José
Álvaro de Lima Cardoso: O Irã enfrentou o principal império mundial. E foi
avassalador
No dia
17 de junho, Irã e EUA assinaram oficialmente o Memorando de Entendimento de
Islamabad, conforme nomenclatura do governo de Teerã. Pelos Estados Unidos, o
presidente Donald Trump assinou o documento eletronicamente; pela República
Islâmica do Irã, o presidente Masoud Pezeshkian também assinou o documento de
forma digital. Pelo país mediador, o Paquistão, o primeiro-ministro Shehbaz
Sharif assinou e endossou formalmente o memorando na qualidade de mediador
oficial do conflito.
Não se
sabe se o entendimento irá progredir, já que o presidente dos EUA mente até
pelos cotovelos e muda de ideia várias vezes ao dia. Além do fato de que a
agressão ao Irã compõe uma estratégia mais geral dos EUA de ataque aos BRICS,
mirando principalmente seus principais inimigos, China e Rússia. Mas a análise
cuidadosa dos 14 pontos do memorando é a prova cabal de que o Irã impôs uma
derrota total aos EUA, ainda que não definitiva. Na prática, este memorando
preliminar atua como um cessar-fogo imediato e estabelece um roteiro
diplomático. Os pontos mais críticos envolvem:
- O fim das
hostilidades militares diretas e indiretas, incluindo o Sul do Líbano.
- A liberação do
tráfego comercial de petróleo e a retirada das minas no Estreito de Ormuz.
- A criação de um
fundo de reconstrução de pelo menos US$ 300 bilhões para o Irã.
- O compromisso do
Irã de não desenvolver armas nucleares, mantendo o status quo de seu
enriquecimento atual até o tratado definitivo.
A
partir da assinatura formal, iniciou-se uma janela de 60 dias para que as
equipes técnicas e diplomáticas de ambos os países negociem os detalhes mais
complexos e sensíveis, visando à redação e à aprovação do tratado de paz
definitivo, que deverá ser chancelado pelo Conselho de Segurança da ONU. O
acordo está previsto em duas etapas. Nos primeiros trinta dias, está previsto o
alívio das sanções e o pagamento de pelo menos metade do dinheiro devido ao Irã
de bens confiscados.
O
montante total de recursos iranianos bloqueados no exterior e o mecanismo
utilizado para o seu congelamento envolvem uma complexa teia de sanções
econômicas e geopolíticas. O valor total dos ativos do Irã retidos no exterior
é estimado em cerca de US$ 120 bilhões. Os dados variam conforme as fontes, mas
o valor mínimo é de US$ 100 bilhões. O que é uma verdadeira fortuna,
considerando que o PIB do Irã em 2025 foi de aproximadamente US$ 356,51
bilhões.
Esse é
o montante total estimado em ativos líquidos, ou seja, dinheiro em espécie
depositado em contas bancárias internacionais, decorrente principalmente de
vendas de petróleo e gás natural que o Irã realizou antes do endurecimento das
sanções. Esse dinheiro pode ser movimentado quase imediatamente se houver
autorização. Há outra parte em ativos imobilizados, ou seja, recursos que estão
na forma de imóveis, propriedades e fundos de investimento de longo prazo, que
estão congelados há décadas, praticamente desde a Revolução de 1979, e que têm
recuperação muito mais complexa. No âmbito do Memorando de Islamabad, o Irã
exigiu inicialmente a liberação de US$ 24 bilhões, com liberação imediata de
cerca de US$ 12 bilhões, visando aliviar uma dramática crise cambial e
econômica interna.
A maior
parte do dinheiro confiscado não está guardada em bancos dentro dos Estados
Unidos, mas sim em instituições financeiras de países parceiros comerciais do
Irã. O bloqueio ocorre por meio de um mecanismo conhecido como sanções
secundárias. Por exemplo, o Irã vendeu grandes volumes de petróleo e gás para
nações como China, Índia, Coreia do Sul, Japão e Iraque. Os pagamentos foram
depositados em contas bancárias desses respectivos países compradores, que
agora estão com dificuldades para transacionar com o Irã.
Como é
conhecido, quase todas as transações internacionais de grande porte dependem do
sistema de compensação em dólar e de bancos que possuem filiais ou negócios nos
EUA. O Departamento do Tesouro dos EUA notifica os bancos estrangeiros de que,
se eles processarem ou transferirem qualquer valor para o governo do Irã, serão
completamente banidos do sistema financeiro americano e perderão o direito de
transacionar em dólares. Diante da escolha entre manter o acesso ao gigantesco
mercado americano, baseado no dólar, ou liberar os fundos do Irã, as
instituições financeiras internacionais optam por congelar os recursos
iranianos em suas contas.
A
imensa maioria do dinheiro bloqueado está retida desde 2018. Foi o ano em que o
governo dos EUA se retirou unilateralmente do acordo nuclear de 2015, o JCPOA,
e restabeleceu sanções severas sobre o setor energético e financeiro do Irã,
impedindo o país de repatriar o dinheiro de suas exportações de petróleo. Os
fundos líquidos do Irã estão distribuídos principalmente entre China, maior
volume, acumulado pela compra contínua de petróleo iraniano ao longo dos anos;
Coreia do Sul, cerca de US$ 7 bilhões em contas de bancos sul-coreanos; Catar,
cerca de US$ 6 bilhões; além de Iraque, Índia e Japão, que também acumulam
bilhões de dólares em contas locais referentes a pagamentos de importação de
energia que nunca puderam ser enviados a Teerã.
É
reconhecido pela maioria dos analistas que dificilmente o acordo vai progredir,
porque o seu sucesso, mesmo não alcançando a totalidade das cláusulas,
significaria uma humilhação completa para os EUA. No entanto, independentemente
do que ocorrer, a existência em si do Memorando significa uma grande
reviravolta geopolítica no Oriente Médio, com o Irã emergindo como a grande
potência regional. Essa constatação é fruto do que aconteceu na realidade do
terreno da guerra. O império norte-americano, que em 2025 gastou mais em defesa
do que os seis países seguintes somados, incluindo China e Rússia, juntamente
com o seu “porta-aviões”, Israel, apostou tudo contra o Irã, ficando inclusive
sem munições. E o país persa resistiu bravamente. A resistência iraniana combinou
valentia extrema com fina inteligência estratégica, fruto de milênios de
guerras e das dificuldades mais variadas.
Se a
guerra for retomada, a situação irá ficar cada vez mais difícil para os EUA,
principalmente pelo seu impacto na economia mundial, elemento-chave da
estratégia do Irã ao controlar o Estreito de Ormuz. Donald Trump declarou, no
dia da assinatura do memorando, que as reservas estratégicas de petróleo dos
EUA, SPR, durariam cerca de quatro semanas. Nesse caso, Trump não estava
mentindo: várias outras fontes reportaram que o SPR se esgotaria na primeira ou
segunda semana de julho.
Os EUA
estão usando todo o seu poder de manipulação da mídia mundial para esconder da
opinião pública um fato essencial: sofreram possivelmente a maior derrota
estratégica da sua história. Donald Trump, em vez de fazer o Irã voltar à Idade
da Pedra, como ameaçou em 1º de abril de 2026, 77 dias depois, em 17 de junho
de 2026, estava assinando o Memorando de Entendimento de Islamabad, com o rabo
entre as pernas.
O Irã,
que foi atacado à traição em meio a uma negociação com os EUA, venceu em todos
os aspectos. O que não significa que o prejuízo humano e econômico não tenha
sido aterrador para o país. Mas o povo iraniano estava preparado para enfrentar
tudo em nome da sua soberania e dignidade. Em menos de quatro meses, até a
assinatura do Memorando de Entendimento, o Irã emergiu como a grande potência
regional no Oeste da Ásia e uma das maiores potências do Sul Global, admirada
em todos os quadrantes pela sua coragem, determinação e coerência. A conquista
do Irã não somente é importante em si, mas também pelo exemplo que está dando
aos países economicamente atrasados do Sul Global, oprimidos pelo império
norte-americano e sem coragem para enfrentá-lo.
O
governo iraniano sabe que a assinatura de um memorando de entendimento não
garante nada. O que Trump fez ao assinar o documento foi ganhar tempo, em
função do agravamento da crise econômica mundial, deflagrada pela redução da
oferta de petróleo. A ideia é acalmar os mercados globais de energia e os
mercados de bônus e, ao mesmo tempo, ganhar tempo para reabastecer as Forças
Armadas norte-americanas nos próximos meses. Não faltarão pretextos para
reiniciar a guerra, já que os 14 pontos do memorando são praticamente a pauta
de reivindicações do Irã. Trump quer, ao mesmo tempo, disfarçar uma derrota
estrondosa no terreno de guerra e evitar outra grande derrota nas urnas, nas
eleições de meio de mandato, em 3 de novembro. Esta última parece também
inevitável.
Essa
guerra pode ser retomada a qualquer momento porque as suas verdadeiras
motivações permanecem. Essa é uma guerra de vida ou morte contra a aliança
estratégica entre Rússia e China, que inclusive foi fortalecida pela agressão
ao Irã. É uma guerra que está sendo travada também contra os BRICS e todo o Sul
Global. Isso tudo permanece; por isso, a guerra pode ser retomada a qualquer
momento, sob pretextos diferentes.
¨
Irã sai fortalecido da guerra com EUA e garante sua
vantagem estratégica, diz mídia
O Irã
saiu invicto após quase quatro meses de conflito com um rival regional dotado
de armas nucleares, Israel, e com a maior potência militar do mundo, os Estados
Unidos, escreve um veículo de comunicação da mídia ocidental.
A
publicação aponta que o Irã continua controlando seu território, e sua base
industrial segue produzindo mísseis, drones e foguetes.
"Embora
muitos dos principais líderes de Teerã tenham sido mortos, os sobreviventes
continuam determinados a conduzir as negociações para um desfecho
vantajoso", ressalta o veículo.
Segundo
a matéria, a capacidade do Irã de resistir a meses de ataques intensos
demonstra uma combinação notável de profundidade estratégica e
resiliência, evidenciando a eficácia de sua preparação para a guerra moderna.
Sua
rede de grupos aliados proporcionou a Teerã uma vantagem dissuasória, fazendo
com que adversários poderosos pensassem duas vezes antes de agir e
possibilitando respostas
assimétricas quando
os combates começaram, observa a reportagem.
Apesar
dos ataques direcionados para neutralizar sua liderança, o comando
descentralizado do Irã e sua indústria de defesa dispersa mantiveram suas
forças em combate e a produção de munições em pleno funcionamento.
Ao
ameaçar pontos-chave de estrangulamento e manter os recursos adversários sob
risco, o Irã preservou seu poder de barganha mesmo sob forte pressão. Sua ampla
base de mobilização, sua prolífica produção de mísseis e drones de baixo custo
e seu foco tanto na quantidade quanto na qualidade provaram ser um modelo
altamente eficaz de defesa resiliente, conclui a publicação.
Anteriormente,
um jornal britânico relatou que as empresas
norte-americanas do setor militar-industrial enfrentam dificuldades para
atender à exigência do Pentágono de aumentar a produção de munições, em um
contexto no qual os EUA tentam repor seus estoques de mísseis, esgotados pelo conflito
com o Irã.
¨
Trump declara decepção com falta de ajuda de países da
OTAN durante guerra no Irã
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confessou nesta quarta-feira (24)
uma decepção com os países-membros da Organização do Tratado do Atlântico
(OTAN) por não terem ajudado Washington na guerra contra o Irã.
A
afirmação foi feita por Trump durante um
encontro com o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte. Em específico, o
presidente citou seu descontentamento com Alemanha, Espanha, França, Itália e
Reino Unido.
"Fiquei
decepcionado com a Itália. Fiquei decepcionado com o Reino Unido — ele [Keir
Starmer] já saiu… Ficamos decepcionados com a Alemanha e a França. Ficamos
decepcionados com a maioria deles. A Espanha é um desastre… A Espanha não é um
bom grupo, não é um bom grupo de jeito nenhum."
Apesar
das afirmações contra a aliança atlântica, Trump fez questão de enaltecer
o respeito por Rutte. O secretário-geral da OTAN, por sua vez, defendeu a
atuação do grupo, revelando que cerca de 5 mil aviões norte-americanos
decolaram de bases na Europa durante a guerra contra o Irã.
Sobre o
país persa, Trump declarou que seria inaceitável a imposição de taxas para a
navegação no estreito de
Ormuz. Isso
"mudaria as regras do jogo" e outros países poderiam querer fazer o
mesmo.
No
artigo 5º do memorando de entendimento assinado por ambas as nações, é prevista
a administração conjunta do estreito pela República Islâmica do Irã e pelo
Sultanato de Omã, assim como a cobrança por serviços marítimos.
O
presidente dos Estados Unidos também se recusou a reconhecer a responsabilidade
dos Estados Unidos pelo bombardeio da Escola Primária Feminina Shajarah
Tayyebeh, em Minab, que matou 171 alunas. Segundo o Corpo da Guarda
Revolucionária Islâmica (IRGC), o ataque à escola foi lançado a partir da
base norte-americana de Al Dhafra, nos Emirados Árabes Unidos.
Posteriormente,
investigações independentes também apontaram a responsabilidade
norte-americana. No entanto, Trump afirmou não ter lido o
relatório produzido por seu próprio Departamento de Guerra. "Não sei
se algum dia vão solucionar isso", afirmou.
"É
horrível o que aconteceu, mas havia mísseis voando por toda parte", disse
Trump, acrescentando: "Alguém disse que foi um míssil nosso. Bem, talvez
não tenha sido um míssil nosso."
Anteriormente,
Trump havia afirmado que o Irã podia ter atingido a própria escola. Hoje, o
presidente norte-americano retomou o discurso ao argumentar que havia
"mísseis voando por toda parte".
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Autonomia da OTAN seria um caminho para não servir a guerras dos EUA, diz
analista
A
disposição da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em transformar o
território europeu em uma base militar para guerras fora da região representa
riscos evidentes para um país cujos interesses fundamentais não se alinham
automaticamente às agendas ocidentais, disse à Sputnik o analista político
paquistanês Abdullah Khan.
Khan
salientou que os interesses fundamentais desses países são a estabilidade
regional,
as relações com a China e uma abordagem independente no combate ao terrorismo.
"Desenvolvimentos
desse tipo, de fato, geraram um debate discreto, mas sério, entre especialistas
e formuladores de políticas no Paquistão, sobre os limites do envolvimento
da OTAN", ressaltou.
Segundo
ele, a OTAN não é um pacto defensivo, mas uma plataforma avançada para a
projeção do poder global dos EUA.
Os países europeus
membros da OTAN reduziram-se
ao papel de subcontratados logísticos das guerras norte-americanas, expondo as
pretensões defensivas da aliança como uma ficção conveniente mantida para
consumo interno europeu, observou.
Além
disso, ele destacou que as alianças ocidentais funcionam de maneira
hierárquica: os Estados Unidos lideram, os
europeus facilitam, e espera-se que os parceiros menores sigam a linha ou
enfrentem as consequências.
Uma
maior autonomia em relação à OTAN, e não laços mais estreitos, é vista como
o caminho mais prudente para evitar ser arrastado a conflitos que
atendam às prioridades de outros países, concluiu.
Nos
últimos anos, a Rússia tem observado uma atividade sem precedentes da OTAN em
suas fronteiras. A aliança tem ampliado suas iniciativas, às quais se
refere como "contenção da agressão russa". As autoridades russas já
manifestaram, em diversas ocasiões, sua preocupação com o aumento das forças do
bloco na Europa.
O
Ministério das Relações Exteriores russo reiterou diversas vezes que a Rússia
permanece disposta a dialogar com a OTAN, mas em pé de igualdade, e que, para
isso, o Ocidente deve abandonar a política de militarização do continente.
Fonte:
Brasil 247/Sputnik Brasil

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