Copa
da diáspora, dos encontros fugazes e das dificuldades de interação com a
diferença
O drama
dos migrantes é um dos problemas civilizatórios centrais do século XXI.
Associado a ele estão conflitos e instabilidades políticas e sociais,
desigualdades econômicas, novos processos de colonização e mudanças
demográficas e climáticas. Na Copa do Mundo, maior evento esportivo do planeta,
a questão migratória é um dos dilemas sociais e antropológicos que chama
atenção. “Trata-se da copa da diáspora, com 23% dos atletas representando
países outros que não aqueles onde nasceram”, afirma Arlei Damo nesta
entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail. O
antropólogo comenta também as diversas críticas que estão sendo feitas ao
campeonato deste ano. Entre os pontos positivos, ele destaca que não houve a
construção de novos elefantes brancos, como em competições anteriores. “O fato
desta Copa ser realizada em três países permitiu fazer melhor uso da
infraestruturas pré-existente, sem edificar nenhum dos 16 estádios utilizados,
muito diferente do que foram as quatro edições anteriores que, somadas,
edificaram 75% das praças utilizadas – nada menos do que 30 estádios
construídos do zero! – e reformaram as demais 25%, sendo que uma parte
expressiva nem sequer tem sido utilizada”.
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Confira a entrevista.
• Numa entrevista concedida ao IHU em
2010, o senhor disse que “a FIFA visa o lucro”. Cresceu essa consciência entre
os torcedores a tal ponto de o futebol ser motivo de desencanto para muitas
pessoas?
Arlei
Damo – Em 2023, quando eleito para seu segundo mandato, o presidente da FIFA
Gianni Infantino disse que sua missão era realizar eventos e arrecadar
dinheiro. Nenhum outro mandatário havia, até então, falado tão abertamente a
respeito. Desde sua criação, em 1904, até 1970, quando João Havelange desbancou
Stanley Rous da presidência da FIFA, a instituição se orientara por questões
políticas, ainda que restritas ao futebol, e em defesas dos interesses
europeus. Sob muitos aspectos, a Internacional Board, que cuidava das regras do
jogo, era mais relevante do que a FIFA, pois conseguira manter o jogo intacto,
um feito extraordinário se pensarmos na extensa difusão do futebol. Em todo o
caso, ambas as agências se orientavam por um discurso universalista, colonialista
e de fraternidade nacional que lembrava o século XIX.
As
gestões de Havelange (1974-1998) e Joseph Blatter (1998-2015), irmãos siameses,
realizaram a transição para o mundo dos negócios, beneficiando-se das regras
terem sido preservadas. De olho nas tendências da produção e do consumo de bens
simbólicos no espectro do capitalismo – pensemos no cinema, no rádio, na
televisão e nos conteúdos associados –, Havelange se deu conta que o futebol
poderia se tornar uma mercadoria valiosíssima, beneficiando-se, sobremaneira,
das inovações tecnológicas que permitiram a difusão de imagens em tempo real.
Todavia, durante este período de transição, a FIFA seguiu com um discurso que
tentava encobrir as ambições comerciais, fazendo-se representar como uma
entidade equivalente à Organização das Nações Unidas (ONU).
As
últimas copas, sobretudo aquela realizada no Brasil, com manifestações de
repúdio ao empenho de recursos públicos do país sede para a promoção do
megaevento, exigiram um reposicionamento. A questão para Infantino não é
esconder que a FIFA visa o lucro, como qualquer empreendimento capitalista, mas
entregar uma mercadoria de qualidade, certo de que ela possui consumidores
fiéis. Não é pelo fato de admitir que faz negócios e visa lucro que a FIFA vai
perder público; isso não parece ser um problema caso ela entregue o que
promete: um megaevento reunindo as celebridades futebolísticas no formato de
uma disputa entre nações, dando às disputas dentro de campo uma aura de drama
coletivo.
• A presidente mexicana, Cláudia
Sheinbaum, não foi à abertura da Copa. Além de sortear seu ingresso e o dar a
uma jovem mexicana que gosta de futebol, questionou: “Quem pode pagar isso?”,
fazendo referência ao preço do ingresso: 120 mil pesos. Prática e simbolicamente,
como o senhor interpreta a reação dela?
Arlei
Damo – Do ponto de vista prático, posso dizer que ela foi politicamente bem
orientada; ter ido ao estádio poderia ter resultado em vaias tais como as que
recebeu Dilma Rousseff quando compareceu na abertura da Copa das Confederações
em 2013, evento que está na origem da transformação das manifestações contra o
aumento das passagens urbanas nas Jornadas de Junho. O público que vai a jogos
de copas ou a outros megaeventos esportivos não tem perfil de esquerda e,
considerando que havia uma greve nacional dos professores no México, que
ameaçava intrometer-se nos eventos da Copa, não ir ao estádio foi uma decisão
sábia. Quem foi à abertura da Copa provavelmente estava pouco se importando
para as reivindicações dos professores – se o perfil corresponder ao que
acorreu aos estádios brasileiros em 2014, pode-se ter convicção –, mas poderia
pegar uma carona nas críticas ao governo de Cláudia Sheinbaum.
O fato
de ter dado o ingresso para uma pessoa que não teria como adquiri-lo é um tanto
populista, mas faz parte do jogo político. Os jogos de copas, assim como as
corridas de Fórmula I, o Lollapalooza, o Rock in Rio e mesmo shows de Chico,
Caetano e Gil não são acessíveis aos pobres. Impedi-los de serem realizados
seria injustificável, mas deve-se evitar o dispêndio de dinheiro público na
medida que atendem ao gosto de um público restrito, pouco importando o perfil
político dos organizadores e artistas. O gesto da presidente do México faz
lembrar que o acesso aos bens culturais é muito desigual, como dizia um slogan
que se destacou nos protestos de 2013: “Copa para quem?”
• A Copa deste ano está sendo criticada
por muitas razões, entre elas, os impactos climáticos gerados, o financiamento
de grandes petrolíferas na competição, os casos de racismo contra jogadores,
árbitros e jornalistas, o valor dos ingressos etc. O que essas críticas
sugerem?
Arlei
Damo – Sugerem a existência de movimentos políticos e pessoas preocupadas com
outras questões que não só o futebol ou o lucro da copa, como é o caso da FIFA.
Pode ser que os impactos dos megaeventos esportivos – eu incluiria aqui eventos
que mobilizam multidões, incluindo-se os de natureza política e religiosa – não
estejam no topo do ranking dos mais insustentáveis, mas não estão fora de
contexto e, portanto, precisam se adequar a protocolos que são exigidos de
outros empreendimentos. As copas, assim como os jogos olímpicos, têm uma forte
interface com a indústria do turismo e, na medida em que conseguem se adaptar a
tais circuitos, já contribuem para a redução dos impactos, mas se demandam
obras, com investimentos sem retorno e com deslocamentos forçados, piora muito.
O fato
desta Copa ser realizada em três países permitiu fazer melhor uso da
infraestruturas pré-existente, sem edificar nenhum dos 16 estádios utilizados,
muito diferente do que foram as quatro edições anteriores que, somadas,
edificaram 75% das praças utilizadas – nada menos do que 30 estádios
construídos do zero! – e reformaram as demais 25%, sendo que uma parte
expressiva nem sequer tem sido utilizada. Isso é desperdício de dinheiro
público, de energia, de matéria-prima, de mão de obra, algo completamente
inaceitável em alguns países onde existe mais sensibilidade para as questões
climáticas e onde os movimentos da sociedade civil são mais atuantes.
Quanto
ao preço dos ingressos, nenhuma novidade; a copa no estádio é para turista
endinheirado, já tínhamos visto isso no Brasil. E não vai mudar, porque todos
os ingressos foram vendidos. E quanto ao racismo e perrengues com vistos, tenho
a impressão de que tem mais a ver com as políticas dos EUA dos que com as da
FIFA – voltarei à questão.
• Alguma causa coletiva está sendo
estimulada nesta Copa?
Arlei
Damo – As copas podem ser vistas de múltiplos pontos. Tem a lógica das agências
que as promovem (FIFA, Estados nacionais, grandes multinacionais, a indústria
da publicidade e do turismo, companhias aéreas, mídia esportiva etc.) e tem a
das pessoas que a consomem, sendo que a esmagadora maioria o faz à distância,
assistindo aos jogos da seleção que representa seu país pela televisão,
reunindo familiares e amigos para confraternizar.
Da
turma que promove a Copa não dá para esperar grande coisa; são corporações que
raramente estão na vanguarda de causas que não as suas próprias. Quando muito
são forçadas a se adequarem às legislações e às pressões políticas exercidas
pela sociedade civil, em circunstância e temas pontuais. No que concerne à luta
antirracista, que é pauta em diversos países, incluindo o Brasil, a FIFA pode
não ser uma instituição de vanguarda, mas comparativamente ao mundo corporativo
pode-se dizer que está engajada. Se pensarmos no universo do futebol
exclusivamente, a FIFA faz mais do que muitas confederações, federações e
clubes.
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Combate ao racismo
A
expulsão do jogador Almirón, do Paraguai, por proteger a boca com a mão
enquanto insultava um adversário, tentando evitar a leitura labial, é um
exemplo positivo. Foi uma punição incorporada nesta Copa, que passará a valer
para todas as competições oficiais. Os jogadores da Turquia estavam conscientes
– muitos deles foram formados na Alemanha e, provavelmente, já foram sujeitos a
insultos racistas –, tanto é que denunciaram o gesto ao árbitro, que foi
socorrido pelo VAR.
Os
jogadores do Paraguai pareceriam ignorar a nova regra e depois a consideraram
uma punição demasiada. O gesto recebeu, inclusive, o codinome de “Lei Vini
Jr.”, em homenagem à luta incansável do atleta brasileiro contra o racismo,
pois são nessas falas ocultadas que as injúrias são proferidas – os racistas
não vão aos estádios com uma camiseta dizendo o que são!
Até bem
pouco tempo atrás essas falas injuriosas eram consideradas “coisas do jogo”,
uns e outros dizendo barbaridades para tentar desestabilizar o adversário,
atacando a honra pessoal, um valor masculino por excelência. A FIFA disse “não
mais”; nem violência física, nem verbal. Poderia fazer mais, sem dúvida, mas
tem feito algo. Considerando a visibilidade que tem o futebol, pequenas
contribuições como esta podem ter enorme repercussão.
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Manifestações coletivas
Já do
ponto de vista dos torcedores o espectro de manifestações coletivas é mais
vasto, quiçá alentador. A acolhida que seleções menos prestigiadas tiveram do
público em geral é algo notável, sobretudo em torno de Haiti e Cabo Verde. A
CazéTV, que transmitiu o empate heroico de Cabo Verde contra a Espanha, puxou
um mutirão de seguidores no Instagram do goleiro Vozinha no fim do jogo e ele
saltou de 50 mil para mais de um milhão em fração de minutos, passando dos 10
milhões nos dias subsequentes. Vozinha é um jogador semiprofissional, defende
uma seleção que nunca havia participado de uma copa e representa um país cuja
população tem menos de 500 mil habitantes. Ao celebrar a atuação de Vozinha as
pessoas estavam fazendo algo mais do que reconhecer os méritos individuais
desse atleta e outra coisa que pensar em lucro.
A festa
da delegação egípcia depois da vitória contra a Nova Zelândia, a primeira do
país na história das copas, segue na mesma direção. Os jogadores se reuniram no
meio do campo e fizeram juntos a saudação para Allah – a FIFA teria coragem de
punir a todos? – e a comissão técnica deu uma volta olímpica exibindo a
bandeira do Egito, tudo isso num jogo da segunda rodada da primeira fase.
Já os
torcedores noruegueses prepararam uma coreografia nunca antes vista em copas,
simulando uma embarcação de remadores vikings. Há um enorme investimento de
preparação, não só para a execução da coreografia em si, mas para garantir
todos os lugares no estádio a fim de simular uma embarcação coletiva. Quando da
classificação à segunda fase, os atletas se posicionaram no centro do campo e
remaram com os torcedores, performando uma conexão que vai além do campo às
arquibancadas, de representantes e representados, pois sincroniza o presente ao
passado ancestral. Por essas e outras as copas têm forte apelo popular e
transcendem o fato de serem mercantilizadas.
• O futebol sempre foi considerado uma
paixão nacional no Brasil. No entanto, segundo o estudo Copa do Mundo,
realizado pelos institutos Ipsos e Ipec, 46% dos brasileiros estão desanimados
com o evento esportivo. A que atribui esse sentimento? Simbolicamente, como
podemos interpretar essa reação?
Arlei
Damo – A pesquisa foi feita antes da Copa, em primeiro lugar. A depender da
performance da seleção brasileira a adesão pode mudar. Nos anos 80 e 90, havia
muitos brasileiros que se diziam apaixonados por Fórmula I, mas depois da morte
de Senna este público foi se esvaindo. Há um segmento de torcedores interessado
na Copa (em geral, o público que acompanha futebol ordinariamente) e um público
mais amplo de olho na participação da seleção brasileira, pelo que o resultado
da pesquisa não é definitivo e pode até mesmo diminuir.
Uma
segunda questão tem a ver com a fragmentação das mídias. Havia um tempo em que
a Globo transmitia toda a Copa com exclusividade e tinha índices muito elevados
de audiência, bem superiores aos atuais. Então a Globo promovia a Copa, como
qualquer mídia promove sua programação, e isso ajudava a despertar o interesse
naquele público menos aficionado pelo futebol que seguia a programação da
emissora. Nesta Copa só a CazéTV está transmitindo todos os jogos, mas ela se
comunica com um público restrito ao nicho esportivo.
A
terceira questão tem a ver com a apropriação política da direita dos símbolos
nacionais, incluindo as camisetas da CBF. Tradicionalmente, as escolas usavam
as copas para estimular os estudantes a pensarem em questões geopolíticas, e
isso era promovido por professores de História e Geografia, que são
majoritariamente refratários aos usos que a direita faz dos símbolos nacionais.
Por
fim, creio que há uma fragmentação de conteúdos midiáticos e isso possibilita
que uma pessoa, alheia ao futebol, não
se sinta uma extraterrestre por não estar acompanhando a Copa, algo impossível
noutra época.
• Recentemente veio à tona a notícia sobre
a relação entre jogos de apostas digitais e o endividamento das famílias
brasileiras. Como o senhor vê a mistura entre futebol, jogos de apostas e a
falta de uma legislação mais rígida em relação às bets?
Arlei
Damo – As apostas online vão bem além do futebol. Ainda que no Brasil ele seja
o alvo principal da publicidade, dado o mercado potencial, de resto não há nada
que o diferencie de outros esportes – mas há uma notável diferença em relação
aos cassinos online, que não convém discutir aqui.
O
Brasil tem uma longa tradição de hesitação em relação ao tema das apostas/jogos
de azar, com muitas idas e vindas. Já tivemos cassinos, fechados na década de
1940; o jogo do bicho nunca deixou de ser praticado, mas nunca se discutiu
seriamente a possibilidade de legalizá-lo; o governo federal criou suas
próprias loterias, na época da ditadura, e nem parece que elas fazem parte do
repertório de apostas, tal qual os bingos de quermesse, rifas e assemelhados;
os jóqueis-clubes nunca foram proibidos e não se sabe bem o motivo, em que pese
atendam um público restrito realizam apostas desde o século XIX; na década de
1990 liberaram-se os bingos, fechados na década seguinte; enfim, o país parece
confuso em relação ao tema e eu atribuo isso à falta de um debate público
consistente.
As
apostas online – chamadas “apostas de cota fixa” – foram autorizadas por medida
provisória no ocaso do governo Temer e Bolsonaro tapou os olhos para o tema:
nem discutiu a legalização, como previsto, com receio de desagradar a base
evangélica, nem revogou a MP de Temer. O governo Lula optou pelo caminho da
legalização e creio que tenha feito a escolha certa, tributando as empresas
legalizadas e interditando as demais. O governo mostrou-se suscetível a ajustes
na legislação, aprovada em fins de 2023, policiando a publicidade e
restringindo o acesso de menores, como funciona em outros países onde as
apostas são legalizadas.
Recentemente,
o ministro da Fazenda, Dario Durigan, comparou as apostas ao cigarro; poderia
ter comparado à bebida alcoólica ou a outras práticas que oferecem riscos à
saúde, mas cuja proibição cria tantos problemas que é preferível trabalhar com
políticas de redução de danos. Legalização, tributação, fiscalização,
transparência, educação para o consumo responsável é o que outros países têm
feito com razoável sucesso.
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“Tigrinho” e endividamento
Houve
muita propaganda enganosa no período recente; pessoas humildes acreditando que
poderiam ganhar dinheiro extra com a jogatina, o que é totalmente ilusório.
Propaganda enganosa tem que ser punida e já existe, legislação para isso. Muita
gente já se deu conta que o “Tigrinho” é um engodo e parou de apostar contra o
algoritmo por conta própria; outras nem tentaram, sabendo de relatos de pessoas
malsucedidas; e há um número crescente de pessoas buscando a autoexclusão numa
plataforma centralizada disponibilizada pelo governo federal.
As
pessoas precisam se educar e isso vale para bebida alcoólica, para o trânsito e
até para desfrutar de banho de mar. Exposição ao risco sem proteção pode matar
e o Estado pode ajudar com políticas de restrição e educação, mas a proibição
generalizada só contribui para asfixiar o debate e promover as práticas
clandestinas.
• Em sua avaliação, que problemas sociais
e antropológicos saltam aos olhos nesta Copa?
Arlei
Damo – O tema da imigração, sem dúvida. Trata-se da copa da diáspora, com 23%
dos atletas representando países outros que não aqueles onde nasceram. A
tendência sempre foi haver jogadores atuando pelo país de destino da imigração,
nesta predomina o inverso. A França, por exemplo, faz algumas décadas que se
notabiliza pela presença marcante de jogadores cujas famílias são emigradas das
ex-colônias; nesta Copa, contudo, em torno de 32% desses atletas que atuam pela
pátria de origem da família são franceses. Países como o Haiti, Curaçao e Cabo Verde não estariam na Copa sem a
possibilidade de recrutar esses filhos e netos da diáspora.
Em 2022
a FIFA afrouxou alguns critérios de participação – antes quem tivesse disputado
competições de base por uma seleção não poderia atuar por nenhuma outra – e
ampliou a possibilidade de recrutamento de atletas. A nova configuração das
representações nacionais sugere questões interessantes para se pensar as
identificações coletivas, a experiência da e na diáspora, o pós-colonialismo, a
ancestralidade e outros temas afins. Paradoxalmente, isso acontece numa Copa em
cuja sede principal, os Estados Unidos, estão implementando políticas ortodoxas
de restrição à imigração, com aumento do controle de acesso, deportações e
violações de direitos fundamentais.
• Há algo de positivo em eventos
esportivos como a Copa do Mundo? O ideal da fraternidade, da amizade, do
encontro entre diferentes povos e culturas ainda pode ser fomentado por meio
dessas competições?
Arlei
Damo – Sou um pouco cético em relação aos efeitos de um megaevento esportivo
para além do próprio esporte e do seu tempo de realização. Eles se assemelham
muito a rituais; reforçam crenças e disseminam experiências, mas geram pouco
impacto fora do grupo de convertidos. Aquele discurso sobre legados que
circulou quando da realização da copa de 2014 no Brasil e das Olimpíadas de
2026 era marketing e nada mais. De uns tempos para cá se falou muito em soft
power, no âmbito da ciência política e das relações internacionais, mas sempre
fui comedido quanto a isso.
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Interação com a diferença
A mídia
em geral e a esportiva em particular, na esteira das instituições esportivas,
falam de fraternidade, de encontros culturais e coisas do gênero. Como
antropólogo cumpre a árdua missão de desmentir parte disso, pois esses
encontros são fugazes, seja porque ficam circunscritos aos jogos, que são
eventos bem pontuais, seja porque os torcedores-turistas, que partilham as
arquibancadas com estranhos nos jogos, no restante do tempo seguem os roteiros
de agências de viagem e se deslocam por lugares evitando interagir com a
diferença.
O
essencial do consumo das copas, incluindo-se os jogos e tudo o mais, é
realizado de forma remota, da poltrona de casa, interagindo com amigos e
familiares. Bem, algumas pessoas gostam de ir a bares, fan fest e outros locais
de assistência pública, mas são uma exceção. Em todo o caso, há um consumo da
diversidade, da fraternidade, da tolerância, da festa e de outras questões
apresentadas pelas mídias; um consumo tipicamente midiático, que já vem
cifrado.
O
sucesso das copas tem muito a ver com o fato de reunir quase todos os
principais atletas mundiais em um único evento; um festival em forma de
disputa. Imagine-se o que seria de um festival de rock com a presença de todas
as bandas famosas do momento? E o futebol é muito mais popular do que o rock, é
um dos gostos mais populares e universais. Em todo o caso, essas celebridades
se vestem para a ocasião com as cores nacionais e assim suscitam o
pertencimento coletivo, o culto a algo que transcende o individualismo,
promovendo um tipo de experiência efervescente que considero muito próxima
àquela dos grandes ritos/celebrações religiosas, pois estimula,
simultaneamente, o pertencimento (coletivo) e o despertencimento (de si).
Vivemos
bombardeados por cultos a personalidades, pela necessidade de performar o
próprio eu. Isso não é completamente apagado na copa – Neymar, Mbappé,
Cristiano Ronaldo e outros são bons exemplos –, mas sobressai também o
coletivo. Para se divertir com a copa é preciso se deixar envolver por certos
romantismos que resistem no tempo, como é o caso da entrega de si, pela conexão
com uma comunidade ampliada e mesmo com as ancestralidades – como no exemplo da
Noruega.
Sob
certo aspecto, a copa é uma competição que fala sobre transcendência, embora
não o faça à maneira de uma reflexão kantiana. Isso é uma ilusão? Sem dúvidas
que é, e com prazo de validade. Mas por que lemos romances, assistimos filmes
ou frequentamos cultos? Se alguém disser que a copa é uma droga eu tenderia a
concordar, pela mesma razão que sigo o antropólogo Marshall Sahlins, quando
para explicar a globalização afirmou que a humanidade não suportaria a própria
existência se não pudesse transpor a própria realidade, para o que contribuem o
chá, o café, o cacau, o açúcar e tantas outras substâncias.
Fonte:
Entrevista com Arlei Damo, para Patricia Fachin, em IHU

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