DESUMANIZAÇÃO
E APAGAMENTO DE VÍTIMAS: O genocídio entre dedos e fuzis
“Ataque
em al-Tiri, jornalistas feridos. Alguém confirma? Todo mundo bem?” Foi assim
que, no último dia 22 de abril, recebi por mensagem em um grupo de jornalistas
no Líbano o primeiro alerta do que, horas depois, seria confirmado como o assassinato da jornalista Amal Khalil. Foram horas de
apreensão e checagem dos relatos, até a confirmação: Khalil havia sido vítima
de ataques em sequência de Israel, que impediram o trabalho dos socorristas e a
chegada de ajuda. Quando foi encontrada sob os escombros, já estava sem vida.
Organizações
como a Federação Internacional de
Jornalistas
e Repórteres sem Fronteiras denunciaram o
ataque como uma execução deliberada de Israel, o que constituiria um crime de
guerra. A jornalista, reconhecida e admirada por colegas e libaneses por
reportar diretamente dos vilarejos mais atacados por Israel no sul do país –
região onde nasceu e cresceu –, já denunciava ameaças desde 2024, recebidas em
seu celular e enviadas por um número israelense.
A
Repórteres sem Fronteiras reconstruiu a sequência de
acontecimentos do
dia dos ataques que mataram Khalil e feriram gravemente Zeinab Faraj, a
fotojornalista que a acompanhava na cobertura. Depoimentos de colegas,
familiares e profissionais de saúde com quem Khalil falou durante os
bombardeios, assim como registros de jornalistas em campo, indicam o caráter
deliberado do ataque. Faraj, no hospital, confirmou os relatos. O primeiro-ministro
libanês, Nawaf Salam, declarou que o ataque
direcionado à jornalista em serviço seria um “flagrante crime de guerra”.
No
Brasil, no entanto, o assassinato de Amal Khalil foi pouco noticiado. Sem
destaque, manchetes como “jornalista libanesa morre após ataque
israelense no sul do país”, de O Globo, ou trechos como “jornalista libanesa morta em
ofensiva israelense”,
da Folha de São Paulo, optaram não apenas por minimizar as
investigações e evidências sobre um possível ataque deliberado. Ignoraram,
também, o caráter sistemático dos ataques de Israel a jornalistas na Palestina
e no Líbano e seu significado, ocultando um contexto essencial para o
entendimento daquela notícia.
São
dois movimentos complementares: estratégias discursivas (“jornalista morre”, e
não “jornalista é assassinada”; “morre em ataque israelense” e não “morta por
ataque de Israel”, entre muitos outros exemplos) que nublam ou distorcem os
acontecimentos específicos; e, como método estruturante, a fragmentação, que
prioriza fatos isolados noticiados em abundância e oculta aquilo que pode
ajudar a explicá-los (nesse caso, as investigações e análises que tratam
exatamente de uma prática institucionalizada de ataques a jornalistas por
Israel).
Os
exemplos, dos dois maiores jornais brasileiros, ilustram um padrão presente não
apenas no Brasil, mas na maior parte da mídia ocidental. O que revela, ainda,
uma dinâmica produtiva do jornalismo que, baseada na reprodução dos conteúdos
de poucas agências internacionais de notícias, confere ao noticiário um ar de
uniformidade e superficialidade, salvo honrosas exceções, mesmo em veículos
comerciais.
Há uma
padronização de vozes, fontes e mesmo de imagens e de linguagem sobre
acontecimentos específicos que, no caso da cobertura dos crimes de guerra
cometidos por Israel no Líbano e na Palestina, ajudam a construir um tom
uníssono que não apenas legitima esses crimes a posteriori –
mas também, e principalmente, cria ativamente as condições para que sigam
acontecendo.
O
jornalismo abre a estrada por onde passam os tanques
Em 10
de agosto de 2025, Israel matou Anas al-Sharif e outros
três jornalistas da Al-Jazeera em Gaza, em um ataque deliberado a uma
tenda de imprensa montada em frente ao Hospital al-Shifa. Al-Sharif,
jovem que se tornara uma voz conhecida nas redes sociais por reportar
diariamente o genocídio na Faixa de Gaza, foi assassinado junto a Mohammed
Noufal, Ibrahim Zaher e Mohammed Qreiqeh.
A
cobertura (ou a falta dela) na imprensa ocidental se deu no mesmo padrão
descrito acima, em relação ao assassinato de Amal Khalil no Líbano neste ano: o
caso foi subnoticiado, o caráter sistemático dos ataques ignorado e, de maneira
ainda mais flagrante, as alegações de Israel para justificar o ataque foram
destacadas.
Nos
principais jornais brasileiros, houve, primeiro, demora. Quando as notícias
começaram a ser divulgadas, o que se viu foram as mesmas estratégias
discursivas para minimizar o ataque (manchetes usaram construções como “a
morte” do jornalista, por exemplo, ou lançaram dúvidas sobre sua veracidade).
Além disso, com o mesmo destaque, abriu-se espaço para alegações não
verificadas de Israel quanto a uma “ligação” de al-Sharif com o grupo Hamas.
Já na
noite do dia 10/8, a Folha de São Paulo noticiou: Al Jazeera
diz que Israel matou cinco colaboradores em ataque; Tel Aviv acusa jornalista
de terrorismo. No subtítulo: “Emissora nega que repórter Anas al-Sharif
fosse integrante do Hamas; Exército israelense fala em ‘líder de célula’”.
O mesmo
destaque foi dado para a alegação – não comprovada – de Israel sobre a ligação
das vítimas com o “terrorismo”. Além disso, chama a atenção a escolha por
noticiar a declaração da Al-Jazeera sobre o ataque mortal, e não o ataque
diretamente – deixando subentendido que o jornal não confirmava aquela
informação, e sim apenas reportava o que terceiros disseram.
Em
11/8, O Globo noticiou o caso
com a manchete Morte de correspondente da al-Jazeera e de mais cinco
jornalistas em ataque israelense a Gaza atrai condenação internacional, em
mais um uso discursivo que inverte a ordem direta “Israel matou”. No subtítulo
da matéria, “Israel acusa Anas al-Sharif de ligação com Hamas; organizações
afirmam que alegações são infundadas e citam ‘grave violação do direito
humanitário internacional’’, a alegação israelense aparece com destaque
novamente.
As duas
manchetes e subtítulos mereceriam uma análise extensa – tanto pelo que dizem
como pelo que deixam de dizer. Mas destaco aqui que, contrariando
qualquer manual elementar de jornalismo, a opção por destacar a alegação
israelense sem provas, documentação ou checagem independente não pode ser
entendida como um erro isolado. Ela expressa o padrão que, ao renunciar à
contextualização e investigação dos fatos, constrói a legitimação social
necessária para que esses crimes possam continuar sendo praticados.
No dia
25 de agosto de 2025, duas semanas depois do ataque que matou al-Sharif e seus
colegas, outros cinco profissionais de imprensa foram assassinados por Israel
em mais um ataque direcionado no sul de Gaza. Capturado ao vivo, o ataque duplo (um
modelo aplicado por Israel em Gaza e no Líbano) vitimou os jornalistas quando
chegavam para cobrir a primeira explosão no Hospital Nasser.
Foram
21 pessoas assassinadas no total, incluindo ainda profissionais de saúde que
socorriam feridos no local. Entre as vítimas, os jornalistas Mariam Abu Daqqa,
do Independent e Associated Press, Mohammad Salama, da Al-Jazeera, Moaz Abu
Taha, da NBC News e Hussam Al-Masri, da Reuters.
Horas depois, morreu ainda Ahmed Abu Aziz, do Middle East Eye, que não resistiu
aos ferimentos causados pela mesma explosão.
É
preciso estabelecer relações entre os dois ataques. Quando, depois de quase
dois anos de genocídio (o número de mortos , àquela altura, passava das 60 mil pessoas), um dos exércitos
mais bem equipados do planeta ataca uma tenda de jornalistas montada em frente
a um hospital, mata uma equipe inteira de repórteres e, mesmo assim, recebe a
complacência da maior parte dos meios de comunicação, pode calcular que
não arcará com grandes consequências ao matar mais jornalistas e profissionais
de saúde em bombardeios múltiplos a outro hospital.
Como
dito, são reveladoras também as ausências. Dias depois do assassinato da equipe
da Al-Jazeera, uma denúncia do +972, veículo
palestino-israelense, apontou que desde outubro de 2023 as forças armadas de
Israel operariam a “célula de legitimação”. A unidade especial, segundo a
investigação, seria integralmente dedicada à coleta de informações que
incriminassem jornalistas palestinos e que pudessem ser usadas para justificar
os ataques direcionados.
A
investigação, que cita três fontes de inteligência que teriam confirmado a
operação da célula, repercutiu internacionalmente, inclusive em grandes
veículos como o britânico Guardian. A unidade teria
“objetivos de relações públicas, e não de segurança” e, ao identificar
jornalistas de Gaza que poderiam ser retratados como agentes secretos do Hamas,
ajudaria a proteger a imagem de Israel na cobertura internacional do
assassinato de repórteres.
A
denúncia, de óbvio interesse público, não mereceu destaque nos principais
veículos brasileiros. Mas as manchetes reproduzidas acima, assim como muitas
outras vistas na imprensa brasileira e mundial, cumpriram exatamente o papel
esperado pelo órgão, operando como porta-vozes e canal de difusão dos conteúdos
da “célula de legitimação” para seus públicos.
Um levantamento da Al-Jazeera apontou mais de
270 jornalistas e profissionais de imprensa mortos por Israel em Gaza desde
outubro de 2023. A Federação Internacional de
Jornalistas documentou
ao menos 235 no mesmo período. No Líbano, são 30 jornalistas
mortos por ataques de Israel desde 2023, 16 deles assassinados em ataques
direcionados. Ainda assim, esses números e o caráter sistemático dos ataques
seguem sendo ignorados pela cobertura majoritária da imprensa, mesmo quando
tratam de casos específicos de jornalistas “mortos em ataques de Israel”.
Quando
colegas de profissão são permanentemente transformados em alvo no exercício de
suas atividades – justamente por documentarem o genocídio em curso –, o lógico
seria esperar que a imprensa reagisse e, cumprindo seu papel, apurasse e
colocasse em circulação informação de qualidade sobre os ataques. Como parte
disso, deveria também fornecer contexto ao público, ajudando a elucidar as
circunstâncias em que as violações ocorreram e seguem sendo cometidas.
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Apartheid colonial: um debate interditado
A
descontextualização e fragmentação na cobertura sobre os crimes de Israel, no
entanto, não é restrita ao tratamento dado à violência contra jornalistas.
Desde 2023, Israel já matou mais de 72 mil pessoas em Gaza, sendo mais de 20 mil crianças.
A
população vive sob cerco, com acesso bloqueado a medicamentos e ajuda
humanitária, é deliberadamente privada por Israel de acesso adequado a comida, água e convive com surtos de doenças infecciosas, entre elas as
causadas pelas infestações de ratos nas tendas improvisadas para abrigo.
Enquanto a crise humanitária e o morticínio se aprofundam, Israel anuncia
a expansão do seu controle territorial sobre o
enclave.
Na
Cisjordânia, avançam o roubo de terra de palestinos, com assentamentos ilegais aprovados pelo
Estado de Israel e a violência de “colonos” que, apoiados
pelo exército, sistematicamente invadem casas, espancam e matam palestinos.
No
Líbano, o mesmo manual de Gaza é reproduzido com deslocamentos forçados, ocupação ilegal, destruição de
casas, contaminação de terras agrícolas, privação do acesso à água, punição
coletiva a civis e um conjunto de práticas que, segundo relatores especiais da ONU, indicam crime de
limpeza étnica.
Depois
da agressão de 2024, quando Israel matou mais de 4 mil pessoas no Líbano, o
cessar-fogo que durou de novembro daquele ano até fevereiro de 2026 foi
violado mais de 10 mil vezes unilateralmente
por Israel. No período de “trégua”, foram mais de 300 mortos. E, desde março
deste ano, mais de 4.100 pessoas foram mortas
por Israel no Líbano, sendo mais de 240 crianças e mais de 130 profissionais de saúde.
Enquanto isso, representantes do governo israelense anunciam reiteradamente
sua intenção de ocupar e anexar a porção sul do
Líbano.
Mesmo assim, a cobertura jornalística opera dentro dos limites de uma
interdição editorial primordial. O expansionismo colonial de Israel, assim como
o regime de apartheid baseado em limpeza étnica imposto à
Palestina há 78 anos, são um não-assunto, mesmo quando a cobertura factual
aborda muitas de suas expressões.
Uma
vasta historiografia, incluindo aquela produzida por autores palestinos e
israelenses, que documenta e explora temas como a Nakba e as
leis de segregação israelenses, para citar apenas dois exemplos, é
sistematicamente ignorada. Analistas e testemunhas que incorporem esse
referencial conceitual para abordar o estado de Israel são frequentemente
excluídos do ecossistema midiático.
De
maneira majoritária, a mídia ocidental introjeta os fundamentos do sionismo,
uma ideologia racista e colonial, como um ponto de partida inquestionável.
Mesmo ao denunciar crimes de Israel, confere legitimidade ao regime de
apartheid ao não tratá-lo como tal – e repete o mesmo procedimento na cobertura
da política expansionista do estado de Israel. Há uma espécie de manual de
redação não-declarado que paira sobre essa cobertura – um manual sionista.
Ignorando
os pilares que estruturam o Estado de Israel, protege os fundamentos do atual
genocídio e colabora ativamente para se que aprofunde e repita. Além das mãos
que apertam gatilhos de fuzis, pilotam jatos e acionam bombas, há aquelas que
escrevem editoriais, vetam termos como “limpeza étnica” e “punição coletiva” de
reportagens e determinam quais vidas merecem ou não a empatia e a revolta do
mundo. E essas últimas são, também, agentes do genocídio.
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Vidas como dano colateral
Desumanização
e apagamento de vítimas são alguns dos mais conhecidos procedimentos
discursivos utilizados em coberturas jornalísticas para a legitimação de
violências sistemáticas cometidas contra grupos sociais inteiros por poderes
constituídos. O já tristemente célebre editorial Ninguém vai chorar
pelo Irã, publicado pelo Estadão quando Estados
Unidos e Israel atacaram ilegalmente o país persa em fevereiro deste ano, é um
dos exemplos mais recentes de uma prática constante.
Algumas
vidas são mais propensas a serem tratadas como “danos colaterais”, cujas perdas
são aceitáveis para alcançar “objetivos maiores” – e elas têm classe, raça e
localização geográfica. Seja ignorando as vítimas ou criminalizando-as, esse
tipo de tratamento midiático constrói o consenso necessário para que as
violações sejam não apenas toleradas, mas muitas vezes desejadas.
Em 7 de
outubro de 2024, a capa de O Globo estampou a
seguinte manchete: Um ano depois, ataque do Hamas ainda deixa marcas.
A chamada seguiu: “Gatilho para a atual deflagração de conflitos no Oriente
Médio, ataque terrorista que vitimou mais de mil pessoas completa hoje um ano e
ainda traumatiza moradores do sul de Israel”.
Àquela
altura, 86% do enclave palestino já havia sido
destruído por Israel. Imagens de crianças despedaçadas pelos bombardeios de
Israel a Gaza já circulavam até mesmo na mídia israelense. Um ano de genocídio
documentado, mas as vítimas não foram sequer mencionadas na capa do jornal.
Frequentemente
adotado na cobertura do Oriente Médio/Ásia Ocidental, o procedimento, no
entanto, não é exclusivo desses contextos. Desumanização, apagamento,
hierarquização de vidas (mais ou menos dignas de notícias) e criminalização de
vítimas de violências sistemáticas são estratégias discursivas acionadas pela
cobertura hegemônica de maneira bastante semelhante na cobertura da violência
de Estado cometida por forças policiais nas favelas e periferias brasileiras,
por exemplo.
Ou,
principalmente por omissão, na escolha pelo silêncio em relação ao conflito na
República Democrática do Congo (RDC), que se estende por três décadas e já
matou cerca de 6 milhões de pessoas. Apesar da dimensão
da crise humanitária e da longa duração, o conflito –diretamente relacionado
aos interesses econômicos das maiores potências mundiais na região – recebe
pouquíssimo espaço nas coberturas internacionais da imprensa ocidental.
Em
outubro de 2025, quando a Polícia Militar do Rio de Janeiro realizou uma
chacina nos Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de
Janeiro, matando 122 pessoas (117 civis e
cinco policiais) em um único dia e produzindo cenas brutais como a dos corpos enfileirados expostos a céu
aberto, o que se viu na cobertura dos principais meios de comunicação de
maneira majoritária foi o mesmo tipo de enquadramento.
A
chacina, chamada de “Operação Contenção” pelo governo do estado do Rio de
Janeiro, foi apresentada institucionalmente como uma ação para cumprimento de
prisões preventivas e retomada de territórios controlados pela facção Comando
Vermelho. Com 14 horas de incursão ininterrupta e mobilização de mais de 2 mil
agentes das polícias civil e militar, a operação foi a mais letal da
história recente do país e, segundo relatório da Comissão
Interamericana de Direitos Humanos, vitimou principalmente adolescentes.
Segundo o órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), dos 117 civis
mortos, somente 15 estavam na lista de alvos das prisões preventivas.
Como
apontou esta análise das
pesquisadoras Olívia Bandeira e Júlia Lanz, o discurso de meios como o Portal
G1, o RJTV e o Jornal Nacional (todos
do Grupo Globo) se concentrou principalmente na legitimação da
operação, no silenciamento das denúncias feitas pelas vítimas da violência de
Estado e na reprodução da lógica que busca normalizar as execuções ao taxar as
vítimas como “bandidos”.
Manchetes
como Moradores encontram corpos após dia de confronto no Rio; Castro
diz que megaoperação foi um sucesso e ‘De vítimas, só tivemos
os 4 policiais’, diz governador do RJ, do G1, reforçam escolhas
discursivas por termos como “confronto”, em tom de igualdade entre partes, para
legitimar a ação que aterrorizou moradores das áreas densamente povoadas. Ao
mesmo tempo, violações flagrantes de direitos humanos dessas populações não mereceram
destaque.
As
pesquisadoras destacaram que, em paralelo à cobertura, “as redes sociais de
mídias comunitárias e dos moradores das comunidades denunciavam a chacina,
questionavam a operação e mostravam o trabalho dos moradores para recolher os
corpos assassinados pelo Estado”. Mas, pontuam, essas vozes tiveram espaço
inexistente ou muito reduzido na mídia comercial para amplificar as denúncias.
Já em
relação ao conflito na República Democrática do Congo, um marco do último ano
foi a cobertura independente da
agência Alma Preta. Motivada principalmente pelo silêncio dos
principais jornais do mundo sobre a guerra, a cobertura em campo pautou,
inclusive, o tema no podcast O Assunto, do G1.
O repórter Pedro Borges, um dos fundadores da agência, falou ao G1 diretamente
do país africano, onde cobriu o conflito em campo por dois meses.
A
guerra no leste da RDC, considerada a mais letal
desde a Segunda Guerra Mundial, produz uma das maiores crises humanitárias do
mundo. Com milhões de deslocados à força, cerca de 21 milhões de pessoas em
situação de vulnerabilidade e registros de estupros em massa e assassinatos
sistemáticos de civis, o conflito tem suas origens no genocídio de Ruanda, nos
anos 1990, e nas duas guerras do Congo (1996-1997 e 1998-2003).
Atualmente,
a guerra concentra-se no leste do país – o segundo maior do continente africano
–, onde o grupo M23 tomou o controle de alguns territórios. Segundo relatório de especialistas do Conselho de
Segurança da ONU, o grupo seria apoiado por Ruanda. Um ponto chave para
entender o conflito é que, justamente nessa região, estão concentradas algumas das maiores reservas
mundiais de minérios como
o cobalto e o coltan, estratégicos para a produção de carros elétricos,
celulares e outros equipamentos.
A
ausência de cobertura sobre a guerra, além de invisibilizar a crise
humanitária, contribui para que países e governos possam abster-se de suas
responsabilidades. Com desconhecimento sobre o conflito, sobre a dimensão da
crise humanitária e sobre os interesses envolvidos, não são objeto de
escrutínio público as responsabilidades políticas e ganhos econômicos que
retroalimentam a guerra. A gigante Apple, por exemplo, já foi acusada pelo governo
congolês de extrair minerais ilegalmente no país.
“A
gente está diante de um mundo cheio de guerras, e algumas guerras têm mais
atenção do que outras. É uma sensação de que algumas vidas parecem valer mais
do que outras”, disse o jornalista Pedro Borges no podcast O Assunto.
Entre
decisões editoriais, enquadramentos, escolhas e silenciamentos, a cobertura
jornalística dominante segue cumprindo um papel oposto do que se espera do
jornalismo. Em vez de expor injustiças, desafiar o poder e atender ao interesse
público, cria condições para que genocídios, violações de direitos e crises
humanitárias se aprofundem.
Fonte:
Por Leila Salim, em Le Monde

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