O
que acontece quando os melhores jogadores do mundo são jovens negros?
Na
noite de quarta(24), Vinicius Júnior foi, mais uma vez, o grande nome da
Seleção Brasileira. Acumulou mais uma atuação decisiva, bateu novos recordes e
reafirmou aquilo que o mundo inteiro já sabe: é um dos maiores jogadores do
planeta. Ainda assim, segue sendo um dos principais alvos de ataques racistas
no futebol mundial.
Ele não
está sozinho.
Lamine
Yamal, que sequer completou 18 anos, tornou-se o jogador que mais recebe
ataques racistas nas redes sociais da Espanha. Kylian Mbappé, há anos entre os
maiores nomes do futebol mundial, também convive diariamente com insultos
racistas direcionados à sua imagem. Três jovens. Três dos maiores jogadores do
planeta. Três negros. E os três marcados pela mesma violência.
Os
dados do Observatório Espanhol do Racismo e da Xenofobia mostram que cerca de
60% das ofensas identificadas nas redes tinham como alvo Lamine Yamal. Logo
atrás aparecem Vinicius Júnior, Mbappé e outros atletas negros que hoje ocupam
o centro do futebol mundial.
Durante
muito tempo, acreditou-se que campanhas educativas, faixas nas arquibancadas e
manifestações antes das partidas seriam suficientes para enfrentar o racismo.
Mas o futebol mudou. A violência também. Ela saiu dos estádios e encontrou nas
redes sociais um ambiente permanente para se reproduzir. O anonimato ampliou o
alcance do preconceito e permitiu que o ataque acompanhasse esses atletas para
além dos noventa minutos.
Seria
confortável tratar tudo isso como casos isolados. Não são.
Existe
um padrão evidente. Quanto mais um jogador negro alcança protagonismo,
reconhecimento e excelência, mais se torna alvo de violência racial. O racismo
procura uma brecha para desumanizar. Busca lembrar, o tempo todo, que aquele
espaço não lhes pertenceria.
Mas
quem pode afirmar que o futebol não é lugar de pessoas negras?
Se
olharmos para a história do esporte, veremos justamente o contrário. Pelé,
Garrincha, Didi, Jairzinho, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Júnior e
tantos outros não apenas participaram da história do futebol. Eles reinventaram
a forma de jogar e ajudaram a construir aquilo que hoje entendemos como a
identidade do futebol brasileiro. Agora, uma nova geração: Vinicius Júnior,
Lamine Yamal, Mbappé, Rayan, Endrick e tantos outros continuam escrevendo essa
história.
O
problema nunca foi pertencimento. O problema é que, para o racismo, ainda é
insuportável ver homens negros ocupando o topo.
Esses
jovens inspiram milhões de crianças ao redor do mundo. Mas inspiram apesar do
racismo. Inspiram porque mostram talento, inteligência, criatividade e
excelência. Mas nenhum atleta deveria precisar conviver diariamente com
insultos para exercer a profissão que escolheu.
Eles
não precisam ser reconhecidos apenas pelo que fazem dentro de campo. Precisam
ser reconhecidos pelo que fazem, pelo que conquistam, pelo que representam e
nunca reduzidos à cor da própria pele. É exatamente isso que o racismo tenta
fazer: apagar trajetórias, diminuir conquistas e transformar a identidade negra
em justificativa para o ataque.
Enquanto
isso continuar acontecendo, cada gol de Vinicius Júnior, cada drible de Lamine
Yamal e cada conquista de Mbappé continuarão dizendo algo que incomoda muita
gente: o futebol sempre foi, e continuará sendo, um espaço profundamente
marcado pela genialidade de atletas negros. E talvez seja justamente isso que o
racismo jamais consiga aceitar.
• O esporte revela aquilo que muitas vezes
o mundo não quer enxergar
Existe
algo de profundamente humano nas grandes competições esportivas. Copa do Mundo,
Olimpíadas e torneios internacionais não mobilizam apenas torcidas, eles
aproximam pessoas de histórias reais, marcadas por superação, desigualdade,
coragem e esperança.
Recentemente,
o mundo se emocionou com o relato do goleiro Vozinha, da seleção de Cabo Verde.
Aos 40 anos, vivendo um dos momentos mais importantes da carreira, ele contou
que sua mãe não conseguiu acompanhar o jogo por dificuldades financeiras e
problemas com visto. Também falou dos avós, que o criaram durante a infância e
já haviam falecido. Chorou diante das câmeras ao lembrar que demorou décadas
para alcançar aquele momento e que, mesmo sem imaginar quando criança viver
algo parecido, finalmente podia dizer ao seu “eu” mais jovem que tudo havia
valido a pena.
Em
poucas horas, milhões de pessoas passaram a conhecer sua história. O que antes
era apenas um perfil com poucos seguidores transformou-se em uma corrente
global de apoio e carinho. Brasileiros, inclusive, mobilizaram-se para
segui-lo, compartilhar sua trajetória e demonstrar afeto. Um gesto simples, mas
extremamente simbólico.
O
esporte tem essa capacidade rara de despertar coletividade em tempos tão
individualistas.
Nas
Olimpíadas também vimos histórias que emocionaram o país. A ginasta brasileira
Lorrane Oliveira conquistou uma medalha histórica poucos meses após perder a
irmã mais nova. Mesmo atravessando o luto, encontrou forças para continuar
competindo e transformou a dor em homenagem, dedicação e resistência.
Por
trás de cada medalha, defesa, corrida ou apresentação, existem pessoas reais.
Atletas que muitas vezes enfrentam pobreza, ausência de estrutura, saudade da
família, preconceito, luto e inúmeras barreiras invisíveis para chegar onde
chegaram.
As
grandes competições revelam ao mundo a diversidade humana. Vemos países
pequenos dividindo espaço com grandes potências, atletas vindos de realidades
completamente diferentes compartilhando o mesmo palco e sonhos semelhantes. Mas
também enxergamos desigualdades profundas, quem teve acesso a investimento,
quem precisou lutar sozinho, quem precisou sobreviver antes mesmo de competir.
Talvez
seja exatamente por isso que esses eventos mexam tanto conosco. Porque eles nos
lembram que a humanidade ainda é capaz de se reconhecer na dor e na vitória do
outro.
Quando
uma torcida inteira se emociona com a história de alguém que nunca viu antes,
quando milhões passam a apoiar um atleta desconhecido apenas porque
compreenderam sua trajetória, nasce algo maior do que o esporte. Nasce empatia,
nasce pertencimento, nasce comunidade. Precisamos preservar esse espírito
também fora das arenas.
Que a
emoção que sentimos durante uma Copa do Mundo ou Olimpíada não dure apenas
noventa minutos ou o tempo de uma cerimônia de medalhas. Que ela nos inspire a
construir uma sociedade mais solidária, inclusiva e humana, onde ninguém
precise vencer sozinho para finalmente ser visto.
Fonte:
Por Verônica Lima, em Brasil 247

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