sábado, 27 de junho de 2026

Gustavo Tapioca: O dia em que Michelle deixou de ser coadjuvante

A ex-primeira-dama rompeu a aparência de unidade do bolsonarismo, expôs a disputa pela sucessão de Jair Bolsonaro e revelou que a principal batalha da extrema-direita já não acontece contra Lula, mas dentro da própria família Bolsonaro.

O vídeo divulgado por Michelle Bolsonaro, acusando publicamente o senador Flávio Bolsonaro de tê-la humilhado, desrespeitado e "apunhalado pelas costas", rapidamente deixou de ser um conflito familiar. Transformou-se numa crise política de grandes proporções.

Em poucas horas, o episódio dominou jornais, emissoras de televisão, portais de notícias e redes sociais. O que parecia uma divergência entre madrasta e enteado revelou algo muito maior: a disputa pela herança política de Jair Bolsonaro deixou os bastidores e passou a ser disputada diante do país.

Mais do que um desentendimento familiar, o vídeo expôs uma luta pelo comando do maior patrimônio eleitoral da extrema-direita brasileira.

<><> A sucessão começou antes da eleição

Durante anos, o bolsonarismo funcionou como uma estrutura rigidamente vertical. Jair Bolsonaro decidia. Os filhos executavam. O partido acompanhava.

Esse modelo começou a perder consistência à medida que o ex-presidente foi acumulando derrotas eleitorais, condenações judiciais e restrições que reduziram sua capacidade de arbitragem política.

O vídeo de Michelle tornou pública essa transformação.

Hoje já não existe apenas um projeto político dentro do bolsonarismo. Existem diferentes grupos disputando o espólio eleitoral construído ao longo da última década.

<><> O vídeo mudou a natureza da disputa

Michelle não fez uma reclamação reservada.

Gravou um vídeo.

Publicou-o nas redes sociais.

Acusou Flávio Bolsonaro de humilhá-la, desrespeitá-la e traí-la politicamente durante as negociações envolvendo o palanque do PL no Ceará.

A repercussão foi imediata.

Flávio Bolsonaro acabou divulgando um pedido público de desculpas. O gesto, longe de encerrar a crise, acabou confirmando sua dimensão.

Quando um pedido público de desculpas se torna necessário dentro da própria família Bolsonaro, a disputa deixa de ser privada.

Passa a ser política.

<><> O pai já não consegue arbitrar o conflito

Os relatos de bastidores publicados pela imprensa mostram que a crise rapidamente ultrapassou Michelle e Flávio.

Segundo interlocutores ouvidos por diferentes veículos, Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro passaram a pressionar Jair Bolsonaro para que desautorizasse publicamente a esposa de Jair e madrasta dos filhos 01, 02 e 03.

Independentemente do desfecho, o episódio revela uma realidade inédita.

Pela primeira vez, o chefe do clã já não consegue impedir que uma disputa doméstica se transforme numa crise política nacional.

Sua capacidade de arbitragem já não parece a mesma de outros tempos.

<><> O PL também entrou em guerra

A crise atravessou imediatamente as portas do Partido Liberal.

Segundo informações divulgadas pela jornalista Bela Megale, uma ala importante do partido passou a defender a retirada de Michelle da presidência do PL Mulher, afirmando que ela teria "jogado a eleição no colo de Lula".

Outra corrente sustenta exatamente o contrário.

Para esse grupo, Flávio Bolsonaro precisará recompor a relação com a madrasta porque Michelle representa um dos maiores ativos eleitorais do partido, especialmente entre mulheres e parte significativa do eleitorado evangélico — justamente os segmentos em que o senador enfrenta maior resistência.

A divergência revela um dado novo.

A discussão dentro do PL já não gira apenas em torno da candidatura presidencial.

Passa também pela definição de quem exercerá a liderança política do campo bolsonarista daqui para frente.

<><> Michelle deixou de ser personagem secundária

Durante muito tempo, Michelle Bolsonaro foi tratada como um importante cabo eleitoral do marido.

O episódio desta semana indica que essa fase pode ter terminado.

Como observou o jornalista Pedro Doria, Michelle construiu dentro do PL uma força política própria, apoiada principalmente no eleitorado feminino e evangélico, tornando-se uma liderança muito mais autônoma do que costumava ser percebida.

Independentemente de disputar ou não a Presidência da República, ela passou a ocupar um espaço político que nenhum dos filhos de Jair Bolsonaro consegue monopolizar.

Sua influência deixou de depender exclusivamente da figura do ex-presidente.

<><> A pergunta que permanece sem resposta

Há, porém, uma pergunta que continua pairando sobre Brasília.

Jair Bolsonaro sabia que Michelle gravaria e divulgaria aquele vídeo?

A dúvida não é irrelevante.

Michelle convive diariamente com o ex-presidente. É sua principal interlocutora neste período de restrições judiciais e isolamento político.

Se Jair Bolsonaro desconhecia completamente a iniciativa da esposa, isso significa que já perdeu a capacidade de controlar até mesmo os movimentos políticos produzidos dentro de sua própria casa.

Se, ao contrário, tinha conhecimento da gravação — ou ao menos concordou em silêncio com sua divulgação —, o episódio ganha outra dimensão.

Nesse caso, seria legítimo perguntar se o próprio Bolsonaro já admite discutir alternativas para reorganizar sua sucessão política.

Até o momento, não existe prova pública de que ele tenha autorizado o vídeo ou participado de sua elaboração.

Mas também chama atenção seu silêncio.

Segundo relatos de bastidores, Flávio, Carlos e Eduardo esperam uma manifestação do pai que desautorize Michelle.

Ela não veio.

Na política, o silêncio também comunica.

<><> A guerra pelo sobrenome

O que está em disputa não é apenas uma candidatura presidencial.

É o controle da marca política Bolsonaro.

Quem liderar esse processo controlará uma estrutura formada por milhões de eleitores fiéis, uma poderosa rede de comunicação digital, influência sobre centenas de candidaturas proporcionais e um dos maiores partidos do país.

Essa disputa tende a marcar toda a campanha de 2026.

<><> Enquanto isso, Lula observa

Há uma ironia difícil de ignorar.

Todas as recentes pesquisas de intenção de voto colocaram Lula na liderança da disputa presidencial.

Até poucos dias atrás, a principal dificuldade da direita tradicional parecia ser encontrar um candidato suficientemente competitivo para enfrentar o atual presidente.

Agora surge um problema anterior.

Antes de decidir quem enfrentará Lula, o bolsonarismo talvez precise decidir quem comandará o próprio bolsonarismo.

O vídeo divulgado por Michelle Bolsonaro não encerra essa disputa.

Apenas tornou pública uma guerra que já vinha sendo travada nos bastidores.

Talvez esse seja seu verdadeiro significado histórico.

A eleição de 2026 começou antes do esperado.

E, ao menos por enquanto, a batalha mais intensa da direita brasileira não acontece contra Lula.

Acontece dentro da própria família Bolsonaro.

•        "O que profere mentiras perecerá", publica Michelle em meio a crise com Flávio

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro citou um trecho bíblico sobre “falsa testemunha” após expor atritos com o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por articulações eleitorais no Ceará, em mais um capítulo da crise pública entre ambos. A manifestação ocorreu depois de divergências dentro do campo bolsonarista sobre acordos políticos para as eleições de outubro.

Michelle publicou uma mensagem com tom religioso em meio à repercussão do desentendimento com Flávio. “A falsa testemunha não ficará impune, e o que profere mentiras perecerá. Salmo 34:13”, escreveu a presidente do PL Mulher.

O trecho citado por Michelle remete a uma passagem bíblica associada à condenação da mentira e à defesa da integridade nas declarações. A publicação foi interpretada no contexto da crise aberta após a ex-primeira-dama relatar discordâncias com o enteado sobre a condução de alianças políticas no Ceará.

O atrito envolve negociações relacionadas ao ex-ministro Ciro Gomes, pré-candidato ao governo cearense. Nomes defendidos por Michelle para a disputa eleitoral teriam sido preteridos nas articulações do PL e por Flávio Bolsonaro. Entre eles estavam Eduardo Girão, do Novo, para o governo, e Priscila Costa, do PL, para o Senado.

A tensão ganhou força depois que Michelle divulgou um vídeo de cerca de 26 minutos no qual detalhou a negociação e acusou Flávio de tê-la maltratado. No dia seguinte, a ex-primeira-dama tentou reduzir o impacto da crise e negou que houvesse uma briga entre os dois, afirmando que sua intenção era apenas esclarecer a situação.

Flávio Bolsonaro também buscou conter o desgaste e defendeu uma recomposição política. “De coração aberto, quero reforçar o convite que já havia feito à Michelle. Acredito que o diálogo, o respeito e a união serão sempre o melhor caminho”, afirmou o senador.

Michelle só segue em frente se destruir os enteados. Por Moisé Mendes

O projeto de Michelle pode ser divino para o futuro da direita e diabólico para os filhos de Bolsonaro. Até o estagiário do PL sabe que Michelle destruiu todas as pontes com os enteados, no vídeo divulgado na quarta-feira, porque seu projeto de poder não pode ser atrapalhado por Flávio e Eduardo.

Ela é a figura que se apresenta agora como a única capaz de rearticular toda a direita, e não só o fascismo bolsonarista. Para que siga em frente, Flávio precisa sair do caminho.

Isso significa destruí-lo para que perca a eleição. O plano de Michelle para 2030 depende do fracasso de Flávio e do projeto golpista de Eduardo. Eles continuarão por aí, mas avariados, principalmente se for confirmada a derrota de Trump nas eleições parlamentares de novembro.

Até Carluxo fica mal no seu sonho de virar senador por Santa Catarina. Eleger-se senadora com a maior votação da história de Brasília e fragilizar os filhos de Bolsonaro é o começo da execução do projeto de Michelle, que aparece em pesquisas como a preferida inclusive pelos eleitores independentes.

A reconciliação pode acontecer, depois de também Michelle decidir carimbar Flávio como traidor? Tudo em política é possível, dizem todos os que um dia foram traídos. Mas ficou complicado depois da revelação de que ela foi apunhalada pelo enteado.

Num cenário de realismo mágico forçado, imaginado para hoje, Michelle entraria na disputa ainda este ano, montada num cavalo branco, com Valdemar na garupa. A velha direita se livraria de Flávio e a madrasta salvaria o bolsonarismo, o marido, o centrão, os enteados e o banco de Edir Macedo.

O problema imediato, com tudo que o vídeo revela, com recados para todos os lados, é dos enteados. O grande problema de médio e longo prazo é das esquerdas e da democracia.

Veremos o que os irmãos serão capazes de fazer até o final da Copa. O projeto diabólico de Michelle hoje é transformar Flávio e Eduardo em dois Neimares.

 

Fonte: Brasil 247

 

Nenhum comentário: