Ricardo
Nêggo Tom: Michelle, a erva venenosa que pode destruir a plantação dos
"Bolsonaro" na política brasileira
Parece
uma rosa; de longe é formosa. Tem voz de uma sereia, mas, cuidado! Não a toque.
Ela é má e pode até te dar um choque. Uma espécie de “mulher de César” que,
mais do que ser, deve parecer honesta. Um estereótipo crível, aliado a uma
postura incrível, quase indefectível. Uma mulher que derrama um banquete, um
palacete. Um anjo de vestido, uma libido do cacete. Ela é tão, tão vistosa que
talvez seja mentira. Assim é Michelle Bolsonaro à primeira vista. Uma mistura
de “Erva Venenosa” e “Garota Nacional”, sobre cuja existência Rita Lee e Skank
já nos alertaram.
Eu
detesto o jeito dela, mas pensando bem, ela fecha com os sonhos de muita gente
como ninguém. Mesmo ela sendo pior do que cobra cascavel e destilando um veneno
cruel disfarçado de virtude e santidade. Haja paráfrases, citações ou licenças
poéticas para defini-la. Haja identitarismo para explicar o fato de que até
algumas mulheres de esquerda tenham manifestado empatia pelo seu desabafo
político-familiar de vinte e sete minutos postado nas redes sociais, em meio a
um jogo do Brasil na Copa do Mundo. Ela quis nos provar. Sem medo e sem amor.
Ela só quis nos provar.
De
fato, Michelle afundou um pouco mais a candidatura de seu enteado, que já era
visto como um pária por muitos no espectro direitista no país. Inclusive,
dentro do meio evangélico, onde sua madrasta é lida como uma serva virtuosa e
agradável a Deus. Ou seria uma deusa? Apófis, talvez. A serpente que
representava o caos e a escuridão na mitologia egípcia.
Na
mitologia bolsonarista, Michelle passou a ser vista como inimiga do deus pneu.
Uma ameaça peçonhenta ao projeto de salvação do país pelas mãos do escolhido
pelo messias que não faz milagre. Uma oposição ao triunfo do filho próspero e
abençoado pela deusa “rachadinha” e pelo deus Master.
O texto
lido por Michelle não foi redigido de última hora. Ele já vinha sendo elaborado
a muitas mãos e preparado para ser lido publicamente no momento certo. A
independência e autonomia exibidas por ela em sua brilhante leitura
interpretativa me fizeram pensar que Jair Bolsonaro – a quem ela chama
carinhosamente de “meu galego” no vídeo – pode já não estar mais entre nós.
Mesmo que ainda não tenha tido o seu corpo sepultado.
Acabou,
porra! Seu Jair já era! Não tem mais saúde e vitalidade para impor a sua
decantada masculinidade tóxica, e agora se vê paciente e refém de sua esposa e
cuidadora. Teria virado o “maricas” que, quando governava o país, acusou o seu
povo de ser? Vai ficar calado até quando? Seja homem, porra! Parece que não
consegue mais. Afinal, todo mundo vai deixar de ser homem um dia.
Como
toda erva venenosa que se preze, Michelle sabe ser letal. E o foi ao terminar o
seu colóquio digital com uma ameaça subliminar: “Falei quase tudo que precisava
ser dito”, uma forma de anunciar que o seu desabafo terá continuação caso os
seus enteados insistam em humilhar e desrespeitar uma mulher que sabe tudo o
que eles fizeram no verão passado e continuam a fazer no inverno presente. Uma
mulher que está disposta a revidar a “punhalada” que diz ter sofrido de seu
enteado mais velho e mais arteiro.
Invocando
o seu Deus, que é pai e não madrasta, Michelle entrega os seus inimigos nas
mãos do acaso, tomado como justo juiz. O acaso irá protegê-la enquanto os seus
enteados andarem distraídos e não perceberem que ela os tem nas mãos.
Não sei
se Michelle fez o “L”, mas ficou nítido que ela orientou votos e fez propaganda
eleitoral antecipada em seu desabafo. Se não tivéssemos o TSE sob o comando de
dois ministros indicados por seu “galego”, seu partido teria sérios problemas
com a Justiça Eleitoral. Aliás, mais problemas do que o seu discurso ensaiado
já criou dentro da legenda. Porém, o presidente da sigla sabe com que espécie
de cobra está lidando e não irá repreendê-la. Valdemar Costa Neto é mais um
refém da “erva” e sabe que o seu veneno pode ser mortal.
A cobra
está cega de raiva e já armou o bote. Ela não está sozinha nesse ninho e deixou
isso claro ao agradecer às pessoas que a incentivaram a tornar público o seu
descontentamento. Entre essas pessoas deve estar Damares Alves, a cobra-mestra
da ninhada. A mentora política de Michelle, que sempre defendeu uma chapa
presidencial com Tarcísio de Freitas na cabeça e sua pupila como vice.
O apelo
à solidariedade feminina está presente na fala da bem treinada Michelle, que
aproveita o momento em que a sociedade se mobiliza contra o machismo e a
misoginia — práticas que ela própria relativiza em seu discurso de submissão
religiosa — para se vitimizar expondo o comportamento machista e misógino de
seus enteados. Um lapso reptiliano que nos lembra que toda cobra parece
submissa até ser atacada.
Assim
como a pastora bolsonarista que enganou parte da esquerda com seu discurso
contra a violência doméstica no meio evangélico, Michelle tenta atrair a
sororidade de todas as mulheres vítimas da subjugação masculina. Algumas caíram
na armadilha e deixaram seus calcanhares expostos à sua doce picada. Outras
perceberam que a cascavel preparava o bote e se mantiveram protegidas pelo bom
senso.
Flávio,
picado pela serpente, reagiu de forma canastrona ao publicar um texto em seu
perfil no “X”, no qual afirma que “em nenhum momento ofendi ou tive a intenção
de ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas.
Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher”.
Quanta
grandiosidade em reconhecer publicamente um possível erro. Só falta vir a
público dizer que em nenhum momento recebeu ou teve a intenção de receber R$
134 milhões de Daniel Vorcaro. Se recebeu, mais uma vez pede desculpas. Mas não
devolve a grana.
Eduardo
Bolsonaro também mereceu uma citação especial por parte de Michelle, que
insinuou que ele lidera um grupo “localizado nos EUA” que atua para destruir
sua imagem. Vamos ver se ele pedirá a Trump sanções contra a madrasta ou se
dirá que ela se aliou a Moraes para persegui-lo.
Enquanto
isso, o veneno de Michelle segue sem antídoto capaz de evitar a morte política
da família Bolsonaro.
• Será que Michelle ainda quer a vaga de
Flávio Bolsonaro?
A
ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro voltou ao centro da crise política da
família Bolsonaro depois de publicar um vídeo em que afirma ter sido alvo de
ataques de Flávio Bolsonaro e de seus irmãos. A questão sobre o real alcance do
gesto — se foi apenas uma reação emocional ou se sinaliza uma movimentação mais
ampla para ocupar espaço na disputa presidencial — foi levantada pela colunista
Eliane Cantanhêde, do Estado de S. Paulo.
Segundo
a análise, a reação de Michelle provocou dúvidas tanto entre bolsonaristas
quanto entre petistas: ela estaria apenas respondendo ao enteado ou estaria se
insinuando como alternativa eleitoral à candidatura de Flávio Bolsonaro? A
crise ocorre em um momento de desgaste da pré-campanha do senador, atingida por
episódios como o caso “Dark Horse” e pelas novas ameaças de Donald Trump, atual
presidente dos Estados Unidos.
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Crise familiar ganha dimensão política
O
episódio ampliou a percepção de que a crise na família Bolsonaro não é apenas
doméstica, mas também política e eleitoral. De acordo com a análise de
Cantanhêde, integrantes do governo Lula observam com satisfação a capacidade
dos bolsonaristas de “darem tiros nos próprios pés”, enquanto aliados da
direita tentam entender qual é, afinal, a posição de Jair Bolsonaro diante do
embate entre Michelle e seus filhos.
A
dúvida central é se o ex-presidente apoiou, autorizou ou simplesmente deixou
correr o ataque público de Michelle contra Flávio. Também permanece em aberto a
gravidade da crise familiar neste momento decisivo para a definição do campo
bolsonarista em 2026.
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Michelle diz ter sido “apunhalada”, “maltratada” e “humilhada”
No
vídeo citado pela colunista, Michelle Bolsonaro afirmou ter sido “apunhalada”,
“maltratada”, “humilhada” e “desrespeitada” por Flávio Bolsonaro. Ela também
acusou os filhos do ex-presidente de agirem de maneira articulada contra ela.
Segundo
Michelle, os irmãos de Flávio “vieram juntos, de forma coordenada, com textos
bem parecidos, o que pareceu combinado, premeditado”. A ex-primeira-dama ainda
lamentou que “eles” a tratem como “idiota”, “que não entende nada de política”.
As
declarações expõem uma disputa de poder dentro do bolsonarismo e reforçam a
pergunta que passou a circular nos bastidores: Michelle estaria apenas reagindo
a ataques ou estaria se apresentando como uma alternativa mais competitiva do
que Flávio Bolsonaro para liderar a direita?
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O peso do voto feminino e dos evangélicos
A
eventual força eleitoral de Michelle Bolsonaro passa por dois segmentos
decisivos: mulheres e evangélicos. A colunista lembra que Lula venceu a eleição
presidencial de 2022 por margem apertada, com 50,9% dos votos válidos, e que o
voto feminino teve peso importante naquele resultado.
As
mulheres representam cerca de 53% do eleitorado brasileiro. Em 2022, Lula teve
vantagem entre elas, com 54% dos votos, contra 46% de Jair Bolsonaro. Nesse
contexto, a imagem de Michelle poderia ser vista por setores da direita como
uma tentativa de reduzir a rejeição do bolsonarismo entre o eleitorado
feminino.
Além
disso, Michelle comanda o PL Mulher e tem forte presença entre evangélicos,
segmento em que Jair Bolsonaro teve desempenho expressivo na eleição passada.
Embora o Tribunal Superior Eleitoral não detalhe votos por religião,
levantamentos independentes apontaram que Bolsonaro chegou a cerca de dois
terços dos votos entre evangélicos em 2022.
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Flávio pode precisar mais de Michelle do que ela dele
Na
avaliação apresentada pela colunista, Flávio Bolsonaro corre o risco de, sem
Michelle, não conseguir ampliar sua votação entre mulheres e ainda perder
terreno entre evangélicos. Ou seja, poderia deixar de conquistar novos apoios
e, ao mesmo tempo, enfraquecer uma base que já era favorável ao bolsonarismo.
Por
isso, a crise aberta com a ex-primeira-dama é especialmente delicada para o
senador. A reação de Michelle não apenas expôs tensões internas, como também
colocou em dúvida a capacidade de Flávio de unificar o campo bolsonarista em
torno de seu nome.
Após a
repercussão, Flávio tentou se desculpar, mas, segundo a análise de Cantanhêde,
o gesto não foi convincente. A colunista também cita o fato de ele já ter sido
contestado publicamente em relação ao empresário Daniel Vorcaro, o que
aumentaria o desgaste de sua imagem.
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A contradição do discurso de “Deus, Pátria e Família”
O caso
também reacendeu críticas às contradições do bolsonarismo em relação ao papel
das mulheres. Para Cantanhêde, o tratamento dado a Michelle se conecta ao
histórico de posições do ex-presidente e de seus filhos nas questões de gênero,
apesar do slogan “Deus, Pátria e Família”.
A
colunista cita ainda declarações de Heloísa Bolsonaro, mulher de Eduardo
Bolsonaro, que é psicóloga. Em um encontro de mulheres, Heloísa afirmou que
“não há mulher insubmissa e livre” e defendeu “homem masculino, com
testosterona”.
Também
é lembrada a justificativa dada por Jair Bolsonaro à Polícia Federal ao
explicar por que mantinha a posse de uma pistola, apesar de condenado e preso.
Segundo o texto, Bolsonaro afirmou: “Eu tinha três mulheres em casa, não podia
ficar desarmado.”
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Quem será o nome de Bolsonaro para 2026?
A crise
deixa no ar duas perguntas centrais. A primeira é se a família Bolsonaro
admite, de fato, o protagonismo político de Michelle. A segunda é se ela tem
biografia, história e consistência para disputar a Presidência da República.
Mais do
que isso, o embate interno reacende a disputa sobre quem Jair Bolsonaro
considera o melhor nome para representar seu campo político em 2026. Ao mesmo
tempo, também provoca outra pergunta relevante para o cenário eleitoral: qual
adversário o presidente Lula mais temeria enfrentar em uma nova disputa
presidencial?
Por
ora, o vídeo de Michelle Bolsonaro produziu um efeito imediato: expôs o racha
familiar, fragilizou Flávio Bolsonaro e colocou novamente a ex-primeira-dama no
centro das especulações sobre o futuro da direita brasileira.
Fonte:
Brasil 247

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