sábado, 27 de junho de 2026

O que acontece quando os melhores jogadores do mundo são jovens negros?

Na noite de quarta(24), Vinicius Júnior foi, mais uma vez, o grande nome da Seleção Brasileira. Acumulou mais uma atuação decisiva, bateu novos recordes e reafirmou aquilo que o mundo inteiro já sabe: é um dos maiores jogadores do planeta. Ainda assim, segue sendo um dos principais alvos de ataques racistas no futebol mundial.

Ele não está sozinho.

Lamine Yamal, que sequer completou 18 anos, tornou-se o jogador que mais recebe ataques racistas nas redes sociais da Espanha. Kylian Mbappé, há anos entre os maiores nomes do futebol mundial, também convive diariamente com insultos racistas direcionados à sua imagem. Três jovens. Três dos maiores jogadores do planeta. Três negros. E os três marcados pela mesma violência.

Os dados do Observatório Espanhol do Racismo e da Xenofobia mostram que cerca de 60% das ofensas identificadas nas redes tinham como alvo Lamine Yamal. Logo atrás aparecem Vinicius Júnior, Mbappé e outros atletas negros que hoje ocupam o centro do futebol mundial.

Durante muito tempo, acreditou-se que campanhas educativas, faixas nas arquibancadas e manifestações antes das partidas seriam suficientes para enfrentar o racismo. Mas o futebol mudou. A violência também. Ela saiu dos estádios e encontrou nas redes sociais um ambiente permanente para se reproduzir. O anonimato ampliou o alcance do preconceito e permitiu que o ataque acompanhasse esses atletas para além dos noventa minutos.

Seria confortável tratar tudo isso como casos isolados. Não são.

Existe um padrão evidente. Quanto mais um jogador negro alcança protagonismo, reconhecimento e excelência, mais se torna alvo de violência racial. O racismo procura uma brecha para desumanizar. Busca lembrar, o tempo todo, que aquele espaço não lhes pertenceria.

Mas quem pode afirmar que o futebol não é lugar de pessoas negras?

Se olharmos para a história do esporte, veremos justamente o contrário. Pelé, Garrincha, Didi, Jairzinho, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Júnior e tantos outros não apenas participaram da história do futebol. Eles reinventaram a forma de jogar e ajudaram a construir aquilo que hoje entendemos como a identidade do futebol brasileiro. Agora, uma nova geração: Vinicius Júnior, Lamine Yamal, Mbappé, Rayan, Endrick e tantos outros continuam escrevendo essa história.

O problema nunca foi pertencimento. O problema é que, para o racismo, ainda é insuportável ver homens negros ocupando o topo.

Esses jovens inspiram milhões de crianças ao redor do mundo. Mas inspiram apesar do racismo. Inspiram porque mostram talento, inteligência, criatividade e excelência. Mas nenhum atleta deveria precisar conviver diariamente com insultos para exercer a profissão que escolheu.

Eles não precisam ser reconhecidos apenas pelo que fazem dentro de campo. Precisam ser reconhecidos pelo que fazem, pelo que conquistam, pelo que representam e nunca reduzidos à cor da própria pele. É exatamente isso que o racismo tenta fazer: apagar trajetórias, diminuir conquistas e transformar a identidade negra em justificativa para o ataque.

Enquanto isso continuar acontecendo, cada gol de Vinicius Júnior, cada drible de Lamine Yamal e cada conquista de Mbappé continuarão dizendo algo que incomoda muita gente: o futebol sempre foi, e continuará sendo, um espaço profundamente marcado pela genialidade de atletas negros. E talvez seja justamente isso que o racismo jamais consiga aceitar.

•        O esporte revela aquilo que muitas vezes o mundo não quer enxergar

Existe algo de profundamente humano nas grandes competições esportivas. Copa do Mundo, Olimpíadas e torneios internacionais não mobilizam apenas torcidas, eles aproximam pessoas de histórias reais, marcadas por superação, desigualdade, coragem e esperança.

Recentemente, o mundo se emocionou com o relato do goleiro Vozinha, da seleção de Cabo Verde. Aos 40 anos, vivendo um dos momentos mais importantes da carreira, ele contou que sua mãe não conseguiu acompanhar o jogo por dificuldades financeiras e problemas com visto. Também falou dos avós, que o criaram durante a infância e já haviam falecido. Chorou diante das câmeras ao lembrar que demorou décadas para alcançar aquele momento e que, mesmo sem imaginar quando criança viver algo parecido, finalmente podia dizer ao seu “eu” mais jovem que tudo havia valido a pena.

Em poucas horas, milhões de pessoas passaram a conhecer sua história. O que antes era apenas um perfil com poucos seguidores transformou-se em uma corrente global de apoio e carinho. Brasileiros, inclusive, mobilizaram-se para segui-lo, compartilhar sua trajetória e demonstrar afeto. Um gesto simples, mas extremamente simbólico.

O esporte tem essa capacidade rara de despertar coletividade em tempos tão individualistas.

Nas Olimpíadas também vimos histórias que emocionaram o país. A ginasta brasileira Lorrane Oliveira conquistou uma medalha histórica poucos meses após perder a irmã mais nova. Mesmo atravessando o luto, encontrou forças para continuar competindo e transformou a dor em homenagem, dedicação e resistência.

Por trás de cada medalha, defesa, corrida ou apresentação, existem pessoas reais. Atletas que muitas vezes enfrentam pobreza, ausência de estrutura, saudade da família, preconceito, luto e inúmeras barreiras invisíveis para chegar onde chegaram.

As grandes competições revelam ao mundo a diversidade humana. Vemos países pequenos dividindo espaço com grandes potências, atletas vindos de realidades completamente diferentes compartilhando o mesmo palco e sonhos semelhantes. Mas também enxergamos desigualdades profundas, quem teve acesso a investimento, quem precisou lutar sozinho, quem precisou sobreviver antes mesmo de competir.

Talvez seja exatamente por isso que esses eventos mexam tanto conosco. Porque eles nos lembram que a humanidade ainda é capaz de se reconhecer na dor e na vitória do outro.

Quando uma torcida inteira se emociona com a história de alguém que nunca viu antes, quando milhões passam a apoiar um atleta desconhecido apenas porque compreenderam sua trajetória, nasce algo maior do que o esporte. Nasce empatia, nasce pertencimento, nasce comunidade. Precisamos preservar esse espírito também fora das arenas.

Que a emoção que sentimos durante uma Copa do Mundo ou Olimpíada não dure apenas noventa minutos ou o tempo de uma cerimônia de medalhas. Que ela nos inspire a construir uma sociedade mais solidária, inclusiva e humana, onde ninguém precise vencer sozinho para finalmente ser visto.

 

Fonte: Por Verônica Lima, em Brasil 247

 

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