Como
costurar os fios da reforma psiquiátrica?
“A
Reforma Psiquiátrica é processo político e social complexo, composto de atores,
instituições e forças de diferentes origens, e que incide em territórios
diversos, nos governos federal, estadual e municipal, nas universidades, no
mercado dos serviços de saúde, nos conselhos profissionais, nas associações de
pessoas com transtornos mentais e de seus familiares, nos movimentos sociais, e
nos territórios do imaginário social e da opinião pública. Compreendida como um
conjunto de transformações de práticas, saberes, valores culturais e sociais, é
no cotidiano da vida das instituições, dos serviços e das relações
interpessoais que o processo da Reforma Psiquiátrica avança, marcado por
impasses, tensões, conflitos e desafios” (Brasil, 2005).
Debates
sobre o cuidado em saúde mental na atenção primária em saúde – ou atenção
básica – não são novos para a reforma psiquiátrica. Esta discussão envolve a
própria concepção sobre o que é saúde mental e qual arranjo de estratégias e
serviços pode responder melhor às necessidades das pessoas em seus territórios
e de forma contínua.
Muito
já se avançou. Ainda assim, sempre cabe fazer mais, porque os contextos mudam,
as necessidades das pessoas mudam (ou, ao menos, se apresentam de formas
diferentes) e os territórios, que são vivos, mudam e revelam realidades que
antes não estavam claras. Com isso, cabe reformular estratégias e arranjos para
criar caminhos de cuidado e de direitos para as pessoas.
Para
não ser exaustivo, basta recordar que as Unidades Básicas de Saúde (UBS) são
normativamente pontos de atenção da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) desde
sua formulação original, em 2011, e são, junto com os Centros de Atenção
Psicossocial (CAPS), porta de entrada na rede e ordenadoras do cuidado. Lembrar
que na aposta do cuidado territorial, foram criados Núcleos Ampliados de Saúde
da Família para apoiar e consolidar a resolutividade no SUS e construir pontes
com outros serviços da rede, como os CAPS, com vista à integralidade e à
continuidade do cuidado. E que em 2013 foi lançado o Cadernos de Atenção Básica
nº 34, documento orientador técnico do cuidado e de enorme riqueza prática, que
formou uma geração de trabalhadores e segue sendo (ou assim deveria ser)
referência importante para atuação de equipes no cuidado em rede.
Seria
possível continuar, recordando que também são pontos da RAPS e seu componente
da atenção primária em saúde os Centros de Convivência e Cooperativa e as
equipes de Consultório na Rua; que há acúmulo de construção teórica e prática
sobre estratégias de matriciamento, com definição de fluxos e pactuações em
rede; e que um entendimento político sobre por que investir em ações de
promoção à saúde mental está mais ou menos consolidado em um arranjo de rede,
ainda que pouco sobre isso se fale.
Ocorre
que esses avanços conquistados foram impactados por retrocessos. Entre 2016 e
2022, período que se convencionou chamar de contrarreforma psiquiátrica,
hospitais psiquiátricos e a lógica ambulatorial foram reintroduzidas na RAPS,
houve desfinanciamento massivo de serviços estratégicos da saúde mental e a
atenção básica sofreu importantes desmontes com a reformulação da Política
Nacional de Atenção Básica. E, se há algo que todos aprendemos a duras penas
nos últimos anos, é que é muito mais fácil e rápido destruir o que foi
construído coletivamente do que colocar de pé políticas públicas orientadas
para a transformação social e para assegurar dignidade humana.
É
preciso recordar essas questões para desembaraçar alguns fios sobre reforma
psiquiátrica, cuidado em saúde mental e serviços e estratégias da atenção
primária em saúde.
Afirma-se
aqui: não há um furo na reforma psiquiátrica no tema do cuidado às demandas e
necessidades de saúde mental – ou às experiências de sofrimento, de forma geral
– endereçadas aos serviços da atenção primária em saúde. Há, sim, enquanto uma
das expressões da reforma psiquiátrica brasileira, um histórico de construção
de respostas em serviços e estratégias entremeado por desmontes e sucateamento
desses mesmos serviços e estratégias, o que coloca a necessidade de muito mais
investimento em saúde mental, incluindo na atenção primária em saúde:
investimento em expansão de serviços e estratégias, em ampliação de
financiamento, em capacitação de equipes, e em fortalecimento de recursos para
que os trabalhadores possam realizar seu trabalho de cuidar de todos, para
iniciar.
Mas não
apontar o dedo para a reforma psiquiátrica não resolve um problema que é real:
é preciso empenhar mais esforços coletivos, no sentido de se debruçar sobre os
desafios atuais e formular respostas políticas adequadas para as necessidades
das pessoas e dos territórios, para (re)imaginar o cuidado ampliado e
longitudinal às experiências de sofrimento, incluindo os sofrimentos mentais
comuns, na atenção primária em saúde, e para criar estratégias de
fortalecimento de relações solidárias e comunitárias que promovam felicidade e
bem viver.
Negar
isso seria fechar os olhos para o fato de que muitas pessoas hoje não encontram
cuidado adequado nos serviços e estratégias da atenção primária em saúde para
suas experiências de sofrimento – nem faria sentido na própria reforma
psiquiátrica, que sempre colocou em primeiro lugar as pessoas. Basta conversar
por um par de horas com trabalhadores e pessoas usuárias de uma Unidade Básica
de Saúde qualquer para saber que a demanda por atenção em saúde mental e a
medicalização aumentaram.
O texto
“Um furo na Reforma Psiquiátrica?”, de Denis Saffer, publicado no Outra Saúde,
faz bem ao levantar a lebre sobre a quantas andam as formulações para o cuidado
em saúde mental na atenção primária em saúde; é, de fato, preciso trazer para a
superfície essa discussão que não vem ganhando a visibilidade necessária nos
últimos anos.
Se
queremos responder a este problema (e precisamos fazer isso), é preciso
primeiro decodificar a demanda – e a reforma psiquiátrica tem acúmulo para
isso.
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Desembaraçar nós
Para
começar, cabe recordar o que é a reforma psiquiátrica: um processo que envolve
a transformação das relações sociais com a loucura, incidindo em aparatos
administrativos e institucionais, ancorado na afirmação intransigente da
cidadania das pessoas com experiências de sofrimento mental e com modos
singulares de existência que desafiam as rígidas normas sociais.
É do
movimento de transformação das formas de compreensão e de relação com a
loucura, com a construção processual de um novo lugar social para a experiência
de sofrimento mental, que derivam mudanças institucionais, sendo uma delas a
mudança da rede socioassistencial com a substituição de uma lógica asilar por
uma rede de serviços aberta, de base territorial e comunitária que parte do
reconhecimento do outro enquanto sujeito de direitos. Ou seja, a Rede de
Atenção Psicossocial, a RAPS, é uma das expressões da reforma psiquiátrica, mas
decididamente a reforma psiquiátrica não se limita a isso. Reconhecer esta
diferença – o que é substância e o que expressão da substância – pode
contribuir para desembaraçar entendimentos e construirmos coletivamente as
respostas para ampliar o cuidado.
Certamente
a RAPS é uma das expressões mais importantes e palpáveis porque é a
materialização, em serviços, da promoção do cuidado e dos direitos. Se os
serviços e as estratégias empreendidas para cuidar e construir caminhos para a
cidadania andam funcionando bem ou mal, é a discussão a ser feita (inclusive
sobre o que significa ir “bem” ou “mal”). Mas é preciso assinalar: os serviços
de saúde mental da RAPS só podem existir porque, primeiro, foi reconhecido o
valor social e afirmada a cidadania das pessoas que vivem experiências de
sofrimento.
O
enfrentamento ao estigma de viver um sofrimento mental e a construção do
entendimento de que é preciso cuidar dos sofrimentos – e não escondê-los ou
negá-los – foi e é tarefa da reforma psiquiátrica. Os processos de reforma
psiquiátrica no mundo construíram condições para que a experiência de sofrer,
seja ela como se apresentar, possa ser anunciada como parte do viver, tenha
lugar nas trocas sociais e seja cuidada.
Ou
seja, se hoje as experiências de sofrimento vividas como desafio para
sustentação do próprio cotidiano e para condução de si no mundo também se
apresentam como uma demanda de cuidado para a atenção primária em saúde, isso é
valor positivo da reforma psiquiátrica que pôde costurar nas relações sociais o
entendimento de que sofrer é parte do viver.
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Desatar a psiquiatrização da vida
Mas
claro que o aumento da demanda por cuidado em saúde mental (e vamos chegar
ainda no que isso quer dizer) não é meramente reflexo de uma diminuição do
estigma sobre pessoas que vivem problemas de saúde mental.
Processos
de transformação social não são lineares, e das transformações realizadas
emergem novas contradições, colocadas também por um rearranjo de forças, atores
e mudanças sociais. Assim como não foi a reforma psiquiátrica, não foi um fato
isolado que levou ao cenário atual (e global) de aumento significativo do
número informado de diagnósticos psiquiátricos atribuídos às pessoas, como os
de ansiedade e depressão. Mas debate-se que um fator que muito contribuiu para
essa situação foi a publicação do Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais (DSM-V), amplamente criticado desde seu lançamento, em
2013, por expandir a classificação de diagnósticos e redefinir emoções como
doenças psiquiátricas. O que se vem observando nos últimos anos é a patologização
de experiências variadas de sofrimento e de psiquiatrização da vida. Para a
rede de serviços, o impacto da ampliação da atribuição de diagnósticos
psiquiátricos é sentido nos serviços da atenção primária em saúde.
Compreendida
pela perspectiva teórico-prática da desinstitucionalização, a reforma
psiquiátrica envolve, mais do que fechar os hospitais psiquiátricos e criar uma
rede de serviços substitutiva à lógica asilar, colocar em questão a psiquiatria
enquanto instituição que sustenta certa compreensão sobre a loucura a partir do
estatuto da razão e que objetiva a experiência de sofrimento objetificando-o em
um diagnóstico. Essa posição interessa para compreender a psiquiatrização da
vida, um dos maiores e mais atuais desafios da agenda de saúde mental no mundo.
Grosso
modo, a psiquiatrização da vida envolve o processo pelo qual uma expressão de
si ou experiência de sofrimento que é parte do viver passa a ser codificada
enquanto uma doença pela psiquiatria. A tristeza, a distração, o encabulamento,
o medo do futuro, a petulância e tantos outros afetos e modos de estar em
relações são lidos enquanto doenças – um transtorno mental comum, por exemplo.
Além do problema da redução da experiência humana, que se constitui em relação,
a um problema individual, ocorre que a formulação da resposta se faz para o que
se identifica como um problema: se é uma doença, cabe a oferta de uma consulta
médica (preferencialmente com um psiquiatra) para prescrição de medicação, que
pode ou não ser combinada com alguma terapia com outro profissional, que em
alguns arranjos de serviços só fará girar em falso o problema de fundo.
Os
serviços, então, com o poder da ciência e do suposto saber, nomeiam para a
pessoa e para a sociedade que aquelas experiências são transtornos. E quando
essas experiências da vida são sentidas como sofrimentos mentais, que também
são parte do viver e precisam ser cuidados, esta nomeação fica ainda mais
direta. Portanto, a psiquiatrização da vida, de maneira geral, cria um problema
direto que é a medicalização individual de experiências e de sofrimentos
vividas nas relações entre pessoas, levando a um aumento do consumo de
medicações psiquiátricas; ainda, pode criar outros problemas, como a demanda
social pelo que vai se codificando e imaginando ser cuidado em saúde mental,
ainda que a tomada de responsabilidade pelo cuidado ampliado não seja dessa
matéria.
Algo
ainda a se investigar nesse cenário é o papel que cumprem as redes sociais,
verificando se e de que modo influenciam e intensificam o fenômeno, posto que,
aparentemente, se observa certa generalização no uso de termos próprios da
classificação de doenças para falar de si no mundo: as pessoas não dizem mais
que estão tristes, mas deprimidas; não estão temerosas, tensas ou preocupadas
em relação à algo futuro, mas ansiosas.
Agora,
pegando pelo cangote a lebre tirada do buraco – o cuidado em saúde mental na
atenção primária em saúde –, em um cenário de ampliação da psiquiatrização da
vida, em que as pessoas leem suas experiências a partir de uma terminologia do
DSM-V, para qual serviço imaginamos que recairá a demanda de consultas e
medicação de experiências lidas como depressão ou ansiedade? Não é sem razão
que as Unidades Básicas de Saúde e os trabalhadores da atenção primária em
saúde têm afirmado a necessidade de reimaginar o cuidado. Ao desafio do cuidado
dos sofrimentos mentais comuns na atenção primária em saúde se sobrepõe uma
crescente psiquiatrização da vida, embolando respostas e organização de
serviços.
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Tramas complexas
E isso
nos coloca a necessidade de refletir: quando as pessoas procuram cuidado para
os seus sofrimentos de vida e sofrimentos mentais, estamos, na organização do
serviço, sendo espelho da codificação dessa demanda apenas enquanto um
transtorno mental comum ou estamos buscando abrir indagações sobre a complexa
teia de relações e histórias de vida que levam a sofrimentos? Estamos
respondendo a demandas ou estamos escutando necessidades reais de pessoas em
seus territórios de vida? Estamos trabalhando na lógica problema-solução como
se houvesse um remédio universal para o sofrimento humano ou estamos abrindo
diálogos com as pessoas que procuram serviços para criar respostas situadas,
singulares e coletivas?
Para
traduzir isso em exemplos, quando uma pessoa mais idosa vivencia o falecimento
daquele ou daquela com quem dividiu uma vida e, por isso, sofre, estamos
respondendo com acolhimento, escuta e ampliação de laços sociais ou com a
prescrição de um inibidor seletivo da recaptação de serotonina? Quando os pais
de uma criança procuram atendimento informando que a escola solicitou um laudo
para que a criança continue seus estudos, estamos fornecendo um documento que
lhe atribui um diagnóstico psiquiátrico ou tensionando relações com as escolas
para desmontar a demanda?
Quando
uma mulher de 40 anos compartilha com um profissional da atenção primária um
sofrimento intenso porque seu filho foi assassinado pelas forças de segurança
do Estado, estamos considerando e mobilizando uma rede de respostas no
território, que inclui uma rede de pessoas, ou nos limitamos a imaginar que só
resta como resposta da saúde a medicalização deste sofrimento, que talvez seja
classificado como depressão? Quando uma pessoa informa sentir seu coração
acelerado quando chega o final do mês e diz ter falta de ar e dificuldade para
dormir por não saber como será possível pagar as contas que deve, respondemos
com um ansiolítico apenas, mesmo reconhecendo que a situação não será alterada
com isso?
Há
tantos exemplos quanto pessoas que
procuram trabalhadores de saúde para dar conta de suas experiências de
vida e de seus sofrimentos. Exemplos que vão de situações de mera
psiquiatrização da vida a experiências intensas de sofrimento que precisam ser
acolhidas e estão relacionadas com uma trama de contextos, relações e
necessidades que, sim, estão para muito além dos recursos disponíveis de bate e
pronto para os trabalhadores porque dizem respeito à situações complexas (e
tantas vezes injustas) da vida em sociedade.
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Bastam mais serviços e mais profissionais?
Reconhecer
esse embaralhado de fios – que podem até ser chamados por alguns de
determinantes sociais de saúde (ou, em outra concepção e outro debate a ser
feito, de determinações de saúde) é ponto de partida para enfrentar o problema:
como criar respostas de cuidado ampliadas, territorializadas e que acolham
experiências de vida e sofrimentos mentais comuns na atenção primária em saúde?
Ampliar
o número de equipes e profissionais na atenção primária em saúde é uma
necessidade, mas o problema é só de quantidade para resolver as demandas de
saúde mental? Promover capacitações é sempre necessário, mas com qual diretriz
ético-técnico-política? Criar novos fluxos pode facilitar interlocuções, mas
também pode burocratizar processos.
O risco
de respostas focadas no “mais” apenas (mais serviços, mais profissionais, mais
capacitações, mais atendimentos) é o de reproduzir uma lógica de atenção
própria ao modelo ambulatorial: oferta de mais consultas individuais, que
resultam em mais prescrições de medicação e terapias, que resultam em mais
agendamentos. Com isso, imagina-se responder à necessidade de fortalecer o
cuidado em saúde mental, mas fica inalterado o problema de fundo pois a
necessidade real permanece codificada nos termos que a produziram enquanto
demanda.
Historicamente,
na reforma psiquiátrica brasileira, se rejeitou a lógica ambulatorial como
resposta aos sofrimentos das pessoas porque neste modelo trabalha-se com
seleção da demanda a partir do que o serviço (ou o profissional) entende como
de sua competência, fragmentando a experiência e as necessidades complexas das
pessoas, e descontextualizando a relação com o território. Nesse modelo, a
resposta ao cuidado em saúde é parcial e constrita nos termos definidos pelo
próprio serviço como aquilo que é de sua gestão; para outras necessidades,
desconectadas da experiência da pessoa e de sua relação com o corpo social,
cabe o encaminhamento para outros serviços, quando existentes. Na saúde mental,
isso resulta em desresponsabilização da atenção integral às necessidades das
pessoas, que passam a ter suas necessidades fracionadas em diferentes aspectos
que, supostamente, seriam de competência de diferentes serviços (ou
profissionais); se os serviços ou profissionais não existirem, só resta
lamentar.
Ou
seja, ao problema de quantidade de recursos (de serviços e de profissionais),
que é real, precisa ser articulada uma resposta de qualidade (como serviços se
organizam a partir das necessidades das pessoas e territórios, como
profissionais escutam sofrimentos e produzem respostas a partir do serviço e em
rede, como as gestões asseguram recursos necessários para que os profissionais
realizem seu trabalho em equipe e na lógica territorial). Na atenção primária à
saúde, o Cadernos de Atenção Básica nº 34 fornece um caminho para responder às
questões de organização de serviços e práticas de cuidado; vale, para começar a
enfrentar o problema, retomá-lo e colocá-lo em prática.
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Criar novos projetos, enredar lutas sociais
Mas,
como assinalado antes, os contextos mudam e o país não é o mesmo de 2013. É
preciso criar respostas estruturais para o que Arthur Kleinman denominou de
“sofrimento social” e ao que Benedetto Saraceno definiu como “sofrimento
urbano”, como os impactos sentidos coletivamente e individualmente na vida
cotidiana e urbana em razão da violência urbana, desigualdades sociais, pobreza
e outros problemas de ordem estrutural que produzem sofrimentos. Também, como
enfatizado aqui, urge inventar respostas para a psiquiatrização da vida e a
medicalização de sofrimentos.
Para
além disso, considerando os sofrimentos mentais comuns e as situações mais
complexas de cuidado na atenção primária em saúde é preciso aprofundar as
articulações na RAPS, construindo estratégias de apoio e interlocução para os
trabalhadores, que são os recursos mais valiosos e importantes de qualquer
sistema de saúde. À fragmentação do cuidado se responde com mais conexões.
Há
variadas experiências e debates sobre isso, que incluem: a) ideias de revisão
de critérios de corte populacional para CAPS I, assegurando uma rede mais
presente em municípios de pequeno porte e com maior interlocução, inclusive por
meio de matriciamento, com os serviços e estratégias da atenção primária em
saúde; b) adoção de mecanismos de trocas e compartilhamentos de situações
complexas entre equipes de diferentes municípios que contam com diferentes
quadros profissionais em seus serviços; adoção de estratégias de apoio
institucional; c) fortalecimento de equipes territorializadas e que conectam
serviços, entre outros.
Sem
dúvida, também é preciso compreender melhor o sentido do trabalho da e-Multi da
atenção primária em saúde, além de fortalecer serviços e equipes que atuam para
além dos contextos urbanos e junto a povos tradicionais. Há inteligência
coletiva e um acúmulo de experiências em que se
basear, resultado do esforço de trabalhadores e gestores que insistem em
imaginar e construir cuidado em saúde mental na atenção primária em saúde.
Por
fim, outras tantas estratégias podem ser inventadas na perspectiva de
fortalecer territórios e coesão social para promover experiência de saúde
mental. Se não é simples definir o que é saúde mental, podemos ao menos
arriscar o que é um de seus contrários: a solidão. Promover saúde mental
envolve fortalecer relações, conexões e pertencimento; envolve ampliar trocas
sociais em que as pessoas sejam reconhecidas em seu valor e possam agir com
mais poder; envolve construir participação social, entre tantas outras ações. E isso tudo se faz onde a vida
acontece, os territórios de existência, acompanhados tão de perto pelos
trabalhadores, estratégias e serviços da atenção primária em saúde.
*Docente
do Curso de Terapia Ocupacional da USP e pesquisadora de legislações,
políticas, redes de serviço e práticas em saúde mental e drogas nos cenários
nacional e internacional. Sua atuação é alinhada à perspectiva da
desinstitucionalização. Coordena o Saúde Mental Global – Estudos e Pesquisas em
Saúde Mental, Drogas e Desinstitucionalização.
Fonte:
Por Cláudia Braga, para sua coluna, em Outra Saúde

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