Doença
de "outra época", tétano segue sendo uma ameaça mortal
O
tétano pode parecer uma doença de outra época, mas especialistas alertam que
ele continua sendo uma ameaça séria.
Dois
relatórios recentes dos CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos
Estados Unidos) encontraram centenas de casos de tétano e dezenas de mortes ao
longo de 15 anos, além de quatro casos em crianças apenas em 2024. Ao mesmo
tempo, as taxas de vacinação diminuíram, o que preocupa os especialistas, que
temem que mais pessoas fiquem vulneráveis a essa infecção potencialmente fatal,
embora prevenível.
Para
ajudar a entender o que é o tétano, por que ele continua perigoso e como as
pessoas podem se proteger, a CNN conversou com a especialista em bem-estar Dra.
Leana Wen, médica emergencista e professora associada clínica da Universidade
George Washington. Ela também atuou como secretária de Saúde de Baltimore.
LEIA A
ENTREVISTA:
• O que exatamente é o tétano? É verdade
que as pessoas o contraem ao pisar em um prego enferrujado?
Dra.
Leana Wen: O tétano é causado por uma bactéria chamada Clostridium tetani. Essa
bactéria produz esporos extremamente comuns no ambiente. Eles podem ser
encontrados no solo, na poeira e em fezes de animais.
O
tétano ocorre quando esses esporos entram no organismo por meio de uma lesão.
Uma vez dentro do corpo, a bactéria pode produzir uma toxina potente que ataca
o sistema nervoso.
Quanto
ao famoso prego enferrujado, a ferrugem em si não é o problema. Pregos e outros
objetos representam risco porque podem estar contaminados com esses esporos
bacterianos, especialmente quando ficam expostos ao ambiente externo.
Diversos
tipos de ferimentos podem levar ao tétano. Perfurações são um exemplo clássico,
mas cortes profundos, fraturas expostas, queimaduras, lesões por esmagamento e
até pequenos cortes podem representar risco se estiverem contaminados por
sujeira ou detritos. Em uma série recente de casos do CDC envolvendo quatro
crianças, os ferimentos incluíram uma fratura no tornozelo sofrida durante o
uso de um patinete elétrico, uma perfuração e uma lesão no pé.
• Se alguém sofrer um corte ou outro
ferimento, quando deve se preocupar com o tétano?
Wen: As
pessoas devem procurar atendimento médico se tiverem uma perfuração profunda,
uma ferida contaminada com terra ou fezes de animais, uma lesão por
esmagamento, queimadura, lesão por congelamento ou um ferimento contendo
resíduos que não possam ser removidos facilmente.
O
profissional de saúde não apenas fará a limpeza da ferida, mas também
determinará se é necessária proteção adicional contra o tétano.
É
fundamental procurar atendimento imediatamente. Muitas vezes, o tétano pode ser
prevenido após uma lesão por meio do tratamento adequado da ferida, da
aplicação de uma vacina contendo proteção contra o tétano e, em alguns casos,
da administração de imunoglobulina antitetânica, que contém anticorpos capazes
de fornecer proteção imediata.
• Quais são os sintomas do tétano e por
que ele pode se tornar tão perigoso?
Wen: Os
sintomas geralmente começam entre alguns dias e algumas semanas após a lesão.
Muitas
pessoas já ouviram o termo "trismo" ou "travamento da
mandíbula" (lockjaw), e esse é um dos sintomas clássicos. Inicialmente, os
pacientes podem sentir rigidez na mandíbula, dor no pescoço, dor nas costas ou
dificuldade para engolir.
À
medida que a doença progride, os músculos de todo o corpo podem ficar rígidos e
sofrer espasmos dolorosos.
A
doença pode rapidamente colocar a vida em risco. Os músculos responsáveis pela
respiração podem deixar de funcionar adequadamente. Alguns pacientes
desenvolvem espasmos nas cordas vocais que bloqueiam as vias aéreas. Outros
apresentam oscilações perigosas da pressão arterial e alterações do ritmo
cardíaco porque o sistema nervoso autônomo também é afetado.
A
recuperação pode levar semanas ou meses e, mesmo com excelente atendimento
médico, a doença pode ser fatal.
• Quais vacinas são recomendadas e quando
as pessoas devem recebê-las?
Wen: A
Academia Americana de Pediatria recomenda que as crianças recebam cinco doses
de uma vacina que contenha proteção contra o tétano como parte do calendário
infantil de imunização, começando aos 2 meses de idade.
Os
adolescentes devem receber um reforço da vacina Tdap — que protege contra
tétano, difteria e coqueluche acelular — aos 11 ou 12 anos.
Os
adultos devem tomar uma dose de reforço contra o tétano a cada 10 anos. Segundo
o CDC, pessoas que sofreram queimaduras graves ou ferimentos contaminados devem
receber um reforço após cinco anos.
Além
disso, gestantes devem receber a vacina Tdap em cada gravidez para ajudar a
proteger os recém-nascidos.
• Quem corre mais risco atualmente?
Wen: As
pessoas mais vulneráveis são aquelas que não foram vacinadas ou não completaram
o esquema básico de vacinação.
Um
relatório de vigilância do CDC constatou que, entre as pessoas que
desenvolveram tétano e cuja situação vacinal era conhecida, quase metade nunca
havia recebido uma vacina contra a doença.
Crianças
cujos pais ou responsáveis recusam a vacinação são particularmente vulneráveis.
Isso também inclui recém-nascidos, já que a vacinação durante a gravidez ajuda
a protegê-los contra o tétano neonatal.
Outro
grupo importante é o de idosos. As maiores taxas de casos e mortes relacionadas
ao tétano ocorreram entre mulheres com 80 anos ou mais, segundo o CDC.
A série
primária da vacina contra o tétano passou a ser recomendada em 1947. É possível
que algumas dessas mulheres nunca tenham recebido a vacinação básica nem tenham
sido vacinadas durante o serviço militar, como ocorreu com muitos homens da
mesma faixa etária.
• O tétano é contagioso? É possível pegar
a doença de outra pessoa?
Wen:
Não. O tétano não é contagioso.
Isso é
importante porque ajuda as pessoas a entenderem como a doença é transmitida e
reforça a importância da vacinação.
Em
doenças como o sarampo, a vacinação de uma pessoa ajuda a proteger outras
porque reduz a transmissão na comunidade, o que chamamos de imunidade coletiva.
Com o
tétano, isso não acontece. Você não pode contar com o fato de outras pessoas
estarem vacinadas para se manter protegido.
• O que os relatórios do CDC encontraram
que motivou novos alertas?
Wen: O
relatório de vigilância do CDC analisou os casos de tétano nos Estados Unidos
entre 2009 e 2023.
Nesse
período de 15 anos, foram registrados 402 casos e 37 mortes.
Quase
todos os pacientes precisaram ser hospitalizados, e cerca de dois terços dos
internados necessitaram de cuidados intensivos. Mais de 40% dos pacientes
hospitalizados precisaram de ventilação mecânica, e aproximadamente uma em cada
dez pessoas infectadas morreu.
O outro
relatório descreveu quatro casos de tétano em crianças de quatro estados
diferentes — Idaho, Minnesota, Missouri e Wisconsin — todos ocorridos em 2024.
Embora
esse número pareça pequeno, o tétano pediátrico é extremamente raro nos Estados
Unidos. Entre 2013 e 2023, houve em média apenas quatro casos pediátricos por
ano em todo o país.
As
quatro crianças desenvolveram tétano generalizado, a forma mais comum e grave
da doença. Nessa condição, a toxina afeta músculos de todo o corpo em vez de
permanecer restrita a uma única região.
Todos
os pacientes precisaram ser hospitalizados, com internações variando de oito a
45 dias.
É
importante destacar que nenhuma dessas crianças havia completado o esquema
básico de vacinação contra o tétano.
Todas
desenvolveram a doença após sofrerem lesões que poderiam ter permitido a
entrada da bactéria no organismo. Em dois dos casos, as famílias procuraram
atendimento médico após o ferimento, mas recusaram o tratamento preventivo
recomendado, incluindo a vacina e a imunoglobulina antitetânica.
• Qual é sua principal orientação para
quem deseja proteger a si mesmo e sua família?
Wen:
Primeiro, saiba qual é a sua situação vacinal.
Muitos
adultos não se lembram de quando receberam a última dose de reforço contra o
tétano ou mesmo se completaram o esquema básico de vacinação. Isso pode ser
facilmente verificado com um profissional de saúde.
Segundo,
não ignore ferimentos. Procure atendimento médico rapidamente em caso de
perfurações profundas ou feridas contaminadas por terra e resíduos.
Terceiro,
reconheça que o tétano continua existindo.
A
doença tornou-se rara porque as vacinas funcionam muito bem, e não porque ela
desapareceu. As bactérias que causam o tétano estão presentes em todo o
ambiente e não podem ser eliminadas.
Por
isso, manter a vacinação em dia é tão importante. Trata-se de uma situação em
que a medicina dispõe de uma forma segura e altamente eficaz de prevenir uma
doença potencialmente fatal — e devemos aproveitar essa proteção.
Fonte:
CNN Brasil

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