Hugo
Dionísio: União Europeia – 76 anos depois
O
problema da União Europeia não passa somente por um desfasamento total entre o
que representa e o significado semiótico da sua própria designação – “união” –,
como o facto de utilizar e almejar a inconsistente imagem de “união” que nos
surge na mídia corporativa e nos discursos dos seus dirigentes, basear-se
apenas e tão só no fomento de que a Federação Russa é um inimigo vital, em
torno do qual toda a estratégia territorial, militar, industrial e
comunicacional, deve assentar.
Quando
observamos o assédio da União Europeia a um país asiático como a Armênia,
especialmente depois de rejeitada a Turquia, como podemos não constatar que,
hoje, a União Europeia baseia toda a sua existência neste logro, que tenta
alimentar comportando-se como uma extensão da OTAN e, logo, dos EUA?
O
desfasamento é tal que, um dos mais importantes ideólogos da construção
europeia, de seu nome Robert Schuman, acreditou que tal construção se faria
pela fusão dos interesses económicos, ao invés da força das armas, como haviam
tentado Hitler, Napoleão e tantos outros antes deles, e que essa fusão de
interesses económicos conduziria à paz. Partindo de tal concepção, Robert
Schuman idealizou que as matérias-primas fundamentais, de então, como o carvão
e o aço, deveriam ser colocadas sob uma autoridade europeia e supranacional
comum, tornando “materialmente impossível” a guerra entre França e Alemanha.
Para os
construtores e ideólogos da construção europeia, o carvão e o aço tinham o
mesmo papel que hoje a energia e os minerais críticos, algo que tornou possível
a coexistência entre a Europa ocidental e a União Soviética ou a Federação
Russa. O projeto europeu nasceu, portanto, e pelo menos na teoria, como um
projeto de desarmamento e de troca da força das armas, pela força económica
daqueles que eram, à data, alguns dos países economicamente mais desenvolvidos
do mundo.
Setenta
e seis anos depois, a União Europeia tornou-se capaz de gastar 90 mil milhões
de euros em empréstimos, para financiar um país em guerra, de criar um Fundo
Europeu de Defesa, lançar o plano “ReArm Europe” e aprovar instrumentos como o
EDIRPA, o ASAP e o EDIP – todos destinados a transformar o orçamento
comunitário num motor de produção de armamento.
A
pergunta que se impõe vai para além da conformidade de tais políticas para com
os desígnios iniciais do projeto – usar o poder da economia como arma de
construção da paz –, mas também, se tais mecanismos cumprem, ao menos, para com
a própria legislação europeia. Será que ainda existe “União Europeia”?
O nº. 2
do artigo 41.º do Tratado da União Europeia é muito claro: “As despesas
operacionais (…) ficarão igualmente a cargo do orçamento da União, com exceção
das despesas decorrentes de operações que tenham implicações no domínio militar
ou da defesa e nos casos em que o Conselho, deliberando por unanimidade, decida
em contrário”. Esta redação não é de modo nenhum ambígua, visando duas coisas
muito importantes: (i) Manter a União Europeia e as suas instituições
afastadas, operacionalmente, das coisas da guerra; e, (ii) Impedir que a União
Europeia financie despesas militares. Ler este artigo hoje parece estarmos
perante uma anedota e diz-nos o quão longe tem sido a traição dos “princípios e
valores” que tanto apregoam Von der Leyen e Kaja Kallas. Quanto mais os
apregoam, mais deles se afastam.
O TFUE
é muito claro a este respeito, na alínea d) do seu artigo 32.º diz que “a
Comissão orientar-se-á pela necessidade de evitar perturbações graves na vida
económica dos Estados-Membros e de assegurar o desenvolvimento racional da
produção e a expansão do consumo na Comunidade”. Gostava de saber onde ficou
esta norma na decisão de acabar com o consumo de gás russo, aplicar 21 (?!?!)
pacotes de sanções e prescindir de todos os fatores de produção garantidos pela
Federação Russa, com base em argumentos – de ofensa a outros Estados – que não
encontram o mesmo tipo de resposta em casos mais graves como os dos EUA e
Israel.
É
inequívoco que a Comissão Europeia contorna constantemente a proibição que diz
respeito às restrições quanto à sua interferência em matéria de política de
segurança e assuntos militares, recorrendo amiúde à criatividade malandra,
perpetrada por todo um gabinete jurídico que, tal como a guerra, também nos
custa bilhões. Tornando-se o que nunca poderia vir a ser, a Comissão Europeia
dedica o seu tempo a encontrar formas de violar os tratados que jurou defender,
provocando, com as suas ações – em representação dos interesses inconfessáveis
que a dominam –, precisamente o contrário do que prevê a legislação a que teria
de se submeter.
Por
exemplo, no caso dos empréstimos à Ucrânia (90 bilhões) invoca-se o artigo
122.º do TFUE – a cláusula de “dificuldades excepcionais” – como se a
geopolítica fosse uma catástrofe natural e como se a Ucrânia fosse um Estado da
União Europeia, que justificasse a aplicação de tal mecanismo. Já o ReArm
Europe (150 mil milhões) usa a mesma base legal, argumentando que os
empréstimos são realizados aos Estados-Membros e não à Ucrânia.
Para
que tudo seja menos evidente, cria-se a narrativa de que a Federação Russa vai
atacar a OTAN amanhã, daqui a um ano, dois, três, ou dez, consoante os
calendários e as pretensões de rearmamento através do dinheiro dos
contribuintes, e, assim, o perigo passa a ser para a própria União Europeia,
comprovando, desta forma, a sua relação instrumental com a OTAN. Assim, a
Ucrânia recebe dinheiro e os Estados-membros da União Europeia podem rearmar-se
porque “ocorrências excepcionais” que não podem controlar, surgiram,
subitamente, por graça divina.
Um
artigo que se refere a “dificuldades de aprovisionamento de certos produtos,
designadamente energia”, “calamidades naturais”, é usado para justificar, não
apenas o enviesamento belicista, mas também a centralização de cada vez mais
competências na Comissão Europeia, uma estrutura burocrática não eleita e muito
longe da vida do europeu comum. Energia, armas, semicondutores, tudo passou a
ser centralizado ao abrigo de circunstâncias excepcionais que só existem por
incompetência da própria União Europeia.
Já a
reindustrialização em torno da defesa, recorre ao mecanismo do artigo 173.º do
TFUE (competitividade industrial), como se a produção de munições e tanques
fosse uma questão de mercado interno. Não apenas a União Europeia e a Comissão
Europeia, passam a concentrar-se em matérias que não era suposto
concentrarem-se, como passam a fazer leituras enviesadas dos tratados,
encontrando em todas as previsões, uma justificativa para a Guerra e para o
desvio de verbas, da área social, para o complexo militar-industrial.
Uma
União Europeia que entregou a competição pela 4ª. revolução industrial aos EUA,
que deixou cair na amargura a estratégia de transição energética e a energia
atómica, vem usar o artigo que trata da “capacidade concorrencial” económica,
não para a economia, mas para a guerra. Para a competição militar.
Isto
não é interpretação jurídica! É uma técnica de contorno sistemático. O artigo
24.º, n.º 1 do TUE proíbe a adopção de atos legislativos na Política Externa e
de Segurança Comum (PESC). A solução? Não adoptar os instrumentos sob a
insígnia da CFSP. O artigo 41.º, n.º 2 do TUE proíbe a utilização do orçamento
da UE para operações militares. A solução? Criar instrumentos
intergovernamentais “off-budget” (como o EPF – European Peace Facility (que
é para a guerra e não para a paz)) ou invocar bases legais industriais. O
artigo 4.º, n.º 2 do TUE estabelece que a segurança nacional é da “exclusiva
responsabilidade de cada Estado-Membro”. A solução? Centralizar o financiamento
da defesa em Bruxelas.
A
Comissão, o Parlamento e os dirigentes nacionais que participam no Conselho
sabem que os tratados não foram feitos para isto. Como o sabem muitas caixas de
ressonância com tempo de antena diário! Um estudo do Instituto Sueco de Estudos
Políticos Europeus (SIEPS) questiona precisamente se esta “utilização criativa
de bases legais”, acusando-a de refletir um “desalinhamento crescente entre os
tratados atuais e a resposta da UE a uma realidade geopolítica em evolução”. O
problema é que, ao contrário do que nos querem fazer crer, o desalinhamento não
é uma fatalidade geológica – é uma escolha política. E escolhas políticas
erradas e antidemocráticas, costumam ter consequências jurídicas.
Contudo,
e depois de tudo isto, mesmo assim, o caso mais escandaloso é mesmo o dos
empréstimos à Ucrânia. A Hungria, a Eslováquia e a República Checa opuseram-se.
Sob as regras da PESC. De acordo com as regras e tratando-se de segurança
comum, tal oposição deveria ter automaticamente bloqueado o processo – a
unanimidade é a regra e não por acaso. O objetivo é não fazer guerra e seguir o
caminho da economia que conduz à paz, lembram-se?
Mas a
Comissão recorreu ao artigo 332.º do TFUE, argumentando com a lógica da
“cooperação reforçada”, permitindo que 26 Estados avançassem sem os
dissidentes, mas usando normas que não haviam sido construídas para situações
como esta. Ou seja, violando o princípio da especialidade das normas, que devem
ser usadas para o que foram previstas. Mais uma estratégia sabuja para
contornar a legislação europeia.
Isto
constitui, em termos constitucionais, um golpe. A cooperação reforçada foi
concebida como último recurso, para quando a integração não pode avançar por
unanimidade em áreas de competência partilhada. Mas a PESC não é uma área de
competência partilhada como as outras. É uma área de competência exclusiva dos
Estados-membros, ou seja, não partilhada. É uma área onde a unanimidade é a
própria alma do compromisso soberano que deveria enformar esta União Europeia,
uma União Europeia que vive e se alimenta da soberania dos povos. Usar a
cooperação reforçada para contornar o veto de um Estado-Membro em áreas que nos
podem levar à Guerra, a uma Guerra mundial, é como usar uma ambulância para
fugir da polícia: tecnicamente possível, mas moralmente inaceitável.
O que
está em jogo para os povos europeus, contudo, não é apenas a legalidade formal.
É o princípio da confiança mútua entre Estados-membros. Se a maioria puder
impor a guerra à minoria, a União Europeia deixa de ser uma união de soberanos
e torna-se uma federação coercitiva – sem, no entanto, ter o mandato
democrático de uma federação. E esta é o logro para o qual nos conduziram os
dirigentes nacionais, nomeadamente todos os governos portugueses desde a
entrada na então CEE. A cada passo, contribuíram para e aprofundaram a natureza
puramente colonial desta União Europeia.
Mas há,
no entanto, uma traição ainda mais profunda. A deriva belicista da União
Europeia não fortalece a Europa. Fortalece, especialmente, os Estados Unidos.
Os números são implacáveis. Entre 2020 e 2024, as importações de armas dos EUA
para a Europa – incluindo a Ucrânia – mais do que triplicaram em relação ao
quinquénio anterior. A quota dos EUA nas exportações globais de armamento subiu
de 35% para 43%. A Alemanha, historicamente reticente em matéria militar, viu
as suas importações de armas aumentarem 334%, cerca de 70% das quais
provenientes dos EUA.
O F-35
é o símbolo perfeito desta dependência. Mais países europeus compraram este
caça americano desde a invasão da Ucrânia. Todos passaram a depender do governo
dos EUA e da Lockheed Martin para atualizações de software. O avião
foi concebido para usar armas americanas e adaptá-lo a armamento europeu
exigiria aprovação de Washington – algo que não é realista. Aliás, a quebra no
consórcio de construção do caça de sexta geração França-Alemanha, não deverá
ser alheia a esta realidade.
O plano
“ReArm Europe” de 150 bilhões de euros, apesar do nome pomposo, não é, nem de
longe nem de perto, um plano de autonomia europeia. Trata-se, isso sim, de um
plano de compra. E quem vende? Os EUA. O Presidente Donald Trump exigiu
explicitamente que os parceiros da OTAN aumentassem o gasto em defesa para 5%
do PIB e comprassem armas americanas.
O “Buy
European” de Berlim – que prevê apenas 8% de compras a fornecedores
americanos – é uma reação tardia e ainda assim incompleta. O problema não é
apenas quem vende as armas, mas sim quem controla a tecnologia. Os sistemas de
inteligência militar, as bases de dados de targeting, os softwares de
defesa, a Inteligência Artificial – tudo isto depende dos EUA. É a própria
Chatham House quem diz que “dados de sistemas de armas americanos são enviados
automaticamente para os EUA, actualizações cruciais de software dependem de
fabricantes americanos”.
A
traição é dupla. Trata-se de uma traição aos tratados – que a União Europeia
viola com a conivência de um exército de juristas criativos, para não lhes
chamar outra coisa, sendo também uma traição ao espírito do projeto europeu,
pelo menos, aquele que havia sido vendido para consumo interno.
Schuman
poderia não ser ingénuo, mas sabia que se a integração não se fizesse pela paz,
nunca se faria. Pelo menos assim o dizia. Não obstante, podemos sempre dizer
que, um projeto de guerra apenas pode dividir, porque é isso que a guerra faz,
divide, ao invés de unir!
A União
Europeia está a fazer exatamente isso. Está a usar o orçamento comunitário –
financiado por contribuintes europeus que pagam impostos para hospitais,
escolas e infraestruturas – para garantir empréstimos que financiam a indústria
de defesa. Está a transformar o Banco Europeu de Investimento, historicamente
proibido de financiar armamento, num banco de guerra. Está a aprovar
regulamentos que obrigam a compra de produtos de defesa “europeus” – mas que,
na prática, beneficiam empresas americanas com joint ventures na Europa e com
diversos controlos de capital incorporados nas companhias europeias.
O
argumento preferido dos defensores desta deriva belicista reside na
“excepcionalidade” do momento. Ao classificarem a invasão russa da Ucrânia como
um evento sem precedentes, arrastam todos os povos da UE para a ideia de que
enfrentamos a inevitabilidade da adaptação. Poderiam apresentar-nos a
inevitabilidade da denúncia e rejeição da guerra, para que aponta a legislação
europeia e internacional, aplicada na União Europeia, mas não. Aproveita a
excepcionalidade para não aplicar a lei que visava, precisamente, responder a
tal situação.
Ao
traírem o projeto europeu que venderam aos povos europeus e para o qual, muitas
vezes de forma antidemocrática, os arrastaram, esta estirpe de dirigentes não
trai apenas esse projeto. Trai tudo o que disseram que seria tal projeto, traem
o que venderam, traem o que prometeram. Houve quem, analisando a natureza
profunda desse projeto o denunciasse desde sempre e acusasse tal empreitada de
ser impossível, dada a relação de forças em confronto.
Mas ter
razão quando vem a desgraça, não é algo de que orgulhe que esteve nessa luta! A
luta hoje reside em parar esta deriva para o abismo, sob pena de todos a ela
capitularmos, uns conscientemente, uns culposamente e outros, ingenuamente!
Fonte:
A Terra é Redonda

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