sábado, 27 de junho de 2026

Ricardo Nêggo Tom: Michelle, a erva venenosa que pode destruir a plantação dos "Bolsonaro" na política brasileira

Parece uma rosa; de longe é formosa. Tem voz de uma sereia, mas, cuidado! Não a toque. Ela é má e pode até te dar um choque. Uma espécie de “mulher de César” que, mais do que ser, deve parecer honesta. Um estereótipo crível, aliado a uma postura incrível, quase indefectível. Uma mulher que derrama um banquete, um palacete. Um anjo de vestido, uma libido do cacete. Ela é tão, tão vistosa que talvez seja mentira. Assim é Michelle Bolsonaro à primeira vista. Uma mistura de “Erva Venenosa” e “Garota Nacional”, sobre cuja existência Rita Lee e Skank já nos alertaram.

Eu detesto o jeito dela, mas pensando bem, ela fecha com os sonhos de muita gente como ninguém. Mesmo ela sendo pior do que cobra cascavel e destilando um veneno cruel disfarçado de virtude e santidade. Haja paráfrases, citações ou licenças poéticas para defini-la. Haja identitarismo para explicar o fato de que até algumas mulheres de esquerda tenham manifestado empatia pelo seu desabafo político-familiar de vinte e sete minutos postado nas redes sociais, em meio a um jogo do Brasil na Copa do Mundo. Ela quis nos provar. Sem medo e sem amor. Ela só quis nos provar.

De fato, Michelle afundou um pouco mais a candidatura de seu enteado, que já era visto como um pária por muitos no espectro direitista no país. Inclusive, dentro do meio evangélico, onde sua madrasta é lida como uma serva virtuosa e agradável a Deus. Ou seria uma deusa? Apófis, talvez. A serpente que representava o caos e a escuridão na mitologia egípcia.

Na mitologia bolsonarista, Michelle passou a ser vista como inimiga do deus pneu. Uma ameaça peçonhenta ao projeto de salvação do país pelas mãos do escolhido pelo messias que não faz milagre. Uma oposição ao triunfo do filho próspero e abençoado pela deusa “rachadinha” e pelo deus Master.

O texto lido por Michelle não foi redigido de última hora. Ele já vinha sendo elaborado a muitas mãos e preparado para ser lido publicamente no momento certo. A independência e autonomia exibidas por ela em sua brilhante leitura interpretativa me fizeram pensar que Jair Bolsonaro – a quem ela chama carinhosamente de “meu galego” no vídeo – pode já não estar mais entre nós. Mesmo que ainda não tenha tido o seu corpo sepultado.

Acabou, porra! Seu Jair já era! Não tem mais saúde e vitalidade para impor a sua decantada masculinidade tóxica, e agora se vê paciente e refém de sua esposa e cuidadora. Teria virado o “maricas” que, quando governava o país, acusou o seu povo de ser? Vai ficar calado até quando? Seja homem, porra! Parece que não consegue mais. Afinal, todo mundo vai deixar de ser homem um dia.

Como toda erva venenosa que se preze, Michelle sabe ser letal. E o foi ao terminar o seu colóquio digital com uma ameaça subliminar: “Falei quase tudo que precisava ser dito”, uma forma de anunciar que o seu desabafo terá continuação caso os seus enteados insistam em humilhar e desrespeitar uma mulher que sabe tudo o que eles fizeram no verão passado e continuam a fazer no inverno presente. Uma mulher que está disposta a revidar a “punhalada” que diz ter sofrido de seu enteado mais velho e mais arteiro.

Invocando o seu Deus, que é pai e não madrasta, Michelle entrega os seus inimigos nas mãos do acaso, tomado como justo juiz. O acaso irá protegê-la enquanto os seus enteados andarem distraídos e não perceberem que ela os tem nas mãos.

Não sei se Michelle fez o “L”, mas ficou nítido que ela orientou votos e fez propaganda eleitoral antecipada em seu desabafo. Se não tivéssemos o TSE sob o comando de dois ministros indicados por seu “galego”, seu partido teria sérios problemas com a Justiça Eleitoral. Aliás, mais problemas do que o seu discurso ensaiado já criou dentro da legenda. Porém, o presidente da sigla sabe com que espécie de cobra está lidando e não irá repreendê-la. Valdemar Costa Neto é mais um refém da “erva” e sabe que o seu veneno pode ser mortal.

A cobra está cega de raiva e já armou o bote. Ela não está sozinha nesse ninho e deixou isso claro ao agradecer às pessoas que a incentivaram a tornar público o seu descontentamento. Entre essas pessoas deve estar Damares Alves, a cobra-mestra da ninhada. A mentora política de Michelle, que sempre defendeu uma chapa presidencial com Tarcísio de Freitas na cabeça e sua pupila como vice.

O apelo à solidariedade feminina está presente na fala da bem treinada Michelle, que aproveita o momento em que a sociedade se mobiliza contra o machismo e a misoginia — práticas que ela própria relativiza em seu discurso de submissão religiosa — para se vitimizar expondo o comportamento machista e misógino de seus enteados. Um lapso reptiliano que nos lembra que toda cobra parece submissa até ser atacada.

Assim como a pastora bolsonarista que enganou parte da esquerda com seu discurso contra a violência doméstica no meio evangélico, Michelle tenta atrair a sororidade de todas as mulheres vítimas da subjugação masculina. Algumas caíram na armadilha e deixaram seus calcanhares expostos à sua doce picada. Outras perceberam que a cascavel preparava o bote e se mantiveram protegidas pelo bom senso.

Flávio, picado pela serpente, reagiu de forma canastrona ao publicar um texto em seu perfil no “X”, no qual afirma que “em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher”.

Quanta grandiosidade em reconhecer publicamente um possível erro. Só falta vir a público dizer que em nenhum momento recebeu ou teve a intenção de receber R$ 134 milhões de Daniel Vorcaro. Se recebeu, mais uma vez pede desculpas. Mas não devolve a grana.

Eduardo Bolsonaro também mereceu uma citação especial por parte de Michelle, que insinuou que ele lidera um grupo “localizado nos EUA” que atua para destruir sua imagem. Vamos ver se ele pedirá a Trump sanções contra a madrasta ou se dirá que ela se aliou a Moraes para persegui-lo.

Enquanto isso, o veneno de Michelle segue sem antídoto capaz de evitar a morte política da família Bolsonaro.

•        Será que Michelle ainda quer a vaga de Flávio Bolsonaro?

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro voltou ao centro da crise política da família Bolsonaro depois de publicar um vídeo em que afirma ter sido alvo de ataques de Flávio Bolsonaro e de seus irmãos. A questão sobre o real alcance do gesto — se foi apenas uma reação emocional ou se sinaliza uma movimentação mais ampla para ocupar espaço na disputa presidencial — foi levantada pela colunista Eliane Cantanhêde, do Estado de S. Paulo.

Segundo a análise, a reação de Michelle provocou dúvidas tanto entre bolsonaristas quanto entre petistas: ela estaria apenas respondendo ao enteado ou estaria se insinuando como alternativa eleitoral à candidatura de Flávio Bolsonaro? A crise ocorre em um momento de desgaste da pré-campanha do senador, atingida por episódios como o caso “Dark Horse” e pelas novas ameaças de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos.

<><> Crise familiar ganha dimensão política

O episódio ampliou a percepção de que a crise na família Bolsonaro não é apenas doméstica, mas também política e eleitoral. De acordo com a análise de Cantanhêde, integrantes do governo Lula observam com satisfação a capacidade dos bolsonaristas de “darem tiros nos próprios pés”, enquanto aliados da direita tentam entender qual é, afinal, a posição de Jair Bolsonaro diante do embate entre Michelle e seus filhos.

A dúvida central é se o ex-presidente apoiou, autorizou ou simplesmente deixou correr o ataque público de Michelle contra Flávio. Também permanece em aberto a gravidade da crise familiar neste momento decisivo para a definição do campo bolsonarista em 2026.

<><> Michelle diz ter sido “apunhalada”, “maltratada” e “humilhada”

No vídeo citado pela colunista, Michelle Bolsonaro afirmou ter sido “apunhalada”, “maltratada”, “humilhada” e “desrespeitada” por Flávio Bolsonaro. Ela também acusou os filhos do ex-presidente de agirem de maneira articulada contra ela.

Segundo Michelle, os irmãos de Flávio “vieram juntos, de forma coordenada, com textos bem parecidos, o que pareceu combinado, premeditado”. A ex-primeira-dama ainda lamentou que “eles” a tratem como “idiota”, “que não entende nada de política”.

As declarações expõem uma disputa de poder dentro do bolsonarismo e reforçam a pergunta que passou a circular nos bastidores: Michelle estaria apenas reagindo a ataques ou estaria se apresentando como uma alternativa mais competitiva do que Flávio Bolsonaro para liderar a direita?

<><> O peso do voto feminino e dos evangélicos

A eventual força eleitoral de Michelle Bolsonaro passa por dois segmentos decisivos: mulheres e evangélicos. A colunista lembra que Lula venceu a eleição presidencial de 2022 por margem apertada, com 50,9% dos votos válidos, e que o voto feminino teve peso importante naquele resultado.

As mulheres representam cerca de 53% do eleitorado brasileiro. Em 2022, Lula teve vantagem entre elas, com 54% dos votos, contra 46% de Jair Bolsonaro. Nesse contexto, a imagem de Michelle poderia ser vista por setores da direita como uma tentativa de reduzir a rejeição do bolsonarismo entre o eleitorado feminino.

Além disso, Michelle comanda o PL Mulher e tem forte presença entre evangélicos, segmento em que Jair Bolsonaro teve desempenho expressivo na eleição passada. Embora o Tribunal Superior Eleitoral não detalhe votos por religião, levantamentos independentes apontaram que Bolsonaro chegou a cerca de dois terços dos votos entre evangélicos em 2022.

<><> Flávio pode precisar mais de Michelle do que ela dele

Na avaliação apresentada pela colunista, Flávio Bolsonaro corre o risco de, sem Michelle, não conseguir ampliar sua votação entre mulheres e ainda perder terreno entre evangélicos. Ou seja, poderia deixar de conquistar novos apoios e, ao mesmo tempo, enfraquecer uma base que já era favorável ao bolsonarismo.

Por isso, a crise aberta com a ex-primeira-dama é especialmente delicada para o senador. A reação de Michelle não apenas expôs tensões internas, como também colocou em dúvida a capacidade de Flávio de unificar o campo bolsonarista em torno de seu nome.

Após a repercussão, Flávio tentou se desculpar, mas, segundo a análise de Cantanhêde, o gesto não foi convincente. A colunista também cita o fato de ele já ter sido contestado publicamente em relação ao empresário Daniel Vorcaro, o que aumentaria o desgaste de sua imagem.

<><> A contradição do discurso de “Deus, Pátria e Família”

O caso também reacendeu críticas às contradições do bolsonarismo em relação ao papel das mulheres. Para Cantanhêde, o tratamento dado a Michelle se conecta ao histórico de posições do ex-presidente e de seus filhos nas questões de gênero, apesar do slogan “Deus, Pátria e Família”.

A colunista cita ainda declarações de Heloísa Bolsonaro, mulher de Eduardo Bolsonaro, que é psicóloga. Em um encontro de mulheres, Heloísa afirmou que “não há mulher insubmissa e livre” e defendeu “homem masculino, com testosterona”.

Também é lembrada a justificativa dada por Jair Bolsonaro à Polícia Federal ao explicar por que mantinha a posse de uma pistola, apesar de condenado e preso. Segundo o texto, Bolsonaro afirmou: “Eu tinha três mulheres em casa, não podia ficar desarmado.”

<><> Quem será o nome de Bolsonaro para 2026?

A crise deixa no ar duas perguntas centrais. A primeira é se a família Bolsonaro admite, de fato, o protagonismo político de Michelle. A segunda é se ela tem biografia, história e consistência para disputar a Presidência da República.

Mais do que isso, o embate interno reacende a disputa sobre quem Jair Bolsonaro considera o melhor nome para representar seu campo político em 2026. Ao mesmo tempo, também provoca outra pergunta relevante para o cenário eleitoral: qual adversário o presidente Lula mais temeria enfrentar em uma nova disputa presidencial?

Por ora, o vídeo de Michelle Bolsonaro produziu um efeito imediato: expôs o racha familiar, fragilizou Flávio Bolsonaro e colocou novamente a ex-primeira-dama no centro das especulações sobre o futuro da direita brasileira.

 

Fonte: Brasil 247

 

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