Como
proteger quem defende os direitos humanos?
Lutar
por justiça nos territórios é um grande risco, no Brasil. Defensores são alvos
de assassinatos, perseguições e estigmas. Medidas individuais e policialescas
não bastam. Campanha no Maranhão defende uma pedagogia da proteção e criação de
lei de preservação da vida...
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O panorama nacional dos riscos e os limites da proteção individual
Os
dados do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores
e Ambientalistas (PPDDH) apontam que as situações de risco no país atingem
grupos e organizações em sua atuação coletiva. Cerca de 80% das pessoas
protegidas pela política pública de proteção a defensoras e defensores de
direitos humanos atuam em lutas relacionadas à terra e ao território,
evidenciando a forte relação entre conflitos territoriais e situações de risco
enfrentadas por quem defende os direitos humanos.
O
diagnóstico de organizações da sociedade de direitos humanos revela que o
avanço de atividades econômicas predatórias cria ambientes de risco tanto nas
franjas das florestas quanto nas periferias urbanas. No artigo Proteção Popular
e Direitos Humanos frente à crise do Hiperimperialismo, o advogado e
pesquisador Luis Antonio Câmara Pedrosa explica que esse cenário decorre de uma
dinâmica internacional voltada à exploração intensiva de bens comuns e à
desestruturação de direitos. Nesse contexto, quem atua na luta popular passa a
ser alvo de pressões e tentativas de silenciamento.
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A pluralidade dos defensores e os indicadores de risco
A
análise dos contextos de risco demonstra que a necessidade de proteção alcança
diferentes perfis de militância:
• Comunicadores Populares: profissionais
de mídias alternativas e comunitárias que sofrem ameaças ao investigar crimes
ambientais, corrupção ou violência institucional.
• Lideranças Étnicas e Territoriais: povos
indígenas e quilombolas e outras comunidades e povos tradicionais que buscam a
regularização de suas terras.
• Defensores Ambientais: ativistas que
monitoram a poluição de mananciais e a destruição de biomas como o Cerrado e a
Amazônia.
• Ativistas de Direitos Sociais:
lideranças urbanas que trabalham no enfrentamento à violência policial, na luta
pela moradia e na organização de bairros periféricos.
No
Maranhão, estado que abriga 2.025 comunidades quilombolas e sete etnias
indígenas, além de uma expressiva população urbana e rural, os conflitos se
manifestam de múltiplas formas. O monitoramento do Mapa do Veneno — coordenado
pela Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), FETAEMA e LEPENG-UFMA—
exemplifica uma dessas vertentes ao registrar que 110 comunidades foram
afetadas pela pulverização aérea de agrotóxicos no último ano, número que
saltou para 142 ocorrências em 16 municípios apenas no mês de janeiro de 2026.
Ao
mesmo tempo, os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) indicam
uma elevação de 11,5% nas Mortes Violentas Intencionais (MVI) na região,
evidenciando que a interiorização da violência e a atuação de grupos armados
geram riscos difusos que impactam o conjunto das defensoras e defensores de
direitos humanos no território.
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O conceito de vida integral e experiências de proteção popular
A
experiência prática das organizações demonstra que medidas estritamente
policiais e individuais, como a oferta de escoltas pontuais ou coletes
balísticos, são insuficientes para resolver situações coletivas. Em sua
análise, Luis Antonio Câmara Pedrosa defende a centralidade do conceito de Vida
Integral nas políticas de direitos humanos.
A
proteção de um defensor e uma defensora não funciona de forma isolada do seu
ambiente de atuação. Para que um comunicador popular ou uma liderança
comunitária siga em atividade, é necessário garantir a segurança do coletivo, a
integridade do meio de existência e a preservação dos laços comunitários.
Para
operacionalizar essa visão, a sociedade civil organizou a proposta da proteção
popular, que tem centralidade na Pedagogia da Proteção. Ela está estruturada em
três dimensões complementares:
1. Autoproteção: procedimentos cotidianos de
segurança e avaliação de riscos feitos pelas individualidades e pelas
coletividades envolvidas.
2. Proteção Recíproca: ações de cuidado
mútuo, monitoramento compartilhado e fluxos de informação internos entre os
membros de um mesmo grupo ou organização e entre organizações parceiras.
Proteção
Solidária: a construção de redes de apoio externas com entidades de direitos
humanos, assessoria jurídica popular e órgãos públicos para dar visibilidade às
denúncias e promover apoio às organizações e pessoas que precisam de proteção.
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Avanços normativos
No
campo institucional, o cenário teve um avanço importante, com uma nova
ferramenta: a publicação do Decreto Federal n. 12.710, de 5 de novembro de
2025, que instituiu o Plano Nacional de Proteção a Defensoras e Defensores de
Direitos Humanos (PlanoDDH) para os próximos dez anos. O documento resultou do
Grupo de Trabalho Técnico Sales Pimenta, criado pelo presidente Lula e
coordenado pelo Ministério dos Diretos Humanos e da Cidadania. Sua realização
atendeu a articulações lideradas pelas organizações da sociedade civil por meio
do Comitê Brasileiro de Defensores e Defensoras de Direitos Humanos, do qual a
Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) é parte, com a promoção de
Ações Civis Públicas (ACPs) e mediações do Ministério Público Federal (MPF).
O
PlanoDDH incorporou as metodologias desenvolvidas em projetos como Sementes de
Proteção Popular e Defendendo Vidas, executados pela Sociedade Maranhense de
Direitos Humanos (SMDH), o Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) e
outras organizações. O Plano reconhece e incorpora a proteção popular e
coletiva como prioritárias e prevê um conjunto de ações programáticas de apoio
a elas, voltada a grupos, coletivos e bases territoriais, superando o foco
exclusivamente individual das normas anteriores.
Na
agenda de incidência política estão dois desafios: aprovar o Projeto de Lei n.
6.462/2025, que institucionaliza a política nacional de proteção a defensores e
defensoras de direitos humanos e a conclusão da ratificação do Acordo de Escazú
no Senado Federal. O Projeto de Lei está na Câmara aguardando definição de
tramitação e o Acordo está aguardando votação de requerimento de regime de
urgência no Senado. O tratado é o primeiro instrumento vinculante da região
voltado a assegurar o acesso à informação, a participação pública e as
garantias de segurança para quem atua na defesa ambiental.
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Desafios para a sustentabilidade da luta
O
principal obstáculo para a consolidação das redes de proteção é o enfrentamento
aos processos de estigmatização e criminalização que atingem as defensoras e
defensores. Conforme indicam os relatórios das entidades, a desmistificação
dessa atividade perante a opinião pública é necessária para consolidar a
compreensão de que a defesa dos direitos humanos constitui elemento de
sustentação da própria democracia.
Os
próximos passos das organizações envolvem a cobrança pela ampliação dos
programas de proteção, a implementação do Plano e a aprovação das medidas
legislativas. Assegurar que as garantias legais se traduzam em mecanismos
práticos de preservação da vida de todas as defensoras e defensores em
atividade no país é o grande desafio.
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Brasil institui Plano Nacional de Proteção a
Defensoras/es de Direitos Humanos
Encontra-se
em vigor desde novembro de 2025 o Plano Nacional de Proteção a Defensoras e
Defensores de Direitos Humanos (Plano DDH). O documento representa um marco na
trajetória de mais de duas décadas de luta, mobilização e reivindicação de
movimentos populares e organizações sociais pela consolidação de uma política
pública voltada à garantia do direito de lutar e à proteção da vida de quem
atua na defesa dos direitos humanos no Brasil.
O Plano
tem como objetivo fortalecer a atuação articulada e coordenada do Estado na
criação de políticas, programas, iniciativas e ações que assegurem a proteção
integral de defensoras e defensores de direitos humanos nos âmbitos individual,
coletivo e territorial.
Sob
coordenação do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o Plano
prevê ainda a cooperação entre União, Estados, Distrito Federal e Municípios,
além de reafirmar a importância da participação da sociedade civil na
formulação, implementação e monitoramento das políticas públicas. São
reconhecidos como defensoras de direitos humanos pessoas, grupos, comunidades,
comunicadores e ambientalistas que promovem e defendem os
direitos humanos.
“A
publicação do decreto é um passo muito importante para colocar
na ordem do dia a responsabilidade do Estado Brasileiro com os
defensores e defensoras de direitos Humanos. Nós lutamos por 20 anos
para que a política pública tivesse muito mais consistência do ponto de vista
dos marcos legais, mas principalmente os compromissos políticos do
Estado brasileiro com as pessoas que lutam por direitos”, afirmou Darci
Frigo, coordenador executivo da Terra de Direitos, que contribuiu com a
construção do texto que deu base para o Plano DDH.
O Plano
tem como princípios orientadores: a integralidade dos direitos humanos, a
participação social e democrática, a proteção da vida e dos direitos humanos, o
repúdio à violência institucional e o enfrentamento à discriminação, que
refletem e reconhecem o acúmulo histórico de lutas de defensoras e defensores
que enfrentam, cotidianamente, ameaças, perseguições e
assassinatos em todo o país.
Sandra
Carvalho, do Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos
Humanos — articulação que reúne diversas organizações da sociedade civil e
movimentos sociais e atua, desde 2004, na proteção a defensoras e defensores e
na incidência por uma política nacional de proteção — destaca a importância
deste momento para a defesa dos direitos humanos no país.
“O
decreto é um passo muito importante para fortalecer a proteção de defensoras e
defensores de direitos humanos no Brasil e reconhecer o papel fundamental que
exercem no fortalecimento da democracia. Fruto de muita luta da sociedade
civil, o Plano avança ao priorizar também a proteção coletiva”,
ressalta. Isso porque as
organizações defendem o extrapolamento do conceito de
defensor reservado à um indivíduo. Na avaliação das organizações - e
presente no Decreto - é também dever do estado
brasileiro proteger coletividades, como um assentamento
de trabalhadores, territórios quilombolas ou uma aldeia indígena,
que estão expostos a contextos de violência em razão de
defenderem seus direitos.
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Marco histórico das políticas de proteção
A
publicação do Plano Nacional marca um processo de construção coletiva
de muitos anos protagonizado por movimentos populares,
organizações sociais e defensores e defensoras de direitos humanos,
que teve como um dos momentos centrais a instituição do Grupo de Trabalho
Técnico (GTT) Sales Pimenta, em junho de 2023. O colegiado foi
instituído em resposta à condenação do Brasil pela Corte Interamericana de
Direitos Humanos pelo assassinato do advogado e defensor Gabriel Sales Pimenta,
ocorrido em 1982, e à decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região de
2017, que determinou a elaboração de um plano nacional de proteção.
De
composição paritária, o GTT reuniu representantes de movimentos sociais,
organizações – entre elas a Terra de Direitos – e o Governo Federal em um
trabalho coletivo de mais de um ano, que resultou no texto que fundamentou o
decreto do Plano DDH.
O documento foi entregue
ao Ministério de Direitos Humanos e Cidadania em dezembro de
2024, após um extenso processo participativo que
incluiu cerca de 50 escutas públicas online e
presenciais em diversos estados do país. O documento final apresentado ao
governo continha a consolidação de diagnósticos, propostas e reivindicações de
defensores e defensoras que participaram das escutas.
<><> Desafios e perspectivas
O Plano
DDH deve agora ser publicado na íntegra por meio de uma portaria do Ministério
dos Direitos Humanos e da Cidadania conjunta com outros ministérios
para regulamentação das ações e instituição do Comitê de Implementação,
Monitoramento e Avaliação do Plano Nacional. Além disso, o relatório final
elaborado pelo GTT Sales Pimenta deu origem na minuta do Anteprojeto
de lei que deve consolidar a Política Nacional de Proteção a Defensoras e
Defensores de Direitos Humanos como uma política de Estado, como ressalta
Frigo.
“Existe
a necessidade de o governo encaminhar ao legislativo uma
mensagem com a proposta de lei que dá mais força a política de proteção. O
projeto de lei já está na Casa Civil e agora precisa ser encaminhado ao
Congresso para ser analisado e aprovado”, afirmou.
O
desafio agora é transformar o Plano em instrumento efetivo de proteção e
prevenção à violência, com articulação interministerial e participação ativa da
sociedade civil. A criação de um mecanismo legal permanente e de um fundo
específico de financiamento são pautas centrais dos movimentos que há anos
denunciam a omissão do Estado diante da escalada de ameaças e
assassinatos.
“Durante
a construção do Plano Nacional debatemos sempre que era necessário, desde logo,
o Ministério se reestruturar com equipe e orçamento para dar conta da demanda
de atendimento às situações de defensores e defensoras de direitos. Então é
preciso que melhore significativamente a qualidade do atendimento e a proteção
aos defensores e defensoras de direitos humanos, agora com esse plano, que
reconhece também a necessidade de proteção coletiva. Então a gente tem esse e
outros desafios a serem enfrentados na implementação da política”,
conclui Frigo
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Intensa violência
O país
vive um preocupante contexto de violência contra quem defende
direitos humanos. Levantamento realizado pelas organizações Terra de
Direitos e Justiça Global revelam que a cada 36 horas, uma pessoa é vítima
de violência por defender direitos humanos no Brasil.
O estudo Na Linha de Frente — Violência contra
Defensoras e Defensores de Direitos Humanos no Brasil (2023–2024),
lançado em em agosto deste ano mapeou 318 episódios de
violência contra defensores nos anos de 2023 e 2024, que resultaram em 486
vítimas — sendo 364 pessoas e 122 coletivos, como comunidades inteiras,
movimentos sociais e organizações.
Entre
2023 e 2024, foram identificados 55 assassinatos, 96 atentados à
vida, 175 ameaças e 120 episódios de criminalização apenas nos dois primeiros
anos do atual governo. Entre os 486 casos de violência mapeados entre 2023
e 2024, 80,9% foram contra quem atua na defesa ambiental e territorial, ou
seja, justamente aquelas e aqueles que enfrentam diretamente os impactos da
crise climática. Lideranças indígenas, quilombolas e camponesas estão entre os
principais alvos.
Fonte:
Por Carla Renata, em Outras Palavras/Terra de Direitos

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