Garimpo
no rio Abacaxis: uma década de exploração e contaminação
Há mais
de uma década, moradores das comunidades ribeirinhas e indígenas do rio
Abacaxis, afluente do rio Madeira, no Amazonas, convivem com o medo de ameaças,
da água contaminada e de que o garimpo ilegal nunca pare de avançar sobre a
Floresta Nacional Urupadi, localizada na parte sul do município de Maués (a 267
km de Manaus). Desde 2018, moradores destas áreas denunciam ao Ministério
Público Federal (MPF), por meio da Associação Nova Esperança do Rio Abacaxis
(Anera), a atividade clandestina e de grande impacto no Filão do Abacaxis.
“Sai um
comando do garimpo, entra outra milícia. Depois há uma operação, essa milícia
sai e outra tenta voltar. É algo sistêmico”, diz o psicólogo Fábio Cunha
Coêlho, um dos fundadores da associação, à Amazônia Real.
O
esforço em denunciar não foi em vão. A Justiça Federal do Amazonas tornou réus,
no início deste mês, 13 pessoas apontadas como integrantes da organização
criminosa que extraiu, sem autorização, 71 quilos de ouro da Flona de Urupadi,
uma unidade de conservação federal. O esquema movimentou mais de 258 milhões de
reais e, segundo o MPF, submeteu trabalhadores a condições análogas à
escravidão.
Os réus
são oito homens e cinco mulheres do Pará, de Mato Grosso, de Rondônia, do Piauí
e do Amazonas. Um dos epicentros do esquema era a cidade paraense de Itaituba,
onde um dos réus possuía uma joalheria utilizada para o comércio do ouro
ilegal.
Sobre o
dano ambiental causado dentro da unidade de conservação, a ação penal afirma:
“A Flona Urupadi é um espaço territorial especialmente protegido, que abriga
uma das regiões mais ricas em biodiversidade do mundo, com estimativa de 800
espécies de aves e alto grau de endemismo de primatas . A exploração ilegal
nesta área causou a degradação de milhares de hectares e um dano socioambiental
estimado em mais de R$ 267.061.361, ferindo a integridade de bioma com proteção
constitucional reforçada”, diz trecho obtido pela Amazônia Real.
Registros
da exploração ilegal de ouro na região remontam a 2015, quando a Polícia
Federal (PF) deflagrou a Operação Filão dos Abacaxis, para desarticular os
criminosos do esquema milionário de garimpo na Flona de Urupadi. As
investigações apontaram que cerca de 70 hectares de floresta foram devastados
pela atividade garimpeira, com sinais de contaminação do solo por mercúrio e
cianeto.
A
denúncia aceita pela Justiça é resultado de uma apuração mais recente sobre a
atividade criminosa do garimpo. Na Operação Déjà Vu, em 2023, a PF cumpriu
seis mandados de prisão temporária e dez de busca e apreensão em Manaus e Nova
Olinda do Norte (AM), Itaituba (PA), Goiânia (GO) e Campo Grande (MS), além de
determinar o bloqueio de bens e valores dos investigados. À época, o dano
ambiental provocado pelo garimpo foi estimado em mais de 430 milhões de reais,
valor recalculado nos anos seguintes conforme novas perícias.
Desde
então, foram realizadas outras quatro operações policiais e fiscalizatórias na
área: Aurum, Mineração Obscura, Mineração Obscura 2 e Barões do Filão,
esta última é a mais recente e foi deflagrada em agosto de 2025.
Na Operação
Barões do Filão, os agentes identificaram, além do garimpo ilegal, crimes
correlatos como lavagem de dinheiro e exploração de 50 trabalhadores em
condição análoga à escravidão. Os policiais federais cumpriram 4 mandados de
prisão preventiva e 12 de busca e apreensão em residências dos investigados,
localizadas em Itaituba e Novo Progresso (PA), Sinop (MT), Porto Velho (RO) e
Regeneração (PI). Também foi decretado o sequestro de bens e bloqueio de ativos
de até 74.110.528 de reais, quantia calculada com base no dano ambiental
atribuído a essa fase da investigação.
Embora
o foco da exploração fosse a Flona Urupadi, os impactos do garimpo
ultrapassaram os limites da unidade de conservação e atingiram comunidades
ribeirinhas e indígenas localizadas nas cidades de Borba e Nova Olinda do
Norte, vizinhas de Maués. Os territórios indígenas afetados são a aldeia Terra
Preta, do povo Maraguá, que não é demarcada pela Funai, e a TI Kwatá Laranjal,
do povo Munduruku.
Fábio
Cunha destacou a chegada das operações da PF, sobretudo por ter havido um
aumento da estrutura empregada nas ações, com helicópteros, lanchas e recursos
de inteligência. Mas ele espera que os efeitos sejam duradouros.
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A organização criminosa
Conforme
as investigações, no topo da organização criminosa está o atual líder do
garimpo, que teria assumido o comando após a prisão do antigo chefe,
na Operação Déjà Vu, em 2023. Segundo o MPF, mesmo sem ir até a área de
extração, ele coordenava as atividades à distância: arrendava os poços de
mineração a outros integrantes do grupo e recebia parte do ouro produzido.
A
investigação apontou que os chamados sócios-arrendatários administravam os
poços de extração, supervisionavam trabalhadores e mantinham a logística da
atividade garimpeira. Cadernos de contabilidade apreendidos pela PF
durante a Operação Mineração Obscura 2, em fevereiro de 2025, registraram a
produção de cada frente de exploração e a divisão dos lucros entre os
envolvidos.
Já o
núcleo financeiro da organização é formado por familiares e pessoas próximas
aos principais investigados. Conforme o MPF, empresas formalmente registradas e
pessoas físicas eram utilizadas como “laranjas” e o montante de recursos
movimentado era incompatível com a renda declarada de seus proprietários, uma
clara tentativa de ocultar a origem ilícita do dinheiro obtido com os lucros do
garimpo.
Alguns
dos acusados também foram apontados pelo Ministério Público do Trabalho (MTE)
como responsáveis pela submissão de dezenas de trabalhadores a condições
análogas à escravidão. Os profissionais cumpriam jornadas exaustivas em
turnos de 24 horas de trabalho por 24 horas de descanso e eram obrigados a
manusear substâncias altamente tóxicas (mercúrio e cianeto) sem Equipamentos de
Proteção Individual (EPIs).
“O
lançamento de rejeitos com mercúrio e cianeto contaminou os igarapés da bacia
do rio Abacaxis. Segundo o Relatório do MTE, o minério era moído até virar
areia fina, de onde o ouro era extraído com auxílio de mercúrio. Estima-se que
8.540,53 gramas de mercúrio foram convertidos em metilmercúrio e incorporados à
cadeia trófica, expondo cerca de 67.370 pessoas ao risco de contaminação em um
raio de 100 km”, afirmou a ação penal do MPF.
Os
trabalhadores do garimpo não eram livres, pois dependiam de prévia autorização
do “dono”, o que, segundo a ação penal, evidencia o controle absoluto sobre a
locomoção dos empregados. Em dezembro de 2025, três trabalhadores morreram
no garimpo após o desabamento de uma galeria subterrânea.
Em
janeiro deste ano, o presidente do
Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro
Herman Benjamin, negou pedido liminar para
revogação de prisão preventiva
decretada contra um homem investigado no âmbito da Operação
Barões do Filão. Segundo o Ministério
Público, o homem seria um dos principais articuladores da
extração e da comercialização
ilícitas do ouro, exercendo papel de proprietário
e administrador do garimpo clandestino.
Com a
aceitação da denúncia pela Justiça Federal, os acusados responderão pelos
crimes apontados pelo MPF, entre eles usurpação de bens da União,
organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, redução à condição análoga à
de escravo, crimes ambientais e posse ilegal de arma de fogo.
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Saúde e segurança alimentar
Uma
liderança da Anera contou à Amazônia Real, em condição de anonimato por
medo de ameaças, que a atividade garimpeira modificou a rotina das comunidades
e trouxe preocupações constantes com relação à qualidade da água, a saúde, a
pesca e a segurança alimentar dos moradores.
“Com a
vinda do garimpo, observamos o impacto ambiental que está causando dentro do
rio, sendo um deles o uso de substâncias químicas tóxicas para extração do
ouro. Isso afeta a vida aquática dos animais e das pessoas que consomem essa
água. A poluição da água é uma das maiores preocupações”, descreveu ele.
Um
estudo apresentado na ação penal do MPF relata que entre os possíveis efeitos à
saúde estão os riscos graves de infarto e sintomas neuropsicológicos, além da
perda de QI em cerca de 33% dos nascidos vivos na região.
A
liderança tem expectativa de que as operações de fiscalização se tornem
permanentes. Embora reconheça que seja difícil eliminar completamente o garimpo
ilegal devido às riquezas minerais existentes na região do rio Abacaxis, ele
acredita que a atuação contínua do poder público pode reduzir os impactos da
atividade. “Esperamos que o poder público sempre faça essas ações. Sabemos que
é difícil parar totalmente essas atividades, mas, se houver fiscalização
constante, pelo menos será possível minimizar essa situação”, afirmou.
O rio
Abacaxis é uma área de forte pressão de atividades ilícitas, tais como pesca e
caça ilegal. Há também registros de tráfico de drogas e exploração de madeira.
A atividade garimpeira sempre fez parte de relatos locais há anos. A área, em
2020, ficou marcada pelo episódio violento que ficou conhecido
como Massacre do Rio Abacaxis.
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Aliciamento e ameaças
Fábio
Cunha Coêlho relatou à Amazônia Real que as invasões na Flora Urupadi
culminaram no aliciamento de pessoas da própria região para trabalhar no
garimpo.
“Pessoas
são contratadas com as suas embarcações para levar combustível, levar produtos,
levar alimentação, para levar e trazer pessoas no garimpo. Havia também uma
suspeita de que fora o garimpo, tinha a questão do tráfico, porque houve
aumento do consumo de entorpecentes como maconha do tipo skunk. Começamos esse
processo de solicitar e pedir socorro devido aos relatos que os ribeirinhos
traziam para nós”, disse o psicólogo à Amazônia Real.
O
avanço do garimpo também trouxe um cenário de insegurança para moradores das
comunidades do rio Abacaxis. Segundo Fábio, lideranças ribeirinhas, indígenas e
colaboradores que auxiliaram nas denúncias passaram a sofrer
intimidações.
Um dos
casos envolveu um jovem indígena que atuava como guia durante as expedições das
autoridades à região e recebeu ameaças para abandonar o trabalho. “Justamente
porque alguns garimpeiros residem em Nova Olinda [do Norte], falaram que estava
ficando perigoso para ele e que precisava parar”, contou.
Após o
episódio, os moradores das comunidades foram afastados das ações em campo, e a
própria PF passou a conduzir as operações com maior autonomia, utilizando
tecnologias como GPS para mapear a área.
“Nenhum
dos envolvidos na cadeia de comercialização possuía autorização da Agência
Nacional de Mineração (ANM) para a compra de ouro de garimpo. A legislação
vigente exige que as operações de primeira aquisição sejam realizadas
exclusivamente por instituições autorizadas, mediante emissão de nota fiscal
que identifique a origem do mineral e comprove o recolhimento dos tributos
devidos”, sustenta o MPF na ação penal.
Fonte: Por
Nicoly Ambrosio, da Amazônia Real

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