sexta-feira, 26 de junho de 2026

Oliveiros Marques: A fissura chamada Michelle

O vídeo divulgado por Michelle Bolsonaro nesta semana talvez tenha sido o mais contundente sinal público de divisão interna já visto no núcleo político bolsonarista. Mais do que um desabafo emocional, a gravação foi construída com extremo cuidado - palavra por palavra, enquadramento por enquadramento, a luz. Não se trata de fala improvisada. Trata-se de mensagem pensada, planejada para produzir efeito e endereçada a destinatários muito específicos.

E é a própria Michelle quem reforça essa leitura, ao afirmar que não toma decisão política relevante sem antes conversar com Jair Bolsonaro. Levada essa declaração ao pé da letra - e não há razão para duvidar -, o vídeo deixa de ser manifestação pessoal e passa a ser posição discutida e autorizada pelo ex-presidente, hoje preso e inelegível. Não é a esposa magoada falando por si. É parte do núcleo duro do bolsonarismo falando por meio dela.

O principal atingido é Flávio Bolsonaro. Ao tornar público um conflito que poderia ter sido resolvido nos bastidores, Michelle expõe, sem meias palavras, a fragilidade de um projeto que circula entre aliados há tempo: a candidatura presidencial liderada pelo senador não foi plenamente digerida. Toda candidatura competitiva precisa transmitir unidade. Quando a própria família rompe esse verniz diante das câmeras, o estrago não é episódico - é estrutural, porque atinge exatamente o atributo que Flávio mais precisa para se apresentar como herdeiro natural do legado: a legitimidade sucessória.

Há também um componente partidário que não pode ser ignorado. Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, tem interesse que vai muito além da disputa presidencial. A formação de uma grande bancada na Câmara e no Senado representa, antes de mais nada, controle sobre fundo partidário e fundo eleitoral de alta monta - recursos que pesam mais no caixa do partido do que qualquer cálculo ideológico. É esse interesse que pode justificar Valdemar ter "engolido" uma candidatura que agora começa a ser minada por dentro, pela própria família que deveria fortalecê-la. Valdemar pode não abandonar o barco, mas pode vir a fazer cara de paisagem; isso pode.

Dois detalhes do vídeo merecem leitura atenta, porque em política nada é acidental. O primeiro é a palavra "QUASE", escrita em caixa alta na legenda, quando Michelle afirma ter contado quase tudo o que sabe. Não se escreve uma palavra em maiúsculas por descuido. É ameaça calculada, é aviso de que existe munição guardada, e quem precisa entender o recado vai entendê-lo perfeitamente.

O segundo é a acusação de que os ataques contra ela partem de pessoas residentes no exterior. O endereço é evidente: trata-se, com toda probabilidade, de referência a Eduardo Bolsonaro e ao seu entorno de replicadores nas redes, que reproduzem em coro a artilharia que parte de fora do país. Ao localizar geograficamente a origem da ofensiva, Michelle não se defende apenas - ela também marca distância entre quem enfrenta o cotidiano da prisão do marido e da disputa real nos estados e quem comanda o ataque digital a salvo, longe do território onde a eleição de fato se decide.

Não há leitura ingênua possível para esse episódio. O vídeo não é ruído familiar que a política vai absorver com o tempo. É a confissão pública de que o projeto sucessório do bolsonarismo, vendido como natural e coeso, é na verdade disputado, frágil e com fissuras significativas.

•        Ala do PL avalia riscos à campanha após Michelle detonar Flávio Bolsonaro em vídeo

 vídeo divulgado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, no qual relata de forma explícita desentendimentos com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), provocou reações divergentes entre integrantes do Partido Liberal (PL). Segundo o jornal O Globo, parte dos aliados acredita que a exposição pública do conflito poderá prejudicar a pré-campanha presidencial do senador, especialmente na disputa pelo eleitorado feminino.

Nos bastidores da legenda, lideranças avaliam que Michelle representa um dos principais ativos políticos do grupo entre mulheres evangélicas e dirigentes do PL Mulher. Embora tenha reafirmado apoio à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, a repercussão do episódio aumentou as incertezas sobre sua participação na campanha e os possíveis efeitos eleitorais da crise.

<><> Apoio de Michelle é considerado estratégico

Reservadamente, integrantes da campanha afirmam que um eventual afastamento da ex-primeira-dama poderia enfraquecer a estratégia de aproximação de Flávio com um segmento considerado decisivo para a eleição. Um aliado ouvido pela reportagem resumiu a preocupação ao afirmar que essa é uma fatia do eleitorado que o senador "não podia perder de jeito nenhum".

Apesar da apreensão, a direção nacional do PL busca reduzir a dimensão do episódio. O líder do partido na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), demonstrou confiança de que a legenda conseguirá superar o impasse. "Normal, o partido é maior do que indivíduos", minimizou

O parlamentar reconheceu, entretanto, que a exposição pública do conflito foi prejudicial. "Não é normal que assuntos internos sejam expostos em redes sociais. Mas tenho plena confiança que o partido saberá conduzir com equilíbrio os próximos passos."

<><> A liados admitem risco de desgaste

Nem todos compartilham da avaliação da direção partidária. O deputado federal Zé Trovão (PL-SC) afirmou que o episódio pode afetar a imagem de Flávio Bolsonaro, sobretudo entre o público feminino.

"Isso é prejudicial, é ruim, mancha uma imagem. Porque quando você pega a fala da Michelle dizendo que o Flávio foi desrespeitoso com ela, isso tudo gera para as mulheres que assistem um pouco de resistência ao Flávio. E a gente sabe que o presidente Bolsonaro já tinha essa dificuldade com o público feminino, justamente por ser um cara mais ríspido. Agora acontece uma situação dessas. Fica muito ruim para o Flávio essa imagem", disse o parlamentar bolsonarista.

"Parece criança brigando no colégio e levando essa briga para as redes sociais. Falta maturidade emocional, falta maturidade política. Eu admiro muito a dona Michelle, mas também entendo que ela sofre muitos ataques. Chega uma hora que a pessoa cansa", completou.

Há, porém, outra leitura dentro do bolsonarismo. Interlocutores da pré-campanha avaliam que Michelle também reforça seu peso político ao tornar pública a divergência, evidenciando sua influência nas decisões estratégicas do grupo.

<><> Damares defende postura da ex-primeira-dama

Aliados de Michelle destacam que ela encerrou o vídeo reafirmando apoio à candidatura presidencial de Flávio. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) elogiou a forma como a ex-primeira-dama conduziu o episódio. "Na hora certa e do jeito certo. Com clareza e maturidade", afirmou.

Nos bastidores, também há preocupação com a situação de Jair Bolsonaro (PL). Integrantes do grupo avaliam que o conflito coloca o ex-chefe do Executivo em posição delicada, já que envolve sua esposa e o filho escolhido para disputar a Presidência da República.

<><> Treta na direita: Michelle relata desrespeito de Flávio Bolsonaro

As reações foram motivadas pelo vídeo publicado por Michelle nas redes sociais nesta quarta-feira. Na gravação, ela afirmou que decidiu romper o silêncio após sucessivos ataques e relatou um episódio ocorrido depois de se posicionar contra uma possível aliança entre o PL e Ciro Gomes (PSDB) no Ceará.

"Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou no telefone. Eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política", destacou. Ela também disse ter sido “apunhalada” e humilhada pelo senador.

Michelle afirmou que nunca mais voltou a procurar o enteado depois da conversa. Ainda assim, reiterou apoio à candidatura presidencial de Flávio e agradeceu às dirigentes estaduais e municipais do PL Mulher pelo trabalho em favor da pré-campanha.

A ex-primeira-dama também declarou que Flávio Bolsonaro, o ex-vereador Carlos Bolsonaro e o ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro a criticaram de forma coordenada após sua manifestação contra uma aliança com o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), no Ceará.

Michelle disse que chegou a pedir desculpas caso os enteados tenham se sentido ofendidos, mas manteve sua posição de que a aproximação com o ex-ministro é incompatível com os valores defendidos pelo bolsonarismo.

<><> Crise amplia dúvidas sobre a campanha

O episódio teve origem no fim de 2025, quando Michelle passou a criticar publicamente as negociações do PL cearense para uma composição com Ciro Gomes. Na ocasião, Flávio Bolsonaro, Carlos e Eduardo defenderam a articulação. Dias depois, Flávio pediu desculpas à ex-primeira-dama e o partido suspendeu as negociações.

A preocupação dos aliados está diretamente ligada ao desafio da pré-campanha de Flávio de ampliar sua aceitação entre o eleitorado feminino. Dentro do PL, Michelle é considerada uma das principais lideranças capazes de reduzir essa resistência, graças à influência construída à frente do PL Mulher e à sua forte presença entre o eleitorado evangélico.

•        Flávio Bolsonaro, Eduardo e Carlos cobram reação de Jair após vídeo de Michelle

Os desdobramentos da crise entre Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) provocaram um novo foco de tensão no entorno de Jair Bolsonaro. Segundo interlocutores da família, os três filhos mais velhos do ex-mandatário defendem que ele se manifeste para desautorizar publicamente a ex-primeira-dama. As informações são do Amado Mundo.

De acordo com a apuração, Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro reagiram com indignação aos vídeos divulgados por Michelle, nos quais ela relata desentendimentos com o senador e afirma ter sido traída e humilhada.

Entre aliados dos filhos de Jair Bolsonaro, a avaliação é de que Michelle extrapolou ao levar a público uma divergência familiar e dirigir críticas diretamente a Flávio Bolsonaro. Segundo esse grupo, a exposição ocorre em um momento considerado delicado para o senador, que busca superar a crise envolvendo sua candidatura e consolidar sua posição para a disputa presidencial de outubro.

<>< Flávio evita ampliar conflito

Apesar da repercussão, Flávio Bolsonaro procurou demonstrar tranquilidade. Horas depois da divulgação dos vídeos, ele realizou uma transmissão ao vivo antes da partida entre Brasil e Escócia pela Copa do Mundo de 2026. Ao lado da esposa e usando uma máscara de Neymar, afirmou: "Hoje é dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece. Vamos tratar de coisa boa, vamos tratar de futebol".

Durante a transmissão, o senador também informou que visitou Jair Bolsonaro na prisão domiciliar nesta quarta-feira (24) e disse ter recebido uma missão do ex-mandatário. "Ele está forte, é uma pessoa que tem a cabeça muito no lugar, está antenado no que está acontecendo, sabe o que é melhor para o Brasil, me deu essa missão", declarou.

<><> Conflito após críticas à estratégia do PL

No vídeo, Michelle associa o desgaste à sua posição contrária à tentativa do PL de buscar apoio político de Ciro Gomes, atualmente filiado ao PSDB. A ex-primeira-dama relembrou críticas feitas pelo ex-governador cearense a Jair Bolsonaro (PL) e a integrantes de sua família. Ao justificar sua posição, Michelle afirmou que "Ciro Gomes foi o principal responsável pelo processo que levou à inelegibilidade do meu marido." Ela também disse que Ciro Gomes chamou Bolsonaro e seus filhos, incluindo o senador Flávio Bolsonaro , de "ovos de serpentes nazistóides", além de corruptos e bandidos.

Durante o relato, Michelle afirmou que se sentiu desrespeitada após o episódio envolvendo Flávio Bolsonaro. Segundo ela, a situação a levou a concluir que sua participação política já não era desejada. A ex-primeira-dama declarou ter sido “apunhalada” e humilhada, afirmando ainda que entendeu que não havia interesse em contar com seu apoio político. “Entendi que não queria meu apoio”, disse.

<><> Vídeo expõe tensões no bolsonarismo

As declarações ampliam a exposição pública de divergências internas no clã Bolsonaro e no campo da direita em um momento de reorganização política para as eleições presidenciais de outubro.

Flávio Bolsonaro foi escolhido por Jair Bolsonaro como candidato à Presidência da República, e o episódio revela possíveis desgastes dentro do núcleo político e familiar que lidera o movimento de extrema direita no país. Até o momento, Flávio Bolsonaro não se manifestou publicamente sobre as declarações feitas por Michelle.

 

Fonte: Brasil 247

 

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