sábado, 27 de junho de 2026

Alvo da PF, banco de Edir Macedo deve quase R$ 2 milhões a trabalhadores

ALVO DE UMA OPERAÇÃO da Polícia Federal por suspeita de fraude financeira, o Banco Digimais deve quase R$ 2 milhões em encargos trabalhistas aos funcionários. A instituição é ligada ao bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e proprietário da Record TV, organizações historicamente associadas ao partido Republicanos.

Ao todo, o banco deve R$ 1,94 milhão por infrações trabalhistas ocorridas entre dezembro de 2019 e janeiro de 2025, segundo informações de fiscalização do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) obtidas pela Repórter Brasil. Entre as irregularidades estão o não pagamento de horas extras, 13º salário e FGTS, a supressão de intervalos para descanso durante e entre jornadas, o descumprimento de folgas e a imposição de jornadas excessivas. O banco recorre das autuações.

A apuração iniciada em 2024 analisou mais de 676 mil registros de jornada, folhas de pagamento, banco de horas, arquivos digitais dos dois CNPJs do banco e visita à sede, no bairro Cidade Monções, área nobre da capital paulista.

Na época, o Digimais contava com 389 funcionários ativos, mas as infrações também se estendem a ex-trabalhadores, somando cerca de 500 pessoas afetadas.

A inspeção identificou mais de 26,1 mil irregularidades nas marcações de ponto dos trabalhadores, das quais 13,9 mil são por excesso de jornada.

“Houve uma sonegação sistemática de verbas trabalhistas”, afirma Livia Ferreira, auditora-fiscal e coordenadora do projeto de combate à discriminação e ao assédio da Superintendência Regional do Trabalho em São Paulo.

Ela aponta que foram constatados indícios de fraude no banco de horas para maquiar a jornada excessiva, que superava dez horas diárias e englobava casos de funcionários submetidos a 16 dias consecutivos de trabalho sem descanso. “A gente recebeu denúncia de que os trabalhadores estavam sendo intimidados para poder aderir a esse banco de horas”, afirma.

Também foram identificadas infrações no trabalho aos domingos, com descumprimento de escala de revezamento. Em um dos casos, o trabalhador atuou por 15 domingos consecutivos.

Além disso, a inspeção constatou que não havia Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio, nem treinamentos específicos, medidas adequadas para prevenção desses casos e canais efetivos de denúncia.

A Repórter Brasil tenta contato com o Banco Digimais desde quarta-feira (24), por telefone, e-mail e mensagens de aplicativo, para comentar as infrações trabalhistas, mas não houve retorno até a publicação da reportagem.

<><> Operação MIragem investiga suspeitas de fraudes contra sistema financeiro

Na terça-feira (23), o Banco Digimais foi um dos alvos de mandados de busca e apreensão da Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal para apurar supostos crimes contra o sistema financeiro nacional.

A Justiça Federal em São Paulo também autorizou o afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos investigados, além do sequestro e o bloqueio de até R$ 670 milhões em bens e valores.

Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, as investigações indicam que os envolvidos no esquema teriam manipulado demonstrativos contábeis e registros para ocultar a real situação financeira da instituição. O modus operandi seria semelhante ao do Banco Master, a partir da emissão de carteiras fraudulentas e supervalorização de ativos.

Desde 2020, a instituição é totalmente controlada pelo grupo do bispo Edir Macedo, dono da Record TV e da Igreja Universal do Reino de Deus, segundo informações da Junta Comercial do Estado de São Paulo, confirmadas também por meio da plataforma Cruzagrafos, iniciativa da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) em parceria com o Brasil.IO.

Em nota, a Universal afirmou que o bispo Edir Macedo “não integra a administração executiva nem participa da gestão operacional, financeira ou contábil da instituição” e que tem “plena confiança na lisura das apurações conduzidas pelas autoridades competentes”.

Macedo declarou em pregação na quarta-feira (24) que está tranquilo e “em paz com Deus”, segundo registro do jornal Folha de S.Paulo.

Já o deputado federal Marcos Pereira (Republicanos-SP), bispo licenciado da Universal e presidente nacional do Republicanos, disse à CNN que “o partido não tem nada a ver com isso”.

•        PF amplia apuração sobre ativos do Digimais ligados ao Master

A Polícia Federal vai ampliar a investigação sobre ativos do Banco Digimais ligados ao Master, após identificar indícios de carteiras sem lastro, avaliação suspeita de terrenos e créditos de veículos com alta inadimplência usados para inflar o patrimônio da instituição financeira, informa o jornal O Globo.

Nos documentos analisados, investigadores avaliam registros contábeis, auditorias independentes e ações judiciais para apurar o valor real de fundos relacionados ao Digimais. A apuração busca verificar se houve manipulação de ativos para encobrir a situação financeira do banco e permitir a emissão de novos títulos de captação no mercado.

De acordo com a Polícia Federal, o inquérito identificou carteiras supostamente relacionadas ao Banco Master sem “documentação comprobatória de lastro”, além de ativos vinculados a um empreendimento imobiliário ainda não construído e a financiamentos de automóveis com elevado índice de inadimplência. A suspeita é que esses ativos tenham sido superavaliados para “maquiar a real situação de insolvência da instituição”.

Para os investigadores, a conduta pode configurar crimes de “gestão fraudulenta e inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis”. A PF também apura se há conexões entre as operações do Digimais e o modelo de atuação atribuído ao Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025.

Em nota, o Banco Digimais afirmou que está à disposição das autoridades. “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes”, declarou o banco.

Uma das frentes de investigação envolve uma ação judicial aberta no ano passado por um fundo que afirma ter sido prejudicado pelo Digimais na compra de uma carteira de CCBs, as Cédulas de Crédito Bancário. Segundo a ação citada no relatório policial, a carteira não teria lastro suficiente para sustentar seu valor.

Uma auditoria contratada pelo fundo apontou que 42% da carteira apresentava pendências de documentação. O mesmo fundo afirmou ter identificado que parte dos créditos tinha origem associada ao Master. “A análise concluiu que parte relevante das CCBs objeto da cessão não possuíam documentação comprobatória de lastro. De fato, uma parte considerável da carteira de créditos cedida ao Fundo no âmbito do Contrato tem sua origem relacionada ao Banco Master e à REAG”, diz a auditoria.

No relatório que embasou a Operação Miragem, deflagrada na terça-feira (23), a Polícia Federal também destacou a oferta de títulos de captação com remuneração muito acima da média de mercado. Para os investigadores, esse comportamento, combinado à manutenção de ativos de baixa liquidez e à exposição a créditos de origem duvidosa associados ao Master, “sugere a eventual ocorrência de gestão temerária ou fraudulenta”.

Outro ponto sob análise envolve investimentos citados anteriormente pela revista Piauí. Segundo a publicação, uma administradora de fundos teria precificado artificialmente um terreno em Pernambuco em R$ 150 milhões, embora o imóvel valesse cerca de R$ 10 milhões. O ativo estaria ligado a um projeto imobiliário no município de Goiana, que ainda não teria licença da prefeitura para ser construído, conforme informação atribuída ao jornal O Estado de São Paulo.

Os imóveis constam no patrimônio de um fundo em que o Digimais aparece como cotista. Para a PF, esse tipo de operação pode ter contribuído para melhorar artificialmente os indicadores patrimoniais do banco, ampliando sua capacidade de captar recursos por meio de CDBs, os Certificados de Depósito Bancário.

A investigação também mira uma carteira de financiamentos de automóveis avaliada em R$ 3,5 bilhões. Segundo a Piauí, um fundo que tinha o Digimais como investidor teria elevado artificialmente seu patrimônio em R$ 350 milhões. A suspeita é que a superavaliação de ativos tenha sido usada para sustentar novas emissões de títulos no mercado financeiro.

A Polícia Federal afirmou que os mandados cumpridos na Operação Miragem tiveram como objetivo identificar “outros possíveis ilícitos que ainda não sejam de conhecimento do órgão policial” e viabilizar “outras diligências investigatórias”. A apuração segue em andamento para determinar a extensão das operações suspeitas, seus beneficiários e eventuais vínculos com outras instituições financeiras.

•        Digimais recebeu aporte do Grupo Record e tem R$ 2 bilhões em caixa

O banco Digimais, alvo da Operação Miragem, da Polícia Federal, recebeu um aporte financeiro do Grupo Record e mantém atualmente cerca de R$ 2 bilhões em caixa, em meio às negociações para sua venda ao BTG Pactual. As informações foram publicadas pela Folha de São Paulo.

O reforço de capital foi realizado pela Digimais Participações, empresa controlada pela B.A. Empreendimentos Participações, holding pertencente ao Grupo Record. O aporte foi composto por Certificados de Depósito Bancário (CDBs) emitidos pelo próprio controlador e por recursos captados no mercado por meio desses títulos.

A injeção de recursos faz parte das negociações conduzidas com o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para viabilizar a venda da instituição financeira. Pessoas ouvidas pelo jornal afirmam que um novo aporte poderá ser realizado pelo controlador caso as negociações com o BTG Pactual permaneçam indefinidas.

As duas instituições assinaram um acordo de intenção de compra em abril deste ano. No entanto, a conclusão da operação depende do cumprimento das regras estabelecidas pelo FGC para processos de recuperação de instituições financeiras.

<><> Banco é investigado por supostas fraudes contábeis

Controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da RecordTV, o Digimais é investigado pela Polícia Federal sob suspeita de manipular demonstrações financeiras para ocultar sua real situação patrimonial e transmitir uma aparência de solidez aos órgãos reguladores.

As investigações envolvem suspeitas de gestão fraudulenta, inserção de informações falsas em relatórios financeiros e realização de operações de crédito proibidas pela legislação bancária, prática que busca evitar manipulações contábeis.

Um dos principais focos da apuração é a compra de precatórios — títulos decorrentes de decisões judiciais contra o poder público.

Na última terça-feira (23), a Operação Miragem cumpriu nove mandados de busca e apreensão contra diretores, conselheiros e empresas ligadas ao Digimais. A Justiça também determinou o bloqueio de bens de até R$ 670 milhões, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.

<><> BTG mantém interesse, mas aguarda processo competitivo

Após a deflagração da operação da Polícia Federal, o BTG Pactual informou ao mercado, em comunicado divulgado na quarta-feira (24), que não descarta prosseguir com a aquisição do Digimais.

Entretanto, o banco afirmou que a concretização do negócio continua condicionada à realização de um processo competitivo organizado pelo FGC e ao reconhecimento de sua proposta como vencedora — etapas que, segundo a instituição, ainda não ocorreram.

Uma regra recente do Fundo Garantidor de Crédito estabelece que operações de socorro a instituições financeiras devem ocorrer por meio de leilão, no qual vence a proposta que representar menor custo para o fundo. O objetivo é reduzir o impacto financeiro caso seja necessária uma intervenção para evitar a quebra de um banco.

Conforme pessoas ouvidas pela Folha, uma das exigências apresentadas pelo BTG é a realização de um aporte adicional por parte do controlador do Digimais.

<><> Galípolo evita comentar caso específico

Questionado nesta quinta-feira (25) sobre o andamento do processo, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou apenas que o leilão é conduzido pelo Fundo Garantidor de Crédito. O FGC, por sua vez, informou que não comenta casos específicos.

Ao ser perguntado sobre a capacidade operacional do Digimais após a operação da Polícia Federal, Galípolo também evitou comentar, ressaltando que o Banco Central não se manifesta sobre instituições supervisionadas individualmente.

Em declarações recentes, feitas após o escândalo envolvendo o Banco Master, Galípolo tem defendido que a liquidação de uma instituição financeira não deve ser encarada como punição criminal aos administradores. Segundo ele, esse tipo de medida busca preservar o sistema financeiro e proteger os correntistas, distinguindo a esfera criminal da atuação regulatória.

No caso do Banco Master, citado como exemplo, a liquidação extrajudicial só foi decretada pelo Banco Central em 17 de novembro do ano passado, quando a instituição controlada por Daniel Vorcaro já não possuía recursos suficientes para cumprir seus compromissos financeiros. Na ocasião, o banco tinha apenas R$ 4 milhões em caixa.

 

Fonte: Repórter Brasil/Brasil 247

 

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