Ricardo
Nêggo Tom: Evangelismo cultural e capitalismo teocrático - Jesus is the new
black
Houve
um tempo em que as pessoas, ao serem questionadas sobre qual era a sua
religião, respondiam que eram católicas. Algumas se diziam praticantes, que
eram aquelas que iam à missa todo domingo e participavam dos sacramentos da
Igreja. Outras se diziam católicas não praticantes, que eram aquelas que só iam
à missa em datas festivas ou penitenciais, como a Quarta-Feira de Cinzas,
quando os pecados cometidos no Carnaval eram perdoados com um punhado de
"carvão" na testa. Tal informação constava nos formulários do IBGE,
que apontavam qual religião predominava no país. Herança religiosa da
colonização, o catolicismo sempre foi parte integrante da cultura brasileira,
moldando a subjetividade popular e o comportamento social com base na sua
doutrina. Algo que foi deixando de ser uma espécie de monopólio religioso a
partir da presença mais ativa do protestantismo na sociedade.
Trago
este tema à tona após ler uma matéria da revista Veja a respeito das religiões
declaradas pelos jogadores da seleção brasileira de futebol, onde a fé
evangélica predomina entre os atletas. Segundo a matéria, assinada pelo
jornalista Valmir Moratelli, se declaram evangélicos: Alisson (Liverpool),
Ederson (Fenerbahçe), Weverton (Grêmio), Alex Sandro (Flamengo), Bremer
(Juventus), Douglas Santos (Zenit), Gabriel Magalhães (Arsenal), Ibañez
(Al-Ahli), Léo Pereira (Flamengo), Wesley (Roma), Bruno Guimarães (Newcastle),
Danilo Santos (Botafogo), Fabinho (Al-Ittihad), Lucas Paquetá (Flamengo),
Endrick (Lyon), Gabriel Martinelli (Arsenal), Igor Thiago (Brentford), Luiz
Henrique (Zenit), Matheus Cunha (Manchester United), Neymar (Santos), Raphinha
(Barcelona), Rayan (Bournemouth), Vini Jr. (Real Madrid). Ainda segundo o
texto, “há um católico apenas, Marquinhos (PSG). Casemiro (Manchester United)
não fala qual sua religião, mas se denomina “cristão”. E Danilo (Flamengo) não
comenta sobre o assunto.”
Sem
nenhum tipo de moralismo ou julgamento ao comportamento de alguns dos atletas
citados como evangélicos, chama a atenção ver entre eles alguns jogadores
conhecidos por algumas polêmicas fora de campo. Incluo à lista dos “ungidos” da
bola nomes como Robinho e Daniel Alves, ex-jogadores da seleção que também se
declaravam evangélicos e estiveram envolvidos em acusações de estupro. Ambos,
mesmo condenados e presos por tais acusações, mantiveram o discurso evangélico
e de aceitação a Jesus como “Senhor e salvador” de suas vidas. Daniel Alves já
está solto e reapareceu nas redes sociais cantando louvores e pregando o
evangelho para centenas de pessoas em um estádio de futebol na Espanha. Robinho
segue preso e pagando a pena de 9 anos de prisão por participação no estupro
coletivo de uma modelo espanhola. Os dois exemplos evidenciam bem como boa
parte dos declarados evangélicos apenas fazem parte de um novo movimento
cultural imposto pela influência do imperialismo estadunidense.
É assim
que chegamos à função do capitalismo teocrático, um conceito informal que pode
ser explicado no pensamento do sociólogo Eduardo Galeano, que dizia que o
capitalismo precisa da pobreza de muitos para manter os privilégios de poucos.
E nada melhor do que justificar tanto a pobreza de muitos como o privilégio de
poucos por meio de dogmas religiosos instrumentalizados por uma doutrina
neoliberal. Seja como vontade divina (vontade do deus mercado), ou como falta
de fé daqueles que permanecem na pobreza (a não conversão ao evangelismo
cultural). A cultura evangélica é um desdobramento da teologia da prosperidade,
e ninguém é mais indicado para ser instrumento de sua disseminação do que uma
pessoa “bem-sucedida”. E os jogadores da seleção brasileira se enquadram
perfeitamente neste perfil. A mensagem a ser transmitida é simples e de fácil
assimilação: Eu sou rico porque Jesus me escolheu e me abençoou com sucesso e
prosperidade. Mesmo que eu não siga, de fato, o seu evangelho e os seus
mandamentos. E ainda que eu não seja tão bom de bola assim, “a sua graça me
basta”.
Tal
mensagem atinge diretamente a alma sofrida da maioria dos torcedores
apaixonados por futebol. Uma maioria composta por pessoas pobres, trabalhadoras
e que sonham com uma vida financeiramente melhor. Essas pessoas são convencidas
de que, mesmo elas não tendo um dom extraordinário, um talento inquestionável
ou um grau de instrução capaz de fazê-las conquistar um emprego que lhes
garanta um bom salário, elas podem prosperar e ser bem-sucedidas
financeiramente por meio da fé em Jesus. É durante esse percurso subjetivo que
elas são induzidas a fazer um “desafio” a Deus e induzidas a participar de
campanhas milagrosas onde são convencidas a oferecer tudo o que possuem para
receber o dobro como prova de sua fidelidade a Jesus. A partir disso, essas
pessoas começam a adotar hábitos e comportamentos ligados à igreja evangélica —
como ouvir música gospel em casa ou usar expressões religiosas características
do segmento — como forma de pertencimento a este novo movimento que vem
“transformando” a vida de muitas pessoas.
Quando
um milionário como Neymar coloca na testa uma faixa escrito: “100% Jesus”, após
a conquista de um título, por exemplo, ele reenvia esta mensagem de aceitação a
Jesus como forma de obter sucesso na vida. Ainda que ele não siga o que Jesus
pregou e tenha um comportamento pessoal que, teoricamente, o faria ser julgado
mal pelos evangélicos, caso ele manifestasse preferência por uma religião
diferente da deles. Há uma passagem bíblica no evangelho de Marcos, que ilustra
bem a aceitação desse viés cultural por parte de evangélicos fundamentalistas.
É quando os discípulos tentaram impedir alguém de realizar o bem em nome de
Jesus, e ele os repreendeu dizendo que: "Quem não é contra nós é a nosso
favor". Naturalmente, se Neymar exibisse uma faixa onde se lia: “100%
Exu”, ou “100% Shiva”, os mesmos evangélicos que passam pano para os seus
“pecados” fora de campo, o atacariam com paus e pedras, e diriam que o motivo
do seu fracasso na seleção era o fato de ele adorar a “demônios”.
Quem
conhece um pouco o chamado mundo do futebol sabe que a maioria dos jogadores
gosta de organizar festinhas nas quais acreditamos que Jesus não entraria. No
entanto, a maioria dos habitantes desse mundo à parte se diz evangélica e fiel
a Jesus. Um outro exemplo que trago aqui é uma fala do ex-jogador Jorginho –
lateral-direito tetracampeão com a seleção na Copa de 1994 – revelando que
Romário teria aceitado Jesus em 1988, durante as Olimpíadas de Seul. Será? Não estou aqui para julgar ninguém, mas
o comportamento do “baixinho” ao longo desses anos mostra que ele teve mais
encontros com mulheres do que com Jesus. A questão a ser observada na fala de
Jorginho é como muitos evangélicos absolvem os pecados daqueles que estão a seu
favor, mesmo não estando ao seu lado. O mesmo Jorginho, quando era treinador do
América carioca, tentou trocar o símbolo do time, o diabo, por um anjo. O então
técnico alegou que o símbolo “maligno” era o responsável pela derrocada do
clube no futebol brasileiro. Foi demitido em nome de Jesus.
Quando
era auxiliar técnico de Dunga na seleção brasileira, Jorginho também tentou
implementar valores evangélicos no ambiente do grupo, influenciando Dunga a não
convocar Ronaldinho Gaúcho e Adriano, em função do mau comportamento de ambos
fora de campo. A principal referência daquela seleção era Kaká, um líder
evangélico e com fama de bom moço dentro do elenco. Outros jogadores
evangélicos também eram destaques naquela seleção. Entre eles, o volante Felipe
Melo, que foi um dos responsáveis pela eliminação do time pela Holanda nas
quartas de final, após pisar no atacante Robben caído no chão, o atacante
Robinho e o lateral Daniel Alves. Curiosamente, após esse “avivamento”
evangélico entre os jogadores da seleção brasileira, não ganhamos mais nada de
relevante no cenário mundial. E já são 24 anos sem conquistar uma Copa do
Mundo. Trazendo este “advento” para a nossa sociedade, percebemos o quanto a
cultura evangélica tem contribuído para disseminar intolerância, ódio e
preconceito contra os diferentes.
A
presença da cultura evangélica na política brasileira significa um rompimento
institucional com a laicidade do Estado e com as liberdades individuais. Um
projeto de poder muito bem elaborado que contou tanto com a omissão quanto com
a bênção do Estado brasileiro diante do seu nefasto crescimento nas casas
legislativas do país. A nova onda evangelizante vem atuando como um
entorpecente na mente de parte da nossa sociedade, que não percebe estar sendo
viciada numa “droga” que ela nem sempre usa por vontade própria. Jogadores de
futebol sendo cooptados por esse projeto de poder significam um espelhamento de
milhares de crianças e adolescentes que sonham em um dia ser como eles. Uma
perigosa e alienante referência que, cada vez mais, vai nos fazendo imergir num
neopentecostalismo cultural sem fundo e numa vertente capitalista ainda mais
selvagem, sombria, opressora e teocrática.
• A cruzada judicial de Edir Macedo contra
jornalistas pecadores. Por Paulo Henrique Arantes
O
fundador e líder espiritual da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo,
não está enroscado com a Justiça pela primeira vez, agora que o Banco Digimais,
do qual é controlador, foi flagrado em fraudes à moda Master. As peripécias
empresariais e políticas do bispo, indissociáveis de sua atividade religiosa,
são bastante conhecidas, bem como a pregação falso-moralista do partido
Republicanos, por ele apadrinhado e orientado. Em outro polo de atuação, há não
muito tempo, a Iurd consagrou-se por usar o Judiciário como instrumento de
coação.
Macedo
e a Universal retaliavam jornalistas que ousavam apontar-lhes pecados: fiéis e
pastores moviam diferentes ações, em diversas e distantes localidades,
obrigando profissionais que denunciavam suas más condutas a um périplo
desgastante física, mental e financeiramente. Mesmo sendo derrotado em tais
ações, o bispo e sua igreja destruíam a capacidade de trabalho do jornalista. O
repórter que pecava contra a fé macediana, portanto, recebia sua punição.
O caso
mais conhecido é o da repórter Elvira Lobato, da Folha de São Paulo. Em 2007,
ela publicou uma reportagem sobre o império empresarial construído pela Iurd.
Lobato e o jornal da Barão de Limeira tornaram-se alvos de 111 ações judiciais.
Os processos foram abertos simultaneamente em Juizados Especiais Cíveis de
pequenas comarcas e cidades do interior, muitas vezes em localidades nas quais
a Folha nem sequer circulava.
Com
audiências marcadas em locais de difícil acesso, como no interior do Rio Grande
do Sul ou no do Acre, a repórter viu-se obrigada a percorrer o país
incessantemente, arcando com altos custos de deslocamento e tempo. O objetivo
institucional por trás dessa tática era, obviamente, criar um efeito inibidor e
inviabilizar a defesa. Embora Lobato e a Folha tenham vencido todas as ações —
a maioria julgada improcedente —, o desgaste emocional da repórter foi
implacável, precipitando sua aposentadoria.
Em
2020, o Ministério Público Federal acionou a Justiça Federal contra a Iurd. A
ação foi motivada pelo caso do jornalista e escritor João Paulo Cuenca, que
fizera uma publicação crítica à igreja de Edir Macedo em suas redes sociais.
Ele se tornou alvo de mais de 140 ações judiciais simultâneas espalhadas pelo
Brasil, movidas por pastores da Iurd utilizando petições com modelos idênticos.
O MPF
pediu a condenação da Universal ao pagamento de R$ 5 milhões por danos morais
coletivos. Os procuradores exigiram que o dinheiro fosse integralmente
revertido para o financiamento de projetos de proteção e enfrentamento à
violência contra jornalistas. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo
Investigativo), o Instituto Tornavoz, o Conselho Nacional de Direitos Humanos
(CNDH) e os Repórteres Sem Fronteiras atuaram no processo para demonstrar que o
assédio causava autocensura sistêmica na profissão.
A farra
jurídica pouco cristã da Universal teve fim em 2024, quando o STF, em resposta
ao MPF, decidiu que o ajuizamento em massa de ações idênticas em diferentes
comarcas caracteriza assédio judicial. A decisão, unânime, estabeleceu que,
para evitar o constrangimento e a inviabilidade da defesa da imprensa, os
processos devem ser centralizados na cidade de domicílio do jornalista
processado.
Elvira
Lobato e João Paulo Cuenca não foram os únicos jornalistas perseguidos por Edir
Macedo e sua sanha mais argentária que evangelizadora. O experiente Gilberto
Nascimento, em 2023, publicou reportagens detalhando documentos de
investigações do Ministério Público de São Paulo envolvendo a Universal. Os
textos revelavam movimentações financeiras bilionárias provenientes de doações
bancárias. Houve pedidos de abertura de inquéritos policiais criminais contra o
repórter por parte da cúpula da igreja.
Nascimento
relatou publicamente seu profundo desgaste por ser criminalizado e investigado
pela polícia apenas por reproduzir informações contidas em autos oficiais e
documentos públicos.
Outro
caso de lawfare provocado por Edir Macedo e seus apóstolos foi o de Bruno Thys
e Valmar Hupsel Filho, em 2007. Na mesma época em que Elvira Lobato publicou
sua icônica matéria na Folha de S.Paulo, esses jornalistas também assinaram
reportagens sobre as atividades e a expansão patrimonial da Universal. Bruno
Thys editava o jornal Extra, do Rio de Janeiro, e Valmar Hupsel Filho reportava
para A Tarde, da Bahia.
A
Abraji denunciou que a Iurd orquestrara uma retaliação conjunta: Thys foi alvo
de pelo menos 35 ações simultâneas, enquanto Hupsel Filho enfrentou dezenas de
processos paralelos no Nordeste. Os veículos foram obrigados a mobilizar
departamentos jurídicos inteiros e deslocar funcionários para prestar
depoimentos em pequenas comarcas distantes, gerando custos operacionais
altíssimos. Os jornalistas venceram as ações no mérito, mas o estrago em suas
vidas não foi pequeno.
O
escândalo — anunciado — do Banco Digimais será enfrentado por Edir Macedo em
outros termos. Mover ações contra jornalistas no exercício da profissão é mais
fácil que responder às duras inquirições a que são submetidos supostos
criminosos financeiros. Que Deus o trate piedosamente.
Fonte:
Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário