A
desintegração regional da América do Sul
A
América Latina — e, de forma mais aguda, a América do Sul — atravessa um
período de fragmentação política e desintegração econômica que compromete sua
capacidade de ação coletiva e amplia sua vulnerabilidade externa. Desde meados
da década de 2010, houve uma inflexão recente no processo de integração
regional da América do Sul: a paralisação de mecanismos como a UNASUL e o
esvaziamento de instâncias técnicas como o Cosiplan desarticularam a
coordenação intergovernamental em áreas estratégicas, como infraestrutura,
energia e logística. Esse enfraquecimento institucional foi acompanhado por
forte retração do comércio intrarregional — no caso brasileiro, as exportações
para a região caíram cerca de 35% em termos reais entre 2011 e 2025 —,
revertendo um ciclo anterior de expansão baseado em maior coordenação política
e integração produtiva.
O
resultado não é apenas a perda de densidade econômica regional, mas também a
substituição de vínculos integradores por estratégias nacionais isoladas e,
muitas vezes, concorrentes, com efeitos concretos como menor capacidade de
barganha internacional, reforço de especializações primárias e maior isolamento
logístico entre países vizinhos.
Esse
processo ocorre em paralelo a uma polarização multinível, que atravessa tanto
as relações entre países quanto o interior de cada sociedade. A fragmentação
não é apenas ideológica, mas institucional: faltam mecanismos de governança
capazes de coordenar políticas de longo prazo e mediar conflitos. A infraestrutura
deixa de atuar como vetor de integração e passa a reproduzir assimetrias,
conectando economias de forma fragmentada e subordinada a interesses externos.
Inserida em um cenário global de rivalidade crescente — entre Estados Unidos e
China, entre blocos geopolíticos e com instabilidade no Oriente Médio —, a
região perde capacidade de inserção soberana justamente quando seus recursos
naturais, energéticos e de biodiversidade ganham centralidade estratégica.
O Peru
condensa esse quadro de forma exemplar. O país combinou, por quase três
décadas, crescimento sustentado pela exportação de minerais com um sistema
político frágil e pouco enraizado socialmente. Esse arranjo gerou um paradoxo:
estabilidade relativa e expansão econômica convivendo com baixa legitimidade
dos governos e elevada volatilidade partidária. A desconexão entre elites
políticas e territórios — especialmente nas regiões extrativistas — limitou a
formação de bases duradouras.
Esse
equilíbrio precário foi rompido com a Lava Jato, que desorganizou lideranças e
partidos sem produzir um sistema substituto, levando à implosão do ciclo de
estabilidade observado entre 2001 e 2016.
Desde
então, o Peru opera em crise permanente, com Executivos isolados e um
Legislativo fragmentado, incapazes de construir maiorias estáveis. O segundo
turno entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez expressa essas clivagens
estruturais — territoriais, sociais e institucionais — mais do que uma disputa
entre projetos consolidados. Trata-se de um sistema que reproduz ciclos de
instabilidade, independentemente do resultado eleitoral, ilustrando como a
combinação entre fragmentação política e um modelo econômico pouco integrado
territorialmente gera desintegração institucional persistente.
No
plano regional, tensões bilaterais evidenciam o uso político de conflitos
externos. As fricções entre Equador e Colômbia podem ser interpretadas como
provocação do governo Noboa, com objetivos
domésticos
e impacto sobre o processo eleitoral colombiano. O país se aproxima de uma
disputa polarizada após a ascensão de Gustavo Petro. Iván Cepeda, candidato do
Pacto Histórico, lidera as pesquisas ao unificar o campo progressista e ampliar
apoio entre setores moderados que rejeitam a radicalização do uribismo e sua
aproximação com a agenda de Trump. A oposição aparece dividida entre Paloma
Valencia, representante do campo tradicional vinculado a Álvaro Uribe, e
Abelardo de la Espriella, que ocupa o espaço da extrema direita.
Nesse
quadro, a pressão dos Estados Unidos sobre o governo Petro — por meio de
ameaças econômicas e acusações diretas — insere-se no ambiente eleitoral, mas
não tem fortalecido a oposição. Ao contrário, tende a reforçar a coesão
governista e a ampliar a resistência de setores de centro a candidaturas
associadas a agendas externas mais agressivas. Assim, a combinação entre
polarização interna e pressão externa reorganiza a disputa em torno da rejeição
ao radicalismo, consolidando Cepeda como polo de convergência e evidenciando o
papel crescente da política externa nas dinâmicas domésticas.
Na
Argentina, Javier Milei enfrenta o pior nível de aprovação de seu governo,
mesmo com apoio externo recorde de instituições multilaterais, refletindo os
custos sociais de um programa baseado em ajuste fiscal acelerado, liberalização
econômica e retração do Estado. O núcleo desse desgaste está no aprofundamento
do conflito distributivo, com recomposição de preços e cortes de gastos
recaindo de forma desproporcional sobre os segmentos de menor renda e setores
voltados ao mercado interno. Enquanto grupos financeiros e exportadores se
beneficiam, ampliam-se a perda de poder de compra, a precarização e a pressão
sobre serviços públicos. Esse descompasso intensifica a polarização e fragiliza
a legitimidade do governo.
No
Chile, o início do chamado “governo de emergência”, liderado por José Antonio
Kast, sinaliza uma inflexão conservadora mais dura. Medidas como o escudo
fronteiriço e reformas fiscais regressivas indicam uma agenda de controle
territorial e reconfiguração do Estado em favor de segmentos de maior concentração
de renda e capital. Embora esses movimentos dialoguem com tendências regionais,
a articulação entre governos ocorre de forma mediada por interesses mais
amplos, frequentemente alinhados à estratégia política de Donald Trump, que
serve de base para iniciativas como o “Escudo das Américas”.
A
reunião realizada em 7 de março de 2026, no resort Trump National Doral, em
Miami, é particularmente reveladora. Em primeiro lugar, a narrativa de
segurança — centrada no combate ao narcotráfico e ao terrorismo, em linha com a
doutrina da OEA — retoma padrões históricos de intervenção e legitima a
ampliação de mecanismos de controle regional. Esses argumentos vêm sendo mobilizados
para ações extremas, como o sequestro do presidente Nicolás Maduro em janeiro.
Ao mesmo tempo, a composição do encontro — restrita a 12 países alinhados e sem
Brasil, México e Colômbia — revela um recorte ideológico e a tentativa de
formação de um bloco político subordinado à agenda de Washington.
Em
segundo lugar, os objetivos reais apontam para o controle de recursos
estratégicos, em que o “narcoterrorismo” funciona como cortina de fumaça para
interesses mais amplos. A Amazônia, o
Caribe
e outras áreas ricas em biodiversidade e energia tornam-se centrais na disputa
geopolítica. Essa lógica se expressa em iniciativas como a operação conjunta
entre Estados Unidos e Reino Unido que resultou na apropriação de urânio
enriquecido da Venezuela no início de maio. Por fim, consolida-se um mecanismo
de alinhamento assimétrico, no qual governos trocam apoio externo por
fidelidade em agendas sensíveis, aprofundando a dependência regional.
A
América do Sul entra em um ciclo eleitoral decisivo, passando por Peru e
Colômbia e culminando em outubro no Brasil. Diferentemente de 2018,
candidaturas de extrema direita passaram a questionar abertamente princípios
como autodeterminação, solução pacífica de conflitos e integração regional. O
discurso de lançamento de campanha de Bolsonaro Filho, em Dallas, em inglês,
com defesa explícita de intervenção externa, sintetiza esse deslocamento e
marca um nível de alinhamento que, em outros momentos históricos, seria
inaceitável mesmo no campo conservador.
A atual
“baixa temperatura” nas relações entre Brasil e Estados Unidos — especialmente
após o encontro deste mês na Casa Branca entre Lula e Donald Trump — deve ser
entendida como recuo tático após o auge das tensões de 2025, marcado por
tarifaços e aplicação da Lei Magnitsky contra autoridades brasileiras. Esse
arrefecimento reflete tanto o interesse estratégico em minerais críticos e
outras agendas centrais na disputa entre Estados Unidos e China — como energia,
infraestrutura e cadeias de suprimento —, que reconfigura profundamente
dinâmicas regionais e padrões de inserção internacional, quanto o
reconhecimento de que o Brasil exerce hoje uma política externa relativamente
autônoma, impondo limites a formas mais diretas de pressão externa. Com o
avanço da polarização, porém, as possibilidades de nova ingerência tendem a
crescer. Nesse contexto, a desintegração regional deixa de ser apenas uma
condição de fundo e se converte em um risco estratégico imediato, capaz de
comprometer de forma duradoura a autonomia e os fundamentos da soberania
sul-americana.
¨
Ultradireita afasta Colômbia do Brasil e a aproxima dos
EUA
Vários
governos felicitaram na segunda-feira (22/06) o empresário Abelardo de la Espriella pela vitória
nas eleições presidenciais da Colômbia,
realizadas na véspera. A chegada ao comando do movimento de ultradireita
Defensores da Pátria implicará uma mudança para a política internacional nas
Américas, afastando o país do eixo de governos de esquerda, que inclui o Brasil
sob o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o México
de Cláudia Sheinbaum.
Com
Espriella no Palácio de Nariño, é muito provável que esse bloco tácito se
rompa. As divergências com os Estados Unidos, recorrentes durante
o período do atual presidente de esquerda, Gustavo Petro, deverão virar parte
do passado.
"Espriella
se insere plenamente no grupo de governantes de direita que buscam alinhamento
com a política dos Estados Unidos, e a Colômbia entra nesse clube de países
próximos a Washington na América Latina", diz à DW o cientista político
francês Yann Basset, professor da Universidade do Rosário, na Colômbia.
Isso
significará, acrescenta o especialista, um distanciamento de México, Brasil
e Venezuela, ainda que
"haja muita incerteza sobre o que vai acontecer com o governo de
Caracas", vizinho da Colômbia.
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Alinhamento à direita nas Américas
Durante
a campanha eleitoral, pouco se falou de política externa na Colômbia. Mas o
futuro presidente já deixou claro que quer explicitamente se alinhar não só aos
Estados Unidos, como a Israel e países da direita regional, como a
Argentina.
Espriella
já "falou em se retirar da Organização das Nações Unidas (ONU), da
Organização dos Estados Americanos (OEA) e do Sistema Interamericano de
Direitos Humanos, organizações que têm sido importantes para a Colômbia e para
a proteção dos direitos humanos na região", afirma Rafael Castro Alegría,
especialista em relações internacionais e professor da Pontifícia Universidade
Javeriana de Cali. "Na minha perspectiva, estas decisões transformariam a
Colômbia em pária regional e global."
A
situação com a Venezuela merece um capítulo à parte. Nesse caso, "a
posição é bastante chamativa e, eu diria, um pouco preocupante, porque
Espriella afirmou que não vai tratar diretamente com Delcy Rodríguez, que exerce a
presidência interina após a captura de Nicolás Maduro, mas que canalizará a
comunicação e a relação por meio do Departamento de Estado dos Estados
Unidos," prossegue o especialista.
A
decisão não apenas rompe com a tradição diplomática de manter canais diretos,
como também delega o diálogo com um país vizinho a um terceiro Estado, o que
pode ser interpretado como uma renúncia parcial à autonomia diplomática.
Em
relação ao Brasil, Castro espera mais atritos devido à distância ideológica,
mas não uma ruptura total. O peso econômico brasileiro é grande demais.
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Uma onda conservadora?
Após as
vitórias deJosé Antonio Kast no Chile,
de Rodrigo Paz na Bolívia e,
possivelmente, de Keiko Fujimori no Peru, o
triunfo de Espriella parece confirmar uma guinada à direita na região. Para
Basset, no entanto, isso não é tão evidente.
"Desde
a chamada 'guinada à esquerda' na América Latina
no início do século, acostumamo-nos a pensar em termos de ondas na região. Mas,
depois desse momento, cada país seguiu um caminho próprio e cada Estado tem
suas especificidades, de modo que não podemos falar de uma situação generalizada."
Das
últimas 15 eleições presidenciais, a direita venceu 12, no que pode ser lido
como uma tendência de voto contra governos no poder, o "voto de
castigo", e não necessariamente uma conversão ideológica massiva, ele
argumenta.
Outro
aspecto, segundo o especialista da Universidade Javeriana de Cali, é que Brasil
e México, as principais potências econômicas da região, são governados pela
esquerda. Um terceiro ponto é que o Congresso colombiano ficou fragmentado, com
forte presença do partido de Iván Cepeda. "Isso relativiza a leitura de um
mandato contundente totalmente favorável a Espriella."
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Foco no combate ao crime
Outro
elemento que parece unir os governos regionais é o combate ao crime. Nesse
sentido, Castro aponta que se trata de uma preocupação constante da população,
que levou à adoção de políticas de endurecimento penal que não tiveram efeito
duradouro.
Ele
considera previsível uma maior coordenação em temas de segurança com outros
países da região, "especialmente levando em conta que essa estrutura já
existe: o Escudo das Américas. Espriella prometeu aderir a essa
iniciativa", lembra.
Basset
chama a atenção para um fator que se manifestou tanto no Peru quanto na
Colômbia e que, à luz das pesquisas, poderá se repetir nas eleições
presidenciais do Brasil, em outubro: a forte polarização que parece dominar as
sociedades latino-americanas. Ainda assim, o cientista político destaca a
maturidade institucional colombiana.
"Isso
foi visível na forma como os resultados foram divulgados, porque a seriedade da
autoridade eleitoral fez com que o país aceitasse os números. Além disso, os
discursos dos dois candidatos foram muito mais moderados e abertos ao
reconhecimento do adversário do que os que vimos no primeiro turno",
afirma.
Até
segunda-feira, a vitória da ultradireita não havia sido oficializada pelo órgão
eleitoral da Colômbia. O candidato do Pacto Histórico, Iván Cepeda, já
reconhecera parcialmente, entretanto, a derrota.
Fonte: Por
Pedro Silva Barros, em Outras Palavras/DW Brasil

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