José
Luis Fiori: Uma “rendição humilhante”
“Uma
verdadeira guerra, com forte intervenção externa, sobretudo dos grandes grupos
financeiros e tecnológicos de extrema-direita e associados à defesa
dos EUA e de Israel. Porque apesar das sucessivas vitórias
da extrema-direita na América do Sul, neste s últimos tempos, sempre com o
apoio e a intervenção do governo Trump, e apesar de que todos estes
novos governantes logo declarem seu apoio a Israel, a verdade é que todos eles
individualmente são inteiramente irrelevantes, para a Grande Estratégia
dos EUA e para as grandes disputas geopolíticas mundiais”...
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Eis a entrevista.
·
O memorando de entendimento assinado pelos EUA e pelo Irã
na semana passada está sendo avaliado como uma derrota histórica para os
Estados Unidos. O sr. concorda com essa análise? Por quê?
O
primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e altos funcionários do governo
israelenses consideraram o “Memorando de Entendimento” assinado
pelos EUA e pelo Irã, uma “rendição vergonhosa e humilhante”. E
os israelenses têm toda razão, porque os 14 pontos que foram acordados
representam de fato, e indiscutivelmente, um “ato de rendição” da parte dos
EUA. O governo de Donald Trump nunca conseguiu explicar nem
justificar seu ataque em meio a um processo de negociação que avançava
favoravelmente para os objetivos norte-americanos. E os objetivos que tomou
emprestado de Israel e foram sendo apresentados de forma desordenada
através do tempo, nenhum deles foi alcançado. Afinal, a promessa de não
fabricar armas nucleares já havia sido feita há muito tempo por sucessivos
governos iranianos. E a abertura do Estreito de Ormuz, a segunda grande
conquista de Donald Trump seria quase, é absurda e quase ridícula,
uma vez que o estreito só foi fechado devido ao ataque dos próprios
norte-americanos.
Com o
“pequeno” detalhe que para obter estas duas promessas de que os iranianos
manterão as coisas como estavam antes da guerra, os EUA gastaram
cerca de 40 bilhões de dólares, assassinaram quase todo o alto comando
religioso político e militar do Irã, mataram cerca de 3500 iranianos, e
destruíram, além de objetivos militares, grandes extensões da infraestrutura
civil do país. Além disso, para obter estes dois objetivos pífios e
rebarbativos, os EUA junto com Israel atingiram em cheio o
mercado mundial de energia e alimentos, provocando uma queda do produto mundial
e um abalo estrutural da economia europeia, que já vinha enfrentando uma grande
crise econômica e política desde o início do conflito ucraniano. Tudo isso
graças a uma guerra completamente absurda, que não foi provocada, não foi
justificada e nem foi explicada. Para que no final EUA e Israel se
rendessem, e optassem por um armistício que não deve durar muito tempo, com ou
sem Donald Trump na presidência dos EUA..
·
E Israel, como saiu desse conflito, e qual o futuro desse
país?
Com
toda certeza Israel saiu desta guerra pior que os EUA. Na
verdade, Israel e seu primeiro-ministro foram os maiores perdedores desta
guerra. Afinal, faz mais de duas décadas que Benjamin Netanyahu conspira e
defende, junto ao governo americano, a proposta de um ataque conjunto, massivo,
surpreendente e definitivo dos dois países contra o Irã. Um ataque que
destruiria a capacidade militar, a capacidade de resistência do povo e a
própria estrutura religiosa e civil do Estado Pera. E finalmente esse
ataque aconteceu, no dia 28 de fevereiro, mas nenhum dos objetivos
de Netanyhau foi alcançado. As forças coligadas mataram nas primeiras
horas do ataque, quase todas as lideranças religiosas e civis do Irã e depois
disto bombardearam mais de 130 cidades iranianas, e atacaram de forma contínua,
durante mais de um mês, milhares de alvos militares e civis em todo o pais.
Assim
mesmo, as duas potências atômicas não conseguiram derrubar o governo, nem
interromper o programa nuclear do Irã; não conseguiram destruir a
capacidade balística dos iranianos, nem muito menos dividir e dobrar moralmente
o povo persa. Pior ainda, o Irã resistiu, contra-atacou e ainda conquistou uma
posição de poder que não tinha antes da guerra – o controle militar e econômico
do Estreito de Ormuz, que foi a peça-chave da derrota estratégica imposta
pelo Irã contra os EUA. Além disso, o sistema de defesa aérea de
Israel, seu famoso Domo de Ferro, foi vazado de forma sistemática pelos
drones e novas armas balísticas iranianas, restando para Israel apenas o
controle do território arrasado de Gaza, e a região que ocupa atualmente,
no sul do Libano.
Por
fim, Israel foi excluído das negociações de paz e ainda foi
obrigado a ouvir uma das admoestações mais duras que jamais foram dirigidas por
uma autoridade norte-americana, contra os israelenses, quando o vice-presidente
americano, J. D. Vance, declarou numa entrevista na última semana que “o
presidente Donald Trump é o único chefe de Estado em todo mundo que
ainda demonstra simpatia pela nação de Israel neste momento”, aproveitando para
lembrar, ao mesmo tempo, aos governantes de Israel que “dois terços das armas
defensivas que protegeram Israel foram fabricadas por mãos norte-americanas e
pagas com o dinheiro dos contribuintes norte-americanos”. Algo absolutamente
inusitado. Assim mesmo, Israel deverá seguir sendo uma “máquina em
estado de guerra contínua” quase mais do que um Estado. Até porque tem plena
consciência da quase inutilidade do seu arsenal atômico, que não pode ser
utilizado no Oriente Médio sem atingir diretamente o seu pequeno
território e sua própria população.
·
Deste ponto de vista, Israel será um obstáculo para um
tratado de paz mais estável? Há divergência de fato entre as posições
estadunidenses e israelenses, ou trata-se apenas de uma ruptura circunstancial?
Será
agora e sempre, porque existe aí uma “guerra religiosa” no fundo desse
confronto de “soma-zero” entre Israel e Irã. Não são apenas os dois
Estados mais poderosos da Ásia Ocidental; são também dois Estados
religiosos que reproduzem continuamente uma disputa em torno do território de
Israel, considerado pelo Irã como um território que pertencia aos palestinos
islâmicos e que foi invadido e ocupado pelos israelenses que vieram
da Europa e dos EUA, sobretudo, com apoio e o patrocínio
político, e a tutela militar e financeira da Grã–Bretanha e dos EUA.
Neste sentido, o que se deve prever é que esse conflito permaneça, mesmo que se
mantenha durante algum tempo em “banho maria”.
·
O sr. acha que pesaram na decisão de Donald Trump se
render às pressões econômicas decorrentes da guerra e sua perda de popularidade
a pouco meses das eleições?
É bem
possível, apesar de que Donald Trump pareça ser uma pessoa que
costuma jogar avançando e apostando sempre em algum “ponto futuro” que lhe seja
favorável, no próprio tabuleiro no qual está perdendo. De qualquer maneira,
para um bom observador, dá para ver que ele é um jogador que sabe recuar e
reconhecer quando perdeu, por mais que siga se vangloriando de vitórias que só
aconteceram na sua própria cabeça.
·
As consequências da guerra no Irã freiam as pretensões
imperiais de Trump ou o farão buscar outros alvos – Cuba, por exemplo – para
tentar escapar do carimbo de derrotado?
Trump pode
buscar novos alvos, e certamente se voltará para Cuba e
a eleição brasileira. Mas a expansão imperial americana não parará de
forma alguma, e só “estancará’ ali onde for parada por alguma força igual e
contrária.. Os EUA já foram derrotados muitas vezes, mas essas derrotas
localizadas não alteraram sua trajetória expansiva, até porque seu território
nunca foi atingido ou afetado, que não fosse nos atentados de 11 de setembro de
2001. E seja lá como tenham sido montados aqueles atentados, a verdade é que
eles abriram ainda mais as portas da expansão global do poder americano,
encoberta pela consigna da guerra terrorismo, uma guerra tipicamente imperial.
Os EUA acabam de sofrer uma pesada derrota estratégica, mas isto não significa,
de forma alguma, o fim do “poder americano”, nem muito menos que os EUA
deixarão de ser uma grande potência no século XXI. Mesmo derrotados
no Vietnã, no Afeganistão e agora no Irã,
os EUA mantêm sua capacidade global de atacar, punir e destruir seus
“desafetos”, e isto lhe assegura lugar central dentro da ordem multipolar que
estará sendo construída ao longo desse novo século, através de muitas novas
guerras.
·
Muitos falam que a guerra contra o Irã teve o objetivo de
sufocar a China. Isto teria sido verdade?
Se isto
tiver sido verdade, foi mais um cálculo desastroso dos estrategistas
norte-americanos. Porque a China saiu ganhando de todos os pontos de
vista, inclusive com a visita quase “humilde” que Donald Trump foi
obrigado a fazer à China, depois do acordo do cessar-fogo com os
iranianos, que teve uma participação fundamental dos chineses.
·
O sr. acha que a construção de um mundo multipolar se
fortaleceu com a conclusão desse conflito, apesar da fragilidade da paz?
Ninguém
sabe exatamente o que seja e como funcionará um mundo multipolar, com tamanha
quantidade de Estados nacionais, e com tão poucas grandes potências
continentais, como EUA, Rússia, China e Índia. O que
existe neste momento é um mundo em avançado processo de fragmentação do “mundo
ocidental”, como efeito direto da desunião e enfraquecimento
da União Europeia, do divórcio entre EUA e Europa, e do afastamento
atual entre EUA e Israel. Nesse contexto, não há dúvida de que a impotência dos
EUA frente ao fechamento iraniano do Estreito de Ormuz acelerou o
processo, em curso, de deslocamento do centro do poder político e econômico do
sistema mundial na direção da Ásia, em particular na direção da China.
Isto não significa o fim do “poder americano”, mas seu debilitamento atual,
ainda que possa ser transitório, deve contribuir para que as negociações
de paz com o Irã acabem se transformando na primeira grande
negociação da nova era multipolar do sistema mundial, mesmo que ninguém saiba
exatamente o que ela virá a ser.
·
China e Rússia atuaram em apoio ao Irã. Que papel esses
dois países tiveram para a suspensão das hostilidades até aqui?
Há
fortes indícios de que a China e a Rússia tenham
repassado para os iranianos um sistema de informação e comunicação imune à
intervenção americana e israelita, que cumpriu papel decisivo na identificação
e localização dos principais centros de controle, rastreio conjunto
dos EUA e de Israel. Isto explicaria a extraordinária precisão e eficácia
dos ataques persas que conseguiram destruir estes centros de comando antes de
atacar praticamente todas as bases americanas distribuídas pelos países árabes
que cercam o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho. Depois disso,
a Rússia e a China vêm dando apoio diplomático às negociações de paz, e a China
em particular vem atuando de forma quase direta através do seu aliado, o
Paquistão, que cresceu e se tornou uma peça chave nesta nova conjuntura
internacional, que culminou com a assinatura do Memorando de
Entendimento. E depois disto, os dois países também vêm atuando para
neutralizar a oposição israelense ao acordo de paz.
·
A guerra já deixou consequências de longo prazo para a
economia mundial e a área militar. Quais são as inovações militares e
econômicas mais importantes que devem ser observadas?
A
primeira, sem dúvida, não é nova, e já foi utilizada muitas vezes através dos
séculos. Foi o uso estratégico do Estreito de Ormuz como uma arma
de guerra do Irã. Não apenas para estrangular uma economia nacional como
já aconteceu muitas vezes através da história A novidade foi a forma em que
o Irã atingiu seus invasores “pelas costas”, ao provocar uma crise
nos mercados globais de energia e alimentos, sobretudo. Mais do que isso, uma
crise que foi progredindo e acelerando com o passar das horas, jogando quase
toda a humanidade contra as potências invasores. Esta “inovação estratégica”
deixou como lição a possibilidade de que isto possa voltar a ocorrer em vários
outros estreitos e checkpoints que tenham a mesma importância estratégica
de Ormuz, como é o caso dos Estreitos de Málaca e Bab
el-Mandeb, ou dos Canais de Suez e do Panamá. Por outro lado, do
ponto de vista militar propriamente dito, a grande novidade desta guerra, que
já vinha se anunciando na Ucrânia, foi a “dronificação” dos ataques e da
defesa aérea, com a utilização massiva de novos modelos de drones muito baratos
e que demonstraram enorme eficácia na defesa do território e nos ataques
iranianos contras bases americanas, e contra o território israelense..
·
A guerra também parece modificar o cenário geopolítico do
Golfo e da Ásia Ocidental. Os EUA abrirão mão dessa região estratégica?
Com
certeza, essa guerra deve modificar profundamente o mapa e o equilíbrio
geopolítico do Oriente Médio. O Irã sobe vários degraus e assume
a posição de grande potência regional, e Israel desce outros tantos
degraus apesar de ser a única potência atômica da região, adequando seu poder
ao tamanho do seu território e de sua população. Além disto é muito provável
que se redefinam as relações entre os protetorados árabes dos EUA situados em
torno do Golfo Pérsico. Ficou visível sua artificialidade, como
também ficou visível a ineficácia defensiva da proteção americana. Na hora da
batalha, quando o Irã atacou as posições americanas, o que os árabes viram foi
a prioridade absoluta dos EUA na defesa de seus próprios homens e equipamentos
militares. E isto deve pesar muito na hora de desfazer os escombros físicos,
morais e políticos dessa guerra. Não é provável, entretanto, que os EUA se
retirem da região. Pelo contrário, a ter em conta o descompromisso dos EUA com
todo e qualquer acordo que assinam, o mais provável é que eles assumam uma
posição de pressão contínua e indireta, mantendo seu poder de assédio e punição
sobre os governos dos seus velhos aliados árabes.
·
Na Europa, crescem as pressões econômicas e militares
sobre a Rússia, que, seis meses atrás, parecia ter liquidado a disputa com a
Ucrânia. O que se deve esperar dessa guerra?
Parece
cada vez mais claro que o simples bombardeio aéreo não vence uma guerra. E as
forças que jogam na defensiva podem se manter por muito tempo realizando ações
de guerrilha com efeito midiático, por mais que elas não mudem o resultado
final do enfrentamento militar. Mas, neste caso, o problema é bem mais
complexo. Em primeiro lugar, porque a resistência nunca foi e segue não sendo
da Ucrânia exclusivamente, e sim da União Europeia e
da OTAN, que se propõem prolongar este conflito pelo máximo de tempo possível,
para poder reerguer sua indústria e sua própria capacidade militar,
independentemente dos EUA. E, em segundo lugar, porque apesar de que
a Rússia esteja prestes a concluir sua conquista do Donbass, seu
grande objetivo nunca foi apenas regional. Desde o início, declaradamente,
a Rússia esteve questionando e se propondo modificar os acordos e o o
equilíbrio geopolítico que lhe foi imposto pelos EUA e
pela Europa, depois da derrota e dissolução da União Soviética, em 1991.
Deste ponto de vista, aliás, a Rússia ainda não obteve um novo acordo formal
com os europeus, mas já obteve grandes vitórias estratégicas, ao conter o
avanço da OTAN e – como efeito colateral – instalar uma crise política e
econômica generalizada dentro da Europa, e nas relações da Europa com os EUA.
Basta olhar para a divisão, a fragilidade atual da Comissão Europeia,
e para o “ostracismo’ da Sra Ursula von der Leyen, que foi excluída,
pura e simplesmente, de todas as negociações de paz em curso no momento, no Irã,
como na Ucrânia.
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Trump entrou abertamente nas eleições brasileiras. O que
esperar para os próximos meses até as urnas em outubro?
Uma
verdadeira guerra, com forte intervenção externa, sobretudo dos grandes grupos
financeiros e tecnológicos de extrema-direita e associados à defesa
dos EUA e de Israel. Porque apesar das sucessivas vitórias
da extrema-direita na América do Sul, neste s últimos tempos, sempre com o
apoio e a intervenção do governo Trump, e apesar de que todos estes novos
governantes logo declarem seu apoio a Israel, a verdade é que todos eles
individualmente são inteiramente irrelevantes, para a Grande Estratégia
dos EUA e para as grandes disputas geopolíticas mundiais. De forma muito
simples e direta: os países da América do Sul sem
o Brasil não têm a menor relevância mundial, nem mesmo
para Donald Trump. E portanto, deste ponto de vista, a grande batalha
sul-americana estará sendo travada mesmo é no Brasil, neste segundo semestre.
Diria mais, o futuro do Continente estará sendo decidido nestas próximas
eleições presidenciais brasileiras.
Fonte:
Entrevista com José Luís Fiori para Eleonora de Lucena, da Tutaméia, em IHU

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