sexta-feira, 26 de junho de 2026

Julgamento de Galileu: Inquisição condena o pai da ciência moderna

Há 393 anos, em 22 de junho de 1633, a Congregação para a Doutrina da Fé, órgão da Inquisição Católica, condenava o astrônomo italiano Galileu Galilei por heresia.

Considerado o “pai da ciência moderna”, Galileu se notabilizou por suas contribuições no campo da física, sobretudo os estudos sobre o movimento dos corpos e a trajetória dos projéteis. Sua abordagem inovadora, baseada na observação empírica e na experimentação controlada, lançou as bases do método científico moderno e pavimentou o caminho para os avanços da Revolução Científica.

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Galileu também fez descobertas revolucionárias no campo da astronomia. Suas observações sobre o universo o levaram a defender o modelo heliocêntrico proposto por Copérnico, tomando o Sol como o centro do sistema planetário.

Essas ideias, no entanto, desafiavam a concepção cosmológica da Igreja Católica, que dizia que a Terra era o centro do universo. Julgado como herege, Galileu foi sentenciado a passar o resto da vida em prisão domiciliar, teve suas obras banidas e foi obrigado a renegar publicamente suas teses.

<><> Contribuições de Galileu para a física clássica

Galileu Galilei nasceu em 15 de fevereiro de 1564 na cidade de Pisa, à época parte do Ducado de Florença. Ele era o filho mais velho de Giulia Ammannati e do renomado compositor Vincenzo Galilei, partícipe da revolução musical renascentista, membro da célebre Camerata Fiorentina e um dos grandes pioneiros da ópera.

Galileu herdou do pai o espírito crítico, o gosto pelos estudos e o amor pela arte. Tornou-se um exímio tocador de alaúde e interessou-se pelas letras, em especial pelas poesias de Dante Alighieri e Torquato Tasso. Após se mudar para Florença, frequentou as aulas no mosteiro camaldulense de Vallombrosa, onde estudou retórica, matemática e lógica.

Em 1580, Galileu se matriculou na Universidade de Pisa, visando obter um diploma de medicina. A paixão pela matemática, no entanto, falaria mais alto. Influenciado pelas obras de Euclides e Arquimedes, ele abandonou o curso de medicina e passou a se dedicar ao estudo e ao ensino da matemática e da filosofia aristotélica em Florença e Siena.

Datam dessa época as primeiras contribuições científicas de Galileu, em especial a descoberta do isocronismo do pêndulo. Observando as oscilações dos lustres da Catedral de Pisa, Galileu teria concluído que o tempo de oscilação do pêndulo é independente da amplitude do arco.

Prosseguindo com as pesquisas em mecânica, Galileu publicou “La Bilancetta” (“A Pequena Balança”), um tratado descrevendo um novo método hidrostático inspirado no Princípio de Arquimedes, que serviria para medir densidades com maior precisão. Ele também iniciou uma série de pesquisas sobre o movimento, questionando progressivamente as premissas aristotélicas.

Os estudos de Galileu acerca dos centros de gravidade dos corpos sólidos impressionaram os estudiosos e lhe valeram o patronato de Guidobaldo del Monte. O jovem cientista foi então convidado a assumir a cátedra de matemática na Universidade de Pisa em 1589. Posteriormente, transferiu-se para a Universidade de Pádua, onde lecionou por 18 anos e conduziu experimentos essenciais para o desenvolvimento da física clássica.

Em 1602, Galileu estabeleceu as bases da Lei da Queda de Corpos, outro princípio fundamental da mecânica. Através de experimentos com planos inclinados e relógios d’água, o físico italiano comprovou que objetos de massas distintas caem praticamente à mesma velocidade e sofrem uma aceleração uniforme quando a resistência do ar é desprezada. A descoberta contrariava a crença aristotélica de que o peso influenciava na velocidade da queda.

O questionamento dos dogmas seria um comportamento constante na produção científica de Galileu. Ao contrário da maior parte dos estudiosos de sua época, ele não se contentava em referendar a autoridade dos textos clássicos, buscando sempre comprovar suas hipóteses através da experimentação e da observação empírica. Por esse motivo, o físico italiano se consagraria como o “pai do método científico”, tendo importância fundamental para o estabelecimento da ciência moderna.

<><> Galileu e a astronomia

Além das contribuições na área da física, Galileu também se destacou por seu legado para a astronomia observacional. Após tomar conhecimento da invenção do telescópio na Holanda, ele criou sua própria versão aperfeiçoada do instrumento, dotando-o de lentes que conseguiam ampliar em até 30 vezes o tamanho dos objetos.

Primeiro astrônomo a fazer uso científico do telescópio, Galileu foi responsável por uma série de descobertas impressionantes. Refutando novamente o pensamento aristotélico, ele descobriu que a superfície da Lua não era lisa e perfeitamente esférica, mas tão irregular quanto a da Terra, cheia de montanhas e crateras.

Galileu foi responsável por comprovar que a Via Láctea era um aglomerado de estrelas, e não uma “névoa” ou uma “emanação”, como se acreditava até então. Ele também descobriu os satélites de Júpiter, os anéis de Saturno, as manchas solares e as fases de Vênus.

As descobertas de Galileu foram compiladas no tratado “Sidereus Nuncius” (“Mensageiro Sideral”), publicado em Veneza em 1610. A obra foi dedicada ao Grão-Duque Cosme II de Médici, que nomeou o astrônomo como “Matemático e Filósofo” da corte florentina.

Os estudos de Galileu sobre o comportamento dos astros não apenas revolucionaram o conhecimento sobre a astronomia como o levaram a questionar as concepções sobre o modelo cosmológico vigente. A existência dos satélites em Júpiter, por exemplo, havia comprovado que alguns corpos celestes giravam em torno de outros planetas. Da mesma forma, a observação das fases de Vênus era uma evidência clara de que o planeta orbitava o Sol e não a Terra.

<><> Condenado pela Inquisição

Com base em suas descobertas, Galileu passou a defender que o sistema heliocêntrico proposto por Nicolau Copérnico em 1543 estava correto. Todas as evidências apontavam para o fato de que o Sol era o centro do sistema planetário. Essa hipótese, entretanto, desafiava a concepção do sistema cosmológico defendido pela Igreja Católica desde o período medieval, segundo o qual a Terra permanecia imóvel no centro do universo e era orbitada pelo Sol e por todos os outros planetas.

Incomodada com as ideias de Galileu, a Inquisição declarou que a afirmação de que o Sol era o centro do sistema planetário estava “teologicamente incorreta” e abriu processo contra Galileu por heresia. Em 1616, o astrônomo foi chamado a Roma para se explicar diante do Tribunal do Santo Ofício e foi obrigado a assinar um documento no qual declarava que o sistema heliocêntrico era meramente hipotético.

Tentando manter-se longe da polêmica sobre o heliocentrismo, Galileu se dedicou a outros projetos. Em 1623, ele publicou “Il Saggiatore” (“O Ensaiador”), versando sobre uma disputa travada com Orazio Grassi acerca da natureza dos cometas. Na obra, o astrônomo voltou a criticar a física aristotélica e defendeu a ideia de que o “livro da natureza” está escrito em linguagem matemática.

Galileu voltou a defender o sistema heliocêntrico em 1632, ao publicar o livro “Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo”, uma obra seminal da Revolução Científica. O livro comparava os dois sistemas cosmológicos, favorecendo claramente a teoria copernicana. Escrita em italiano vernacular para alcançar o público leigo e repleto de ironias direcionadas ao Papa Urbano VIII, a obra irritou profundamente as autoridades eclesiásticas.

A publicação de Galileu lhe rendeu um novo processo movido pela Inquisição. A sentença foi proferida em 22 de junho de 1633. O astrônomo foi declarado culpado por ensino de teoria herética e condenado a permanecer em prisão domiciliar pelo resto de sua vida.

Galileu foi forçado a renegar publicamente suas ideias e teve seus livros e textos incluídos no Index de obras censuradas e proibidas pela Igreja. Reza a lenda que ao sair do tribunal após a condenação, Galileu teria sussurrado a célebre frase “eppur si muove” (“contudo, ela se move”, referindo-se à Terra).

O astrônomo passou o resto de sua vida isolado na sua residência em Arcetri, nos arredores de Florença. Lá, dedicou-se a escrever “Discurso e Demonstrações Matemáticas em torno de Duas Novas Ciências”, outra obra basilar da mecânica moderna. A perda progressiva da visão e a saúde debilitada o impediram de produzir novos trabalhos. Galileu faleceu em sua casa em 8 de janeiro de 1642, aos 77 anos.

O legado de Galileu é dos mais impressionantes e o consagraria como um dos grandes gênios das ciências exatas e naturais, com contribuições sem paralelo para o aprimoramento dos estudos sobre a matemática, a física e a astronomia. Suas pesquisas revolucionaram a produção científica e ajudaram a estabelecer os fundamentos epistemológicos que sustentariam o extraordinário desenvolvimento científico dos séculos seguintes.

A Igreja Católica, no entanto, somente reabilitou Galileu em 1992, quando o Vaticano retirou formalmente as acusações de heresia feitas pela Inquisição. No ano 2000, o Papa João Paulo II emitiu um pedido formal de desculpas pela perseguição que a Igreja impôs ao astrônomo.

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi

 

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