Custos
e interesses nacionais travam plano militar europeu
Após o
fim da Guerra Fria, em 1989, líderes europeus decidiram pegar mais leve com
seus gastos com defesa, afinal não havia mais a ameaça iminente de um conflito
na região. Ao longo das décadas seguintes, as forças armadas dos países
europeus encolheram, e os estoques de equipamentos minguaram, o que resultou em
uma redução da capacidade de combate.
A
guerra na Ucrânia, iniciada pela Rússia em fevereiro de 2022, no entanto,
forçou o continente a voltar o olhar – e o orçamento – para seu aparato
militar.
A
crescente incerteza sobre os compromissos de segurança dos Estados Unidos sob a
gestão Donald Trump acelerou essa percepção de que é preciso fortalecer as
defesas na região e depender menos de outros atores.
Para
ampliar os gastos militares, a Alemanha chegou a alterar sua Constituição, em
2025, para retirar os limites de endividamento na área de defesa, o chamado
"freio da dívida".
No ano
passado, os 29 membros europeus da Organização do Tratado do Atlântico Norte
(Otan) gastaram, juntos, 559 bilhões de dólares (cerca de R$ 3 trilhões) em
defesa, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo
(Sipri), um centro de referência em estudos sobre temas ligados à defesa. Em
2021, ano anterior ao início da guerra na Ucrânia, esse valor foi de 342
bilhões de dólares (cerca de R$ 1,8 trilhão).
A
Alemanha, sozinha, desembolsou 114 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 586,4
bilhões) com suas Forças Armadas no ano passado, uma alta de 24% em relação ao
ano anterior.
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Fortalecimento da indústria de defesa
A
Europa também tem buscado fortalecer sua indústria de defesa para garantir
autossuficiência e segurança na cadeia de suprimentos de sistemas de armamento
críticos. Para isso, vários países têm unido esforços em projetos militares de
ponta, como o desenvolvimento de caças de nova geração.
Per
Erik Solli, analista sênior de defesa do Instituto Norueguês de Assuntos
Internacionais (Nupi), destacou iniciativas importantes no setor de aviação
militar europeu, como o programa GCAP, conduzido conjuntamente por Reino Unido,
Itália e Japão, e o ecossistema em desenvolvimento na Suécia em torno do caça
Gripen e de drones.
Fabricantes
europeus de armas como Rheinmetall, Thales e Leonardo têm se beneficiado do
aumento dos gastos militares. Mas muitos deles enfrentam dificuldades para
acelerar a produção e atender à demanda crescente.
Os
resultados considerados fracos de receita e lucro no primeiro trimestre de 2026
levantaram preocupações entre investidores e dúvidas sobre a capacidade dessas
empresas de converter pedidos em ganhos efetivos.
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Fragmentação e interesses nacionais divergentes
O setor
de defesa europeu também enfrenta desafios estruturais, como desvantagem de
escala em relação a empresas dos EUA e fragmentação em vários países, o que
leva a redundâncias e problemas de coordenação.
Iniciativas
conjuntas frequentemente são mais arrastadas, devido a divergências de
prioridades nacionais. O projeto franco-alemão do sistema de combate aéreo do
futuro (FCAS) é um exemplo disso. A iniciativa foi recentemente cancelada por
divergências entre a francesa Dassault Aviation e a alemã Airbus Defence and
Space, um duro golpe para os esforços europeus de maior cooperação na área.
O
programa FCAS previa desenvolver um sistema abrangente de aviação militar de
nova geração, com aeronaves tripuladas, drones e uma "nuvem de
combate" para conectividade de informações, disse Solli. Embora as
empresas não desenvolvam mais o avião tripulado em conjunto, o destino dos
drones e da nuvem de combate ainda é incerto.
Também
é incerto o futuro de outro projeto franco-alemão, há muito adiado, para
desenvolver novos tanques.
Projetos
multinacionais entre países europeus funcionam quando governos alinham
prioridades e coordenam ações, afirmou Emil Archambault, especialista em
política de segurança e defesa do Conselho Alemão de Relações Exteriores. Ele
citou o avião de transporte militar Airbus A400M Atlas como exemplo de programa
de defesa europeu bem-sucedido.
Mas,
quando a coordenação não é bem feita, ocorre fragmentação, ressaltou, apontando
que Alemanha, França e Polônia seguem caminhos diferentes para adquirir
sistemas de artilharia de foguetes terrestres semelhantes ao modelo americano
HIMARS. "Não é um problema da indústria de defesa. É um problema de
coordenação entre Estados", afirmou.
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Aquisições são gargalo
A
aquisição de equipamentos de defesa continua sendo um grande gargalo,
dificultando inovação, colaboração e rapidez nas compras, dizem especialistas.
"O ponto fraco da Europa não é mais financeiro, é institucional",
concluiu um relatório recente do Nupi.
Os
autores argumentam que as compras de defesa nos países europeus são conduzidas
por "protecionismo nacional, aversão ao risco e tomada de decisões lenta e
baseada em consenso – exatamente o oposto do que é necessário agora". Eles
defendem a formação de coalizões entre parceiros com interesses alinhados para
garantir cooperação, rapidez e flexibilidade.
Archambault
tem visão semelhante. Segundo ele, a União Europeia desempenha papel importante
na padronização, mas coordenar compras entre muitos países continua sendo um
desafio.
Uma
saída é criar "sistemas minilaterais" – três ou quatro países
alinhados que unam forças para desenvolver e adquirir sistemas de armas,
abrindo-os depois a outros – o que traria flexibilidade e ganhos de escala e
padronização.
Especialistas
também apontam forte tendência de favorecer grandes fabricantes nacionais nas
aquisições. Em muitos países europeus, as compras de defesa são
"direcionadas principalmente às dez maiores empresas", segundo
relatório publicado em março de 2026 pelo think tank econômico Bruegel, de
Bruxelas.
"As
dez maiores contratadas respondem por entre 67% e 90% das aquisições militares
na Alemanha, na Polônia e no Reino Unido", diz o estudo. O relatório
destacou a necessidade de incorporar startups e pequenas empresas para
impulsionar a inovação e atender às demandas militares modernas.
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Defesa pode impulsionar economia?
Também
cresce a preocupação sobre por quanto tempo os governos europeus conseguirão
sustentar altos gastos militares, diante da pressão crescente sobre as contas
públicas e do baixo crescimento econômico persistente.
Isso já
afetou o valor de mercado de grandes empresas do setor: o índice Stoxx Europe
Targeted Defense caiu mais de 15% desde janeiro, segundo o jornal Financial
Times.
Escolher
entre investir em saúde e bem-estar social ou em defesa "não é uma escolha
simples", afirma Archambault.
Muitos
governos europeus veem os gastos militares não apenas como política de
segurança, mas também como forma de estimular a atividade econômica e gerar
empregos. Países como Alemanha e Reino Unido "esperam criar e sustentar a
indústria pesada por meio dos gastos em defesa e, posteriormente, por meio de
exportações", pontuou.
Há,
porém, variações regionais nos níveis de gastos militares e na percepção de
ameaça. Para países próximos à Rússia, a defesa segue como prioridade máxima;
em outros, concorre com áreas como bem-estar social.
Ainda
assim, será necessário ampliar gastos em defesa "para proteger
infraestrutura crítica e bens sociais contra ameaças como incursões de drones,
sabotagem e ataques híbridos", afirmou o especialista. "Isso é
necessário para todos os países europeus."
• Alemanha e França abandonam projeto de
novo caça europeu
A
França e a Alemanha decidiram abandonar um programa conjunto que visava
desenvolver uma aeronave de combate europeia devido a divergências entre as
empresas envolvidas, informaram nesta segunda-feira (08/06) autoridades dos
dois países.
O
programa Future Combat Air System (FCAS), lançado em 2017, era visto como um
teste crucial dos esforços europeus para estreitar a cooperação em defesa e
apresentar uma frente unida diante de uma Rússia hostil e em um momento de
relações deterioradas com os Estados Unidos.
O
chanceler federal alemão, Friedrich Merz, e o presidente francês, Emmanuel
Macron, discutiram o projeto à margem da cúpula da União Europeia (UE) com as
nações dos Balcãs Ocidentais, em Montenegro, na semana passada, e concluíram
que não havia perspectiva de romper meses de impasse entre as empresas de
envolvidas, segundo relataram fontes próximas às conversas.
Uma
nota emitida pelo Palácio do Eliseu nesta segunda-feira afirma que os dois
países não conseguiram dar continuidade ao projeto do caça, após as autoridades
alemãs decidirem que não era possível para as empresas envolvidas prosseguirem.
"As
autoridades alemãs consideraram que não era possível pressionar ainda mais as
empresas", disse o governo francês. "As autoridades francesas
continuarão a incentivar nossas empresas e Forças Armadas a explorar maneiras
de levar adiante projetos europeus ambiciosos que sejam consistentes com nossos
interesses de segurança nacional", acrescentou.
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Desafios geopolíticos
A
decisão de encerrar o pilar central do maior projeto de defesa da Europa ocorre
em um momento em que autoridades militares ocidentais alertam para uma
crescente ameaça da Rússia e os Estados Unidos intensificam a pressão para que
a Europa se rearme.
A falta
de um acordo sobre o projeto de 100 bilhões de euros (R$ 597 bilhões), que
também inclui a Espanha, evidencia as dificuldades que a Europa tem enfrentado
na reconstrução de sua capacidade militar após décadas de subinvestimento.
As
novas aeronaves iriam substituir os caças Rafale da França e os aviões
Eurofighter usados por Alemanha e Espanha. No entanto, o programa
multibilionário foi assolado por divergências entre as empresas envolvidas, a
francesa Dassault Aviation e a Airbus, que representa as partes alemã e
espanhola no projeto.
Um
funcionário do governo alemão citado pela agência de notícias AFP disse que
Merz e Macron "chegaram à conclusão de que as empresas não conseguirão
atingir um acordo para construir uma aeronave de combate conjuntamente". O
funcionário, no entanto, afirmou que outras partes do projeto serão mantidas.
"O
núcleo do FCAS continuará como um sistema europeu", disse o funcionário,
que descreveu o projeto como um "sistema nervoso que interliga aeronaves,
drones e outros componentes de forma integrada".
Os
ministérios da Defesa francês e alemão devem elaborar um plano de trabalho
conjunto "focado em alguns projetos realistas e relevantes" em uma
reunião futura, acrescentou.
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Divergências de longa data
A
decisão veio em meio aos apelos para que a Europa integre mais estreitamente
suas fragmentadas Forças Armadas, à medida que se agravam as turbulências
geopolíticas, como a guerra da Rússia contra a Ucrânia, que já dura mais de
quatro anos, e a fragilidade cada vez maior dos compromissos de segurança dos
EUA com o continente sob a presidência de Donald Trump.
O
projeto, que se concentrava em um caça principal apoiado por drones e conectado
por uma "nuvem de combate" secreta, estava em dúvida há meses,
enquanto os dois lados discutiam sobre especificações e controle.
Uma
fonte europeia afirmou à agência de notícias Reuters que as duas partes
buscavam uma solução que preservasse as aparências, na qual os sistemas fora do
núcleo do caça, como a "nuvem de combate" de links altamente seguros,
continuariam a ser desenvolvidos sob o mesmo nome.
O
compromisso é principalmente simbólico, já que FCAS é um nome genérico para
tais sistemas e não exclusivo deste projeto. As autoridades, no entanto, vinham
buscando uma fórmula que permitisse a Macron abrir mão do núcleo do caça sem
ter que declarar o projeto inteiro como morto.
Macron
e Merz tentaram por meses salvar o FCAS e superar as diferenças entre os
principais parceiros da indústria. Além das disputas sobre o controle da
próxima fase de desenvolvimento e o acesso à propriedade intelectual, as duas
partes tinham requisitos muito diferentes para a aeronave.
O
impasse em relação ao projeto principal do caça ecoa a decisão da França de se
retirar do Eurofighter na década de 1980 e sucede anos de crescentes desavenças
públicas entre a Dassault e a Airbus.
Fonte:
DW Brasil

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