Conheça
klotho, a nova proteína que deve virar moda contra o envelhecimento
Os
animais tratados viveram entre 15% e 20% a mais, com melhor massa muscular,
maior densidade óssea, menos fibrose e melhor função cognitiva...
Em
1997, o médico e pesquisador japonês Makoto Kuro-o cometeu um erro no
laboratório onde realizava seus experimentos. Ele estava tentando criar
camundongos com hipertensão quando o material genético que manipulava se
inseriu no lugar errado e alterou um gene desconhecido. Os camundongos
resultantes envelheceram em uma velocidade impressionante: em apenas dois
meses, já apresentavam arteriosclerose, osteoporose, deterioração cognitiva e
pele enrugada. O normal é que um camundongo viva quase três anos, mas aqueles
animais viveram muito menos.
Após
quatro anos investigando o que tinha dado errado, Kuro-o identificou o gene
responsável e publicou sua descoberta na Nature. Ele o chamou de klotho, em
homenagem a Cloto, uma das três moiras na mitologia grega, responsável por
tecer o fio da vida. Ele havia descoberto, por acidente, um dos supressores do
envelhecimento mais potentes conhecidos.
A
proteína klotho existe em duas versões. Uma está ancorada na membrana das
células do rim e do cérebro. A outra é um fragmento que se desprende da
membrana, entra na corrente sanguínea e viaja por todo o organismo, atuando
como um sinal de saúde sistêmica. O problema é que seus níveis caem de forma
constante com a idade, tanto em humanos quanto em todos os primatas já
estudados. O interessante é que isso não parece uma coincidência biológica:
trata-se de um mecanismo que tem consequências diretas sobre o nosso
envelhecimento.
<><>
Uma arma muito poderosa contra o envelhecimento
O
experimento mais relevante até agora foi publicado em 2025 por uma equipe
internacional de pesquisadores do Instituto de Neurociências da Universidade
Autônoma de Barcelona, liderada pelo professor Miguel Chillón. Esses cientistas
trataram camundongos com terapia gênica com o objetivo de fazer com que suas
próprias células produzissem mais klotho. Aos 24 meses (equivalentes a cerca de
setenta anos humanos), os resultados eram notáveis: os animais tratados viveram
entre 15% e 20% mais, com melhor massa muscular, maior densidade óssea, menos
fibrose e melhor função cognitiva.
No
hipocampo, a região do cérebro onde reside a memória, o tratamento estimulou a
geração de novos neurônios. Um aumento de 20% na vida de camundongos é, na
biologia do envelhecimento, um resultado extraordinário. Ter klotho no sangue é
importante porque essa proteína atua em vários dos processos mais prejudiciais
ligados ao envelhecimento. No rim, ela regula como o organismo lida com o
fósforo. De fato, sem klotho, o fósforo se acumula e acelera o desgaste
celular.
E, no
resto do corpo, ela reduz o estresse oxidativo, freia a inflamação crônica,
ativa o FOXO3A (um dos genes de longevidade mais estudados) e inibe a
senescência celular — estado em que células envelhecidas deixam de funcionar
corretamente, mas não morrem e acabam envenenando lentamente o tecido ao redor.
De qualquer forma, o maior desafio é encontrar uma forma de transferir todo
esse conhecimento para seres humanos.
Nos
camundongos, foram usados vetores virais injetados tanto na veia quanto
diretamente no cérebro, uma combinação que, em humanos, envolveria riscos
importantes. A alternativa é administrar a proteína diretamente como um
fármaco, mas encontrar um sistema que a mantenha estável e a leve de forma
eficaz aos seus órgãos-alvo (rim, cérebro, músculos e ossos) ainda é um
problema sem solução.
<><>
O setor privado se movimenta
Mesmo
assim, a indústria biotecnológica da longevidade decidiu não esperar. A startup
norte-americana Minicircle, na qual Sam Altman e Peter Thiel investiram,
iniciou em outubro de 2025 um ensaio clínico de fase 1 com 24 participantes
para testar uma terapia gênica de klotho baseada em plasmídeos: fragmentos de
DNA que não se integram ao cromossomo e cujos efeitos duram aproximadamente um
ano. Essa terapia não tem aprovação da FDA (Food and Drug Administration), por
isso opera por meio de clínicas internacionais.
No
entanto, as aplicações buscadas pela indústria vão além do envelhecimento em
pessoas saudáveis. A Klotho Neurosciences tem programas em andamento para
combater o Alzheimer, a esclerose lateral amiotrófica e doenças
cardiovasculares, com ensaios de fase I e II previstos entre 2027 e 2028. Já a
BioViva identificou melhorias em testes cognitivos em pacientes com demência
tratados com uma terapia gênica combinada de klotho e telomerase. E a empresa
Avaí Bio trabalha com células modificadas encapsuladas que superexpressam a
proteína. Ela prevê ter os primeiros resultados prontos para a Segunda
Conferência Anual sobre Klotho, que ocorrerá em setembro de 2026.
Tudo o
que vimos nesta matéria parece muito promissor, mas não se deve ignorar que os
dados obtidos até agora vêm de camundongos e que a história da biologia do
envelhecimento está cheia de descobertas espetaculares em animais que não se
traduziram com o mesmo sucesso para humanos. Além disso, permanecem várias
perguntas importantes sem resposta: quais são os efeitos da superexpressão de
klotho a longo prazo, se o momento da administração é tão relevante em humanos
quanto em roedores e o que acontece com o metabolismo do fósforo e da vitamina
D após anos de tratamento.
Ainda
assim, pela primeira vez, há ensaios clínicos em andamento, capital privado
sendo investido em larga escala e uma conferência anual dedicada exclusivamente
a essa proteína. A klotho é, em última análise, uma das armas mais promissoras
que a biologia colocou em nossas mãos para lidar com o envelhecimento.
• Cientistas japoneses descobrem 'botão'
que interrompe envelhecimento e pode estender vida humana
Pesquisadores
da Universidade de Osaka descobriram que uma proteína específica, chamada
AP2A1, desempenha um papel central no envelhecimento celular. Quando bloqueada,
ela pode ativar mecanismos que retardam o envelhecimento ou podem até reverter
seus efeitos.
<><>
A proteína que pode retardar o envelhecimento
Durante
o envelhecimento, as células do corpo tornam-se maiores e mais inativas — ou
seja, não se dividem, nem morrem. Esse processo é conhecido como senescência
celular.
Essas
células envelhecidas se acumulam no organismo e estão associadas a doenças como
osteoporose, enfermidades cardíacas, alguns tipos de câncer e distúrbios
neurodegenerativos.
Segundo
Pirawan Chantachotikul, pesquisadora da Universidade de Osaka e uma das autoras
do estudo publicado na revista Cellular Signalling, “as fibras de estresse nas
células senescentes são muito mais espessas do que nas células jovens,
sugerindo que as proteínas nessas fibras ajudam a manter seu tamanho e
imobilidade”.
A
equipe observou que a AP2A1 está presente em maior quantidade nessas células
envelhecidas e parece contribuir diretamente para esse
"enrijecimento".
<><>
Desativar a AP2A1 para “rejuvenescer” as células
Nos
experimentos de laboratório, os pesquisadores modularam a expressão da AP2A1 em
diferentes tipos de células humanas. Quando essa proteína foi desativada em
células envelhecidas, elas voltaram a se dividir e reduziram de tamanho,
recuperando características típicas de células jovens.
Em
contrapartida, nas células jovens, o aumento da AP2A1 acelerou o processo de
envelhecimento.
“A
supressão da AP2A1 em células mais velhas reverteu a senescência e promoveu a
renovação celular”, explicou Shinji Deguchi, coautor do estudo.
Além
disso, a equipe utilizou o composto IU1, uma substância que auxilia na
"faxina molecular" ao remover proteínas danificadas. A combinação
entre o bloqueio da AP2A1 e a aplicação do IU1 gerou uma redução mensurável nos
marcadores de envelhecimento, indicando uma reversão parcial do relógio
biológico celular.
<><>
Impacto potencial e próximos passos
Embora
ainda em fase inicial, os pesquisadores destacam que a descoberta pode
transformar a medicina regenerativa. Se os resultados forem confirmados em
organismos mais complexos, será possível não apenas prolongar a expectativa de
vida, mas também prevenir doenças crônicas antes mesmo do surgimento dos
primeiros sintomas.
Fonte:
Xataka Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário