireita que já transformou parte significativa do continente? A pergunta
ganha relevância diante da relação cada vez mais estreita entre o bolsonarismo
e o círculo político de Donald Trump. Nos
últimos meses, o presidente norte-americano declarou apoio ao ultraconservador
colombiano Abelardo de la Espriella antes do segundo turno, celebrou sua
vitória logo após a votação e recebeu manifestações públicas de alinhamento de
lideranças conservadoras da região.
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A peça decisiva
No
Brasil, essa conexão também se tornou visível. Flávio Bolsonaro e Eduardo
Bolsonaro participaram recentemente de encontros políticos nos Estados Unidos
com Trump e aliados do trumpismo, reforçando uma relação construída ao longo
dos últimos anos entre duas famílias políticas de extrema-direita. Ainda
é cedo para saber qual será o desfecho dessa disputa. Mas uma coisa parece cada
vez mais evidente. A batalha política que se aproxima não será apenas
brasileira.
O
Brasil deixou de ser mais um país em disputa. Tornou-se a peça decisiva. É o
maior país, a maior economia, o centro da Amazônia, membro dos BRICS e o
principal governo progressista ainda capaz de conter a reorganização
continental da ultradireita. Se a América do Sul vive uma nova onda
conservadora, o Brasil permanece como a principal exceção. E exatamente por
isso se torna a peça mais importante do tabuleiro continental. Em
outubro, o Brasil decidirá se aceita figurar entre os países que sucumbiram à ultradireita
, liderada por Trump, ou entre aqueles que se rebelam contra ela.
¨ Presidente eleito da
Colômbia e Trump: qual o impacto da aliança para o país e para a América do
Sul?
O
governo de Donald Trump nos Estados Unidos acompanhou de perto a campanha
presidencial de Abelardo de la Espriella na Colômbia,
apoiando abertamente sua candidatura.
O
secretário de Estado americano, Marco Rubio, foi um dos primeiros líderes
mundiais a felicitar o outsider de direita, após sua vitória
nas eleições colombianas de domingo (21/6). "O governo Trump está disposto
a trabalhar de perto com seu próximo governo, para fazer avançar a cooperação
em prol da segurança regional, pôr fim à migração ilegal para os Estados Unidos
e fortalecer nossos laços econômicos", declarou Rubio no X.
De la
Espriella possui nacionalidade americana. Ele afirmou que deseja uma relação
próxima com Trump, de quem se declara ser admirador. O presidente eleito também
busca uma estratégia de pulso firme contra o crime, alinhado à posição do
mandatário americano - algo que deve ter impacto no xadrez geopolítico de toda
a região, incluindo o Brasil.
Durante
os quatro anos de governo progressista do presidente Gustavo Petro, as relações entre
os Estados Unidos e a Colômbia foram turbulentas. Após o retorno de Trump à
Casa Branca, em janeiro de 2025, houve sucessivas crises diplomáticas e desencontros
em temas como segurança, política de drogas e migração.
As
relações entre os países melhoraram em fevereiro deste ano, após uma visita amigável de Petro a Washington. Mas a desconfiança
entre os dois presidentes se manteve latente. A vitória de De la Espriella abre
um novo capítulo nas relações entre os Estados Unidos e a Colômbia. Apesar de
perder força nos últimos anos, esta permanece sendo a aliança mais importante
para o país sul-americano.
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'Vitória propícia para Trump'
"Esta
parece uma vitória conveniente para Trump", declarou à BBC News Mundo (o
serviço em espanhol da BBC), o diretor da consultoria de análise geopolítica
Colombia Risk Analysis, Sergio Guzmán. A Colômbia era um dos poucos países da
América do Sul com um governo de esquerda. Gustavo Petro representava um
bloqueio contra as aspirações de Trump no continente.
O
triunfo de De la Espriella, indicado pela apuração preliminar, e a aparente
vitória de Keiko Fujimori no Peru fizeram com que
o Brasil (com eleições marcadas para outubro) e o Uruguai
passassem a ser os únicos países sul-americanos com presidentes de esquerda,
mais distantes dos Estados Unidos e do seu mandatário republicano.
Os
reticentes governos do Brasil e da Colômbia limitaram, até certo ponto, as
tentativas de Trump de realizar ações militares contra o crime em geral e o
narcotráfico no continente. De la Espriella deixou claras suas intenções de
bombardear acampamentos "narcoterroristas" e carregamentos de drogas
na Colômbia, o principal produtor e exportador de cocaína do mundo e cenário de
um conflito armado com diversas frentes, que dura mais de 60 anos.
Tudo
isso coincide com a estratégia militar americana que, desde setembro de 2025,
atacou dezenas de supostas narcoembarcações, deixando mais de
200 mortos no litoral da América do Sul. Além disso, os Estados Unidos
capturaram o então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e realizaram
operações conjuntas contra o crime organizado, ao lado da Venezuela e do
Equador.
Em
relação à Colômbia, apesar das desavenças com Petro, permanece a cooperação
internacional e de inteligência que caracterizou as relações entre os dois
países por décadas. "A vitória de De la Espriella vem de encontro às
prioridades dos Estados Unidos no hemisfério ocidental que, além das políticas
antinarcóticos e da perseguição às organizações criminosas, também envolvem o
controle e a repatriação de migrantes", explica Elizabeth Dickinson, do
centro de estudos International Crisis Group. "O desafio para o próximo
presidente colombiano será garantir que suas prioridades e o que for melhor
para o seu país coincidam com esta agenda [americana], protegendo ao mesmo
tempo sua população civil em um contexto de divisão política e conflitos
internos", prossegue ela.
A
apuração preliminar indica que quase 13 milhões de colombianos votaram em De la
Espriella, enquanto 12,7 milhões preferiram seu adversário, o candidato do
governo Petro, Iván Cepeda. Com uma eleição tão apertada, espera-se
resistência ativa frente a algumas políticas que o presidente eleito deseja
implementar. Mas, no seu discurso da vitória, De la Espriella se mostrou mais
conciliador que na campanha, prometendo governar "para todos os
colombianos".
<><> A Colômbia que espera De la Espriella
Os
quatro anos de "paz total" de Petro — a estratégia do governo, que
priorizava a negociação sobre a luta contra grupos armados — resultaram em uma
Colômbia que não consegue frear a expansão desses grupos, iniciada em 2018,
dois anos depois do acordo de desmobilização entre o Estado colombiano e a
guerrilha das Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. A Colômbia
tem, hoje, o segundo maior índice de homicídios do continente, atrás apenas do
Equador, além de um recorde histórico de cultivo de folhas de coca. Mas estes
índices reduziram seu ritmo de aumento nos últimos anos.
O mesmo
não ocorre com o crescimento dos grupos armados. Hoje, eles somam mais de 27
mil integrantes, depois de terem dobrado de tamanho nos últimos cinco anos.
Agora,
De la Espriella propõe priorizar a via do confronto, desarmar as negociações e
aumentar o orçamento militar. Mas não se trata de algo novo na Colômbia. Diferentes
governos se sucedem, alternando receitas de pulso firme e mãos estendidas, para
pôr fim ao conflito armado. Mas ninguém atingiu sucesso absoluto.
Parece
haver certo consenso de que o Plano Colômbia (um pacote milionário de ajuda
militar e econômica de Washington a Bogotá, no início dos anos 2000) e a
estratégia de "Segurança Democrática" do ex-presidente Álvaro Uribe
(2002-2010) debilitaram militarmente as Farc.
Tudo
isso possibilitou o posicionamento do governo que se seguiu a Uribe, do
presidente Juan Manuel Santos (2010-2018), para forçar as Farc a negociar e
depor as armas. A questão, segundo vários analistas, é que, depois do processo
de paz, não foram resolvidos desafios como as desigualdades, o vigor da
economia ilícita e a limitada presença do Estado em regiões remotas.Estes
fatores criaram um campo fértil para a proliferação do crime, com novos grupos
armados e receitas, como a do narcotráfico e da mineração ilegal.
De la
Espriella levantou a possibilidade de fazer reviver um "Plano Colômbia
2.0". A história mostra que o pulso firme não resolveu o conflito armado e
a questão do narcotráfico. Talvez por isso, o presidente eleito também prometeu
levar investimentos às regiões mais afetadas pela violência e pela
criminalidade. Este objetivo é maiúsculo e, ao mesmo tempo, uma faca de dois
gumes.
Apesar
dos seus sucessos militares, atribui-se às iniciativas de confronto, como o
Plano Colômbia e a Segurança Democrática de Uribe, o empoderamento de grupos
paramilitares, que acabaram envolvidos em massacres contra a população civil.
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As questões existentes
Atualmente,
os Estados Unidos teriam, alinhados à sua visão de segurança, os governos do
Equador e da Venezuela, seguramente do Peru e, em breve, da Colômbia. São
quatro países que enfrentam graves desafios de segurança e crime organizado.
Para
Dickinson, um lado positivo desta situação é que haverá maior cooperação
regional. Mas também existem riscos. "Washington segue mais a sua agenda
do que os interesses locais dos países mais afetados pela violência que se
expandiu pela região", explica ele. E este é um dos diversos equilíbrios
que De la Espriella precisará manter em suas relações com os Estados Unidos. Seus
adversários já acusaram o presidente eleito de supostamente priorizar os
interesses dos Estados Unidos, em detrimento da Colômbia.
Para
Guzmán, outra preocupação é que, apesar da vitória de De la Espriella, os
Estados Unidos possam não demonstrar a mesma generosidade de antes com o país.
"Existe
uma expectativa de que os Estados Unidos retribuam à Colômbia a assistência
militar e social que haviam recebido", explica o analista. "Acho
difícil, já que Trump não é um líder particularmente generoso." A Colômbia
foi um dos países mais afetados pelos cortes da USAID, a agência de cooperação
americana que destinava milhões de dólares para projetos sociais e de
desenvolvimento no país sul-americano, desmantelada pelo governo Donald
Trump.
Nos
últimos anos, enquanto os Estados Unidos pareciam afastados dos seus interesses
na região, a Colômbia, como outros países da América Latina, foi se aproximando
da China, que é o maior adversário geopolítico dos americanos.
Atualmente,
Pequim disputa com Washington a posição de maior parceiro comercial de Bogotá.
E os especialistas preveem que a China poderá superar os americanos nos
próximos anos. "Acho provável que os Estados Unidos peçam à Colômbia que
suspenda suas relações com a China, que se ampliaram com Petro", analisa
Guzmán.
"Mas
não será tão simples, pois a China ocupa um espaço importante de investimentos
que De la Espriella não poderá ignorar e os Estados Unidos não conseguirão
ocupar." A pouco mais de dois meses da posse de De la Espriella, suas
relações com o país mais poderoso do mundo parecem mais complexas do que
transpareceu durante a campanha eleitoral.
Fonte:
Brasil 247/BBC News Mundo

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