A
Universidade entre o Eros e as planilhas
A
Universidade nasceu no Jardim de Academus a partir das ideias de Platão. Face
ao trauma da condenação à morte de Sócrates, “o homem mais sábio de seu tempo”,
Platão conclui que o diálogo de Sócrates com seus interlocutores na praça
púbica não basta para desfazer preconceitos, fundamentalismos religiosos e
ódios étnicos. Não é suficiente “conversar para pensar bem, agir bem e se
consolar”. Por isso, fundou a primeira Universidade, para a dedicação aos
estudos e ao pensamento livre, que começaram pela recusa em reduzir a reflexão
à escolha dualista. O pensamento por exclusão, rígido e esquematizador, que não
interroga suas próprias premissas, é o grau zero da inteligência, o que torna
possível a injustiça e todas as formas de tirania (Platão, 2023). Assim, Platão
inscreveu no frontispício de sua Academia “não entre quem não conhecer
geometria”. Não a geometria que esquadrinha o espaço, que abole as distâncias,
tudo reduzindo a um ponto de proximidade, abstraindo-o de suas caraterísticas
enigmáticas e qualitativas. Não o “espírito geométrico”, mas o “espírito de
geômetra”, que por amor busca o conhecimento e o inteligível porque não é seu
possuidor e senhor. Pelo medium do sensível, familiar e conhecido, e nele nos
comunicamos com aqueles objetos que têm em si vestígios do invisível, como os
números e figuras matemáticas.
A crise
da Universidade contemporânea deve-se à perda desse horizonte fundador, com a
“queda do valor Espírito” em “baixa na cotação”, à “frieza burguesa” que tornou
Auschwitz possível, assim como outras formas diversas de barbárie. Porque,
quando sofremos, somos todos desesperados, trágicos, bíblicos, Adorno procura o
que nos separou e produziu a perda da capacidade do maravilhamento e de amar
(Adorno, 2008). Com efeito, em A Ética Protestante e o Espírito do capitalismo,
Weber identifica no protestantismo, na Reforma ou no luteranismo, que se
encontra nas origens de uma “República das Letras”, já que, graças à invenção
da Imprensa, em meados do século XV, abriu-se o acesso aos livros, em
particular aos fiéis. A ele sucedeu um “novo espírito” o do “desencantamento do
mundo”, da racionalização e intelectualização das atividades humanas, o que
significou, simultaneamente, uma nova definição da Razão, não mais associada à
vida mundana e ao culto religioso, mas ao cálculo, que, no século XIX,
consagrou-se no lema de Benjamin Franklin “tempo é dinheiro”. A esse processo
Horkheimer e Adorno denominaram “reificação” da razão. Período do capitalismo
industrial, da produção em série, do estoque e do longo prazo, sua
racionalidade é instrumental, quantificadora, visando, primordialmente, o
capital e sua valorização. Mas havia ainda tempo livre para, depois da jornada
extenuante, trabalhadores pudessem frequentar seus espaços de fé, à distância
das horas alienadas às máquinas e seu funcionamento. Já o capitalismo contemporâneo
é “sem espírito”, não somente pelas transformações ligadas às novas
tecnologias, à financeirização e endividamento de Estados, sociedades e
indivíduos, mas sobretudo por ser o do curto prazo e do descartável,
colonizador de todas as esferas da existência e hostil à “vida do Espírito”.
Contrária, porém, à razão instrumental, que é subjetiva, tem-se a Razão
Objetiva, que não é instrumento de dominação e de poder sobre todas as coisas,
e sim a da contemplação e da emancipação, no sentido de que ela torna possível
diminuir o poder da contingência sobre a vida de cada um. Para a razão
instrumental, ao contrário, “saber é poder”. Digital, midiática, tecnológica,
ela abole distâncias temporais e espaciais, expropriando os indivíduos dos usos
de seu tempo, de sua vida e de seu livre-arbítrio, submetendo-os a controles
permanentes, provocando disfunções nas instituições públicas, na Universidade e
entre seus membros, destruindo valores comuns compartilhados, experiências,
formas de convivência, solidariedades geracionais, base da identidade
profissional. Reestruturações permanentes, mudanças curriculares constantes,
controles de “produção” destituem a Universidade de sua autonomia e de suas
maneiras de organização do tempo da docência e da pesquisa, do saber-fazer e do
saber-viver daqueles que a constituem: essas avaliações destroem todos os
espaços que escapariam ao olhar inquisitorial das tutelas, estabelecendo a era
da suspeita generalizada que contribui para a desinstitucionalização [das
instituições], à destruição dos espaços que escapam à formatação (Gaillard,
2017, p. 123) Estabelece-se, pois, uma nova metafísica das relações humanas,
uma vez rompidos os laços da convivência e da confiança, vínculos de phylia,
constituídos ao longo do tempo. Além do que os indivíduos são privados de suas
competências e habilidades, a Universidade formando para a
desprofissionalização das profissões, ao “treinamento”, sob o imperativo da
adaptação a regras desagregadoras e à terceirização, tudo resultando na
“formação continuada”. Estado de minoridade, a ele ficam reduzidos os
profissionais, supostos incapazes de desenvolvimentos ao longo da vida
acadêmica; com a deslegitimação de seus conhecimentos, o estado de heteronomia
afeta as relações entre professores, estudantes e funcionários.
Desfeita
a autoridade acadêmica, estabelece-se uma “Escola da suspeita” e da competição,
cuja lógica é a eliminação do concorrente, a igual título das leis que regem o
mercado. A Universidade cultural foi substituída por aquela “funcional”, com
seu ideário de gestão de recursos, ditos humanos, em uma relação
custo-benefício, o mínimo de tempo e um máximo de resultados. E, como empresa,
a educação foi desalojada pelos esportes. Estes não representam mais um
divertimento prazeroso, mas uma indústria, a da euforia e do entretenimento, o
esporte substituindo a Escola, calendários alterados pelas datas atléticas ou
outros espetáculos. Isso também significa que a Escola e a Universidade, sob o
impacto da indústria da cultura, passam a reproduzir em seus espaços o que está
na mídia, mimetizando-a, para “evitar a evasão” de estudantes, sob os auspícios
dos ritmos de consumo e da obsolescência programada de seus saberes. A
indústria cultural invadiu a Universidade, com impactos sobre o conjunto de sua
experiência e saberes canônicos, estes fundamentados pela história e pela aura
do tempo. A indústria cultural, através de seus estereótipos, dissolve a ideia
de autoridade intelectual acadêmica, a que não significa poder, mas uma
responsabilidade, a da transmissão de conhecimentos e experiências, atenção a
sua complexidade, em um mundo de que desaparecem nuances entre as coisas.
Susan
Sontag abre um processo contra a Universidade e o humanismo, acusando a Europa
e a cultura ocidental de ser responsável por barbáries: A verdade é que Mozart,
Pascal, a álgebra de Boole, Shakespeare, o regime parlamentar, as igrejas
barrocas, Newton, a emancipação das mulheres, Kant, Marx, os ballets de
Balanchine não compensam o que esta civilização particular derramou sobre o
mundo. É a raça branca e só ela – suas ideologias e invenções – que erradica as
civilizações autônomas por todas as partes, que transtornou o equilíbrio
ecológico do planeta e que agora ameaça a própria vida. (Sontag, 1967, p. 57)
Contrário a esse juízo generalizador, característico da formação de
preconceitos, e contra a ideia de que a Europa e o Ocidente são o emblema da
opressão, Castoriadis observa: Que pensar, na China imperial, do destino das
pessoas comuns classificadas em nove categorias, das prostitutas aos mendigos,
dos bárbaros do Sul e aos escravos de nascença? Que pensar, na África como na
Ásia do Sudeste, da prática da excisão que mutilou e mutila ainda hoje milhões
de mulheres? Que pensar do que acontece hoje nas etnias Nuba e Dinka
escravizadas no Sudão, como testemunha a jovem Mende Nazer, violentada aos doze
anos e vendida depois como escrava a Cartum? E da prática da lapidação em
certos países islâmicos? E da tradição jurídica saudita que corta a mão de
ladrões e decapita com uma espada? (Castoriadis, 1996, p. 235)
A crise
do ideário humanista e iluminista, que compreendia a cultura como uma barreira
contra todas as formas de obscurantismo, de preconceito e intolerância, abala a
Escola e Universidade, por ser crise da ideia de Cultura. Com efeito, foram
europeus e americanos os protagonistas que puseram em questão os princípios de
sua herança cultural em obras como Dead White Europeanm Males. Na contestação
dos estudos que compõem as humanidades universitárias, revela-se a condição
antropológica do presente, bem como o ideal de indivíduo que hoje a Educação
valoriza. Assim, em 1990, a Universidade de Princeton decidiu suprimir a
unidade curricular “Cultura Ocidental”, substituída por “Cultura, ideias e
valores”.
Em meio
à deriva de sua identidade de seus princípios, a Universidade testemunha uma
crise cultural cujos membros não concebem mais sua finalidade, nem a natureza
do saber a ser produzido e transmitido: “quando laboratórios de pesquisa
colocam primordialmente a questão de sua classificação pelo CNRS(Capes) do que
é determinado a pesquisar e em prazos pré-estabelecidos, quando a política
universitária se exaure em jogos de poder, a instituição é tomada pelo
pensamento instrumental.” (Zawadzki, 2002, p. 5). Concebida como modernização
da universidade, este ideário se projeta como uma nova teodicéia,
universalizando modos de pensar que ignoram discordâncias, através de dados
técnicos impostos a toda a instituição, contrariando a vida psíquica dos
indivíduos que a compõem. O mal-estar de nossa civilização resulta, e muito, da
desproporção entre nossa estrutura psicológica assim como a nova realidade
técnica a que ninguém mais poderia se furtar e para a qual não estávamos
preparados. A vida do espírito suporta mal a rapidez das mudanças que essa
civilização exige (Gori, 2022, p. 73). Como escreveu Camus: “o espírito está
sempre atrasado com respeito ao mundo. A história se acelera enquanto o
espírito medita” (Camus, 2013. p. 83). Por isso, a sociedade que está sendo
moldada na digitalização é regressiva, constituindo tecnologias de tomadas de
decisão, de controles múltiplos de pensamentos e comportamentos, inviabilizando
a individuação, que é o esforço de pensar por si mesmo, pela frequentação dos
saberes herdados do passado, capazes, no tempo longo, de se estabelecerem como
experiências de vida e de pensamento. Ser herdeiro significa ser “órfão”,
diversamente da recepção passiva do passado como um fardo. De fato, o heres
latino tem a mesma raiz do grego cheros que significa “deserto”,
“despojamento”, “falta”. Por isso, ser herdeiro só acontece a quem se descobre
orphanos. Para se tornar herdeiro, é preciso atravessar o luto da perda e da
ausência (Massimo, 2015). Eis a potência da educação humanista, da Bildung, da
educação formadora à distância daquela performática: O que significa exatamente
formação? Antes de mais nada, como a própria palavra indica, uma relação com o
tempo: é introduzir alguém ao passado de sua cultura (no sentido antropológico
do termo, isto é, como ordem simbólica ou de relação com o ausente), é
despertar alguém para as questões que esse passado engendra para o presente, e
é estimular a passagem do instituído ao instituinte. […] A obra de pensamento
só é fecunda quando pensa e diz o que sem ela não poderia ser pensado nem dito
[…], criando em seu próprio interior a posteridade que irá superá-la. Ao
instituir o novo sobre o que estava sedimentado na cultura, a obra de arte e de
pensamento reabre o tempo e forma o futuro […], quando o presente é apreendido
como aquilo que exige de nós o trabalho da interrogação, da reflexão e da
crítica, de tal maneira que nos tornamos capazes de elevar ao plano do conceito
o que foi experimentado como questão, pergunta, problema, dificuldade (Chaui,
2003, online). Razão pela qual a educação e a cultura são iniciação criadora de
uma individuação, agora sob os impactos da imediatez do mercado: o mercado
torna-se o único critério de transformação de programas comportamentais, de que
sistematicamente toma o controle pelo viés das técnicas de marketing […]. A
tomada de controle das indústrias de programas entra inevitavelmente em luta
com a instituição de programas, antes decisão e herança da Escola […]; desde a
própria origem do Ocidente […]. Na Grécia antiga, pátria da política, da
tragédia, da democracia, [estas] se realizam por intermédio do mestre das
letras (o institutor). (Stiegler, 2006, p. 166) E o idioma preserva essa
memória, como, no francês, em que professor se diz “instituteur” porque ele
“institui” a criança e “sublima” o povo. A civilização moderna só se interessa
pela ideia de futuro. Trata-se, porém, de um futuro sem qualquer fundamentação,
uma vez que esta só se constrói com as experiências do passado. Este
desenraizamento moderno anula as “raízes espirituais” da Educação e da
Universidade, afetando sua dimensão crítica e o benefício da dúvida acerca da
doxa dominante e das incertezas da vida. Como escreve Bernard Stiegler: Nunca
se decide a maneira como se vive: reproduz-se modos de vida – que herdamos pelos
que nos são próximos, que se adotou pela educação ou sob a influência de
culturas vindas de longe e por todo tipo de vetores: circulação de mercadorias
ou pessoas, evangelização, nova técnicas ou ideologias, indústrias culturais. O
processo de individuação é um processo de adoção. As grandes civilizações se
constituíram inventando modos de vida novos, que elas fizeram outras sociedades
adotarem, adotando, por sua vez, modos de vida estrangeiros […]. O Império da
China, em que hoje se desenvolve uma nova forma do capitalismo […], foi desde
sua origem o fruto de um tal processo de adoção, que se formou há mil anos
entre inúmeras etnias que a precederam no território que é hoje a China
contemporânea […]. Alexandre, o Grande, herdeiro da escrita ideogramática dos
impérios ditos hidráulicos (Egito e Mesopotâmia) a transforma em escrita
alfabética via os Fenícios. Quando Alexandre conquistou aqueles de quem ele era
herdeiro, adotou a religião egípcia e fez com que os egípcios adotassem a sua.
É assim que se pode ver, na necrópole de Alexandria, um túmulo ornamentado de
baixos-relevos representando Perséfone e Hades, na parte superior e, na parte
inferior, Isis e Osíris” (Stiegler, 2006. p. 43-44)
Nesse
horizonte, a educação humanista, a da Weltkiltur, lembra o caráter matricial
das grandes obras, base da “civilização dos costumes”. Nesse sentido, a
referência é Jakob Burckhardt que, em suas Considerações sobre a História
Universal, bem como em A Cultura do Renascimento, trata de “grandes” obras e
“grandes autores”, a cultura devendo integrar a educação e formar o indivíduo e
fortalecer a política. Aqui não se confundem “grandeza” e “poder”: grandeza é a
soma global da personalidade de um indivíduo que nos parece grande, que
continua a exercer influência mágica sobre todos nós através dos séculos e dos
povos, muito além das fronteiras da simples tradição. Ao afirmarmos que a
grandeza é algo único e insubstituível não resulta disso um esclarecimento. Um
grande indivíduo é aquele sem o qual o mundo nos pareceria incompleto, porque
determinadas grandes ações só poderiam ser possíveis por ele, no interior de
seu tempo e de seu ambiente, sendo inconcebíveis sem ele. Há um provérbio que
diz ‘nenhum homem é indispensável’, mas, justamente, os poucos que o são, são
grandes (Burkhardt, 2000, p. 46). Único e insubstituível significa um indivíduo
cuja força moral e intelectual diz respeito à humanidade como um todo, a povos
e culturas, e, assim, ao universal heterogêneo. Como escreve Ernani Chaves:
“Aqui nos deparamos com a idéia de ‘Umgestalten’, de ‘remodelação’, de
‘modificação’, de uma ação que ‘transforma’, que é capaz de instituir, em meio
à ‘heterogeneidade’ do universal, uma ‘unidade’ que organiza essa ‘heterogeneidade’
(Chaves, 2000, p. 46). Desse modo, privilegiam-se artistas, poetas, pesadores e
pensadoras – que se pense em Hipácia, Christina da Suécia, Santa Teresa
d´Ávila, Maria Zambrano, Simone Weil e Hannah Aredt, entre outras, a tradição
nos advindo do passado. Como “remodelação” ela é, pois, criação. Criação no
sentido em que todos os grandes trabalhos são obras de humanização a favor de
Eros e do autoconhecimento. Ésquilo e Platão, Rafael e Copérnico, Galileu e
Kepler são “grandes”, mas não os grandes navegadores, à exceção de Colombo,
porque a América poderia ser descoberta pelos europeus, mesmo se Colombo
tivesse morrido recém-nascido. Mas a Transfiguração de Rafael não teria sido
pintada, se ele não a tivesse feito (Chaves, 2000).
O
humanismo não significa, no entanto, esquivar-se de que Auschwitz foi possível
ao som de Wagner e Bach. É neste âmbito que se inscreve a declaração de Adorno,
que se converteu em aforismo, na sentença: Escrever um poema após Auschwitz é
um ato bárbaro. […]. Essa situação de disseminação da barbárie, a ponto de
enredar o gesto estético, corrói ou devora [anfressen] inclusive a
possibilidade de que se tenha consciência dos motivos que impossibilitam a
escrita de poemas (Adorno, 1998, p. 26) Essa “máxima” significa dizer que “faz
parte da filosofia não tomar nada literalmente, pois a filosofia não consiste
em statements of fact”, como se se devesse acreditar inapelavelmente no que
está afirmando. É preciso estar atento “menos ao que o aforismo afirma e mais
ao que ela revela”. Se não fosse isso, a conclusão seria a de uma acusação, sem
apelo, da poesia e do poeta. Essa acusação dirigida à poesia e aos poetas,
visa, antes, os torturadores de Auschwitz e não os poetas. Para compreender
esta questão, Adorno, em sua Dialética Negativa, se refere ao terremoto de
Lisboa de 1755 e a Auschwitz em 1945, que revelou ao mundo o horror dos campos
de extermínio. Cada um desses dois acontecimentos abalou sua época, mas com
consequências opostas para a poesia e para a literatura, o terremoto de Lisboa
tendo provocado na Europa uma copiosa publicação de poemas, em particular o de
Voltaire e o de Rousseau e suas visões totalmente opostas.
Tudo se
transformou em dois séculos; e após a Segunda Guerra, a poesia já se encontrava
privada daquela potência de consolação que exercera por gerações. E isto porque
o que está em questão é a ideia de cultura que destituiu a poesia, a literatura
e as humanidades, substituídas pela pseudo-aura da indústria cultural, agora
sob os auspícios do “crítico de jornal” e da civilização técnica. Com o que se
revela a reviravolta, a um só tempo, da história da literatura e das
Humanidades. Porque a literatura há muito perdera seu prestígio social, Adorno
reflete, em primeiro plano. Sobre a política cultural nazista – que se fundava
principalmente na música, no cinema e nas artes do espetáculo em geral (que se
lembre os nazistas não prezavam a literatura e queimavam livros). A barbárie
não estava na poesia, mas em sua ausência. Porque houve poesia após Auschwitz,
em Auschwitz, sobre Auschwitz, ela é testemunha de uma civilização perdida.
Razão pela qual – e diversamente do que afirmava Walter Benjamin quando escreve
que não há nenhum documento de cultura que não seja também um documento de
barbárie”. A Universidade humanista é espaço deformação e ampliação dos
horizontes do mundo, de que a leitura e estudo de autores do passado, em grego
ou latim, é uma primeira experiência de alteridade, distante e próximo daquele
mundo que nos é familiar. Como observa Massimo Recalcati: faz parte da Bildung
o abandonar a família, a língua que falamos em casa, aquela que a criança
aprende com a mãe, a língua cheia de afetividade, sem universalidade, com
respeito à qual se dá um salto quando se entra na Escola, salto que é um trauma
necessário à humanização, à desmaternalização da língua no encontro com a
língua do alfabeto […]. A dificuldade de aprendizado nessa fase da vida é por
vezes resistência contra este afastamento da ‘íngua materna’ da família até que
se dê o corte simbólico, a necessidade de se separar de um saber próximo demais
para aceder ao saber mais longo da língua alfabética. É essa perda que permite
o acesso ao conhecimento. (Recalcati, 2014, p. 43) Diferentemente do
confinamento isolacionista em uma “origem”, a Escola e a Universidade
constituem o alargamento da vida e do conhecimento. O que é um encontro de
Amor, no sentido que lhe confere Platão. Ele é desejo de conhecimento.
Refletindo sobre O Banquete de Platão, Marcílio Ficino anota: “o Amor precede o
mundo, desperta o que está adormecido, ilumina o que é obscuro, ressuscita o
que está morto, dá forma ao que é informe e perfeição ao imperfeito” (Ficino,
2021, p. 141). Na Escola e na Universidade esse encontro com Eros se faz
principalmente com o Mestre e através dos livros. O mestre é aquele que
transmite um ensinamento, que “deixa em nós um sinal inesquecível, como um
Amor. Nas mãos do Mestre um livro nos mostra que existem outros mundos, abrindo
e dando forma a nossa vida. Ao fazer o comentário de uma obra, comentário que
clarifica o que se lê, o mestre desfaz sua obscuridade e suas dificuldades. O
professor tem assim a custódia, não de um saber definitivo, mas do texto que
parece escrito em uma língua estrangeira e que, pelo milagre da transmissão
através de seu comentário, torna-se compreensível, [considerando] também o
momento crucial de sua interrupção, em um ponto de intensidade quando o Mestre
diz: este aspecto, não é possível explicá-lo, não sabemos o que Platão quis
dizer, ou Santo Agostinho quando perguntava: ‘mas o que fazia Deus antes da
criação do mundo?’ A única resposta possível é ‘não sei’ […]. Um Mestre é
aquele de quem não esquecemos o nome, que deixou uma marca que não é
intelectual, pois podemos ter esquecido o conteúdo das aulas; o que não se
esquece é o fascínio, a presença, o estilo, a voz […]. O professor sabe onde há
uma vírgula, um ponto-e-vírgula, reticências, dando alma ao desejo de saber,
transferindo-o aos alunos. Übertragung quer dizer: um transpor e um transportar
no sentido erótico de um enamoramento, e esse encontro amplia a experiência do
mundo. (Recalcati, 2014, p. 30).
A
leitura é uma forma de relação que implica o tempo, o cuidado, a atenção, o
amor pelo detalhe, pela pontuação, pela nota de rodapé. Como o corpo, o livro é
iniciação ao discurso amoroso. Trata-se do erotismo da leitura e não consumo
imediato, alucinatório do objeto, mas um longo caminho: “Transformar um livro
em um corpo é a definição do amor” (Recalcati, 2014, p 32). Eis a importância
dos textos clássicos, os que se tornam clássicos, aqueles que são inexauríveis,
aos quais voltamos sempre porque não se desvendam nunca por inteiro seus
arcanos e, assim, são sempre novos e atuais, como Antígona de Sófocles. Esta é
a personagem condenada à morte e a ser enterrada viva, por dar uma sepultura ao
corpo do irmão, violando a interdição da Lei. Enfrenta o poder da Razão de
Estado que proibia o ritual fúnebre de Eteocles e Antígona é a expressão do
amor bem como do universal heterogêneo de todos os tempos e espaços: Há
Antígonas japonesas, chinesas […] africanas. […]. Não existe uma língua […],
nem um país que não criem a figura de Antígona. Pol Pot enterra vivos [seus
opositores] […]. [Antígonas] são os corpos dos estudantes massacrados em Tien
An Men, que não foram devolvidos às famílias.1 Alguns dentre aqueles pais
arriscaram suas vidas ao invocarem numa praça os nomes de seus filhos. Eis a
quintessência da universalidade. Quer o drama grego assuma formas particulares,
quer exista uma intensa localização na língua grega, mesmo milhões e milhões de
pessoas que não sabem uma palavra em grego e que jamais ouviram falar de
Sófocles viveram com seus próprios olhos e em suas almas o drama de
Antígona[…]. Eu soube que o que há de mais perigoso na China é murmurar, na
praça Tien An Men, o nome de um filho cujo corpo desapareceu. Eis o drama de
Antígona, em sua acepção moderna. (Steiner, ANO, p. 122-123) Nesse sentido, o
universal tem origem e vocação humanista, em que se inscrevem os valores da
Educação e da Universidade. Devem resistir às imposições da aceleração do
tempo, da técnica, do mercado e da indústria da cultura. Resistir é reexistir,
a fim de continuar existindo em sua identidade, sempre híbrida e inconclusa.
Porque a Escola e a Universidade são o locus da humanização e porque a
contemporaneidade anti-intelectual, a da “semi-formação”, decreta que a
“verdadeira cultura é inacessível às grandes massas” por ser ela “eletista”, a
reposta da Universidade nos vem de Adorno, quando nos significa que os
deserdados da cultura são os verdadeiros herdeiros da cultura (Adorno, 2008).
Fonte:
Por Olgária Matos, em Outras Palavra

Nenhum comentário:
Postar um comentário