quinta-feira, 25 de junho de 2026

Gustavo Tapioca: Trump avança na América Latina. O Brasil é o próximo alvo

Poucas horas após a confirmação da vitória de Abelardo de la Espriella, Donald Trump telefonou para o presidente eleito. O secretário de Estado Marco Rubio divulgou mensagem oficial de congratulações. Javier Milei celebrou o resultado. Lideranças conservadoras de diversos países fizeram o mesmo.  O episódio sugere que não estejamos diante de uma simples sucessão de eleições nacionais. Talvez estejamos assistindo à reorganização de um campo político continental. 

E, nesse processo, o Brasil ocupa posição central. 

<><> Da Venezuela ao Caribe 

A nova fase começou na Venezuela. O sequestro e prisão de Nicolás Maduro e a derrubado do governo alteraram profundamente o equilíbrio político regional e demonstrou que Washington voltava a exercer protagonismo direto na América Latina.  Pouco depois, Cuba voltou ao centro das atenções. As declarações de Trump contra Havana e a pressão crescente sobre o regime cubano recolocaram no debate uma velha questão geopolítica: até onde os Estados Unidos pretendem avançar para reafirmar sua influência no hemisfério? 

Cuba continua sendo um ponto sensível porque mantém relações históricas com a Rússia e estratégicas com a China. Pressionar Havana significa também enviar mensagens a Moscou e Pequim.  Não por acaso, o Caribe voltou a ocupar espaço importante no discurso da administração norte-americana. 

<><> A ultradireita continental 

Ao mesmo tempo, uma nova direita avança pela América Latina: ultradireita continental liderada por Donald Trump.  

Na Argentina, Javier Milei chegou ao poder prometendo demolir o sistema político tradicional. Em El Salvador, Nayib Bukele transformou a segurança pública em sua principal fonte de legitimidade. Construiu mega prisões e ofereceu ao governo Trump para receber presos dos EUA, incluindo migrantes.  No Chile, José Antonio Kast venceu apresentando-se como alternativa ao ciclo progressista anterior. Agora foi a vez da Colômbia. 

Os contextos nacionais são diferentes. Mas existe um traço comum. Todos esses líderes se apresentam como alternativas ao establishment político tradicional. Todos cultivam uma linguagem de confronto.  E todos mantêm algum grau de proximidade com o universo político conservador e ultradireitista que gravita em torno de Donald Trump. 

<><> Mar-a-Lago e a reorganização hemisférica 

Foi nesse contexto que ganhou importância o encontro promovido por Trump em Mar-a-Lago, em 7 de março de 2026, no Trump National Doral, em Miami, Flórida.  Foram convidados os governantes da América Latina, com exceção de Luís Inácio Lula da Silva, do Brasil; Gustavo Petro, da Colômbia; e Cláudia Sheinbaum, do Mexico.  

Mais do que uma reunião diplomática, o evento sinalizou a construção de uma rede política transnacional baseada em temas comuns. Segurança. Imigração. Combate ao narcotráfico, rebatizado de narcoterrorismo. Contenção da influência chinesa.  A rápida celebração da vitória colombiana por Trump, Marco Rubio, Milei e outros dirigentes conservadores reforça essa percepção.  Talvez ainda seja cedo para falar em uma coordenação continental estruturada. Mas já não parece possível ignorar a existência de uma crescente convergência política entre o governo de Trump e movimentos da extrema-direita latino-americana. 

<><> O Paraguai no centro do continente 

Outro movimento relevante ocorreu no Paraguai.  O Congresso aprovou um acordo que amplia a presença temporária de militares norte-americanos para exercícios e operações de cooperação.  O governo insiste que não se trata da instalação de uma base militar permanente. Mas o significado geopolítico do acordo é evidente. 

Situado no coração da América do Sul, fazendo fronteira com Brasil, Argentina e Bolívia, o Paraguai ocupa posição estratégica singular.  Mais importante do que discutir a existência ou não de uma base formal é observar a expansão de uma rede de cooperação militar, inteligência e presença operacional norte-americana na região. 

<><> O dilema brasileiro 

É justamente nesse ponto que o Brasil se torna decisivo.  A pesquisa Datafolha divulgada neste mês mostra Lula liderando tanto no primeiro quanto no segundo turno. O principal adversário continua sendo Flávio Bolsonaro. 

Mas o dado mais interessante talvez não esteja nos dois líderes. Está na dificuldade da direita tradicional brasileira em encontrar um candidato competitivo.  Uma parcela expressiva do empresariado, do sistema financeiro e das elites políticas não deseja apoiar Lula. Ao mesmo tempo, demonstra desconforto com o bolsonarismo.  O problema é que a direita ainda não encontrou uma alternativa capaz de romper essa polarização. Governadores são testados. Novos nomes são lançados. Velhas lideranças reaparecem. Mas nenhum deles consegue desafiar simultaneamente Lula e Flávio Bolsonaro. 

A Colômbia resolveu esse dilema. A Argentina resolveu. O Chile resolveu. O Brasil ainda não. Pode resolver em outubro escolhendo Lula ou o candidato da extrema-direita, o Bolsonaro da vez, que vai tentar impedir a reeleição de Lula.  O mapa político da América do Sul ajuda a dimensionar o problema. Argentina, Chile, Paraguai, Equador, Bolívia e Colômbia já aparecem sob governos de direita. O Peru ainda não proclamou oficialmente o vencedor, mas Keiko Fujimori permanece à frente. Nesse cenário, o Brasil de Lula surge como a principal exceção continental. 

<><>  A ultradireita avança 

Não é necessário afirmar a existência de um plano explícito contra o Brasil para perceber o que está acontecendo ao seu redor. A ultradireita continental avança.  Washington recupera protagonismo regional. Governos conservadores ampliam sua articulação. E o Brasil continua sendo a maior economia, a maior população e a principal potência política da América do Sul.  Se existe um país decisivo para qualquer reorganização continental, esse país é o Brasil. Por isso, a questão central já não é apenas quem vencerá a eleição brasileira de 2026. 

À medida que a ultradireita amplia sua influência na América Latina, o Brasil continuará sendo uma exceção ou acabará incorporado ao mesmo movimento da ultradireita que já transformou parte significativa do continente? A pergunta ganha relevância diante da relação cada vez mais estreita entre o bolsonarismo e o círculo político de Donald Trump.  Nos últimos meses, o presidente norte-americano declarou apoio ao ultraconservador colombiano Abelardo de la Espriella antes do segundo turno, celebrou sua vitória logo após a votação e recebeu manifestações públicas de alinhamento de lideranças conservadoras da região. 

<><> A peça decisiva   

No Brasil, essa conexão também se tornou visível. Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro participaram recentemente de encontros políticos nos Estados Unidos com Trump e aliados do trumpismo, reforçando uma relação construída ao longo dos últimos anos entre duas famílias políticas de extrema-direita.   Ainda é cedo para saber qual será o desfecho dessa disputa. Mas uma coisa parece cada vez mais evidente. A batalha política que se aproxima não será apenas brasileira.  

O Brasil deixou de ser mais um país em disputa. Tornou-se a peça decisiva. É o maior país, a maior economia, o centro da Amazônia, membro dos BRICS e o principal governo progressista ainda capaz de conter a reorganização continental da ultradireita.   Se a América do Sul vive uma nova onda conservadora, o Brasil permanece como a principal exceção. E exatamente por isso se torna a peça mais importante do tabuleiro continental.  Em outubro, o Brasil decidirá se aceita figurar entre os países que sucumbiram à ultradireita , liderada por Trump, ou entre aqueles que se rebelam contra ela. 

¨      Presidente eleito da Colômbia e Trump: qual o impacto da aliança para o país e para a América do Sul?

O governo de Donald Trump nos Estados Unidos acompanhou de perto a campanha presidencial de Abelardo de la Espriella na Colômbia, apoiando abertamente sua candidatura.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, foi um dos primeiros líderes mundiais a felicitar o outsider de direita, após sua vitória nas eleições colombianas de domingo (21/6). "O governo Trump está disposto a trabalhar de perto com seu próximo governo, para fazer avançar a cooperação em prol da segurança regional, pôr fim à migração ilegal para os Estados Unidos e fortalecer nossos laços econômicos", declarou Rubio no X.

De la Espriella possui nacionalidade americana. Ele afirmou que deseja uma relação próxima com Trump, de quem se declara ser admirador. O presidente eleito também busca uma estratégia de pulso firme contra o crime, alinhado à posição do mandatário americano - algo que deve ter impacto no xadrez geopolítico de toda a região, incluindo o Brasil.

Durante os quatro anos de governo progressista do presidente Gustavo Petro, as relações entre os Estados Unidos e a Colômbia foram turbulentas. Após o retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, houve sucessivas crises diplomáticas e desencontros em temas como segurança, política de drogas e migração.

As relações entre os países melhoraram em fevereiro deste ano, após uma visita amigável de Petro a Washington. Mas a desconfiança entre os dois presidentes se manteve latente. A vitória de De la Espriella abre um novo capítulo nas relações entre os Estados Unidos e a Colômbia. Apesar de perder força nos últimos anos, esta permanece sendo a aliança mais importante para o país sul-americano.

<><> 'Vitória propícia para Trump'

"Esta parece uma vitória conveniente para Trump", declarou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC), o diretor da consultoria de análise geopolítica Colombia Risk Analysis, Sergio Guzmán. A Colômbia era um dos poucos países da América do Sul com um governo de esquerda. Gustavo Petro representava um bloqueio contra as aspirações de Trump no continente.

O triunfo de De la Espriella, indicado pela apuração preliminar, e a aparente vitória de Keiko Fujimori no Peru fizeram com que o Brasil (com eleições marcadas para outubro) e o Uruguai passassem a ser os únicos países sul-americanos com presidentes de esquerda, mais distantes dos Estados Unidos e do seu mandatário republicano.

Os reticentes governos do Brasil e da Colômbia limitaram, até certo ponto, as tentativas de Trump de realizar ações militares contra o crime em geral e o narcotráfico no continente. De la Espriella deixou claras suas intenções de bombardear acampamentos "narcoterroristas" e carregamentos de drogas na Colômbia, o principal produtor e exportador de cocaína do mundo e cenário de um conflito armado com diversas frentes, que dura mais de 60 anos.

Tudo isso coincide com a estratégia militar americana que, desde setembro de 2025, atacou dezenas de supostas narcoembarcações, deixando mais de 200 mortos no litoral da América do Sul. Além disso, os Estados Unidos capturaram o então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e realizaram operações conjuntas contra o crime organizado, ao lado da Venezuela e do Equador.

Em relação à Colômbia, apesar das desavenças com Petro, permanece a cooperação internacional e de inteligência que caracterizou as relações entre os dois países por décadas. "A vitória de De la Espriella vem de encontro às prioridades dos Estados Unidos no hemisfério ocidental que, além das políticas antinarcóticos e da perseguição às organizações criminosas, também envolvem o controle e a repatriação de migrantes", explica Elizabeth Dickinson, do centro de estudos International Crisis Group. "O desafio para o próximo presidente colombiano será garantir que suas prioridades e o que for melhor para o seu país coincidam com esta agenda [americana], protegendo ao mesmo tempo sua população civil em um contexto de divisão política e conflitos internos", prossegue ela.

A apuração preliminar indica que quase 13 milhões de colombianos votaram em De la Espriella, enquanto 12,7 milhões preferiram seu adversário, o candidato do governo Petro, Iván Cepeda. Com uma eleição tão apertada, espera-se resistência ativa frente a algumas políticas que o presidente eleito deseja implementar. Mas, no seu discurso da vitória, De la Espriella se mostrou mais conciliador que na campanha, prometendo governar "para todos os colombianos".

<><> A Colômbia que espera De la Espriella

Os quatro anos de "paz total" de Petro — a estratégia do governo, que priorizava a negociação sobre a luta contra grupos armados — resultaram em uma Colômbia que não consegue frear a expansão desses grupos, iniciada em 2018, dois anos depois do acordo de desmobilização entre o Estado colombiano e a guerrilha das Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. A Colômbia tem, hoje, o segundo maior índice de homicídios do continente, atrás apenas do Equador, além de um recorde histórico de cultivo de folhas de coca. Mas estes índices reduziram seu ritmo de aumento nos últimos anos.

O mesmo não ocorre com o crescimento dos grupos armados. Hoje, eles somam mais de 27 mil integrantes, depois de terem dobrado de tamanho nos últimos cinco anos.

Agora, De la Espriella propõe priorizar a via do confronto, desarmar as negociações e aumentar o orçamento militar. Mas não se trata de algo novo na Colômbia. Diferentes governos se sucedem, alternando receitas de pulso firme e mãos estendidas, para pôr fim ao conflito armado. Mas ninguém atingiu sucesso absoluto.

Parece haver certo consenso de que o Plano Colômbia (um pacote milionário de ajuda militar e econômica de Washington a Bogotá, no início dos anos 2000) e a estratégia de "Segurança Democrática" do ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010) debilitaram militarmente as Farc.

Tudo isso possibilitou o posicionamento do governo que se seguiu a Uribe, do presidente Juan Manuel Santos (2010-2018), para forçar as Farc a negociar e depor as armas. A questão, segundo vários analistas, é que, depois do processo de paz, não foram resolvidos desafios como as desigualdades, o vigor da economia ilícita e a limitada presença do Estado em regiões remotas.Estes fatores criaram um campo fértil para a proliferação do crime, com novos grupos armados e receitas, como a do narcotráfico e da mineração ilegal.

De la Espriella levantou a possibilidade de fazer reviver um "Plano Colômbia 2.0". A história mostra que o pulso firme não resolveu o conflito armado e a questão do narcotráfico. Talvez por isso, o presidente eleito também prometeu levar investimentos às regiões mais afetadas pela violência e pela criminalidade. Este objetivo é maiúsculo e, ao mesmo tempo, uma faca de dois gumes.

Apesar dos seus sucessos militares, atribui-se às iniciativas de confronto, como o Plano Colômbia e a Segurança Democrática de Uribe, o empoderamento de grupos paramilitares, que acabaram envolvidos em massacres contra a população civil.

<><> As questões existentes

Atualmente, os Estados Unidos teriam, alinhados à sua visão de segurança, os governos do Equador e da Venezuela, seguramente do Peru e, em breve, da Colômbia. São quatro países que enfrentam graves desafios de segurança e crime organizado.

Para Dickinson, um lado positivo desta situação é que haverá maior cooperação regional. Mas também existem riscos. "Washington segue mais a sua agenda do que os interesses locais dos países mais afetados pela violência que se expandiu pela região", explica ele. E este é um dos diversos equilíbrios que De la Espriella precisará manter em suas relações com os Estados Unidos. Seus adversários já acusaram o presidente eleito de supostamente priorizar os interesses dos Estados Unidos, em detrimento da Colômbia.

Para Guzmán, outra preocupação é que, apesar da vitória de De la Espriella, os Estados Unidos possam não demonstrar a mesma generosidade de antes com o país.

"Existe uma expectativa de que os Estados Unidos retribuam à Colômbia a assistência militar e social que haviam recebido", explica o analista. "Acho difícil, já que Trump não é um líder particularmente generoso." A Colômbia foi um dos países mais afetados pelos cortes da USAID, a agência de cooperação americana que destinava milhões de dólares para projetos sociais e de desenvolvimento no país sul-americano, desmantelada pelo governo Donald Trump.

Nos últimos anos, enquanto os Estados Unidos pareciam afastados dos seus interesses na região, a Colômbia, como outros países da América Latina, foi se aproximando da China, que é o maior adversário geopolítico dos americanos.

Atualmente, Pequim disputa com Washington a posição de maior parceiro comercial de Bogotá. E os especialistas preveem que a China poderá superar os americanos nos próximos anos. "Acho provável que os Estados Unidos peçam à Colômbia que suspenda suas relações com a China, que se ampliaram com Petro", analisa Guzmán.

"Mas não será tão simples, pois a China ocupa um espaço importante de investimentos que De la Espriella não poderá ignorar e os Estados Unidos não conseguirão ocupar." A pouco mais de dois meses da posse de De la Espriella, suas relações com o país mais poderoso do mundo parecem mais complexas do que transpareceu durante a campanha eleitoral.

 

Fonte: Brasil 247/BBC News Mundo

 

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