Charles
Miller: quem foi o 'pai do futebol brasileiro' com sangue escocês
Nesta
quarta-feira, o Brasil enfrenta a Escócia em Miami, pela Copa do Mundo de 2026.
Mas o futebol brasileiro já tinha uma ligação com a Escócia mais de 130 anos
antes desse jogo — bem no início da própria história do esporte no país. O nome
por trás disso é Charles Miller, o homem conhecido até hoje como o "pai do
futebol brasileiro".
O pai
de Charles, John Miller, nasceu em 1844 na pequena localidade de Fairlie, na
costa oeste da Escócia, um dos dez filhos de Andrew Miller e Elizabeth Brown.
Ainda jovem, emigrou para o Brasil para trabalhar como funcionário da estrada
de ferro São Paulo Railway. Em 1870, casou-se com Carlota Fox, brasileira de
ascendência inglesa. Quatro anos depois, em 1874, nasceu Charles William
Miller, em São Paulo.
Charles
passou a primeira década de vida no Brasil.
Aos dez
anos, foi mandado para estudar na Inglaterra, na Banister Court School, em
Southampton — uma escolha comum entre famílias britânicas radicadas no exterior
na época. Foi ali que conheceu o futebol, então pouco mais que um passatempo
escolar inglês, e se destacou rapidamente: chegou a jogar pelo St Mary's FC,
equipe que mais tarde se tornaria o Southampton FC.
Foi
também em Southampton que Miller cruzou caminho com o Corinthian Football Club,
clube amador de Londres famoso por suas turnês internacionais. Em 1892, o
Corinthian viajou à cidade para enfrentar uma seleção do condado de Hampshire,
mas chegou com apenas dez jogadores. Um professor sugeriu que completassem o
time com aquele aluno promissor — e Miller, jogando como ponta-esquerda, foi o
destaque da partida.
Segundo
a história contada pelo próprio Corinthian até hoje, o clube ficou tão
impressionado que, ao saber que aquele seria o último jogo de Miller na
Inglaterra antes de voltar ao Brasil, deu a ele de despedida duas bolas de
futebol. Essa versão específica do presente não aparece, porém, nas biografias
mais rigorosas sobre Miller, que mencionam apenas que ele levou bolas na
bagagem, sem atribuir a origem delas ao clube inglês.
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A volta ao Brasil e a fundação dos primeiros clubes
Em
1894, quando tinha por volta de seus 20 anos, Miller voltou a São Paulo depois
de uma década na Inglaterra. Na bagagem, as duas bolas e um exemplar do
regulamento oficial da associação de futebol de Hampshire.
Reza a
lenda — repetida em praticamente todos os relatos sobre sua volta, embora sem
fonte documental primária — que o próprio pai, ao vê-lo desembarcar no porto de
Santos, perguntou o que era aquilo que ele trazia. "Meu diploma",
teria respondido Charles. "Seu filho se formou em futebol."
O
esporte era completamente desconhecido no Brasil da época. A população local
preferia remo e corridas de cavalo, e via aquela bola redonda com certa
desconfiança — alguns chegaram a confundi-la com os equipamentos usados em
outras atividades físicas da moda. Os poucos curiosos eram majoritariamente
outros britânicos expatriados, ligados às ferrovias e ao comércio.
Foi
nesse cenário que Miller organizou o que teria sido a primeira partida oficial
de futebol do Brasil, em 14 de abril de 1895: o time da São Paulo Railway, a
empresa britânica onde trabalhava, contra a equipe da Companhia de Gás, também
formada por britânicos radicados em São Paulo.
O jogo
aconteceu na Várzea do Carmo, num terreno improvisado no bairro do Brás.
Décadas depois, em entrevista à Gazeta Esportiva, Miller contaria que a
primeira tarefa do dia foi enxotar os bois de uma companhia de viação que
pastavam tranquilamente no campo. A partida terminou 4 a 2 para o time de
Miller, que marcou dois dos quatro gols.
Foi
nessa mesma época que Miller também criou o departamento de futebol dentro do
São Paulo Athletic Club (SPAC) — clube esportivo já existente desde 1888, mas
até então dedicado a outras modalidades —, que se tornaria a base institucional
a partir da qual o futebol se organizaria na cidade.
Seis
anos depois, em 14 de dezembro de 1901, Miller ajudou a fundar a Liga Paulista
de Football — a primeira liga de futebol organizada do Brasil. Cinco clubes
participaram da fundação: o próprio SPAC, o Internacional, o Mackenzie, o
Germânia e o Paulistano.
Miller
seguiu envolvido com o clube nos anos seguintes, inclusive como goleiro a
partir de 1906.
Em
1910, dezoito anos depois daquela partida em Hampshire, foi Miller quem
articulou a vinda do Corinthian Football Club para uma turnê pelo Brasil. Os
ingleses jogaram seis partidas e venceram todas, com agregado de 38 a 6 —
incluindo a goleada final, por 8 a 2, contra o time paulista de Miller, que
jogou a partida.
Cinco
operários ferroviários presentes ao jogo ficaram tão impressionados com o
estilo do Corinthian que decidiram fundar seu próprio clube. Foi Miller quem
sugeriu o nome em homenagem ao time inglês — batizando o que se tornaria o
Sport Club Corinthians Paulista, um dos maiores clubes do país até hoje.
Miller
também representou a seleção do Estado de São Paulo e disputou partidas
não-oficiais pela seleção brasileira contra a Argentina, em 1914. Como árbitro
e dirigente, seguiu ligado ao futebol paulista até os 50 anos. Quando o
profissionalismo chegou ao futebol brasileiro, em 1933, Miller — fiel a um
ideal amador de esporte, mais ligado ao espírito do Corinthian FC inglês do que
ao dinheiro — se afastou definitivamente do meio, desapontado com o rumo que o
jogo havia tomado.
Na vida
pessoal, casou-se com a pianista Antonietta Rudge, com quem teve dois filhos,
Carlos e Helena. Morreu em São Paulo em 30 de junho de 1953, aos 78 anos, e
está sepultado no Cemitério dos Protestantes da cidade. Seu nome ficou marcado
no vocabulário do próprio esporte: o gesto de erguer a bola com o calcanhar é
conhecido até hoje como "chaleira" — derivação de
"Charles". E a praça 'Praça Charles Miller', em frente ao Estádio do
Pacaembu, também é uma homenagem a ele.
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Outro escocês, outra história
Charles
Miller não é, porém, o único nome escocês na origem do futebol brasileiro. No
bairro de Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro, mora uma versão alternativa
dessa história — também é escocesa.
Thomas
Donohoe, operário nascido em 1863 em Busby, perto de Glasgow, foi trabalhar
como tintureiro numa fábrica têxtil em Bangu, chegando ao Brasil em maio de
1894 — em teoria, meses antes do retorno de Miller a São Paulo.
Sem
encontrar ninguém na região que conhecesse o esporte, escreveu para a esposa,
Elizabeth, ainda na Escócia, pedindo que ela viesse — e que trouxesse uma bola.
Pouco depois da chegada dela, em setembro de 1894, aconteceu uma partida entre
operários britânicos no campo ao lado da fábrica: oito meses antes do jogo
organizado por Miller em São Paulo.
Os
defensores de Miller não contestam os fatos, mas argumentam que há uma
diferença entre uma partida informal entre amigos e a criação de um clube, de
uma liga e de um campeonato oficial, o que coube a Miller.
A
disputa nunca foi resolvida de fato: hoje, tanto Bangu quanto Busby, a cidade
escocesa natal de Donohoe, têm estátuas em homenagem a ele.
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O encontro desta quarta
Mais de
um século depois de dois escoceses ajudarem, cada um a seu modo, a moldar o
futebol brasileiro, Brasil e Escócia se encontram de novo nesta quarta-feira,
em Miami — agora dentro de uma Copa do Mundo, e não mais nos campos
improvisados de São Paulo ou Bangu.
As
seleções já se cruzaram quatro vezes em Copas do Mundo, e o Brasil nunca
perdeu. O primeiro encontro foi em 1974, na Alemanha Ocidental: terminou em 0 a
0, com a Escócia segurando os então tricampeões mundiais.
Em
1982, na Espanha, os escoceses até abriram o placar, mas o Brasil de Zico,
Sócrates, Éder e Falcão virou o jogo e venceu por 4 a 1. Na Itália, em 1990, o
Brasil venceu por 1 a 0. E em 1998, na França, bateu a Escócia por 2 a 1 na
partida de abertura daquela Copa — a última vez, até esta semana, em que as
duas seleções se enfrentaram em um Mundial.
• Como é a bola mais antiga do mundo — que
viajou até Miami para Brasil x Escócia
A bola
de futebol mais antiga de que se tem notícia no mundo viajou de Stirling, na
Escócia, para a Flórida, nos Estados Unidos, para participar das atividades em
torno da partida decisiva da Escócia contra o Brasil pela Copa do Mundo.
A bola,
que se acredita ter sido produzida entre 1540 e 1570, foi descoberta na década
de 1970, presa entre vigas no Castelo de Stirling.
Ela
ficará em exposição no Museu Coral Gables até sábado (27/06) e também será
exibida durante a partida entre Brasil e Escócia nesta quarta-feira (24/06), a
partir das 19h (horário de Brasília).
A peça
foi emprestada ao museu pela Stirling Smith Art Gallery and Museum, onde é a
principal atração de uma coleção com mais de 40 mil itens.
A bola,
reconhecida pelo Guinness World Records, o livro dos recordes, como a mais
antiga do mundo, tem aproximadamente o tamanho de um melão pequeno.
Ela é
feita de gomos de couro espesso que envolvem uma bexiga de porco.
A peça
foi datada do período de James 5º da Escócia e da jovem Mary Stuart, rainha da
Escócia no século 16, que viveu nos aposentos do castelo durante a infância.
"Alguém
na década de 1540 deve ter chutado a bola tão alto que ela ficou presa no teto.
A cronologia coincide com o período em que Mary, rainha dos escoceses, vivia no
castelo e, claro, a bola foi encontrada nos aposentos da rainha", explica
Aiofe McKenna, curadora do Stirling Smith.
"Não
podemos afirmar isso com certeza, mas gostamos de imaginar que Mary brincou com
esta bola", acrescenta McKenna.
Registros
históricos mostram que uma versão antiga do futebol já era popular na Escócia
desde o século 15.
"As
pessoas gostavam de jogar futebol tanto quanto hoje, mas o esporte era bem
diferente e muito mais violento", conta McKenna.
E
acrescenta: "Ainda assim, isso não impedia sua popularidade. Pelo
contrário, era extremamente popular. Muitos reis escoceses tentaram proibi-lo
por causa de toda a confusão que provocava."
A bola
faz parte da exposição Diplomacy and the Beautiful Game: From Scotland to
Brazil to Haiti (Diplomacia e o Jogo Bonito: da Escócia ao Brasil, passando
pelo Haiti, em tradução livre), no museu da Flórida.
McKenna
afirmou: "É muito empolgante que ela esteja lá para o jogo entre Escócia e
Brasil. [...] Muitas pessoas vêm especificamente para ver a bola, então os fãs
de futebol sabem que ela está aqui. [...] Mas acreditamos que isso levará sua
história a um público enorme, que talvez não saiba que o (Stirling) Smith
abriga essa bola."
A
Tartan Army, como é conhecida a torcida da Escócia, chegou a Miami para a
última partida da seleção escocesa na fase de grupos, depois de uma vitória por
1 a 0 contra o Haiti e uma derrota por 1 a 0 para o Marrocos.
Fonte:
BBC News Brasil

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