Quem
foi Zózimo, o zagueiro intelectual bicampeão com a Seleção Brasileira
Zózimo
ainda chegou a saltar do carro, deixando para trás a carcaça do automóvel que
conduzia. A porrada foi frontal. O veículo, um Volkswagen placa SO-8649,
colidiu com um poste no bairro de Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Tinha chovido bastante naquela tarde de 21 de setembro de 1977, deixando a
estrada do Mendanha bastante escorregadia.
Ainda
zonzo, deu alguns passos para frente até cair morto. O relógio de pulso,
danificado pela batida, indicava às 14h45 como o horário exato do infortúnio.
Encerrava ali, aos 45 anos, a vida do primeiro baiano campeão da Copa do Mundo
com a Seleção Brasileira de futebol.
Zózimo
Alves Calazans não foi apenas o pioneiro. Ele repetiu a dose no Mundial
seguinte, mantendo a escrita de ser o único homem nascido neste torrão de terra
a levantar duas vezes a Taça Jules Rimet.
Fez
parte tanto do escrete comandado por Vicente Feola em 1958, na Suécia, como
também daquele treinado por Aymoré Moreira, no Chile, em 1962.
Na
primeira Copa não jogou uma partida sequer. Feola preferiu montar o miolo da
zaga com Bellini (capitão, que ergueu a Taça) e Orlando Peçanha. Os dois eram
atletas do Vasco e formavam uma dupla bastante entrosada pelo cruzmaltino.
Foi do
banco de reservas que o baiano, nascido em 1932 no bairro de Plataforma, em
Salvador, assistiu Pelé e Garrincha mudarem completamente o destino da Seleção
Brasileira na partida contra a temida União Soviética, do lendário goleiro Lev
Yashin.
A
partir dali, os dois não sairiam mais do time, levando o Brasil até o título,
após baterem os donos da casa por 5 a 2. Pelé terminaria a Copa consagrado como
Rei, aos 17 anos de idade. Já Garrincha como o Anjo das Pernas Tortas,
driblador infernal e maior ponta direita do futebol.
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A consagração definitiva
O
Mundial que consagrou Zózimo foi o seguinte, em 1962. Aymoré Moreira promoveu
ele e Mauro (capitão do time) como a dupla cão de guarda para buscar o segundo
título – o único, até hoje, do Brasil em solo sul-americano.
Logo na
segunda partida, contra a então Tchecoslováquia (hoje dividida em dois países:
República Tcheca e Eslováquia), veio um baque que abalou a confiança da equipe.
O Rei Pelé tentou um chute de fora da área e sentiu uma forte dor na virilha. A
lesão o tiraria do resto da Copa. A Seleção Brasileira perdia seu principal
jogador.
Garrincha
chamou a responsabilidade e passou a entregar não só dribles e passes, como
também gols. Com o ponta-direita jogando mais centralizado e chamando o jogo,
Zózimo teve mais trabalho para garantir a segurança da cozinha.
Depois
da lesão de Pelé, o Brasil derrubou Espanha (2 a 1), Inglaterra (3 a 1) e Chile
(4 a 2) até chegar na grande final, na cidade de Santiago. Por ironia do
destino, a finalíssima seria novamente contra a Tchecoslováquia, contra quem a
Seleção havia empatado apenas em 0 a 0, no duelo no qual Pelé se lesionou.
Na
decisão, os tchecos abriram o placar, aos 15 do primeiro tempo, após uma falha
de Zózimo que não acompanhou a infiltração do atacante Josef Masopust pelo meio
da grande área. O Brasil empataria com Amarildo, dois minutos depois.
A
virada no placar viria com participação do baiano, em um ato de redenção pela
falha anterior. Aos 24 do segundo tempo, Zózimo recuperou uma bola na defesa e
passou para Zito, que infiltrou para Amarildo. O Possesso, substituto de Pelé,
cruzou na esquerda e o próprio Zito completou de cabeça. O Brasil ainda
fecharia o placar em 3 a 1, com Vavá, após falha do goleiro Schrojf.
Naquele
17 de junho de 1962, dois dias antes de completar 30 anos, Zózimo vivia sua
maior consagração no esporte. O camisa 5 atuou em todas as seis partidas do
Mundial do Chile e foi elogiado pela qualidade técnica, elegância e entrega,
superando a desconfiança inicial pelo físico franzino.
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O zagueiro poliglota
De
família humilde, Zózimo migrou no começo da adolescência com os pais de
Salvador para o Rio de Janeiro – então, capital da República. Foi morar em São
Cristóvão, subúrbio carioca. Lá, começou a se destacar nas divisões de base do
Bangu. Por cobrança da família não abandonou os estudos.
Paralelo
ao futebol, fez o curso de pedagogia e aprendeu a falar inglês e francês. Na
Copa da Suécia, em 1958, era o único atleta que dominava o idioma, servindo de
intérprete para a delegação.
A
carreira foi quase toda no Bangu, por onde atuou em 461 partidas. A saída do
clube de Moça Bonita, no entanto, foi conturbada. Foi acusado de ter recebido
suborno do Fluminense para entregar o campeonato de 1963, ao pegar a bola com
as mãos dentro da grande área.
Passou
a vida toda se justificando pelo pênalti infantilmente cometido, dizendo que
tinha entendido que o jogo havia terminado e foi recolher a pelota para se
encaminhar para o vestiário.
Zózimo
ainda atuou pelo Flamengo e Guaratinguetá. Em abril de 1965 se transferiu para
o Peru, onde permaneceu por nove anos. Atuou em clubes como Sport Boys e
Porvenir Miraflores. Finalizou a carreira de jogador, aprendeu o espanhol e se
tornou técnico de futebol.
Quando
se encaminhava para a Zona Oeste do Rio com seu automóvel, no dia do fatídico
acidente, ia treinar os jogadores da divisão de base do Campo Grande. Diz-se a
época, que já estava fechado com Alianza Lima, do Peru, e assumiria a equipe no
fim daquele ano.
Não deu
tempo. Zózimo ainda chegou a saltar do carro, após a batida, mas não conseguiu
ir adiante. Embora, no fim, tenha ido muito longe.
Fonte:
Por André Uzeda, no Correio

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