Em
defesa dos guardiões da memória do Brasil
Mestras
e mestres das Culturas Populares, normalmente, são pessoas com idade avançada
no Tempo. São guardiões e transmissores de conhecimentos, de práticas e
tradições culturais nas suas comunidades. Eles representam a riqueza e a
diversidade da cultura popular brasileira, tanto que, oficialmente, existe uma
lista sobre quem sãos os grupos tradicionais no Brasil: Andirobeiras,
Apanhadores de Sempre-vivas, Caatingueiros, Caiçaras, Castanheiras, Catadores
de Mangaba, Ciganos, Cipozeiros, Extrativistas, Faxinalenses, Fundo e Fecho de
Pasto, Geraizeiros, Ilhéus, Indígenas, Isqueiros, Morroquianos, Pantaneiros,
Pescadores Artesanais, Piaçaveiros, Pomeranos, Povos de Terreiro, Quebradeiras
de Coco Babaçu, Quilombolas, Retireiros, Ribeirinhos, Seringueiros, Vazanteiros
e Veredeiros.
Eles
são a nossa melhor síntese de memória afetiva nacional. Quando falamos de chás,
de simpatias, de festas de ruas, de comidas, de músicas e danças brasileiras,
estamos falando do que aprendemos com mestras e mestres das Culturas Populares.
Eles existem de fato, mas a maioria ainda tem grande dificuldade em sobreviver
na nossa sociedade tão apegada à “força” da juventude.
Muitos
são temas de TCCs, mestrados e doutorados. Muitos atuam como educadores
informais, transmitindo conhecimentos e valores importantes às novas gerações
nos seus grupos. Posso afirmar que muitos merecem o título de Notório Saber,
que atesta o conhecimento em determinada área, podendo ser reconhecidos por
instituições e órgãos públicos, mas o Brasil caminha a passos lentos no
reconhecimento e reparação por seus serviços prestados para a sociedade em
geral.
Alguns
estados e municípios entenderam sua importância, criando leis que reconhecem
mestras e mestres das Culturas Populares. Estados como Pernambuco, Ceará,
Paraíba, Minas Gerais, Espírito Santo, Sergipe e, recentemente, o Rio de
Janeiro publicam editais com propostas de reparação histórica, incluindo o
repasse de bolsas ou premiações.
O
Ministério da Cultura (MinC), em 2022, lançou o edital Cultura Viva e entre os
18 projetos aprovados, selecionou o Pontão de Cultura da Rede das Culturas
Populares e Tradicionais que produziu uma série de 18 vídeos e um teaser com
falas de mestres e mestras tratando justamente deste tema: o que é um mestre ou
mestra das Culturas Populares. Todos os vídeos estão à disposição no YouTube.
Em
novembro de 2024, o Pontão de Cultura Rede das Culturas Populares e
Tradicionais provocou uma Audiência Pública na Câmara dos Deputados para
impulsionar a campanha pela Aprovação da Lei 1176/2011. A Audiência Pública
Proteção e Promoção dos Saberes Populares contou com a presença de várias
mestras e mestres de todas as regiões da federação para eles apresentarem o que
fazem — e como é importante a aprovação do PL 1176/2011 para receberem o devido
valor, tanto como patrimônio cultural, como econômico. Mas esta é uma luta
antiga.
No
âmbito federal, tramita o Projeto de Lei 1176, de 2011, que institui o Programa
de Proteção e Promoção dos Mestres e Mestras dos Saberes e Fazeres das Culturas
Populares, na Câmara dos Deputados. No PL 1176/2011 estão vários apensados,
muitas análises e uma enorme lerdeza, que separam o Brasil do reconhecimento e
da reparação para com mestres e mestras das Culturas Populares. São 14 anos de
espera, e a aprovação do PL 1176/2011 será uma bela e merecida política de
redistribuição de renda.
Seguimos
na campanha pela aprovação do PL 1176/2011 que está na Comissão de Constituição
e Justiça e de Cidadania, CCJC. Em junho de 2025, um pequeno grupo de mestras e
mestres participou de uma reunião na Câmara dos Deputados com o atual
presidente do CCJC, deputado Paulo Azi (União Brasil/BA). O encontro amigável
com mestras e mestres das Culturas Populares ainda não resultou na pauta do PL
para votação na Comissão.
Sem
pressão, poderemos ficar mais 14 anos falando da importância de mestras e
mestres na nossa formação, assistindo à precariedade da vida enquanto
envelhecemos no Brasil. Precisamos de assinaturas no abaixo assinado pela
aprovação da Lei das Mestras e Mestres do Brasil. Precisamos que coletivos e
brincantes enviem mensagens solicitando aos 66 deputados que integram a CCJC a
aprovação do PL 1176/2011!
Acredito
que a aprovação do PL 1176/2011 será um passo fundamental para a valorização e
preservação destes patrimônios culturais brasileiros. Além da presença nas
fotos e campanhas culturais e turísticas, além das teses acadêmicas, além da
organização de festas, dos conselhos e do acolhimento, mestras e mestres
precisam de “respeito, reconhecimento e reparação”, como diz a coquista
Martinha do Coco, que vive em Brasília.
Fonte:
Por Tereza Dantas, em Outras Palavras

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