Política
da Copa do Mundo
Estamos
em mais uma Copa do Mundo de Futebol. Embora haja muitas tentativas de
despolitizar o evento, procurando esconder ou mesmo neutralizar os embates que
se dão do lado de fora do campo, a realidade é muito mais forte do que as
vontades daqueles que controlam as entidades de futebol. Enquanto esporte
popular, que mobiliza milhões de pessoas, no apoio a seus times e seleções
nacionais, o futebol se insere de forma profunda na classe trabalhadora e,
portanto, acaba expressando a luta de classes.
Um
elemento político que se destaca, por certo, é o fato de o torneio se dar nos
Estados Unidos, em uma gestão encabeçada por Donald Trump, dividindo a sede com
México e Canadá. E que um dos países que logrou a classificação foi o Irã,
bombardeado nos últimos meses pelos Estados Unidos em aliança com Israel.
Durante meses pairou a dúvida sobre a participação do Irã na Copa do Mundo,
diante do cenário de destruição pela qual passa o país e pela hostilidade com a
qual seus atletas e equipe técnica são tratados pelo governo norte-americano.
Outro
elemento relacionado às guerras passa pela exclusão, nos últimos anos, da
Rússia de todos os torneios relacionados à FIFA. Isso faz parte das sanções
recebidas pelo país por conta da guerra com a Ucrânia, não tendo a oportunidade
sequer de participar das eliminatórias para a Copa do Mundo, assim como sua
seleção e seus times vem sendo banidos de torneios da UEFA. Quanto à Ucrânia,
pode participar de todos os torneios da UEFA. O mesmo aconteceria com Israel,
diante do massacre que promove contra os palestinos, mas sua seleção
(felizmente) não teve a capacidade de se classificar para o torneio.
Por
mais que o discurso oficial tente despolitizar a Copa do Mundo, o torneio está
completamente permeado pelos interesses e disputa econômicas e políticas em
âmbito mundial. Os organizadores, representados principalmente pelo presidente
da FIFA, o ítalo-suíço Gianni Infantino, procuram estar alinhados com os mandos
e desmandos de Trump, inclusive participando de constrangedoras celebrações com
o mandatário norte-americano.
Não
deixa de haver resistências, ainda que pontuais. Na última edição da Copa do
Mundo, se viu alguns jogadores da Suíça com origem kosovar provocando o time da
Sérvia durante a partida entre as duas seleções. Os seus gestos ao comemorar
gols buscavam provocar os sérvios por conta do massacre promovido contra
diferentes nacionalidades e da guerra na década de 1990. Os jogadores suíços
foram punidos.
Quatro
anos atrás, a causa palestina teve seu principal difusor e defensor na seleção
do Marrocos. Sensação do torneio, tendo chegado à semifinal e conseguido a
melhor campanha de uma seleção africana na história das Copas do Mundo, os
marroquinos em diversos momentos desfraldaram a bandeira palestina. Esse apoio
não se deu apenas por parte da torcida, mas até mesmo dos jogadores.
Os
marroquinos, inclusive, colocaram outra questão, a da diáspora africana. Muitos
dos principais jogadores da seleção que disputou a última Copa do Mundo – e
isso deve se repetir este ano – não nasceu no Marrocos. São filhos de
imigrantes espalhados por países como Espanha, França, Canadá, Holanda, entre
outros. Optaram, contudo, por representar as cores do país de origem de seus
pais e avós, celebrando sua cultura e nacionalidade.
Essa
mesma questão, mas de outra perspectiva, deve aparecer novamente em relação à
seleção da França. Nas duas últimas Copas do Mundo, cerca de dois terços da
seleção foi composta por jogadores com famílias oriundas de países africanos.
No futebol, optaram por representar as cores do país onde cresceram e com o
qual compartilham uma cultura desde a infância.
Dentro
da sociedade francesa, somente a extrema direita não tem a capacidade de
respeitar e se orgulhar dessa escolha.
Quando
se fala em Copa do Mundo, não estamos nos referindo apenas a futebol. Os
jogadores, membros das comissões técnicas e os torcedores são pessoas de carne
e osso, que estão representando uma nação e uma cultura e, óbvio, uma
diversidade de posições políticas. Se dentro de campo estratégia e tática devem
falar mais alto, fora de campo as disputas são muito mais complexas, na medida
em que cada jogador e membro das comissões técnicas são representantes da nação
com a qual se identifica.
• Copa do Mundo expõe contraste entre
endurecimento migratório na Europa e diversidade das seleções
Enquanto
parte da Europa endurece suas políticas migratórias e vê partidos de extrema
direita ampliarem espaço político, muitas das principais seleções do continente
refletem a diversidade construída por décadas de imigração. Na Copa do Mundo de
2026, diversos dos protagonistas são filhos de imigrantes ou nasceram em países
diferentes daqueles que representam.
A
seleção da Suíça é um dos exemplos desse cenário. Mais da metade do elenco tem
trajetória familiar ligada à imigração. Entre os convocados, há 14 atletas
nascidos fora do país e outros filhos de imigrantes vindos de países como
Camarões, Kosovo e República Democrática do Congo.
Opinião,
contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal.Sintonize!
A Suíça
não é um caso isolado. A França, atual potência do futebol mundial, também
reúne um elenco que reflete a diversidade étnica e cultural formada ao longo de
décadas de imigração. Kylian Mbappé, uma das maiores estrelas do futebol
mundial, que nasceu no território francês, é filho de pai camaronês e mãe
argelina. Ousmane Dembélé também carrega essa herança multicultural: o pai é do
Mali e a mãe, da Mauritânia.
Essa
diversidade tem raízes históricas. Além do passado colonial francês em
diferentes regiões da África, sucessivas ondas migratórias ao longo do século
20 transformaram a composição demográfica do país.
O
fenômeno vai além da França. Alemanha, Inglaterra e Holanda também contam com
jogadores cujas histórias familiares passam pela imigração, resultado de
décadas de mobilidade internacional e transformações demográficas.
Ao
todo, a Copa de 2026 reúne 289 jogadores defendendo seleções diferentes dos
países onde nasceram. “As seleções de futebol na Europa são um reflexo da
sociedade atual na qual vivemos”, afirmou a Opera Mundi o diretor da
Psicoaction e doutor em psicologia da saúde e do esporte, Fran Herruzo Torres.
Para
Torres, a composição multicultural das seleções evidencia uma realidade
consolidada em muitos países europeus. Ao mesmo tempo, ela convive com um
cenário político em que governos e partidos defendem políticas migratórias cada
vez mais restritivas.
O
especialista explica que a percepção sobre os imigrantes muda de acordo com o
contexto social. “Muitas vezes o imigrante é visto como uma ameaça ao emprego
ou aos benefícios sociais. Mas, quando veste a camisa da seleção, passa a me
representar porque eu quero vencer e quero que o meu país triunfe. É aí que
aparecem os dois pesos e duas medidas”.
<><>
Endurecimento migratório
Nos
últimos anos, diferentes países europeus vêm endurecendo suas políticas
migratórias. No começo de junho, entrou em vigor um novo pacto migratório da
União Europeia que endurece as regras de asilo, acelera os processos de
deportação e abre a possibilidade de criação de centros de retorno fora do
território europeu.
Com as
novas normas, os 27 países do bloco passam a contar com mecanismos mais rápidos
para expulsar migrantes em situação irregular, enquanto os procedimentos de
retorno são simplificados. Em muitos casos, os pedidos de asilo poderão ser
analisados ainda nas fronteiras, antes da entrada formal no território europeu.
A
Espanha, no entanto, apresenta um panorama distinto. Embora também enfrente
desafios migratórios, o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez tem adotado
medidas voltadas à regularização e mantém um discurso mais favorável à
integração do que outros governos europeus.
Em
abril, Sánchez anunciou uma regularização em massa que permitiu a cerca de 900
mil imigrantes em situação irregular solicitar a permanência legal no país.
Curiosamente,
a seleção espanhola está entre as menos marcadas por atletas com origem
familiar estrangeira. Apenas três jogadores têm raízes fora da Espanha: Lamine
Yamal, filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial; Nico Williams, filho
de ganeses; e Aymeric Laporte, nascido na França e naturalizado espanhol.
<><>
Adaptação e costumes
A
influência da imigração não se reflete apenas na composição das seleções. Em
alguns casos, ela também modifica práticas culturais dentro do próprio esporte.
Torres
explica que, quando culturas diferentes compartilham o mesmo espaço, todas
passam por transformações. Um exemplo é o futebol inglês, que desde 2021 passou
a permitir breves interrupções durante partidas da Premier League que coincidem
com o pôr do sol no Ramadã para que jogadores muçulmanos possam quebrar o
jejum.
“Vemos
isso claramente na Inglaterra, onde hoje há muitos atletas muçulmanos jogando
na primeira divisão. Durante o Ramadã, árbitros permitem uma pausa muito curta
nas partidas que coincidem com o horário do pôr do sol para que os jogadores
muçulmanos que estão sem comer ou beber possam quebrar o jejum”.
Para
Torres, o esporte — especialmente o futebol — funciona como uma importante
ferramenta de integração social.
“Quando
um jovem joga com um imigrante, ele percebe que essa pessoa tem as mesmas
necessidades que ele e isso se torna algo natural. Essa pessoa deixa de ser
apenas um imigrante e passa a ser um amigo. O esporte une muito”, concluiu.
Fonte:
Por Michel Goulart da Silva, em Correio da CidadaniaOpera Mundi

Nenhum comentário:
Postar um comentário