Quando
o PT perdeu Santa Catarina
Longe
de uma identidade naturalmente conservadora, o cenário político catarinense foi
moldado por tensões internas que desmantelaram o protagonismo progressista em
Santa Catarina...
Em
junho de 2025, a deputada federal de extrema direita Júlia Zanatta (PL-SC) fez
um vídeo reagindo aos números publicados pelo Censo 2022 do IBGE. Santa
Catarina teria os menores índices de desemprego e bons números de qualidade de
vida porque, segundo a parlamentar, a esquerda nunca governou o estado. Os
números do IBGE também informavam que Santa Catarina foi o estado brasileiro
que mais ganhou população por migração.
A
reação da deputada foi afirmar que “a esquerda”, responsável pela pobreza do
restante do país, fala mal de Santa Catarina, mas quer morar no estado.
Portanto, fazia um alerta aos seus eleitores e aos futuros moradores: “quem
quiser migrar para Santa Catarina tem que ser para trabalhar e contribuir, além
de respeitar nossas raízes e tradições. (…) Eles não podem vir pra cá e votar
na esquerda”.
A fala
da deputada, além de trazer implícita a falácia de certa superioridade moral e
cultural, conta uma história distorcida de Santa Catarina, usada politicamente
para construir uma autoimagem de estado naturalmente conservador. Dentro do
campo da esquerda, serve também para justificar o desempenho precário dos
partidos do campo progressista em eleições recentes.
A
deputada completava afirmando que Santa Catarina não estaria “imune” às ideias
de esquerda visto que, em um passado recente, havia “dado uma chance para o
Lula”: “Não esqueçam que, em 2002, Santa Catarina deu a maior vitória para o
Lula do Brasil inteiro. O Catarinense confiou e votou no Lula. O catarinense dá
uma chance e ele deu uma chance para o Lula. Como o catarinense não é burro nem
nada, na outra eleição ele já rejeitou imediatamente o PT”.
Ao
contrário do que afirma a deputada de extrema direita, este artigo parte da
hipótese de que a retração eleitoral do PT no estado não pode ser explicada
pela permanência de tradições conservadoras. Parte da ascensão de figuras
radicais e histriônicas de direita no estado está relacionada a um movimento
amplo e complexo de ascensão global desse campo, mas, no caso catarinense,
também tem relação com escolhas e percursos da própria esquerda.
Sustenta-se
que, em conjunturas decisivas, diferentes concepções sobre alianças políticas,
governabilidade e acumulação de forças coexistiram no interior do próprio PT,
produzindo escolhas cujos efeitos se fizeram sentir por décadas na configuração
do campo político catarinense.
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Um panorama das disputas políticas e eleitorais (1945-2000)
A
política catarinense foi caracterizada por um conflito entre oligarquias que
marcaram tanto a Primeira República quanto os anos após a Segunda Guerra
Mundial. No período em que houve eleições diretas regulares e com voto secreto,
entre 1945 e 1964, disputas entre as oligarquias Ramos (PSD) e
Konder-Bornhausen (UDN) alicerçaram as análises políticas sobre o período. No
entanto, isso não significou a ausência de outras forças políticas, em especial
o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), visto como “terceira força” ou “fiel da
balança” nas disputas entre os dois maiores partidos.
A força
eleitoral do trabalhismo traduziu-se na conquista do vice governo do estado em
1960 e 1965 através da “Aliança Social-Trabalhista” (PSD-PTB), trajetória que
só foi estancada por um ato de força da ditadura militar. A cassação de
Francisco Dall’Igna (PTB) em 1966 abriu caminho para que a Assembleia
Legislativa elegesse, indiretamente, Jorge Konder Bornhausen para o cargo.
Iniciava-se ali o protagonismo da liderança que, em 2005, no auge das denúncias
do chamado “escândalo do mensalão”, vaticinaria o “fim da raça” petista.
Em
1982, na primeira eleição direta para o governo do estado, ainda sob a ditadura
militar, os resultados de Santa Catarina contestam a tese de uma hegemonia
conservadora cristalizada. Esperidião Amin (PDS), representando os herdeiros da
ditadura, venceu por uma margem de apenas 0,8% (12.650 votos) o candidato do
PMDB. A ausência de segundo turno garantiu a eleição de Esperidião Amin, mas o
pleito evidenciou uma robusta força de oposição, materializada na eleição de
1985 em Florianópolis.
A
candidatura que capitalizou o sentimento de rejeição à ditadura foi a de Edison
Andrino (PMDB). A vitória contra o candidato apoiado pelo governador demonstrou
que, mesmo sem coligações formais, o campo de oposição à ditadura estava
disposto a privilegiar convergências táticas e o voto útil em torno de
candidaturas competitivas.
Na
primeira eleição presidencial com voto direto e secreto após a ditadura, em
1989, Santa Catarina relativizou sua suposta “identidade conservadora” ao
conferir a Leonel Brizola (PDT), principal herdeiro do trabalhismo, a maior
votação proporcional do estado (26,22%) no primeiro turno, superando inclusive
Fernando Collor.
No
segundo turno, a sensação de que o eleitorado catarinense estaria permeável às
teses de esquerda consolidou-se: Lula alcançou 49,68% dos votos válidos no
estado. Enquanto nacionalmente a diferença entre Fernando Collor e Lula foi de
aproximadamente 6 pontos percentuais, em solo catarinense essa distância foi de
apenas 0,64 ponto. Tais resultados são evidências de que o estado estava longe
de ser avesso às forças progressistas, integrando um horizonte de
possibilidades políticas que seria moldado por disputas e escolhas nas décadas
seguintes.
No
plano municipal, a eleição de 1992 apresentou um sinal de mudança nas disputas
políticas estaduais, até então polarizadas entre candidatos associados à
direita e o PMDB. Em Florianópolis, a Frente Popular, coligação de
centro-esquerda (PPS-PC / PCdoB / PDT / PPS / PSB /PSDB / PT / PV) saiu
vitoriosa na disputa pela prefeitura. Sérgio Grando derrotou o candidato
apoiado pelo então prefeito Esperidião Amin.
Na
eleição seguinte, em 1996, a Frente Popular lançou o vice-prefeito Afrânio
Boppré (PT) para concorrer à prefeitura. Em uma disputa levada ao segundo
turno, Ângela Amin, esposa de Esperidião, venceu. Apesar da derrota na eleição
municipal em Florianópolis, em 1996, o PT conquistou suas primeiras prefeituras
no estado, com destaque para as vitórias de Décio Lima em Blumenau e José
Fritsch em Chapecó. Ao todo, foram sete prefeituras e seis vice prefeituras,
com destaque para a região oeste de Santa Catarina.
Contudo,
o pleito de 2000 revelou uma inflexão estratégica do PT catarinense, dando
visibilidade às divergências internas sobre as coalizões. Embora o partido
vivesse uma ascensão estadual, o desfecho em Florianópolis antecipou o embate
central da década. Nas prévias da capital, defrontaram-se Ideli Salvatti,
vinculada ao “Campo Majoritário”, tendência que comandava o diretório nacional
do PT, representada por nomes como Lula e José Dirceu, e Vânio dos Santos,
apoiado pelas tendências à esquerda, minoritários nacionalmente, mas com
maioria no diretório estadual.
A
vitória de Vânio dos Santos não apenas definiu o candidato, mas estabeleceu a
estratégia de alianças que pressupunha não se coligar com os partidos da Frente
Popular. Na concepção das tendências vitoriosas nas prévias, era o momento de
afirmar a identidade partidária e lançar uma chapa pura, com dois candidatos do
PT para prefeito e vice, Vânio dos Santos e Elenira Vilela, e uma única
aliança: com o Partido Social dos Trabalhadores Unificado (PSTU). O resultado
das urnas expôs os limites dessa opção: enquanto a direita vencia em primeiro
turno, a coligação PT-PSTU obteve apenas 9,1% dos votos.
A
formação de uma “chapa pura” na capital não foi um caso isolado. Nas eleições
municipais de 2000, o PT de Santa Catarina foi o diretório estadual que
registrou a maior porcentagem de candidaturas sem coligação (52,3%). Ou seja,
havia uma compreensão majoritária no estado de que a preservação da identidade
partidária deveria prevalecer em relação à construção de alianças ao centro.
Essa percepção marcava uma divergência com o “Campo Majoritário” nacional, que
ficaria evidente na construção da candidatura de Lula para o pleito de 2002 e a
polêmica aliança com o Partido Liberal (PL).
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As divergências entre o PT nacional e o PT de Santa Catarina
Para
tentar viabilizar a eleição de Lula em 2002, a direção nacional buscou ampliar
a coalizão através da aliança com o PL, indicando o industrial mineiro José
Alencar para vice de Lula. No entanto, essa era uma posição longe de ser
unânime entre os petistas. A divisão culminou em uma convenção nacional
acirrada, onde a aliança foi aprovada por apenas 43 votos a favor contra 24
contrários, levando Fernando Morais a observar que “por dezenove votos quase
morre na praia o casamento político que iria mudar a história do Brasil”.
No
encontro estadual, o PT aprovou um indicativo de não reproduzir a coligação com
o PL em Santa Catarina. No entanto, os liberais exigiam alianças estaduais com
o PT para aumentar a composição de sua bancada federal. O diretório nacional do
PT colocou em votação se os estados deveriam ou não seguir a orientação
nacional. Em votação polêmica e disputada, venceu a posição do Campo
Majoritário de que a coligação nacional também fosse reproduzida nos estados.
Em
resposta, Heloísa Helena, senadora petista e que posteriormente fundaria o
PSol, desistiu de sua candidatura ao governo de Alagoas. José Fritsch,
pré-candidato do partido ao governo de Santa Catarina, declarou à Folha de S.
Paulo: “O PT tomou uma decisão lamentável, colocando a burocracia do partido
acima da decisão democrática de meu Estado, que rejeitou a aliança. No meu
palanque o PL não sobe”.
Enquanto
jornais de circulação nacional noticiavam o impasse entre o diretório estadual
e a direção nacional, a deputada Ideli Salvatti, vinculada ao Campo
Majoritário, percorria o estado de Santa Catarina defendendo a coligação PT-PL.
Para tentar acertar a composição, José Dirceu, presidente nacional do PT,
precisou viajar para Santa Catarina para convencer o grupo liderado por José
Fritsch a aceitar a aliança.
O
episódio deixava claro que a tensão não se restringia às divergências entre a
direção nacional e a seção catarinense. Dentro do próprio PT estadual
coexistiam interpretações distintas sobre alianças, governabilidade e os
caminhos para a construção de uma hegemonia política duradoura.
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A onda Lula em Santa Catarina
Para
tentar chegar pela primeira vez à presidência da República, Lula e o PT
disputavam com o PSDB, que governava o país desde a vitória de Fernando
Henrique Cardoso em 1994. O candidato tucano era José Serra, com Rita Camata do
PMDB como vice. Em Santa Catarina, ao menos em teoria, dois candidatos apoiavam
abertamente Serra: Luiz Henrique da Silveira (PMDB) e Esperidião Amin (PPB),
governador do estado que tentava a reeleição com uma coligação de seis
partidos, incluindo o PFL de Jorge Bornhausen.
Os
resultados de primeiro turno foram surpreendentes. Lula obteve 56,6% dos votos
válidos em Santa Catarina, o maior percentual entre todos os estados do país.
Junto à “Onda Lula” catarinense, o PT elegeu Ideli Salvatti para o Senado
Federal. A primeira mulher senadora de Santa Catarina foi a mais votada. A
segunda cadeira ficou com Leonel Pavan do PSDB.
Os
resultados para o Senado sugeriam uma inflexão importante nas preferências do
eleitorado catarinense. Ideli Salvatti e Leonel Pavan desbancaram nomes muito
mais conhecidos e influentes, como Paulinho Bornhausen, filho de Jorge e
herdeiro político da oligarquia, e Casildo Maldaner, personagem histórico do
PMDB e ex-vice-governador.
Para o
governo do estado, o candidato apoiado por Lula quase alcançou o segundo turno.
José Fritsch fez 27,3% dos votos. Luiz Henrique fez 30,1% e passou para a
segunda volta contra o governador Esperidião Amin, que obteve 39,9%.
Na
eleição de segundo turno, o desafio do PMDB de Santa Catarina era maior do que
o do PT. Luiz Henrique precisaria desbancar o governador que, além de controlar
a máquina do Executivo estadual, era um nome identificado com as oligarquias
catarinenses. No entanto, em função das composições políticas nacionais, ambos
estariam, em tese, no palanque de José Serra. Habilmente, Luiz Henrique e a
direção catarinense do PMDB ignoraram a orientação do comando nacional,
romperam a aliança com o PSDB e manifestaram apoio à candidatura de Lula.
Assim, reconfiguraram-se os palanques do segundo turno em Santa Catarina: de um
lado, Lula e Luiz Henrique; de outro, Serra e Amin.
A
vitória de Lula era previsível: o petista foi eleito com 64,1% dos votos
válidos. Em Santa Catarina, impulsionado pela onda nacional, Luiz Henrique
derrotou Esperidião Amin por margem estreita, obtendo 50,34% dos votos contra
49,66% do adversário. A convergência entre PT e PMDB no segundo turno parecia
inaugurar uma nova configuração política no estado, reforçada pelo último
comício de Lula em Florianópolis ao lado Luiz Henrique. Contudo, essa
aproximação do presidente com o governador eleito não se refletiria nos grupos
que controlavam o diretório estadual do PT.
Entre
2002 e 2006, o governo Lula seria alvejado pela oposição, principalmente nas
denúncias do chamado “Mensalão”, colocando em xeque o projeto de poder do PT.
Em Santa Catarina, a aliança PT-PMDB, que desbancou a coligação entre as
famílias Amin e Bornhausen, não duraria. O PT estadual, contrariando a
estratégia do diretório nacional, optaria pelo “apoio crítico” e, em seguida,
enveredaria para a oposição do governo Luiz Henrique.
Sem
alianças, com parte do grupo avesso às coligações fundando o PSol no estado, as
tendências hegemônicas no diretório estadual do PT optariam pelo discurso da
“preservação da identidade partidária”. As escolhas políticas estaduais
mexeriam no tabuleiro político deixando o cenário de 2006 completamente
diferente da “onda Lula” e com resultados eleitorais desastrosos.
Fonte:
A Terra é Redonda

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