Como
preparar o SUS para as grandes tormentas
Toda
vez que a água sobe no Rio Grande do Sul, que a fumaça das queimadas fecha o
céu do Centro-Oeste ou que uma onda de calor acomete a saúde de idosos e
crianças transformando em emergência, uma pergunta ecoa nos territórios: o que
acontece quando a unidade de saúde – justamente o equipamento que deveria
socorrer – também é engolida pelo evento extremo? A crise climática deixou de
ser um capítulo distante. Ela bate na porta da Unidade Básica, alaga o
almoxarifado de medicamentos, derruba a energia do centro cirúrgico e
interrompe o cuidado exatamente quando ele é mais necessário.
A
posição do Ministério da Saúde, na COP30, ratificou a urgência para atuação nas
consequências dos desastres; ou seja, “a era dos alertas acabou; vivemos agora
a era das consequências. Diante de um clima já alterado, não nos resta
alternativa senão adaptar-nos – com planejamento, ciência, justiça climática e
proteção da vida”.
É nesse
horizonte que o Brasil começa a construir uma resposta que merece ser disputada
politicamente – e compreendida em sua ambição. Não se trata de “reforçar”
prédios isolados, mas de tratar a resiliência climática como política pública
estruturante do SUS: uma agenda que articula diretrizes nacionais,
financiamento e governança interfederativa para garantir que o sistema continue
de pé, cuidando, quando tudo ao redor desmorona.
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A virada técnica e política
Historicamente,
o setor saúde chegou tarde ao debate climático – reativo, socorrendo depois do
desastre, recebendo decisões tomadas alhures sobre meio ambiente e economia. A
novidade política do momento é precisamente o deslocamento dessa posição. Com a
constituição da Força Nacional do SUS, o Plano Clima 2024-2035 e, dentro dele,
o AdaptaSUS – o plano setorial de adaptação da saúde –, o enfrentamento da
emergência climática passa a ter endereço também no SUS, com mandato, metas e,
sobretudo, orçamento. Os R$ 9,8 bilhões anunciados para adaptar o sistema são a
materialização de uma decisão de poder: a de transferir capacidade decisória
sobre adaptação do campo setorial-ambiental para o campo sanitário, ancorada
nos compromissos do Acordo de Paris e na resolução WHA77.14 da Organização
Mundial da Saúde. O setor saúde passa a ser protagonista.
E aqui
reside um ponto caro à tradição da Saúde Coletiva: a resiliência não é entregue
de cima para baixo. Ela se constitui no que os autores chamam de sujeito
coletivo federativo — União, Estados e Municípios articulados nas instâncias
tripartites do SUS (a CIT, as CIBs e seus equivalentes locais), sob o método da
tríplice inclusão, que coloca trabalhadores, gestores e usuários como sujeitos
da deliberação. A adaptação climática, nessa chave, passa a ser disputa
democrática.
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Equidade não é apêndice
Quem
paga a conta mais alta da crise climática já se sabe: populações indígenas,
quilombolas, ribeirinhas, comunidades tradicionais e moradores de periferias
urbanas e áreas remotas. São territórios onde a perda de uma única unidade pode
significar a ausência total de assistência em vastas extensões – onde adoecer e
morrer por causas evitáveis deixa de ser exceção.
Por
isso a proposta inscreve a proteção dessas populações como condição
estruturante. Ao institucionalizar diretrizes nacionais por meio de um Guia
Técnico de Referência para unidades resilientes, o Estado assume o compromisso
de reduzir as assimetrias regionais históricas – o mesmo padrão de desigualdade
que sempre atravessou o SUS – e de orientar o investimento público pelas
vulnerabilidades socioambientais.
A
expressão concreta dessa capacidade de antecipar e responder tem nome
conhecido: Atenção Primária. São as Unidades Básicas, as Equipes de Saúde da
Família e os Agentes Comunitários que conhecem o córrego que transborda, a
encosta que desliza, a casa que alaga. São eles que ajudam a escolher terrenos
seguros para novos equipamentos e que medeiam o diálogo entre o saber técnico
da arquitetura e da engenharia e a experiência viva de quem habita o
território. Reafirmar a centralidade da Atenção Básica, mais uma vez, é a chave
— agora também diante do clima. Quando a emergência se instala, é a Força
Nacional do SUS que sustenta a continuidade da assistência, inclusive a saúde
mental, nos territórios atingidos.
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A inovação que interessa: da unidade reforçada ao ecossistema sociotécnico
Está
aqui o salto conceitual mais potente da proposta. A unidade de saúde resiliente
deixa de ser pensada como um prédio “reforçado” e passa a ser compreendida como
um ecossistema sociotécnico integrado — onde infraestrutura física,
sustentabilidade, inteligência predial, sistemas digitais, governança regional
e modelos de cuidado operam de forma articulada. Uma infraestrutura rígida e
solitária sucumbe rápido ao choque climático; uma infraestrutura concebida em
rede distribui o impacto e redireciona fluxos.
Na
prática, isso combina um repertório que vai do antigo ao inédito: zoneamento
bioclimático que respeita cada bioma; design adaptativo com plantas que se
reconfiguram durante o evento; autonomia energética por microrredes que
combinam geração solar, baterias e geradores, capazes de operar “ilhadas”
quando a rede cai; autonomia hídrica de no mínimo 72 horas; e soluções passivas
— sombreamento, ventilação cruzada, arborização — antes de recorrer ao
ar-condicionado. Sustentabilidade, aqui, é também segurança sanitária.
Há
ainda o reconhecimento de que resiliência nem sempre é concreto fixo. Unidades
modulares, móveis e as Carretas da Saúde – diagnóstico por imagem, saúde da
mulher, oftalmologia, odontologia – levam o cuidado especializado a territórios
amazônicos, ribeirinhos, quilombolas, indígenas e a pequenos municípios onde a
obra fixa é inviável. Não substituem a base territorial: potencializam-na como
componente ativo de uma política de cuidado capilarizada, resiliente e
socialmente justa.
No
horizonte tecnológico, os Projetos de Referência do Novo PAC Saúde já nascem em
modelagem digital (BIM), abrindo caminho para gêmeos digitais — réplicas
virtuais que, conectadas a sensores e a Centros de Saúde e Clima, monitoram em
tempo quase real temperatura, qualidade do ar, níveis de reservatório e
desempenho energético, antecipando falhas e disparando protocolos antes do
colapso. Mais de R$ 30 bilhões do Novo PAC Saúde financiam mais de 2.600 UBS,
100 policlínicas, 34 maternidades e mais de 300 CAPS que já incorporam, desde o
desenho, esses critérios.
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Sem disputa, não há resiliência
Seria
ingênuo, porém, tratar tudo isso como caminho garantido. A própria proposta
reconhece, com honestidade, as barreiras: a descontinuidade política entre
governos; a tensão entre as agendas de meio ambiente, saúde e economia; a
lacuna regulatória nacional para tornados e ventos severos; o subfinanciamento
crônico; a rotatividade de gestores que apaga a memória institucional; e a
fragilidade das instâncias colegiadas regionais em boa parte do país.
Há
ainda o velho dilema do CAPEX (Capital Expenditure ou Despesas de Capital) que
se refere aos ativos fixos, como os bens físicos contra o OPEX (Operational
Expenditure ou Despesas Operacionais): blindar uma edificação custa mais na
obra, mas é amortizado ao longo da vida útil pela economia em operação,
manutenção e recuperação pós-desastre. Sustentar a resiliência exige, portanto,
mudar o próprio horizonte de cálculo do investimento público – do custo inicial
para o custo total de propriedade.
É essa
a aposta política do Brasil. Diante de um sistema universal, de dimensões
continentais e governança federativa, a experiência brasileira oferece uma
arquitetura transferível para outros países das Américas e do mundo – uma
demonstração concreta de que é possível posicionar a infraestrutura de saúde
como política estruturante de adaptação, equidade e proteção da vida.
O
recado da Saúde Coletiva permanece o mesmo, agora sob o céu instável do
Antropoceno: defender a integração regional, a gestão qualificada e a
centralidade da Atenção Básica é a única forma de garantir que a saúde pública
no Brasil siga sendo instrumento de cidadania ativa – e a base material para o
bem viver. Construir um SUS resiliente como caminho sem volta não é apenas
ampliar a resposta às crises: é ampliar o valor social da saúde e reafirmar, em
tempos de colapso ambiental, que o cuidado é um direito que não pode ser
interrompido.
Fonte:
Por Alexandre Padilha, Mirela Pilon Pessatti e Rafael Dall’Alba, em Outra Saúde

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