Wisam
Zoghbour: Pós-Oslo - a guerra em Gaza e a necessidade de reconstruir o projeto
nacional palestino
Há
momentos na história que não apenas desmantelam realidades existentes, mas
também levantam questões fundamentais que povos e forças políticas pensavam ter
resolvido há muito tempo.
Para os
palestinos, a guerra em curso na Faixa de Gaza e os eventos de
7 de outubro de 2023 parecem ser um desses momentos cruciais que não apenas
redesenham o mapa do conflito, mas também exigem uma revisão abrangente da
trajetória política que norteou a causa palestina nas últimas três décadas.
O
debate palestino não se concentra mais no “dia seguinte” à guerra, nem na forma
de administração civil em Gaza, nem mesmo nos planos de reconstrução. Todos
esses são subtemas em comparação com a questão maior: o que restou do projeto
nacional palestino após três décadas de Oslo e depois de uma
guerra que expôs as limitações do sistema político vigente e a incapacidade da
comunidade internacional de proteger os princípios mais básicos do direito
internacional humanitário?
Os
Acordos de Oslo baseavam-se na premissa fundamental de que o reconhecimento
mútuo e as negociações graduais levariam ao fim da ocupação e ao
estabelecimento de um Estado palestino independente nos territórios ocupados em
1967. No entanto, a realidade no terreno tem sido bem diferente. Enquanto a
liderança palestina apostava que a fase de transição levaria à soberania,
Israel usou o tempo para alterar a geografia, a demografia e as realidades
políticas de uma maneira sem precedentes.
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Nas
últimas três décadas, o projeto de assentamentos na Cisjordânia dobrou, e o
controle israelense sobre terras, recursos e passagens de fronteira se
intensificou.
Enquanto
isso, a Autoridade Palestina, que deveria ser o núcleo de um Estado
independente, transformou-se em um órgão administrativo limitado, sem soberania
real e operando dentro de uma estrutura legal, de segurança e econômica imposta
pelos acordos provisórios.
A
guerra em Gaza foi apenas o momento que revelou de forma contundente o enorme
abismo entre os discursos políticos e a realidade existente.
Enquanto
a comunidade internacional fala em uma solução de dois Estados, os territórios
palestinos testemunham um desmantelamento sistemático dos fundamentos dessa
solução.
Enquanto
os apelos pela retomada do processo político se repetem, as políticas de
anexação, expansão dos assentamentos, bloqueio e punição coletiva continuam,
tornando a possibilidade de um Estado palestino soberano mais frágil do que
nunca.
Contudo,
o dilema palestino não se limita ao fracasso do processo de paz. A guerra
recente reacendeu uma questão mais profunda sobre a própria natureza da causa
palestina: trata-se ainda de uma luta de libertação nacional de um povo que
vive sob ocupação e colonialismo de assentamento, ou há um esforço sistemático
para redefini-la como uma crise humanitária administrável por meio de ajuda,
assistência e medidas de segurança?
O que
está acontecendo em Gaza e na Cisjordânia transcende os limites do confronto
militar tradicional. De acordo com relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU) e de
organizações internacionais de direitos humanos, os territórios palestinos
testemunharam níveis sem precedentes de assassinatos em massa, deslocamento
forçado e destruição de infraestrutura civil.
Essa
situação trouxe de volta à tona o debate jurídico em torno das
responsabilidades da potência ocupante sob as Convenções de Genebra e até que
ponto a comunidade internacional está comprometida com o princípio da não
impunidade.
Assim,
a batalha atual parece ser tanto uma batalha por narrativa e identidade quanto
uma batalha por território. Enquanto Israel busca reduzir a questão palestina a
uma questão de segurança ou humanitária, os palestinos se apegam ao seu direito
de se definirem como um povo que exige liberdade, autodeterminação e o fim da
ocupação — direitos garantidos pela Carta da ONU e pelo direito internacional.
Nesse
contexto, revisitar a experiência de Oslo não é mais um luxo intelectual ou um
tema para debate político entre elites; tornou-se um imperativo nacional. O
problema não é mais o impasse nas negociações ou o fracasso de uma ou outra
rodada política, mas sim o colapso da premissa sobre a qual todo o processo
político se baseava: a de que a potência ocupante poderia se transformar
voluntariamente em parceira no fim da ocupação.
A
transição da gestão do conflito para a reconstrução de uma estratégia de
libertação nacional exige uma nova abordagem que transcenda a dicotomia entre
acordo e confronto armado como opções contraditórias. As experiências
históricas dos movimentos de libertação indicam que seu sucesso esteve ligado à
capacidade de empregar diversas ferramentas de luta — políticas, jurídicas,
populares e diplomáticas — dentro de uma visão nacional unificada.
Daí a
necessidade de quatro prioridades interligadas.
Primeiro,
redefinir a função das instituições palestinas para que se tornem instrumentos
de proteção da sociedade e fortalecimento de sua resiliência nacional, e não
meramente estruturas administrativas condicionadas pela fase de transição.
Segundo,
restaurar a unidade interna palestina com base na parceria política e na
representação democrática, e reconstruir a Organização para a Libertação da
Palestina (OLP) como autoridade unificadora do povo palestino na pátria e na
diáspora.
Em
terceiro lugar, expandir o alcance do engajamento político, econômico, prático,
jurídico e diplomático diante da ocupação por todos os meios e métodos
possíveis, utilizando as ferramentas do direito internacional, dos tribunais
internacionais e dos movimentos globais de solidariedade, a fim de
responsabilizar Israel por suas violações e restaurar a causa palestina à sua
configuração original como uma causa de direitos, liberdade e autodeterminação.
Em
quarto lugar, reintegrar os palestinos na pátria e na diáspora dentro de uma
visão nacional unificada que aproveite o imenso potencial humano, político e
cultural do povo palestino onde quer que resida.
O maior
desafio que os palestinos enfrentam hoje não é apenas parar a guerra,
reconstruir Gaza ou confrontar os planos de anexação na Cisjordânia, mas sim
sua capacidade de produzir uma nova visão nacional que responda às
transformações da era, preservando simultaneamente a essência da causa
palestina.
A
história não é medida pelo número de acordos assinados, mas pela capacidade dos
povos de proteger seus direitos e moldar seu futuro. Mais de trinta anos depois
de Oslo, e após uma guerra que alterou muitas equações, os palestinos parecem
estar diante de uma rara oportunidade histórica: reconstruir seu projeto
nacional sobre bases mais realistas e inclusivas.
A
capacidade de enfrentar os desafios ou permanecer presos a um processo político
que se deteriora na prática, enquanto as chances de alcançar seus objetivos
diminuem.
Em
última análise, a questão palestina hoje não se resume à forma de autoridade ou
às fronteiras de um Estado, mas sim ao destino de um povo que ainda luta por
liberdade, dignidade e justiça. Portanto, a verdadeira batalha não é sobre o
“dia seguinte” à guerra, mas sobre o direito palestino de construir o próprio
futuro.
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Senado dos EUA aprova resolução para limitar poderes militares de Trump contra
o Irã
O
Senado dos Estados Unidos aprovou, nesta terça-feira (23), uma resolução que
busca limitar a capacidade do presidente dos EUA, Donald Trump, de atacar
militarmente o Irã sem a autorização do Congresso.
A
medida, aprovada por 50 votos a 48, determina a retirada das forças americanas
de qualquer conflito com Teerã que não tenham aval do Parlamento. A Câmara
dos Representantes já havia aprovado o texto no início do mês.
A
proposta não tem força de lei por se tratar de "resolução
concorrente", mas teve o apoio de quatro senadores do Partido de
Trump, o Republicano: Rand Paul, Susan Collins, Lisa Murkowski e Bill Cassidy.
A
oposição tentou em, outras ocasiões, limitar os poderes
militares de Trump,
com base na Constituição americana, que prevê que cabe ao Congresso
declarar guerra e que o presidente precisa de autorização do Legislativo
em até 60 dias para declarar conflito com outro país.
Nas
ocasiões anteriores, Trump classificou as iniciativas como prejudiciais
para a autodefesa e a segurança nacional dos EUA, o que, segundo sua
mensagem, impede a autoridade do presidente como comandante
em chefe.
¨
'Bibi está histérico com isso': portal divulga reação de
Netanyahu a acordos entre EUA e Irã
Os
acordos entre Irã e EUA provocaram uma reação histérica do primeiro-ministro
israelense, Benjamin Netanyahu, devido às condições desfavoráveis a Israel,
inclusive no que diz respeito ao Líbano, escreve um portal estadunidense.
O
veículo de comunicação salienta que Netanyahu chegou a tentar influenciar a
opinião do presidente americano, Donald Trump, por meio de seu
representante de confiança.
"Embora
os aspectos nucleares do acordo entre os EUA e o Irã tenham preocupado o
primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, ele está atualmente muito mais
preocupado com a parte relativa ao Líbano [...]. 'Bibi está histérico com
isso'", ressalta a publicação, citando uma fonte do governo de Israel que
se referiu a Netanyahu por seu apelido.
Conforme
explica a reportagem, uma das razões é que as ações contra o movimento xiita
libanês Hezbollah têm importância política interna às vésperas das
eleições de outubro em Israel.
Nesse
contexto, aponta-se que, nos últimos dias, Netanyahu pediu a Ron Dermer, seu
confidente próximo que ocupava o cargo de ministro de Planejamento Estratégico
de Israel, que utilizasse urgentemente seus contatos na administração
Trump para influenciar as negociações entre os Estados Unidos e o Irã
sobre o Líbano.
Além
disso, destaca-se que a participação de Dermer ajudou a convencer Trump a
escrever uma postagem no Truth Social ameaçando atacar o Irã caso o país
não contivesse o Hezbollah. Um funcionário norte-americano confirmou à mídia a
participação de Dermer e observou que os negociadores dos EUA na Suíça
conversaram com ele várias vezes em 21 de junho para informá-lo sobre o
andamento das negociações e conhecer sua opinião.
Fontes
israelenses do veículo de comunicação afirmam que os novos acordos entre
os EUA e o Irã sobre o Líbano
comprometem os acordos anteriores firmados com o governo do ex-presidente
americano Joe Biden, em 2024.
A
publicação esclarece que, naquela época, Israel mantinha o direito de agir
contra quaisquer ameaças do Hezbollah, enquanto agora sua liberdade está
limitada apenas a ameaças imediatas. Além disso, Israel foi excluído do
mecanismo de monitoramento, do qual o Irã passou a fazer parte.
Por
outro lado, um alto funcionário norte-americano afirmou que Israel não
está excluído, pois os EUA permanecem no mecanismo, e que um canal direto com o
Irã sobre o Líbano só trará benefícios ao país.
De
acordo com uma fonte libanesa, o presidente do Líbano, Joseph Aoun, está
disposto a aceitar o novo mecanismo sob a liderança dos EUA. No entanto,
a perspectiva de um desarmamento efetivo do Hezbollah no âmbito das
negociações entre Israel e o Líbano, que continuarão com a mediação do
secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, permanece bastante
remota, conclui a reportagem.
Anteriormente,
um jornal estadunidense, citando fontes, informou que, segundo dados da
inteligência dos EUA, Netanyahu planeja sabotar o acordo de paz definitivo
entre os EUA e o Irã. Depois disso, um veículo de comunicação britânico
publicou que o memorando entre os EUA e o Irã se tornou uma "catástrofe
estratégica" para Israel, pois praticamente não considera seus interesses.
¨
EUA e Irã criam linha direta para evitar sabotagens e
garantir reabertura de Ormuz, diz mídia
O Catar
afirmou que a linha direta entre EUA e Irã é crucial para evitar sabotagens e
garantir a reabertura segura do estreito de Ormuz, enquanto prepara a retomada
gradual da produção de GNL após ataques iranianos; o país prevê normalização
parcial em semanas, mas alerta que reestabelecer a confiança levará tempo.
Segundo
a mídia britânica, o primeiro‑ministro do Catar, xeique Mohammed bin
Abdulrahman al‑Thani, afirmou que a linha direta criada
entre EUA e Irã é crucial
para evitar sabotagens e garantir a reabertura segura do estreito de Ormuz,
alvo de minas e ameaças durante a guerra. Ele disse que grupos hostis podem
emitir falsos alertas a navios, e que o canal serve para checar cada ameaça
diretamente com Teerã.
A retomada do tráfego é central para
o acordo provisório firmado na semana passada e para os esforços do presidente
norte-americano Donald Trump de aliviar a crise energética. O Catar, segundo
maior exportador de gás natural liquefeito (GNL), já prepara seus navios e
prevê normalização parcial da produção em semanas, exceto nas instalações
gravemente danificadas pelos ataques iranianos.
Segundo
a apuração, no entanto, a QatarEnergy só suspenderá a força maior quando
houver plena segurança. A guerra interrompeu exportações, atrasou a expansão do
campo North Field e destruiu unidades que respondiam por 17% do GNL do país,
com reparos estimados em até cinco anos.
Embora
o Corpo de Guardiães da Revolução Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) do Irã
tenha anunciado novo fechamento do estreito após ataques israelenses ao
Hezbollah, Doha afirma que a hidrovia permanece
aberta e
que o tráfego deve voltar ao nível pré‑guerra no 30º dia do memorando, ainda
que a confiança leve tempo para ser restaurada.
O
acordo prevê 60 dias adicionais de cessar‑fogo e o início de negociações
nucleares, mediadas por Catar e Paquistão. Um mecanismo de "saída do
conflito" foi criado para conter choques entre Israel e Hezbollah,
cuja resposta israelense o premiê
classificou como desproporcional.
Washington
autorizou temporariamente vendas de petróleo iraniano e discute um fundo
de até US$ 300 bilhões (cerca de R$ 1,5 trilhão) para investimentos no Irã,
embora o Catar diga que qualquer aporte seu seria estritamente comercial.
O
xeique Mohammed alertou que os danos à economia
global —
de fertilizantes a hélio — ainda serão sentidos nos próximos meses. E
rejeitou qualquer plano iraniano de cobrar pedágios no estreito, afirmando que
o Catar não aceitará que sua única rota marítima seja controlada
unilateralmente.
Ele
disse que as conversas na Suíça lançaram as bases para um acordo
final e
que, com vontade política, avanços mais amplos em segurança regional podem
ocorrer antes do fim do prazo do cessar‑fogo.
¨
EUA visam compensar munições após guerra no Irã, mas
indústria não pode suprir demanda, diz mídia
As
empresas norte-americanas do setor militar-industrial enfrentam dificuldades
para atender à exigência do Pentágono de aumentar a produção de munições, em um
contexto no qual os EUA tentam repor seus estoques de mísseis, esgotados pelo
conflito com o Irã, escreveu um jornal britânico.
O
material salienta que os problemas da indústria de defesa norte-americana devem
ser um dos principais temas da reunião do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com os dirigentes
das maiores empresas do setor, marcada para quarta-feira (24) na Casa Branca.
"A
base industrial nacional dos EUA, que sustenta as principais empresas, está em
péssimo estado. Não basta aumentar a produção de um ou dois componentes: é
preciso consertar todo o sistema", disse ao jornal Stacie Pettyjohn,
diretora do programa de defesa do think tank Centro para uma Nova Segurança
Americana, em Washington.
Conforme
acrescenta a reportagem, a administração Trump busca reabastecer os
estoques de armamentos convencionais e reestruturar a produção para
atender às missões de combate atuais,
incluindo a fabricação de drones e de sistemas mais simples e de menor custo.
No
entanto, as empresas e seus fornecedores enfrentam uma série de
obstáculos — desde regras de aquisição e financiamento público instável
até a escassez crônica de componentes essenciais e mão de obra qualificada,
conclui o jornal.
Anteriormente,
um relatório analítico do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais
(CSIS, na sigla em inglês) informou que os Estados
Unidos correm o risco de enfrentar uma escassez crítica de mísseis de alta
precisão em futuros confrontos de grande escala devido ao esgotamento de
seus arsenais durante o conflito com o Irã.
O CSIS
estimou que o uso intensivo de tipos essenciais de mísseis nas últimas semanas
levou a uma redução significativa nos estoques, enquanto a restauração da
capacidade de produção ao nível necessário pode levar vários anos.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/Sputnik Brasil

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