Reynaldo
José Aragon: Não é o MAGA. É o império
As
tarifas, os ataques ao STF, a pressão sobre o governo brasileiro, a guerra
cultural e a disputa eleitoral são apenas a superfície. Por trás delas está uma
batalha por rotas, portos, minerais, energia, infraestrutura digital e
corredores logísticos que atravessam todo o continente. Enquanto a maioria
discute personagens, a disputa real acontece sobre estruturas. E o Brasil
voltou a ocupar o centro desse tabuleiro.
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A notícia é pequena. O fato histórico é grande.
No dia
23 de junho de 2026, Donald Trump compartilhou um artigo que classificava a
eleição presidencial brasileira como seu próximo grande desafio político. A
declaração soma-se a uma sequência de pressões que vêm se acumulando nos
últimos meses: tarifas comerciais contra produtos brasileiros, ataques ao
Supremo Tribunal Federal, críticas à regulação das plataformas digitais e
tentativas crescentes de transformar a política brasileira em tema de interesse
estratégico para Washington. Não se trata de um episódio isolado.
Nos
últimos meses, Washington abriu investigações comerciais contra o Brasil,
anunciou novas tarifas, elevou o tom das críticas contra decisões do Supremo
Tribunal Federal e passou a tratar a política brasileira como tema recorrente
do debate estratégico norte-americano. No mesmo período, setores conservadores
dos Estados Unidos passaram a enquadrar a eleição brasileira de 2026 como uma
disputa de interesse hemisférico, vinculando seu resultado à correlação de
forças em toda a América Latina. À primeira vista, tudo parece apenas mais um
capítulo da polarização contemporânea. Trump contra Lula. Bolsonaro contra o
STF. Direita contra esquerda. MAGA contra progressistas.
Essa
leitura, porém, enxerga apenas a superfície dos acontecimentos. O verdadeiro
problema começa quando passamos a acreditar que a crise pode ser explicada
apenas pelos personagens que ocupam momentaneamente o palco. A pergunta central
não é por que Trump voltou a falar do Brasil. A pergunta central é por que o
Brasil voltou a ocupar uma posição tão relevante no cálculo estratégico dos
Estados Unidos. Essa mudança de perspectiva altera completamente o significado
dos fatos que estamos observando.
O erro
de grande parte das análises atuais é tratar a ofensiva contra o Brasil como
uma agenda exclusiva do trumpismo ou da nova direita norte-americana. Como se
tudo pudesse ser explicado pela radicalização ideológica do MAGA. Essa
interpretação é confortável porque personaliza um fenômeno que, na realidade, é
estrutural. Ela transforma uma disputa geopolítica em uma disputa eleitoral.
Transforma uma questão de poder em uma questão de narrativa. E, ao fazer isso,
obscurece justamente aquilo que mais importa.
Impérios
não reorganizam suas prioridades estratégicas por causa de afinidades
ideológicas. Eles o fazem quando percebem mudanças concretas na correlação de
forças internacional. Nas últimas duas décadas, os Estados Unidos assistiram à
ascensão econômica e tecnológica da China, ao fortalecimento dos BRICS, à
expansão de novos corredores comerciais, ao crescimento de mecanismos
financeiros alternativos ao dólar e à ampliação da autonomia política de
diversas potências médias. O mundo que sustentou a hegemonia absoluta de
Washington após o fim da Guerra Fria já não existe da mesma forma.
É nesse
contexto que a América Latina reaparece no horizonte estratégico
norte-americano. Não porque Trump tenha decidido olhar para o sul. Não porque a
nova direita tenha descoberto a região. Mas porque a transformação da economia
mundial devolveu ao continente uma importância que muitos julgavam superada. O
que está em disputa não são apenas governos, eleições ou alinhamentos
ideológicos. O que está em disputa são rotas, portos, energia, minerais
estratégicos, infraestrutura digital, corredores logísticos e a capacidade de
organizar os fluxos que movimentarão a economia global nas próximas décadas.
Por
isso, a notícia do dia é menor do que parece. O compartilhamento de um artigo
por Donald Trump pode ocupar as manchetes. Mas o fato histórico relevante está
em outro lugar. Pela primeira vez em muitos anos, a principal potência do
planeta voltou a tratar a América Latina não como periferia, mas como
território decisivo para a preservação de sua influência global. E nenhum país
ocupa posição mais importante nessa disputa do que o Brasil.
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Não é uma disputa ideológica. É uma disputa por hegemonia.
A maior
parte das análises sobre a crise atual parte de uma premissa equivocada. Supõe
que a escalada de pressões sobre o Brasil seja consequência direta da ascensão
do trumpismo ou da radicalização da direita norte-americana. Essa interpretação
confunde forma com conteúdo. O que está em movimento é algo muito maior: a
tentativa dos Estados Unidos de administrar a erosão relativa de sua própria
hegemonia em um sistema internacional que já não conseguem controlar da mesma
forma que controlavam há trinta anos.
Os
fatos são eloquentes. Nos últimos anos, a China consolidou-se como principal
parceiro comercial de grande parte da América do Sul. Os BRICS ampliaram sua
influência econômica e política. Novos mecanismos financeiros passaram a ser
discutidos fora da órbita tradicional do dólar. Pela primeira vez desde o fim
da Guerra Fria, Washington passou a observar a formação de redes econômicas,
financeiras e logísticas que escapam parcialmente de sua capacidade de
coordenação. O avanço dos BRICS, a ampliação das relações
sino-latino-americanas e os novos corredores de integração continental
sinalizam uma redistribuição gradual de poder que ultrapassa governos e ciclos
eleitorais.
Corredores
logísticos ligando a América do Sul ao Pacífico avançaram do papel para a fase
de execução. O porto de Chancay, no Peru, financiado por capital chinês,
tornou-se um dos símbolos mais evidentes dessa transformação. Ao mesmo tempo,
projetos como a Ferrovia Bioceânica passaram a ser tratados não apenas como
obras de infraestrutura, mas como instrumentos de reorganização dos fluxos
globais de comércio.
O
problema para Washington não é apenas econômico. É a possibilidade de perder
capacidade de organizar os fluxos que sustentaram sua hegemonia durante
décadas. Os Estados Unidos ocuparam a posição de principal organizador dos
fluxos financeiros, comerciais e tecnológicos do planeta. Essa condição
permitiu que sua influência ultrapassasse largamente seu poder militar. Mas
essa capacidade de organização passou a enfrentar limites cada vez mais
visíveis. A ascensão chinesa, o fortalecimento de novas coalizões internacionais
e a crescente autonomia de potências regionais reduziram a margem de manobra de
uma ordem internacional construída sob liderança norte-americana após o fim da
Guerra Fria.
É nesse
contexto que a América Latina volta ao centro do tabuleiro. Não por acaso, mas
por necessidade histórica. Quando a capacidade de influência global encontra
obstáculos crescentes na Eurásia, no Oriente Médio e em outras regiões
estratégicas, a importância da retaguarda hemisférica aumenta. Não se trata de
uma novidade da administração Trump. Trata-se de uma lógica recorrente das
grandes potências ao longo da história. Nenhum centro de poder aceita
passivamente a perda de influência sobre sua área imediata de projeção
estratégica.
É por
isso que a crise atual não pode ser compreendida apenas através das disputas
eleitorais brasileiras ou das guerras culturais que dominam as redes sociais.
As tarifas, as pressões diplomáticas, os ataques às instituições brasileiras e
a crescente tentativa de enquadrar a política nacional como tema de interesse
estratégico dos Estados Unidos são manifestações diferentes de uma mesma
preocupação. O que está em disputa não é apenas quem governará o Brasil nos
próximos anos. O que está em disputa é a posição que o país ocupará na
reorganização do poder global que já está em curso.
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A América Latina voltou a ser a retaguarda estratégica do império
A
melhor forma de entender a crise atual é observar para onde os Estados Unidos
estão olhando. Não para os discursos. Não para as eleições. Não para as redes
sociais. Mas para os mapas.
Nos
últimos anos, Washington voltou a concentrar atenção sobre alguns dos
principais gargalos logísticos do planeta. O Canal do Panamá retornou ao centro
da disputa entre Estados Unidos e China porque continua sendo uma das
principais artérias do comércio mundial. No Peru, a inauguração do porto de
Chancay criou uma rota direta entre a América do Sul e a Ásia, reduzindo custos
logísticos, encurtando prazos de transporte e diminuindo a dependência de
circuitos historicamente organizados sob influência norte-americana. Pela
primeira vez em décadas, uma infraestrutura de escala continental começou a
reposicionar parte dos fluxos comerciais sul-americanos diretamente em direção
ao Pacífico. Pela primeira vez em décadas, uma parcela crescente dos fluxos
comerciais sul-americanos começa a encontrar caminhos alternativos às rotas
historicamente organizadas sob influência norte-americana.
O mesmo
ocorre com os projetos de integração física do continente. A Ferrovia
Bioceânica, os corredores rodoviários ligando o Atlântico ao Pacífico e os
investimentos em infraestrutura regional não representam apenas obras de
transporte. Representam a possibilidade concreta de reorganizar a geografia
econômica da América do Sul. Cada quilômetro de trilho, cada novo terminal
portuário e cada corredor logístico reduzem custos, encurtam distâncias e
ampliam a autonomia de países que, durante décadas, permaneceram dependentes de
circuitos econômicos desenhados em outra época e para outros interesses.
O
Atlântico Sul ocupa posição semelhante. A região concentra rotas marítimas
estratégicas, reservas energéticas, cabos submarinos de comunicação e uma
parcela crescente da infraestrutura digital que sustenta a economia
contemporânea. Não por acaso, a presença militar, diplomática e econômica das
grandes potências voltou a crescer nesse espaço. A disputa não ocorre apenas
sobre territórios. Ocorre sobre os sistemas que conectam territórios.
É
justamente aí que muitas análises se perdem. O que está em jogo não é apenas o
controle de governos. É o controle dos fluxos. Fluxos de mercadorias, energia,
minerais estratégicos, informações, dados e investimentos. A lógica que orienta
a competição geopolítica do século XXI não é mais apenas territorial. Ela é
logística. Quem controla os corredores, os portos, as redes e as
infraestruturas controla uma parte decisiva da capacidade de organizar a
economia global.
Sob
essa perspectiva, a América Latina deixa de ser periferia e volta a ser
infraestrutura estratégica. E é exatamente por isso que a região reaparece no
centro das preocupações de Washington. Não porque tenha mudado de ideologia.
Mas porque mudou de posição dentro da arquitetura do poder mundial.
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O Brasil é o prêmio
Se a
América Latina voltou a ocupar posição estratégica na disputa global por
fluxos, o Brasil tornou-se seu ativo mais valioso. Nenhum outro país da região
reúne, simultaneamente, a mesma combinação de território, população, recursos
naturais, capacidade produtiva, posição geográfica e peso político
internacional. É exatamente essa combinação que explica por que o Brasil voltou
a aparecer com tanta frequência nos cálculos estratégicos de Washington.
O país
concentra algumas das maiores reservas de água doce do planeta, é um dos
maiores exportadores mundiais de alimentos, possui reservas estratégicas de
petróleo, abriga minerais indispensáveis para a transição tecnológica e ocupa
posição central na conexão entre Atlântico Sul, Amazônia e América do Sul. Em
um mundo marcado pela disputa por energia, segurança alimentar, infraestrutura
digital e minerais críticos, poucos territórios concentram simultaneamente
tantos ativos estratégicos quanto o Brasil. Ao mesmo tempo, controla uma
extensa faixa do Atlântico Sul, integra os BRICS, mantém relações econômicas
crescentes com a China e ocupa posição central em qualquer projeto de
integração física da América do Sul.
A
transformação dos fluxos globais ampliou ainda mais essa importância. À medida
que novos corredores comerciais conectam a América do Sul ao Pacífico e ao
mercado asiático, o território brasileiro deixa de ser apenas um grande mercado
consumidor ou exportador de commodities. Ele passa a funcionar como peça-chave
de uma nova arquitetura logística continental. A Ferrovia Norte-Sul, a Fiol, a
Fico, os corredores bioceânicos e as conexões projetadas entre o centro
produtivo brasileiro e os portos do Pacífico não representam apenas
investimentos em infraestrutura. Representam a possibilidade concreta de
reorganizar rotas comerciais historicamente estruturadas sob outras lógicas
geopolíticas. Se esses projetos forem consolidados, parte crescente da produção
brasileira poderá alcançar a Ásia sem depender dos circuitos logísticos que
dominaram o comércio hemisférico durante décadas.
O mesmo
ocorre no campo tecnológico. A disputa contemporânea já não envolve apenas
petróleo, minérios ou produção industrial. Ela envolve infraestrutura digital,
centros de processamento de dados, inteligência artificial, redes de
comunicação e capacidade de armazenamento. Nesse cenário, o Brasil tornou-se um
espaço estratégico para investimentos em data centers, cabos submarinos e
serviços digitais que serão fundamentais para a próxima fase da economia
global. A disputa pelos fluxos do século XXI não ocorre apenas sobre
mercadorias. Ocorre também sobre dados.
É
justamente por isso que a política brasileira passou a despertar atenção
crescente fora de suas fronteiras. Não porque Washington tenha desenvolvido um
interesse súbito pelo processo eleitoral brasileiro. Mas porque as decisões
tomadas em Brasília possuem impacto direto sobre corredores logísticos,
relações comerciais, integração regional, infraestrutura digital, recursos
estratégicos e alinhamentos internacionais. O Brasil deixou de ser apenas um
ator regional. Tornou-se uma variável relevante na disputa pela configuração da
ordem internacional que emerge da crise da hegemonia unipolar.
Por
essa razão, interpretar a ofensiva atual como simples expressão do trumpismo
significa olhar para a sombra e ignorar o objeto que a produz. Trump pode ser o
instrumento mais visível. Pode ser a voz mais estridente. Pode ser a face mais
agressiva do processo. Mas a centralidade do Brasil não nasce nele. Ela nasce
da posição objetiva que o país passou a ocupar em um mundo que se reorganiza
rapidamente. O Brasil não está no centro da disputa porque Trump decidiu
colocá-lo ali. O Brasil está no centro da disputa porque a geografia, a
economia e a política internacional o colocaram ali.
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Não é o MAGA. É o império.
Existe
um erro recorrente na forma como o Brasil interpreta as grandes transformações
internacionais. Tendemos a enxergar processos estruturais através dos
personagens que momentaneamente ocupam o palco. Foi assim durante a Guerra
Fria. Foi assim durante a ascensão da globalização. E volta a acontecer agora.
Enquanto parte do debate nacional se concentra em Trump, Bolsonaro, Lula, STF,
plataformas digitais e eleições, uma disputa muito mais profunda avança
silenciosamente sob nossos pés.
O que
está em curso não é apenas uma batalha política. É uma disputa pela
reorganização dos fluxos que sustentarão o poder global nas próximas décadas.
Portos, corredores bioceânicos, energia, minerais estratégicos, infraestrutura
digital, inteligência artificial, cabos submarinos, rotas marítimas e cadeias
produtivas tornaram-se ativos centrais de uma nova geopolítica. A América
Latina voltou ao centro dessa disputa porque concentra parte significativa
desses recursos. E o Brasil ocupa posição privilegiada dentro dessa
arquitetura.
Por
isso, a ofensiva atual não pode ser compreendida apenas como manifestação do
trumpismo ou da radicalização da direita norte-americana. Trump é um fenômeno
político. A disputa é histórica. O MAGA é uma forma de atuação. O império é a
estrutura que lhe dá direção. As tarifas, as pressões diplomáticas, os ataques
institucionais, a guerra cultural e a crescente tentativa de transformar a
política brasileira em tema de interesse estratégico para Washington são
expressões diferentes de uma mesma realidade: a dificuldade dos Estados Unidos
em administrar a transição para um mundo cada vez mais multipolar.
O
verdadeiro desafio do Brasil não é compreender Trump. É compreender a
transformação histórica que tornou o país importante demais para ser ignorado e
estratégico demais para ser deixado em paz. Enquanto continuarmos discutindo
apenas os atores, continuaremos chegando atrasados às disputas que realmente
importam. Porque a batalha decisiva do nosso tempo não está sendo travada
apenas nos parlamentos, nas redes sociais ou nas urnas. Ela está sendo travada
sobre os fluxos que definirão quem terá capacidade de organizar a economia, a
tecnologia e o poder no século XXI.
E é
exatamente por isso que o erro mais perigoso deste momento é acreditar que
estamos diante de uma simples disputa eleitoral. Não estamos. O que está em
jogo é a posição que o Brasil ocupará na nova geografia do poder mundial.
Fonte:
Brasil 247

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