sábado, 27 de junho de 2026

Quem foi Zózimo, o zagueiro intelectual bicampeão com a Seleção Brasileira

Zózimo ainda chegou a saltar do carro, deixando para trás a carcaça do automóvel que conduzia. A porrada foi frontal. O veículo, um Volkswagen placa SO-8649, colidiu com um poste no bairro de Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Tinha chovido bastante naquela tarde de 21 de setembro de 1977, deixando a estrada do Mendanha bastante escorregadia.

Ainda zonzo, deu alguns passos para frente até cair morto. O relógio de pulso, danificado pela batida, indicava às 14h45 como o horário exato do infortúnio. Encerrava ali, aos 45 anos, a vida do primeiro baiano campeão da Copa do Mundo com a Seleção Brasileira de futebol.

Zózimo Alves Calazans não foi apenas o pioneiro. Ele repetiu a dose no Mundial seguinte, mantendo a escrita de ser o único homem nascido neste torrão de terra a levantar duas vezes a Taça Jules Rimet.

Fez parte tanto do escrete comandado por Vicente Feola em 1958, na Suécia, como também daquele treinado por Aymoré Moreira, no Chile, em 1962.

Na primeira Copa não jogou uma partida sequer. Feola preferiu montar o miolo da zaga com Bellini (capitão, que ergueu a Taça) e Orlando Peçanha. Os dois eram atletas do Vasco e formavam uma dupla bastante entrosada pelo cruzmaltino.

Foi do banco de reservas que o baiano, nascido em 1932 no bairro de Plataforma, em Salvador, assistiu Pelé e Garrincha mudarem completamente o destino da Seleção Brasileira na partida contra a temida União Soviética, do lendário goleiro Lev Yashin.

A partir dali, os dois não sairiam mais do time, levando o Brasil até o título, após baterem os donos da casa por 5 a 2. Pelé terminaria a Copa consagrado como Rei, aos 17 anos de idade. Já Garrincha como o Anjo das Pernas Tortas, driblador infernal e maior ponta direita do futebol.

<><> A consagração definitiva

O Mundial que consagrou Zózimo foi o seguinte, em 1962. Aymoré Moreira promoveu ele e Mauro (capitão do time) como a dupla cão de guarda para buscar o segundo título – o único, até hoje, do Brasil em solo sul-americano.

Logo na segunda partida, contra a então Tchecoslováquia (hoje dividida em dois países: República Tcheca e Eslováquia), veio um baque que abalou a confiança da equipe. O Rei Pelé tentou um chute de fora da área e sentiu uma forte dor na virilha. A lesão o tiraria do resto da Copa. A Seleção Brasileira perdia seu principal jogador.

Garrincha chamou a responsabilidade e passou a entregar não só dribles e passes, como também gols. Com o ponta-direita jogando mais centralizado e chamando o jogo, Zózimo teve mais trabalho para garantir a segurança da cozinha.

Depois da lesão de Pelé, o Brasil derrubou Espanha (2 a 1), Inglaterra (3 a 1) e Chile (4 a 2) até chegar na grande final, na cidade de Santiago. Por ironia do destino, a finalíssima seria novamente contra a Tchecoslováquia, contra quem a Seleção havia empatado apenas em 0 a 0, no duelo no qual Pelé se lesionou.

Na decisão, os tchecos abriram o placar, aos 15 do primeiro tempo, após uma falha de Zózimo que não acompanhou a infiltração do atacante Josef Masopust pelo meio da grande área. O Brasil empataria com Amarildo, dois minutos depois.

A virada no placar viria com participação do baiano, em um ato de redenção pela falha anterior. Aos 24 do segundo tempo, Zózimo recuperou uma bola na defesa e passou para Zito, que infiltrou para Amarildo. O Possesso, substituto de Pelé, cruzou na esquerda e o próprio Zito completou de cabeça. O Brasil ainda fecharia o placar em 3 a 1, com Vavá, após falha do goleiro Schrojf.

Naquele 17 de junho de 1962, dois dias antes de completar 30 anos, Zózimo vivia sua maior consagração no esporte. O camisa 5 atuou em todas as seis partidas do Mundial do Chile e foi elogiado pela qualidade técnica, elegância e entrega, superando a desconfiança inicial pelo físico franzino.

<><> O zagueiro poliglota

De família humilde, Zózimo migrou no começo da adolescência com os pais de Salvador para o Rio de Janeiro – então, capital da República. Foi morar em São Cristóvão, subúrbio carioca. Lá, começou a se destacar nas divisões de base do Bangu. Por cobrança da família não abandonou os estudos.

Paralelo ao futebol, fez o curso de pedagogia e aprendeu a falar inglês e francês. Na Copa da Suécia, em 1958, era o único atleta que dominava o idioma, servindo de intérprete para a delegação.

A carreira foi quase toda no Bangu, por onde atuou em 461 partidas. A saída do clube de Moça Bonita, no entanto, foi conturbada. Foi acusado de ter recebido suborno do Fluminense para entregar o campeonato de 1963, ao pegar a bola com as mãos dentro da grande área.

Passou a vida toda se justificando pelo pênalti infantilmente cometido, dizendo que tinha entendido que o jogo havia terminado e foi recolher a pelota para se encaminhar para o vestiário.

Zózimo ainda atuou pelo Flamengo e Guaratinguetá. Em abril de 1965 se transferiu para o Peru, onde permaneceu por nove anos. Atuou em clubes como Sport Boys e Porvenir Miraflores. Finalizou a carreira de jogador, aprendeu o espanhol e se tornou técnico de futebol.

Quando se encaminhava para a Zona Oeste do Rio com seu automóvel, no dia do fatídico acidente, ia treinar os jogadores da divisão de base do Campo Grande. Diz-se a época, que já estava fechado com Alianza Lima, do Peru, e assumiria a equipe no fim daquele ano.

Não deu tempo. Zózimo ainda chegou a saltar do carro, após a batida, mas não conseguiu ir adiante. Embora, no fim, tenha ido muito longe.

 

Fonte: Por André Uzeda, no Correio

 

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