quinta-feira, 25 de junho de 2026

RD Congo: como o ebola está relacionado ao celular que está no seu bolso

Durante décadas, depois da descoberta do vírus do ebola em 1976 na República Democrática do Congo, os surtos da enfermidade foram relativamente pequenos e se mantiveram controlados, afetando, quando muito, algumas poucas centenas de pessoas.

Já não é assim. Nos últimos anos, os surtos de ebola foram muito maiores, afetando milhares e mesmo dezenas de milhares de pessoas em vários países. O surto de ebola de 2014 na África Ocidental infectou mais de 28.000 pessoas em 10 países de três continentes.

O surto atual, que começou no princípio de maio e não dá sinais de acabar, causou 363 casos confirmados na República Democrática do Congo e se estendeu para Uganda.

A explicação convencional tem a ver com as populações humanas maiores e mais interconectadas a que podem ter acesso os patógenos.

Mas há um fator mais fundamental: a transformação da ecologia subjacente do ebola, que está se reconfigurando, em parte, pela crescente demanda mundial de minérios para impulsionar a economia de alta tecnologia.

Na maioria das vezes, vírus como o ebola vivem tranquilamente nos corpos de seus animais hospedeiros, que, no caso, acredita-se serem os morcegos, causando-lhes pouco ou nenhum dano.

Os morcegos portadores do vírus que vivem em lugares como a República Democrática do Congo (RDC), cujas fronteiras abrangem 60% da segunda maior floresta tropical do mundo, costumam chegar apenas a umas poucas pessoas em lugares remotos, o que ocasiona pequenos surtos que se extinguem rapidamente.

Com a exposição repetida, as pessoas que vivem perto de morcegos portadores do Ebola adquirem certa imunidade ao vírus; um estudo sugere que quase 20% da população que vive nas matas do Gabão desenvolveu proteções imunitárias contra o vírus do Ebola.

Mas cortar as árvores em que vivem os morcegos rompe este delicado equilíbrio entre os animais portadores do ebola e os humanos. Os morcegos não desaparecem simplesmente quando suas árvores desaparecem.

Agrupam-se nos fragmentos de mata que restam, mais perto dos humanos, o que aumenta a probabilidade de encontros em que os humanos se expõem a seu sangue, saliva e excrementos carregados de vírus.

Por isso, segundo uma análise de 2025, por cada ponto percentual de aumento do desmatamento na África Central, a incidência de malária e de ebola dispara entre 20 e 40%. É por isso que a epidemia de ebola de 2014 foi precedida pela perda de 85% da cobertura florestal no extremo sudoeste da Guiné, onde começou o surto. O surto atual de ebola de Bundibugyo também segue este padrão, já que foi precedido por uma perda recorde de 1,5 milhões de acres de floresta tropical da bacia do Congo em 2024, segundo dados de satélites analisados por Global Forest Watch.

A pressão da humanidade sobre as florestas do mundo não é nada nova. Estamos há milênios cortando árvores para obter combustível e cultivar alimentos com os quais alimentar-nos. Mas no caso da República Democrática do Congo, também há um novo fator que impulsiona o desmatamento e que tem mais a ver com as peculiares exigências da economia global moderna do que com a sobrevivência humana.

Um dos fatores que desencadeiam estas perdas, como descobriu o economista Malte Ladewig, da Universidade Norueguesa de Ciências da Vida, é o crescente atrativo da chamada mineração artesanal: a população local que extrai minérios como o ouro, o coltan e o cobalto para vendê-los na cadeia de fornecimento global por meio de uma rede informal de contrabandistas e intermediários.

Calcula-se que a mineração artesanal dá trabalho a cerca de 2 milhões de pessoas na RDC, das quais mais de 380.000 se encontram no leste do país. Há rochas ricas em minérios de sobra. Ainda que a RDC seja o principal produtor mundial de cobalto e o maior produtor africano de cobre, devido à instabilidade política do país e a seu histórico de conflitos armados, a maior parte da riqueza mineral da RDC, avaliada em 24 trilhões de dólares, continua inexplorada pela indústria mineira comercial.

Ao mesmo tempo, espera-se que a crescente demanda mundial pelos chamados minérios 3TG (tungstênio, estanho, tântalo e ouro), necessários para fabricar produtos tecnológicos que vão desde semicondutores até celulares inteligentes, triplique nos próximos anos. Em uma corrida para enfrentar o domínio da China no setor, Donald Trump suspendeu em 2018 as normas contra os chamados minérios de conflito e no ano passado assinou um acordo com a RDC para ter acesso a sua abundância mineral em troca de segurança.

O resultado para as pessoas que vivem em florestas ricas em minérios é uma disjuntiva: entre a agricultura de subsistência — que agora se vê afetada por chuvas mais irregulares devido à mudança climática, à diminuição da fertilidade do solo e à destruição dos mercados agrícolas pelos conflitos — e a busca de minérios.

Quando Ladewig fez sua pesquisa junto à população local no leste da RDC, descobriu que a mineração artesanal se tornara uma “atividade de subsistência generalizada”, de que participavam mais de 30% das famílias do local.

Mas a busca de minérios altera a ecologia do ebola de formas peculiares que potencializam a capacidade do patógeno de propagar-se entre nós. Quando as pessoas ampliam suas granjas, costumam avançar nas matas a partir das beiradas. Quem busca minérios, em troca, penetra profundamente no coração da floresta. O aumento do preço dos minérios atrai gente de todo lugar, inclusive aqueles que não gozam da imunidade adquirida de quem vive habitualmente na mata.

Longe das zonas povoadas e dos mercados agrícolas, é mais provável que se mantenham caçando, o que põe em contato íntimo os corpos humanos com os de outros animais. Se entre suas presas há animais portadores do vírus do ebola como o Bundibugyo, qualquer patógeno que contraiam pode propagar-se facilmente a outras pessoas nos povoados mineiros improvisados, que são famosos por suas precárias condições sanitárias e sua escassa infraestrutura sanitária.

Não se sabe se a mineração artesanal teve algo a ver com a cadeia de acontecimentos que desencadeou a epidemia atual. O que sabemos é que o primeiro grupo de casos mortais surgiu em Mongbwalu, no nordeste da República Democrática do Congo, uma cidade mineira em expansão, cheia de zonas de extração de ouro não regulamentadas.

Também fica claro, a partir dos dados de satélites, que no ano passado, quando o preço do ouro duplicou, como resposta às taxas do presidente, as florestas em torno de Mongbwalu foram cortadas, o que empurrou uma nova fronteira para mais dentro da floresta.

O cientista Matthew Hansen analisa as mudanças na cobertura florestal mundial usando dados de satélite da NASA e do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Ampliou a imagem de Mongbwalu em seu mapa de mudanças florestais globais de 2000 a 2025 enquanto compartilhava sua tela comigo em uma videochamada.

Linhas onduladas de cor azul brilhante, que indicavam as zonas recentemente desmatadas, em 2025, se estendiam desde Mongbwalu até o oeste e o sul. “Puxa”, disse, olhando. O padrão era claro. “Há um montão de mineração por aqui. Fodeu”.

Em meio a surtos mortais, é compreensível que os especialistas e os responsáveis políticos se concentrem em como responder às epidemias e em como podemos preparar-nos melhor para a próxima. Mas no caso de patógenos novos, como o de Bundibugyo, que podem eludir as provas de diagnóstico e as vacinas padrão, não há nível de preparação ou capacidade de resposta que possa acabar com eles antes que comecem sua propagação exponencial.

Só o terceiro pilar da formulação de políticas em torno às pandemias, relativamente ignorado, pode fazer isso: prevenir as ecologias deterioradas que levam os novos patógenos para as populações humanas em primeiro lugar. O que significará prestar mais atenção à saúde de ecossistemas como as matas da bacia do Congo, e como seus minérios poderiam estar dentro do smartphone que vibra em seu bolso.

 

Fonte: Por Sonia Shah - Foreign Affairs/Europe Solidaire Sans Frontières - Tradução: Ana Corbisier, para Diálogos do Sul Global

 

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