quinta-feira, 25 de junho de 2026

Sara York: Partido Digital Bolsonarista e a nova arquitetura do poder político nas redes

As redes sociais deixaram de ser apenas ferramentas de comunicação eleitoral para se tornarem espaços centrais de organização política. Essa foi uma das principais reflexões apresentadas pela pesquisadora Daniela Costanzo durante entrevista ao Tech Talk, ao discutir o livro O Partido Digital Bolsonarista, obra que investiga as transformações da política contemporânea a partir da atuação do bolsonarismo no ambiente digital.

Segundo os autores, o fenômeno não pode ser reduzido a uma simples estratégia de marketing político. A pesquisa sustenta que o bolsonarismo desenvolveu uma forma inédita de organização, funcionando como um verdadeiro “partido digital”, cujas dinâmicas de coordenação, mobilização e tomada de decisão acontecem prioritariamente nas plataformas digitais, com relativa autonomia em relação às estruturas tradicionais dos partidos políticos.

Um dos aspectos que mais chamou atenção durante a entrevista foram os números reunidos pela pesquisa. Entre eles, o alcance de *301 milhões de visualizações* obtido por um único vídeo de uma liderança do movimento em apenas uma semana, desempenho que teria resultado em *2,5 milhões de novos seguidores*. Para os pesquisadores, esses indicadores demonstram a capacidade de determinadas lideranças de produzir mobilização política em escala nacional a partir das plataformas.

A dimensão financeira do fenômeno também aparece de forma significativa. O levantamento identifica *R$ 33,8 milhões investidos por produtoras conservadoras em anúncios na Meta, valor que supera em aproximadamente três vezes os investimentos realizados por grupos progressistas no mesmo ambiente. Em outro exemplo, um único parlamentar teria destinado **R$ 750 mil para cerca de 3.300 anúncios digitais*, voltados à difusão permanente de conteúdos ideológicos fora dos períodos eleitorais.

Durante a conversa, Costanzo destacou que essa estrutura opera de maneira contínua, sem depender exclusivamente do calendário das eleições. Em vez de campanhas episódicas, forma-se uma rede permanente de produção de conteúdo, arrecadação de recursos e engajamento político.

Outro ponto central discutido foi a forma como o poder se organiza dentro desse ecossistema. Diferentemente dos partidos tradicionais, onde cargos e funções são definidos por regras formais, a autoridade no ambiente digital passa a ser medida pela capacidade de mobilizar atenção, impor narrativas e influenciar a base social. A pesquisa aponta que lideranças com cerca de *20 milhões de seguidores* acumulam um capital algorítmico capaz de lhes conferir enorme poder de definição dos rumos do movimento.

O livro também analisa a relação entre as redes e as manifestações de rua. Segundo os autores, os grandes atos públicos funcionam como espaços de validação das hierarquias construídas online. Nesse sentido, as ruas não substituem as plataformas, mas atuam como uma extensão delas. A pesquisa cita ainda mobilizações que chegaram a reunir cerca de *185 mil pessoas na Avenida Paulista, número significativamente superior aos registros anteriores de aproximadamente **45 mil participantes*, evidenciando a capacidade de articulação entre o ambiente digital e a ocupação do espaço público.

Ao longo da entrevista, Daniela Costanzo ressaltou que o conceito de partido digital não se limita ao caso brasileiro. A pesquisa oferece pistas para compreender fenômenos políticos internacionais marcados pela influência das plataformas, pela economia da atenção e pela crescente centralidade dos algoritmos na disputa pelo poder.

Mais do que um estudo sobre o bolsonarismo, a obra lança perguntas sobre o futuro da democracia em uma era em que lideranças políticas, movimentos sociais e grupos organizados passam a disputar não apenas votos, mas também visibilidade, engajamento e capacidade de moldar a percepção pública em tempo real.

A entrevista completa com Daniela Costanzo pode ser assistida nos canais do *Brasil 247*, onde a pesquisadora aprofunda as análises apresentadas no livro e discute os desafios que as novas formas digitais de organização política impõem às democracias contemporâneas.

•        Crime organizado em aluguel por temporada entra na mira de autoridades

Autoridades públicas monitoram se organizações criminosas estão usando o aluguel de imóveis por temporada para ocultar o patrimônio adquirido com práticas ilícitas, como o tráfico de drogas e armas, e, assim, obter uma nova fonte de renda aparentemente legítima.

Segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a maquiagem financeira utilizando a locação temporária por aplicativos desafia os órgãos de fiscalização, operando em um “ponto cego” que permite aos criminosos lavar o dinheiro obtido ilicitamente.

No Rio Grande do Sul, policiais civis da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) investigavam a ação de um grupo suspeito de envolvimento em homicídios, tráfico e extorsão quando identificaram que os suspeitos tinham comprado imóveis no litoral norte do estado e estavam utilizando-os para faturar com o aluguel de curta temporada.

Para aprofundar a apuração, a Polícia Civil deflagrou, em maio de 2025, a chamada Operação Litus, que resultou na denúncia de 16 pessoas. Responsável pela apuração, o delegado Gustavo Bermudes, da Draco de Canoas (RS), explicou que parte dos imóveis que o grupo adquiriu com o dinheiro obtido com atividades criminosas estava registrada em nome da companheira do líder do suposto esquema, parte em nome de “laranjas”.

 “A análise de telefones apreendidos no curso da investigação nos possibilitou esta ampliação [da apuração]. Não fosse por isto, dificilmente chegaríamos a esta informação”, disse o delegado.

Ele acrescentou que, ao analisarem o conteúdo dos aparelhos celulares apreendidos, os investigadores identificaram anúncios dos imóveis, mensagens trocadas com os locatários e recibos de valores recebidos.

Para o policial, a constatação reforçou a importância não só da cooperação entre as forças de segurança estaduais e os órgãos federais de fiscalização financeira, como das parcerias com as plataformas digitais.

“Se estabelecêssemos convênios que nos permitissem ter acesso às plataformas, eu poderia cruzar as informações de pessoas sob investigação e de pessoas próximas a elas para, por exemplo, verificar se há algum imóvel anunciado para locação em nome delas”, explicou Gustavo Bermudes.

“E, então, poderíamos verificar quando este imóvel foi comprado e se ele está sendo usado para movimentar valores”, ressaltou o delegado, ao comentar a dificuldade de as plataformas, sozinhas, identificarem quando um imóvel é fruto de práticas criminosas.

“No caso que estávamos investigando, por exemplo, seria praticamente impossível. Até porque o imóvel estava registrado em nome da esposa do investigado e ela não tem antecedentes criminais. Ou seja, em tese, é uma pessoa honesta. Assim como os laranjas”, disse o policial, assegurando que, ao ser comunicada das suspeitas, a plataforma – cujo nome ele não revelou – colaborou com a investigação e removeu o anúncio de locação.

<><> Ocultação

Em nota, o Ministério da Justiça reconheceu que, em determinadas circunstâncias, o aluguel de temporada pode integrar estratégias de ocultação ou dissimulação de recursos ilícitos.

Segundo a pasta, a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) não monitora diretamente as plataformas digitais, mas atua para fortalecer os mecanismos e instituições responsáveis por identificar e interromper eventuais práticas financeiras ilícitas nos vários setores econômicos.

“Nesses casos, a identificação das irregularidades ocorre por meio da análise financeira, patrimonial e fiscal realizada pelas autoridades de investigação, que buscam identificar incompatibilidades entre patrimônio, movimentação financeira, renda declarada e atividades econômicas desenvolvidas pelos investigados”, explicou o ministério.

“Também participam desse sistema diversos setores considerados ‘pessoas obrigadas’ pela legislação, entre eles instituições financeiras, cartórios de registro de imóveis, corretoras imobiliárias e outros segmentos que devem comunicar operações suspeitas às autoridades competentes”, completou.

<><> Receita

Os alugueis de imóveis por curta temporada também se tornaram alvo da atenção especial da Receita Federal. Responsável pelas ações de fortalecimento da atuação fiscal e de proteção do interesse público, a Subsecretaria de Fiscalização (Sufis) do órgão incluiu o tema entre suas prioridades para este ano.

Em seu Relatório Anual de Fiscalização 2025-2026, a Subsecretaria de Fiscalização (Sufis) aponta que, à medida que proporcionaram aos donos de imóveis “uma forma flexível e lucrativa de obter renda tributável adicional”, o surgimento e o rápido crescimento das plataformas digitais de alugueis por temporada geraram “um desafio para as administrações tributárias internacionais e para a Receita Federal”.

Para conter possíveis irregularidades, o fisco elaborou orientações específicas inseridas no programa do Imposto de Renda (IRPF 2026). As medidas incluem a criação de um manual para orientar a cobrança de tributos sobre os valores que as pessoas físicas recebem ao alugar imóveis, inteiros ou em partes, por meio de aplicativos, e assistência para os contribuintes que obtêm renda com esse tipo de hospedagem temporária.

<><> Plataformas

A reportagem da Agência Brasil consultou as assessorias das duas principais plataformas digitais de locação de imóveis por curta temporada em atividade no Brasil.

A Airbnb informou, por meio de nota que mantém uma equipe e um canal exclusivamente dedicados a prestar toda assistência necessária às autoridades públicas.

A empresa destacou que não administra, nem é dona das acomodações anunciadas, e garantiu que adota “uma política de tolerância zero em relação a atividades criminosas”, exigindo que os responsáveis pelos imóveis cumpram todas as leis e normas locais.

A Booking também informou que colabora com os órgãos competentes e que conta com procedimentos de resposta imediata às solicitações oficiais, de forma a manter um ambiente seguro e confiável para quem usa sua plataforma para oferecer ou alugar um imóvel.

•        Irmã de Deolane tentou sacar R$ 1 milhão e banco barrou operação suspeita

O Itaú mandou a família de Deolane Bezerra encerrar suas relações com a instituição financeira após barrar um saque de R$ 1 milhão em espécie por indícios de lavagem de dinheiro.

As informações constam do relatório final elaborado pela Polícia Civil de São Paulo no âmbito do inquérito que apura o elo entre Deolane e o PCC, o Primeiro Comando da Capital.

Com 22 milhões de seguidores no Instagram, a influenciadora foi presa nesta quinta-feira (21) numa operação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo. Ela é suspeita de lavar dinheiro para a facção criminosa.

A defesa de Deolane sustenta que ela é inocente e declarou nesta sexta (22) que “os fatos serão devidamente esclarecidos em momento oportuno”. Não comentou a polêmica entre ela e o Itaú em específico.

A defesa afirmou ainda ter entrado com um habeas corpus contra a prisão de sua cliente e disse ter solicitado regime domiciliar à influenciadora.

O caso envolvendo o Itaú ocorreu em 24 de novembro de 2023. Quem tentou sacar o valor foi a irmã de Deolane, Dayanne Bezerra, cuja defesa a reportagem não localizou. A Folha enviou mensagens a um número vinculado a ela, mas não obteve retorno.

Pelas redes sociais, Dayanne afirmou que “no momento meu foco é minha mãe e meus sobrinhos e tentar minimizar o impacto desse pesadelo na vida deles”. Afirmou também que sua irmã é inocente e republicou postagens segundo as quais autoridades à frente das investigações cometeram abusos.

No caso do saque, ela argumentou ao Itaú que o valor seria utilizado para a aquisição de um imóvel. Mas o banco viu problemas nessa operação “pela desconfiança de se tratar de ato de lavagem de dinheiro”, afirma a Polícia Civil.

A instituição financeira chegou a oferecer a modalidade de transferência eletrônica em vez do saque, alternativa recusada pelos Bezerra.

“Deste modo, o banco concedeu a Deolane e aos seus familiares o prazo de até 14 de janeiro para o encerramento das suas contas”, diz o relatório da autoridade policial.

A influenciadora reagiu: processou o banco argumentando que a ordem para o fim das contas era irregular. Não há informações sobre o desfecho do processo.

A polícia considera o episódio um importante indício do esquema de lavagem de dinheiro de Deolane. A investigação diz que a influenciadora atuava como uma espécie de caixa do crime organizado.

Ela teria recebido mais de R$ 1 milhão em repasses de uma transportadora considerada pivô do esquema de lavagem de dinheiro, segundo a polícia.

Deolane, segundo as investigações, chegou a abrir 35 empresas num mesmo endereço residencial. Os estabelecimentos, todos fictícios segundo as autoridades, criavam uma espécie de teia de movimentação financeira que dificultava a rastreabilidade dos recursos.

A operação que a levou à prisão também cumpriu mandados contra Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado há mais de duas décadas como o líder do PCC.

Marcola está preso numa penitenciária federal de segurança máxima em Brasília.

Sua defesa disse nesta sexta-feira que Marcola foi incluído no caso apenas pela menção ao apelido “Narigudo” escrito num bilhete encontrado na penitenciária 2 de Presidente Venceslau.

Afirmou também que ele foi indiciado de maneira indevida e que “inexiste qualquer elemento probatório consistente que vincule Marcos Willians Herbas Camacho aos fatos investigados”.

O advogado Bruno Ferullo, que o defende, declarou ainda que “a inocência de seu cliente será devidamente demonstrada ao longo da persecução penal”.

 

Fonte: Brasil 247/Agencia Brasil/ICL Notícias

 

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