quinta-feira, 25 de junho de 2026

Política da Copa do Mundo

Estamos em mais uma Copa do Mundo de Futebol. Embora haja muitas tentativas de despolitizar o evento, procurando esconder ou mesmo neutralizar os embates que se dão do lado de fora do campo, a realidade é muito mais forte do que as vontades daqueles que controlam as entidades de futebol. Enquanto esporte popular, que mobiliza milhões de pessoas, no apoio a seus times e seleções nacionais, o futebol se insere de forma profunda na classe trabalhadora e, portanto, acaba expressando a luta de classes.

Um elemento político que se destaca, por certo, é o fato de o torneio se dar nos Estados Unidos, em uma gestão encabeçada por Donald Trump, dividindo a sede com México e Canadá. E que um dos países que logrou a classificação foi o Irã, bombardeado nos últimos meses pelos Estados Unidos em aliança com Israel. Durante meses pairou a dúvida sobre a participação do Irã na Copa do Mundo, diante do cenário de destruição pela qual passa o país e pela hostilidade com a qual seus atletas e equipe técnica são tratados pelo governo norte-americano.

Outro elemento relacionado às guerras passa pela exclusão, nos últimos anos, da Rússia de todos os torneios relacionados à FIFA. Isso faz parte das sanções recebidas pelo país por conta da guerra com a Ucrânia, não tendo a oportunidade sequer de participar das eliminatórias para a Copa do Mundo, assim como sua seleção e seus times vem sendo banidos de torneios da UEFA. Quanto à Ucrânia, pode participar de todos os torneios da UEFA. O mesmo aconteceria com Israel, diante do massacre que promove contra os palestinos, mas sua seleção (felizmente) não teve a capacidade de se classificar para o torneio.

Por mais que o discurso oficial tente despolitizar a Copa do Mundo, o torneio está completamente permeado pelos interesses e disputa econômicas e políticas em âmbito mundial. Os organizadores, representados principalmente pelo presidente da FIFA, o ítalo-suíço Gianni Infantino, procuram estar alinhados com os mandos e desmandos de Trump, inclusive participando de constrangedoras celebrações com o mandatário norte-americano.

Não deixa de haver resistências, ainda que pontuais. Na última edição da Copa do Mundo, se viu alguns jogadores da Suíça com origem kosovar provocando o time da Sérvia durante a partida entre as duas seleções. Os seus gestos ao comemorar gols buscavam provocar os sérvios por conta do massacre promovido contra diferentes nacionalidades e da guerra na década de 1990. Os jogadores suíços foram punidos.

Quatro anos atrás, a causa palestina teve seu principal difusor e defensor na seleção do Marrocos. Sensação do torneio, tendo chegado à semifinal e conseguido a melhor campanha de uma seleção africana na história das Copas do Mundo, os marroquinos em diversos momentos desfraldaram a bandeira palestina. Esse apoio não se deu apenas por parte da torcida, mas até mesmo dos jogadores.

Os marroquinos, inclusive, colocaram outra questão, a da diáspora africana. Muitos dos principais jogadores da seleção que disputou a última Copa do Mundo – e isso deve se repetir este ano – não nasceu no Marrocos. São filhos de imigrantes espalhados por países como Espanha, França, Canadá, Holanda, entre outros. Optaram, contudo, por representar as cores do país de origem de seus pais e avós, celebrando sua cultura e nacionalidade.

Essa mesma questão, mas de outra perspectiva, deve aparecer novamente em relação à seleção da França. Nas duas últimas Copas do Mundo, cerca de dois terços da seleção foi composta por jogadores com famílias oriundas de países africanos. No futebol, optaram por representar as cores do país onde cresceram e com o qual compartilham uma cultura desde a infância.

Dentro da sociedade francesa, somente a extrema direita não tem a capacidade de respeitar e se orgulhar dessa escolha.

Quando se fala em Copa do Mundo, não estamos nos referindo apenas a futebol. Os jogadores, membros das comissões técnicas e os torcedores são pessoas de carne e osso, que estão representando uma nação e uma cultura e, óbvio, uma diversidade de posições políticas. Se dentro de campo estratégia e tática devem falar mais alto, fora de campo as disputas são muito mais complexas, na medida em que cada jogador e membro das comissões técnicas são representantes da nação com a qual se identifica.

•        Copa do Mundo expõe contraste entre endurecimento migratório na Europa e diversidade das seleções

Enquanto parte da Europa endurece suas políticas migratórias e vê partidos de extrema direita ampliarem espaço político, muitas das principais seleções do continente refletem a diversidade construída por décadas de imigração. Na Copa do Mundo de 2026, diversos dos protagonistas são filhos de imigrantes ou nasceram em países diferentes daqueles que representam.

A seleção da Suíça é um dos exemplos desse cenário. Mais da metade do elenco tem trajetória familiar ligada à imigração. Entre os convocados, há 14 atletas nascidos fora do país e outros filhos de imigrantes vindos de países como Camarões, Kosovo e República Democrática do Congo.

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A Suíça não é um caso isolado. A França, atual potência do futebol mundial, também reúne um elenco que reflete a diversidade étnica e cultural formada ao longo de décadas de imigração. Kylian Mbappé, uma das maiores estrelas do futebol mundial, que nasceu no território francês, é filho de pai camaronês e mãe argelina. Ousmane Dembélé também carrega essa herança multicultural: o pai é do Mali e a mãe, da Mauritânia.

Essa diversidade tem raízes históricas. Além do passado colonial francês em diferentes regiões da África, sucessivas ondas migratórias ao longo do século 20 transformaram a composição demográfica do país.

O fenômeno vai além da França. Alemanha, Inglaterra e Holanda também contam com jogadores cujas histórias familiares passam pela imigração, resultado de décadas de mobilidade internacional e transformações demográficas.

Ao todo, a Copa de 2026 reúne 289 jogadores defendendo seleções diferentes dos países onde nasceram. “As seleções de futebol na Europa são um reflexo da sociedade atual na qual vivemos”, afirmou a Opera Mundi o diretor da Psicoaction e doutor em psicologia da saúde e do esporte, Fran Herruzo Torres.

Para Torres, a composição multicultural das seleções evidencia uma realidade consolidada em muitos países europeus. Ao mesmo tempo, ela convive com um cenário político em que governos e partidos defendem políticas migratórias cada vez mais restritivas.

O especialista explica que a percepção sobre os imigrantes muda de acordo com o contexto social. “Muitas vezes o imigrante é visto como uma ameaça ao emprego ou aos benefícios sociais. Mas, quando veste a camisa da seleção, passa a me representar porque eu quero vencer e quero que o meu país triunfe. É aí que aparecem os dois pesos e duas medidas”.

<><> Endurecimento migratório

Nos últimos anos, diferentes países europeus vêm endurecendo suas políticas migratórias. No começo de junho, entrou em vigor um novo pacto migratório da União Europeia que endurece as regras de asilo, acelera os processos de deportação e abre a possibilidade de criação de centros de retorno fora do território europeu.

Com as novas normas, os 27 países do bloco passam a contar com mecanismos mais rápidos para expulsar migrantes em situação irregular, enquanto os procedimentos de retorno são simplificados. Em muitos casos, os pedidos de asilo poderão ser analisados ainda nas fronteiras, antes da entrada formal no território europeu.

A Espanha, no entanto, apresenta um panorama distinto. Embora também enfrente desafios migratórios, o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez tem adotado medidas voltadas à regularização e mantém um discurso mais favorável à integração do que outros governos europeus.

Em abril, Sánchez anunciou uma regularização em massa que permitiu a cerca de 900 mil imigrantes em situação irregular solicitar a permanência legal no país.

Curiosamente, a seleção espanhola está entre as menos marcadas por atletas com origem familiar estrangeira. Apenas três jogadores têm raízes fora da Espanha: Lamine Yamal, filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial; Nico Williams, filho de ganeses; e Aymeric Laporte, nascido na França e naturalizado espanhol.

<><> Adaptação e costumes

A influência da imigração não se reflete apenas na composição das seleções. Em alguns casos, ela também modifica práticas culturais dentro do próprio esporte.

Torres explica que, quando culturas diferentes compartilham o mesmo espaço, todas passam por transformações. Um exemplo é o futebol inglês, que desde 2021 passou a permitir breves interrupções durante partidas da Premier League que coincidem com o pôr do sol no Ramadã para que jogadores muçulmanos possam quebrar o jejum.

“Vemos isso claramente na Inglaterra, onde hoje há muitos atletas muçulmanos jogando na primeira divisão. Durante o Ramadã, árbitros permitem uma pausa muito curta nas partidas que coincidem com o horário do pôr do sol para que os jogadores muçulmanos que estão sem comer ou beber possam quebrar o jejum”.

Para Torres, o esporte — especialmente o futebol — funciona como uma importante ferramenta de integração social.

“Quando um jovem joga com um imigrante, ele percebe que essa pessoa tem as mesmas necessidades que ele e isso se torna algo natural. Essa pessoa deixa de ser apenas um imigrante e passa a ser um amigo. O esporte une muito”, concluiu.

 

Fonte: Por Michel Goulart da Silva, em Correio da CidadaniaOpera Mundi

 

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