Farmar
Aura: Pertencimento e juventude na Era Digital
Inundou
o espaço entre adolescentes e jovens nas redes sociais: farmar aura. E gerou
muitas dúvidas entre os parentes sobre o que seria exatamente isso. Pois bem. A
expressão combina um termo usado pelos jogadores, ou gamers (farmar, vem do
verbo em inglês to farm, cultivar em uma fazenda, mas nos jogos é usado como
sinônimo de acumulação de recursos) somada a uma palavra ligada ao campo do
simbólico (aura, ou atmosfera transmitida por alguém) revela muito mais do que
uma simples brincadeira. Ela oferece uma oportunidade para compreendermos como
a linguagem se transforma, como os grupos sociais constroem identidades
coletivas e como as novas gerações produzem seus próprios códigos culturais.
As
gírias podem ser consideradas como sinais de empobrecimento da língua, mas
representam um fenômeno complexo e profundamente humano. São manifestações da
criatividade linguística, da necessidade de pertencimento e dessa renovação
cultural da sociedade. Nas redes digitais, percebe-se fluxo contínuo de novas
palavras, expressões e significados.
Tentaremos
compreender como surgem as gírias, de que forma elas unem os adolescentes e
qual o impacto desses fenômenos, dialogando com reflexões de pensadores como
Mikhail Bakhtin, Pierre Bourdieu e Paulo Freire.
Por
mais que a ideia de que a linguagem seja apenas um instrumento para transmitir
informações, diversos estudiosos demonstraram que ela é muito mais do que isso.
Porque ela não só descreve a realidade, mas participa da sua construção.
O
filósofo e teórico russo Mikhail Bakhtin defendia que toda palavra nasce em um
contexto social e carrega marcas dos seus interlocutores. Para ele, a linguagem
é dialógica, a partir de diferentes vozes, perspectivas e experiências. É
necessário compreender quem fala, para quem fala e o contexto da fala. Nenhuma
palavra é neutra, todas trazem valores, memórias e significados.
Essa
perspectiva nos ajuda a compreender por que as gírias estão sempre surgindo.
Elas não são desvios da língua, são criações de novos sentidos para acompanhar
os novos tempos e as transformações sociais.
Quando
jovens utilizam expressões como “farmar aura”, não estão apenas criando uma
moda passageira. Estão criando um discurso com elementos da cultura digital
desse tempo de jogos eletrônicos e das redes sociais, criando expressão que
comunicam experiências.
As
gírias sempre existiram. Cada geração desenvolveu seu próprio repertório:
bacana, legal, maneiro, massa ou irado foram, em algum momento, expressões
específicas de grupos e tribos.
O que
mudou nas últimas décadas foi a velocidade que circulam essas novidades. Antes,
uma gíria podia levar anos para se espalhar por uma região ou país, mas
atualmente, uma expressão criada no meio virtual pode se difundir em questão de
dias.
As
plataformas digitais funcionam como laboratórios permanentes de criação
linguística. Influenciadores, criadores de conteúdo, jogadores, músicos e
usuários comuns produzem diariamente novas palavras que circulam em vídeos,
memes, comentários e mensagens instantâneas.
As
palavras estão vivas, se reinventando a cada geração, ganhando novos
significados de acordo com as mudanças culturais e tecnológicas. Cancelar virou
rejeitar publicamente alguém; viralizar agora é espalhar um conteúdo
rapidamente na internet; stalkear é investigaras redes sociais de alguém, e por
aí vai. A linguagem contemporânea está rápida e dinâmica, o que reflete a
própria velocidade das interações digitais.
Minha
compreensão desse fenômeno não vem apenas da leitura de autores que estudam a
linguagem. Ela também nasce da convivência cotidiana com meu filho Matias, de
12 anos. Foi por meio dele que ouvi pela primeira vez expressões como “farmar
aura” e tantas outras que surgem e desaparecem com rapidez nas redes sociais.
Num
primeiro momento, essas expressões podem soar estranhas para quem pertence a
outra geração. Porém, ao observá-las mais atentamente, percebi que elas cumprem
uma função importante na construção das relações entre os adolescentes. Mais do
que palavras, elas representam formas de acolhimento, reconhecimento,
pertencimento e compartilhamento de experiências.
Ao
acompanhar as conversas de Matias e de seus amigos, fica evidente que essas
gírias funcionam como marcadores culturais. Os jovens se identificam entre si,
constroem referências comuns e expressem suas vivências nesse mundo conectado
virtualmente.
Essa
experiência em casa me levou a compreender que, muitas vezes, os adultos podem
observar as transformações da linguagem com desconfiança, quando talvez
devessem enxergá-las também como oportunidades para compreender melhor essas
novas gerações. Em vez de representar uma ameaça à língua, percebemos que a
invenção de novas expressões revelam a criatividade e a vitalidade da cultura
juvenil.
A
linguagem desempenha papel fundamental na adolescência, que é um período
marcado pela busca de identidade. Nessa fase, meninos e meninas procuram
referências para compreenderem quem são e a qual grupo pertencem.
Quando
adolescentes utilizam as mesmas gírias, buscam identificação demonstram
familiaridade com um conjunto comum de referências culturais. Funciona como uma
espécie de senha simbólica que comunica esse pertencimento um grupo.
Além
disso, as gírias fortalecem vínculos afetivos. Piadas internas, memes e formas
específicas de falar criam um sentimento de proximidade que favorece a formação
de amizades e comunidades, construindo laços sociais.
Entretanto,
a linguagem não é apenas um instrumento de integração. Ela também pode produzir
distinções e exclusões.
O
sociólogo francês Pierre Bourdieu demonstrou que diferentes formas de falar
possuem valores distintos dentro da sociedade. Segundo ele, existe aquilo que
chamou de capital linguístico: determinadas maneiras de se expressar são mais
valorizadas socialmente do que outras.
Essa
reflexão ajuda a compreender por que algumas gírias são celebradas enquanto
outras são estigmatizadas. Muitas vezes, os julgamentos sobre a linguagem não
estão relacionados à qualidade das palavras em si, mas aos grupos sociais que
as utilizam.
Além
disso, as próprias gírias podem funcionar como mecanismos de inclusão e
exclusão. Ao mesmo tempo que fortalecem o sentimento de pertencimento entre
aqueles que compartilham os mesmos códigos, podem gerar estranhamento ou
afastamento para quem não os conhece.
Assim,
a linguagem revela-se um espaço de negociação constante entre identidade, poder
e reconhecimento social.
O
educador brasileiro Paulo Freire também oferece contribuições valiosas para
essa discussão. Em sua obra, ele argumentava que aprender a linguagem envolve
muito mais do que decodificar palavras. Trata-se de aprender a ler o mundo.
Segundo
Freire, as palavras ganham sentido a partir da experiência concreta das
pessoas. Por isso, toda linguagem está ligada à cultura, à história e às
condições de vida dos sujeitos.
Sob
essa perspectiva, as gírias juvenis não devem ser vistas apenas como fenômenos
da linguagem, mas como expressões de uma geração que busca interpretar sua
realidade e construir formas próprias de comunicação.
Ao
criar novas palavras, os jovens não estão apenas modificando a língua. Estão
também produzindo novas maneiras de compreender suas relações sociais, seus
valores e suas experiências no mundo.
As
gírias constituem muito mais do que modismos passageiros. Elas revelam
processos profundos de transformação cultural, construção de identidade e
interação.
Expressões
como farmar aura demonstram como a linguagem acompanha as mudanças tecnológicas
e culturais de cada época, incorporando referências dos jogos eletrônicos, das
redes sociais e da vida digital. Ao mesmo tempo, mostram como os jovens
utilizam a criatividade linguística para fortalecer vínculos, construir
pertencimento e expressar novas formas de ver o mundo.
Autores
como Bakhtin, Bourdieu e Paulo Freire ajudam a compreender que a linguagem não
é apenas um meio de comunicação, mas um espaço onde identidades são
construídas, relações de poder são negociadas e culturas são continuamente
reinventadas.
Em vez
de enxergar as gírias como ameaças à língua, talvez seja mais produtivo
reconhecê-las como sinais de vitalidade. Afinal, uma língua viva é aquela que
continua sendo recriada por seus falantes. E, nesse processo permanente de
invenção, cada geração deixa sua marca na história da linguagem.
Fonte:
Por Emília Mazzei, em Outras Palavras

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