Os
4 processos judiciais nos EUA que podem mudar a forma como as redes sociais
operam
Quando
as redes sociais começaram a dominar a internet há 20 anos, foram amplamente
aclamadas como uma tecnologia revolucionária que conectaria pessoas de
diferentes origens e tornaria a informação mais acessível.
Hoje,
empresas como a Meta, proprietária do Facebook e do Instagram, o Google,
proprietário do YouTube, e o Snapchat, juntamente com redes relativamente mais
recentes como o TikTok, o Discord e a plataforma de jogos sociais Roblox,
enfrentam milhares de processos nos EUA sob a alegação de que, em vez disso,
estão prejudicando seus usuários, principalmente as crianças.
Em
conjunto, o resultado dos processos, seja por meio de acordos extrajudiciais ou
veredictos de júri contra as empresas, pode mudar para sempre a forma como as
plataformas sociais operam.
"Isso
criou um cenário que não só observadores jurídicos estão acompanhando, mas
também reguladores e legisladores", disse Eric Talley, advogado e
professor da Faculdade de Direito de Columbia.
Talley
observa que a forma como essa crescente onda de processos contra as plataformas
está influenciando a percepção pública mais ampla provavelmente afetará as
eleições políticas nos próximos anos, impactando leis e regulamentos novos e
revisados.
Muitos
dos casos estão tramitando em tribunais da Califórnia, onde estão sediadas as
principais plataformas de mídia social. Conhecido como o "efeito
Califórnia", as mudanças legais e políticas implementadas no Estado tendem
a levar a mudanças em todo o país.
"Não
há mais como negar que existe um problema com a segurança infantil nas
plataformas", disse Alexis Shore Ingber, especialista em direito da
comunicação e professora da Universidade de Syracuse. "Estamos vendo um
ponto de inflexão. Esses casos são significativos."
Este
ano, a Meta e o YouTube sofreram uma derrota sem precedentes em um caso movido
por uma jovem que alegou ter sido viciada em mídias sociais na infância, o que
contribuiu para seus problemas de saúde mental e emocional. As empresas foram
condenadas por um júri a pagar a ela um total de US$ 6 milhões (R$ 31 milhões)
em indenização. Ambos os escritórios de advocacia disseram discordar do
veredicto e pretendem recorrer.
A Meta
também perdeu um caso maior no Novo México, movido pelo procurador-geral
daquele Estado, que acusou a empresa de enganar o público ao afirmar que suas
plataformas eram seguras para crianças, apesar dos problemas conhecidos de
exploração sexual de jovens nelas. A Meta afirmou que também planeja recorrer
dessa decisão.
Durante
os anos em que esses casos foram apresentados e resolvidos, a Meta lançou
mudanças em suas plataformas com o objetivo de torná-las mais seguras para
jovens usuários.
Mas
alterações mais amplas nas plataformas — em como elas são projetadas, funcionam
e até mesmo são acessadas — provavelmente levarão anos e passarão por várias
decisões judiciais desfavoráveis.
Entre
este ano e o próximo, a Meta e as outras principais plataformas de mídia social
enfrentarão mais julgamentos, nos quais os júris poderão considerar uma série
de alegações de jovens usuários, seus pais, distritos escolares e procuradores
estaduais, que alegam uma série de efeitos nocivos na forma como as plataformas
de mídia social são projetadas e operam.
Até
mesmo um bilionário está preparado para levar a Meta a julgamento por hospedar
anúncios que enganam pessoas e roubam seu dinheiro.
Então,
quais casos realmente importam? A BBC analisou dezenas de casos nos EUA para
encontrar os poucos processos contra empresas de mídia social e jogos sociais
que estão a caminho de julgamento no próximo ano ou mais e que podem ter um
impacto significativo nos negócios e operações das plataformas.
De
acordo com Adam J. Schwartz, um advogado que também fundou uma ferramenta
online de revisão de documentos, os seguintes processos "são os casos
emblemáticos que definirão o tom e o teor para moldar a lei no futuro".
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Escolas x plataformas
Um
extenso litígio multidistrital (MDL, como é conhecido esse tipo de processo nos
EUA) na Califórnia inclui alegações de mais de 1.000 distritos escolares no
país.
De
forma geral, as escolas acusam o Instagram, o YouTube, o Snapchat e o TikTok de
serem intencionalmente projetados para serem viciantes, o que supostamente
prejudicou crianças mental e emocionalmente por meio do uso excessivo das
plataformas.
As
escolas alegam que lidar com os efeitos nocivos das mídias sociais lhes custou
dinheiro e recursos, e que as plataformas devem ser consideradas um
"incômodo público" e responsabilizadas por afetar o bem-estar das
crianças.
Embora
um julgamento com júri para algumas das alegações dos distritos escolares
esteja marcado para começar em fevereiro — depois que as plataformas
recentemente fizeram um acordo com um distrito escolar que seria o primeiro a
ser julgado —, todos os casos podem levar mais alguns anos para serem
resolvidos completamente.
Caso os
resultados dos tribunais sejam desfavoráveis às plataformas, tudo, desde a
forma como as plataformas exibem o engajamento do usuário até quem elas
permitem nas plataformas, pode mudar.
Um
porta-voz do YouTube disse: "As alegações nessas queixas simplesmente não
são verdadeiras." Uma porta-voz do Snapchat disse: "Discordamos
fundamentalmente das alegações — não temos como alvo escolas."
A Meta
se recusou a comentar e o TikTok não respondeu a um pedido de comentário.
Na
terça-feira (23/06), o YouTube chegou a um acordo com um jovem de 15 anos no
Estado da Flórida, que tinha movido um processo semelhante contra a plataforma.
"Essa
questão foi resolvida amigavelmente, e nosso foco continua voltado para o
desenvolvimento de produtos adequados para cada faixa etária e controles
parentais que cumpram essa promessa", declarou o porta-voz do Google, José
Castañeda, em comunicado à BBC.
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Povo do Estado da Califórnia x Meta
Advogados
da Califórnia e do Colorado lideraram um grupo de 29 Estados ao entrar com uma
ação judicial em 2023 contra a Meta e o Instagram. O julgamento está marcado
para agosto.
Os
Estados estão acusando a Meta de violações da Lei de Proteção da Privacidade
Online das Crianças (COPPA), uma lei federal.
A lei,
promulgada em 2000, foi criada para proteger crianças menores de 13 anos de
serem alvo de empresas que operam online.
A Meta
já forneceu mais de 2 milhões de documentos ligados a esse caso, de acordo com
os registros do tribunal.
Os
Estados querem que a Meta melhore seus mecanismos de controle para impedir que
menores de 13 anos usem suas plataformas e remova os dados que coletou
anteriormente de usuários menores de idade, além de uma série de outras
mudanças.
A Meta
usa esses dados para práticas como segmentação de anúncios e treinamento de
seus modelos e ferramentas de inteligência artificial (IA).
Um
porta-voz da empresa se recusou a comentar o caso.
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Menor de idade não identificado x Roblox e Discord
Este
processo contra a Roblox e o Discord foi movido por um menino de 13 anos em um
tribunal estadual em San Mateo, Califórnia. O menino alega que foi aliciado por
um predador sexual por meio de ambas as plataformas. Posteriormente, o homem
envolvido foi preso por seus crimes contra mais de duas dúzias de crianças.
O
processo argumenta que ambas as plataformas foram projetadas com falhas e se
envolveram em marketing enganoso sobre a segurança para usuários jovens e,
portanto, devem ser responsabilizadas pelos danos sofridos pelo jovem cuja
identidade não foi divulgada.
A
Roblox, que é uma plataforma focada em jogos com muitos recursos de mídia
social, e o Discord tentaram levar o caso para arbitragem, que é um processo
legal privado fora do sistema judicial. O tribunal recusou, mas o caso está
atualmente suspenso aguardando o recurso das empresas contra essa decisão.
Caso a
Roblox e o Discord percam seus recursos, o caso poderá ir a julgamento ainda
este ano.
Um
veredicto judicial contra as plataformas pode trazer mudanças na restrição de
idade e na capacidade de estranhos interagirem com usuários jovens por meio de
mensagens e salas de bate-papo da plataforma.
Uma
porta-voz do Discord se recusou a comentar. Um representante da Roblox não
respondeu ao pedido de comentário.
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Forrest x Meta
Nem
todos os casos contra plataformas de redes sociais que vão a julgamento têm a
ver com danos contra crianças.
Andrew
Forrest, um bilionário australiano, processou a Meta na Califórnia em 2022 pelo
suposto fracasso da empresa em combater anúncios fraudulentos que enganam os
australianos em investimentos falsos que supostamente proliferaram no Facebook
usando seu nome e imagem.
Com
alegações que incluem uso indevido de sua imagem e enriquecimento ilícito —
porque a Meta ganha dinheiro com anúncios em sua plataforma —,
independentemente do objetivo ou resultado, o processo de Forrest pode ser um
dos mais significativos.
Ele
está pedindo ao tribunal que determine que a Seção 230 da Lei de Decência nas
Comunicações não pode ser usada como defesa pela Meta no caso. Meta está
argumentando que está protegida das reivindicações de Forrest pela Seção 230.
Promulgada
em 1996, a Seção 230, como é normalmente chamada, essencialmente dá imunidade
legal às plataformas para qualquer coisa que ocorra nelas.
Se o
tribunal finalmente ficar do lado de Forrest, poderá derrubar décadas de
defesas das plataformas online.
Um
porta-voz da Meta não quis comentar o caso.
Fonte:
Por Kali Hays, repórter de Tecnologia em São Francisco, nos EUA

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