sexta-feira, 26 de junho de 2026

Ricardo Nêggo Tom: Evangelismo cultural e capitalismo teocrático - Jesus is the new black

Houve um tempo em que as pessoas, ao serem questionadas sobre qual era a sua religião, respondiam que eram católicas. Algumas se diziam praticantes, que eram aquelas que iam à missa todo domingo e participavam dos sacramentos da Igreja. Outras se diziam católicas não praticantes, que eram aquelas que só iam à missa em datas festivas ou penitenciais, como a Quarta-Feira de Cinzas, quando os pecados cometidos no Carnaval eram perdoados com um punhado de "carvão" na testa. Tal informação constava nos formulários do IBGE, que apontavam qual religião predominava no país. Herança religiosa da colonização, o catolicismo sempre foi parte integrante da cultura brasileira, moldando a subjetividade popular e o comportamento social com base na sua doutrina. Algo que foi deixando de ser uma espécie de monopólio religioso a partir da presença mais ativa do protestantismo na sociedade.

Trago este tema à tona após ler uma matéria da revista Veja a respeito das religiões declaradas pelos jogadores da seleção brasileira de futebol, onde a fé evangélica predomina entre os atletas. Segundo a matéria, assinada pelo jornalista Valmir Moratelli, se declaram evangélicos: Alisson (Liverpool), Ederson (Fenerbahçe), Weverton (Grêmio), Alex Sandro (Flamengo), Bremer (Juventus), Douglas Santos (Zenit), Gabriel Magalhães (Arsenal), Ibañez (Al-Ahli), Léo Pereira (Flamengo), Wesley (Roma), Bruno Guimarães (Newcastle), Danilo Santos (Botafogo), Fabinho (Al-Ittihad), Lucas Paquetá (Flamengo), Endrick (Lyon), Gabriel Martinelli (Arsenal), Igor Thiago (Brentford), Luiz Henrique (Zenit), Matheus Cunha (Manchester United), Neymar (Santos), Raphinha (Barcelona), Rayan (Bournemouth), Vini Jr. (Real Madrid). Ainda segundo o texto, “há um católico apenas, Marquinhos (PSG). Casemiro (Manchester United) não fala qual sua religião, mas se denomina “cristão”. E Danilo (Flamengo) não comenta sobre o assunto.”

Sem nenhum tipo de moralismo ou julgamento ao comportamento de alguns dos atletas citados como evangélicos, chama a atenção ver entre eles alguns jogadores conhecidos por algumas polêmicas fora de campo. Incluo à lista dos “ungidos” da bola nomes como Robinho e Daniel Alves, ex-jogadores da seleção que também se declaravam evangélicos e estiveram envolvidos em acusações de estupro. Ambos, mesmo condenados e presos por tais acusações, mantiveram o discurso evangélico e de aceitação a Jesus como “Senhor e salvador” de suas vidas. Daniel Alves já está solto e reapareceu nas redes sociais cantando louvores e pregando o evangelho para centenas de pessoas em um estádio de futebol na Espanha. Robinho segue preso e pagando a pena de 9 anos de prisão por participação no estupro coletivo de uma modelo espanhola. Os dois exemplos evidenciam bem como boa parte dos declarados evangélicos apenas fazem parte de um novo movimento cultural imposto pela influência do imperialismo estadunidense.

É assim que chegamos à função do capitalismo teocrático, um conceito informal que pode ser explicado no pensamento do sociólogo Eduardo Galeano, que dizia que o capitalismo precisa da pobreza de muitos para manter os privilégios de poucos. E nada melhor do que justificar tanto a pobreza de muitos como o privilégio de poucos por meio de dogmas religiosos instrumentalizados por uma doutrina neoliberal. Seja como vontade divina (vontade do deus mercado), ou como falta de fé daqueles que permanecem na pobreza (a não conversão ao evangelismo cultural). A cultura evangélica é um desdobramento da teologia da prosperidade, e ninguém é mais indicado para ser instrumento de sua disseminação do que uma pessoa “bem-sucedida”. E os jogadores da seleção brasileira se enquadram perfeitamente neste perfil. A mensagem a ser transmitida é simples e de fácil assimilação: Eu sou rico porque Jesus me escolheu e me abençoou com sucesso e prosperidade. Mesmo que eu não siga, de fato, o seu evangelho e os seus mandamentos. E ainda que eu não seja tão bom de bola assim, “a sua graça me basta”.

Tal mensagem atinge diretamente a alma sofrida da maioria dos torcedores apaixonados por futebol. Uma maioria composta por pessoas pobres, trabalhadoras e que sonham com uma vida financeiramente melhor. Essas pessoas são convencidas de que, mesmo elas não tendo um dom extraordinário, um talento inquestionável ou um grau de instrução capaz de fazê-las conquistar um emprego que lhes garanta um bom salário, elas podem prosperar e ser bem-sucedidas financeiramente por meio da fé em Jesus. É durante esse percurso subjetivo que elas são induzidas a fazer um “desafio” a Deus e induzidas a participar de campanhas milagrosas onde são convencidas a oferecer tudo o que possuem para receber o dobro como prova de sua fidelidade a Jesus. A partir disso, essas pessoas começam a adotar hábitos e comportamentos ligados à igreja evangélica — como ouvir música gospel em casa ou usar expressões religiosas características do segmento — como forma de pertencimento a este novo movimento que vem “transformando” a vida de muitas pessoas.

Quando um milionário como Neymar coloca na testa uma faixa escrito: “100% Jesus”, após a conquista de um título, por exemplo, ele reenvia esta mensagem de aceitação a Jesus como forma de obter sucesso na vida. Ainda que ele não siga o que Jesus pregou e tenha um comportamento pessoal que, teoricamente, o faria ser julgado mal pelos evangélicos, caso ele manifestasse preferência por uma religião diferente da deles. Há uma passagem bíblica no evangelho de Marcos, que ilustra bem a aceitação desse viés cultural por parte de evangélicos fundamentalistas. É quando os discípulos tentaram impedir alguém de realizar o bem em nome de Jesus, e ele os repreendeu dizendo que: "Quem não é contra nós é a nosso favor". Naturalmente, se Neymar exibisse uma faixa onde se lia: “100% Exu”, ou “100% Shiva”, os mesmos evangélicos que passam pano para os seus “pecados” fora de campo, o atacariam com paus e pedras, e diriam que o motivo do seu fracasso na seleção era o fato de ele adorar a “demônios”.

Quem conhece um pouco o chamado mundo do futebol sabe que a maioria dos jogadores gosta de organizar festinhas nas quais acreditamos que Jesus não entraria. No entanto, a maioria dos habitantes desse mundo à parte se diz evangélica e fiel a Jesus. Um outro exemplo que trago aqui é uma fala do ex-jogador Jorginho – lateral-direito tetracampeão com a seleção na Copa de 1994 – revelando que Romário teria aceitado Jesus em 1988, durante as Olimpíadas de Seul.  Será? Não estou aqui para julgar ninguém, mas o comportamento do “baixinho” ao longo desses anos mostra que ele teve mais encontros com mulheres do que com Jesus. A questão a ser observada na fala de Jorginho é como muitos evangélicos absolvem os pecados daqueles que estão a seu favor, mesmo não estando ao seu lado. O mesmo Jorginho, quando era treinador do América carioca, tentou trocar o símbolo do time, o diabo, por um anjo. O então técnico alegou que o símbolo “maligno” era o responsável pela derrocada do clube no futebol brasileiro. Foi demitido em nome de Jesus.

Quando era auxiliar técnico de Dunga na seleção brasileira, Jorginho também tentou implementar valores evangélicos no ambiente do grupo, influenciando Dunga a não convocar Ronaldinho Gaúcho e Adriano, em função do mau comportamento de ambos fora de campo. A principal referência daquela seleção era Kaká, um líder evangélico e com fama de bom moço dentro do elenco. Outros jogadores evangélicos também eram destaques naquela seleção. Entre eles, o volante Felipe Melo, que foi um dos responsáveis pela eliminação do time pela Holanda nas quartas de final, após pisar no atacante Robben caído no chão, o atacante Robinho e o lateral Daniel Alves. Curiosamente, após esse “avivamento” evangélico entre os jogadores da seleção brasileira, não ganhamos mais nada de relevante no cenário mundial. E já são 24 anos sem conquistar uma Copa do Mundo. Trazendo este “advento” para a nossa sociedade, percebemos o quanto a cultura evangélica tem contribuído para disseminar intolerância, ódio e preconceito contra os diferentes.

A presença da cultura evangélica na política brasileira significa um rompimento institucional com a laicidade do Estado e com as liberdades individuais. Um projeto de poder muito bem elaborado que contou tanto com a omissão quanto com a bênção do Estado brasileiro diante do seu nefasto crescimento nas casas legislativas do país. A nova onda evangelizante vem atuando como um entorpecente na mente de parte da nossa sociedade, que não percebe estar sendo viciada numa “droga” que ela nem sempre usa por vontade própria. Jogadores de futebol sendo cooptados por esse projeto de poder significam um espelhamento de milhares de crianças e adolescentes que sonham em um dia ser como eles. Uma perigosa e alienante referência que, cada vez mais, vai nos fazendo imergir num neopentecostalismo cultural sem fundo e numa vertente capitalista ainda mais selvagem, sombria, opressora e teocrática.

•        A cruzada judicial de Edir Macedo contra jornalistas pecadores. Por Paulo Henrique Arantes

O fundador e líder espiritual da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, não está enroscado com a Justiça pela primeira vez, agora que o Banco Digimais, do qual é controlador, foi flagrado em fraudes à moda Master. As peripécias empresariais e políticas do bispo, indissociáveis de sua atividade religiosa, são bastante conhecidas, bem como a pregação falso-moralista do partido Republicanos, por ele apadrinhado e orientado. Em outro polo de atuação, há não muito tempo, a Iurd consagrou-se por usar o Judiciário como instrumento de coação.

Macedo e a Universal retaliavam jornalistas que ousavam apontar-lhes pecados: fiéis e pastores moviam diferentes ações, em diversas e distantes localidades, obrigando profissionais que denunciavam suas más condutas a um périplo desgastante física, mental e financeiramente. Mesmo sendo derrotado em tais ações, o bispo e sua igreja destruíam a capacidade de trabalho do jornalista. O repórter que pecava contra a fé macediana, portanto, recebia sua punição.

O caso mais conhecido é o da repórter Elvira Lobato, da Folha de São Paulo. Em 2007, ela publicou uma reportagem sobre o império empresarial construído pela Iurd. Lobato e o jornal da Barão de Limeira tornaram-se alvos de 111 ações judiciais. Os processos foram abertos simultaneamente em Juizados Especiais Cíveis de pequenas comarcas e cidades do interior, muitas vezes em localidades nas quais a Folha nem sequer circulava.

Com audiências marcadas em locais de difícil acesso, como no interior do Rio Grande do Sul ou no do Acre, a repórter viu-se obrigada a percorrer o país incessantemente, arcando com altos custos de deslocamento e tempo. O objetivo institucional por trás dessa tática era, obviamente, criar um efeito inibidor e inviabilizar a defesa. Embora Lobato e a Folha tenham vencido todas as ações — a maioria julgada improcedente —, o desgaste emocional da repórter foi implacável, precipitando sua aposentadoria.

Em 2020, o Ministério Público Federal acionou a Justiça Federal contra a Iurd. A ação foi motivada pelo caso do jornalista e escritor João Paulo Cuenca, que fizera uma publicação crítica à igreja de Edir Macedo em suas redes sociais. Ele se tornou alvo de mais de 140 ações judiciais simultâneas espalhadas pelo Brasil, movidas por pastores da Iurd utilizando petições com modelos idênticos.

O MPF pediu a condenação da Universal ao pagamento de R$ 5 milhões por danos morais coletivos. Os procuradores exigiram que o dinheiro fosse integralmente revertido para o financiamento de projetos de proteção e enfrentamento à violência contra jornalistas. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), o Instituto Tornavoz, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e os Repórteres Sem Fronteiras atuaram no processo para demonstrar que o assédio causava autocensura sistêmica na profissão.

A farra jurídica pouco cristã da Universal teve fim em 2024, quando o STF, em resposta ao MPF, decidiu que o ajuizamento em massa de ações idênticas em diferentes comarcas caracteriza assédio judicial. A decisão, unânime, estabeleceu que, para evitar o constrangimento e a inviabilidade da defesa da imprensa, os processos devem ser centralizados na cidade de domicílio do jornalista processado.

Elvira Lobato e João Paulo Cuenca não foram os únicos jornalistas perseguidos por Edir Macedo e sua sanha mais argentária que evangelizadora. O experiente Gilberto Nascimento, em 2023, publicou reportagens detalhando documentos de investigações do Ministério Público de São Paulo envolvendo a Universal. Os textos revelavam movimentações financeiras bilionárias provenientes de doações bancárias. Houve pedidos de abertura de inquéritos policiais criminais contra o repórter por parte da cúpula da igreja.

Nascimento relatou publicamente seu profundo desgaste por ser criminalizado e investigado pela polícia apenas por reproduzir informações contidas em autos oficiais e documentos públicos.

Outro caso de lawfare provocado por Edir Macedo e seus apóstolos foi o de Bruno Thys e Valmar Hupsel Filho, em 2007. Na mesma época em que Elvira Lobato publicou sua icônica matéria na Folha de S.Paulo, esses jornalistas também assinaram reportagens sobre as atividades e a expansão patrimonial da Universal. Bruno Thys editava o jornal Extra, do Rio de Janeiro, e Valmar Hupsel Filho reportava para A Tarde, da Bahia.

A Abraji denunciou que a Iurd orquestrara uma retaliação conjunta: Thys foi alvo de pelo menos 35 ações simultâneas, enquanto Hupsel Filho enfrentou dezenas de processos paralelos no Nordeste. Os veículos foram obrigados a mobilizar departamentos jurídicos inteiros e deslocar funcionários para prestar depoimentos em pequenas comarcas distantes, gerando custos operacionais altíssimos. Os jornalistas venceram as ações no mérito, mas o estrago em suas vidas não foi pequeno.

O escândalo — anunciado — do Banco Digimais será enfrentado por Edir Macedo em outros termos. Mover ações contra jornalistas no exercício da profissão é mais fácil que responder às duras inquirições a que são submetidos supostos criminosos financeiros. Que Deus o trate piedosamente.

 

Fonte: Brasil 247

 

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