Encontro
de um psicanalista com o perspectivismo ameríndio
A
psicanálise decolonial ou o debate entre psicanálise e decolonialidade, apesar
de suas origens poderem ser recuadas até o início da década de 80, tem
adquirido impulso maior nos últimos anos. De minha parte, como estou longe de
dominar toda ou a maior parte da literatura sobre o tema e nem é minha
expectativa abordar todos os seus aspectos, as pretensões deste artigo ficam
drasticamente reduzidas. Portanto, pretendo apenas fazer um relato de meu
encontro enquanto psicanalista com o perspectivismo ameríndio apresentado na
obra A inconstância da alma selvagem, de Eduardo Viveiros de Castro.
Você
vai perceber que esse relato não pretende ser uma contribuição para o debate
sobre a decolonialidade ou mesmo sobre a interdisciplinaridade entre
psicanálise e antropologia. Também não pretende ser nem uma proposta de
interpretação da psicanálise pela antropologia nem da antropologia pela
psicanálise. Trata-se, na verdade, de investigar o lugar que a antropologia –
mais especialmente, o perspectivismo ameríndio – pode ocupar em relação à
psicanálise. Esse meu interesse surgiu como reação ao ponto de vista de alguns
psicanalistas que entendem ser o perspectivismo ameríndio a expressão da
antropologia de determinada psicanálise. Sem receio de dar spoilers, já me
adianto dizendo que esse ponto de vista parece não contribuir para o debate.
A noção
de lugar do perspectivismo ameríndio em relação à psicanálise pode ficar mais
clara se aproximarmos esse lugar ao lugar ocupado pela mulher na obra
freudiana. De acordo com o psicanalista Paul-Laurent Assoun, “produziu-se para
Freud uma estranha identificação da mulher com a própria verdade analítica”. Ou
seja: as mulheres analisadas por Freud, principalmente nos primórdios da
psicanálise, não eram uma amostra de casos destinados a confirmar ou refutar as
teses psicanalíticas, mas eram, elas mesmas, responsáveis por fazer a
psicanálise ascender à sua verdade, por fazer a psicanálise se tornar…
psicanálise.
Entendo
que o perspectivismo ameríndio pode assumir esse lugar para a psicanálise.
Entretanto, diferentemente da mulher, não se trata de revelar a verdade
analítica, e sim de indicar uma verdade não acessível à análise, de fazer a
psicanálise confrontar sua verdade justamente com aquilo que não é espelho.
Para prosseguirmos nesse caminho, precisamos fazer um considerável recuo no
tempo histórico.
Por
volta de 1510 – ou em alguma data após 1530, segundo algumas fontes –, o
marinheiro português Diogo Álvares Correia (1475-1557) foi vítima de um
naufrágio ocorrido na baía de Todos os Santos, costa do atual Brasil. Aqueles
que o acompanhavam foram todos dizimados, mas Diogo foi acolhido pelos
Tupinambá. Diogo encontrou, entre os Tupinambá, alívio para seus sofrimentos e
respostas para questões que nenhum filósofo europeu havia sido capaz de
elucidar. A assimilação de Diogo entre os Tupinambá foi tão profunda que o
cacique Taparica ofereceu sua filha, Paraguaçu (1503-1583), para casamento.
Realizava-se, assim, uma verdadeira fábula que indicava uma alternativa à visão
de mundo estabelecida nos primórdios da modernidade europeia. De acordo com
essa fábula, somente os povos indígenas poderiam salvar a Europa da miséria e
destruição provocadas pela própria Europa.
Como
você deve saber, Diogo Álvares Correia, também conhecido como Caramuru, não
virou as costas para a civilização europeia. Não somente contribuiu para
estabelecer trocas comerciais entre os portugueses e os Tupinambá como também
viajou algumas vezes à Europa com sua esposa, a qual chegou a ser batizada na
religião cristã. No entanto, a paródia que eu apresentei das peripécias de
Caramuru nos serve para pensar na relação que alguns psicanalistas podem
estabelecer com o perspectivismo ameríndio. Em uma apropriação muito aquém e
pobre da complexidade original da filosofia de Deleuze e Guattari, podemos
dizer que Caramuru é um dos dois personagens conceituais que quero hoje
apresentar a você.
O outro
personagem é um velho conhecido nosso: Narciso. Assim como ocorreu com
Caramuru, será apresentada uma paródia desse personagem – não tão distorcida
quanto a paródia anterior. Partindo do princípio de que é feio o que não é
espelho, Narciso ficou conhecido por recolher, de outros povos e culturas,
testemunhos e relatos que pudessem confirmar e dar consistência à sua imagem e
semelhança. Cada saber era desapropriado de seu contexto original para ser
reapropriado segundo seus próprios cânones. Os estrangeiros serviam para
mostrar a Narciso que tudo o que ele via nos outros já havia sido visto… nele
mesmo.
Na
companhia desses dois personagens (Caramuru e Narciso), posso me dedicar a um
comentário daquilo que foi minha experiência no estudo do perspectivismo
animista investigado pelo antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro.
Quando
me debrucei sobre A inconstância da alma selvagem, eu não estava interessado em
extrair, do perspectivismo animista, saberes que pudessem dar consistência à
psicanálise – longe de mim, muito pelo contrário… Eu já estava um tanto quanto
advertido de não me tornar um Narciso. No entanto, isso não me impediu de
acender uma vela para Caramuru – apesar de contestada por vários historiadores,
um dos significados de Caramuru é “homem do fogo” (não por acaso, esse nome foi
utilizado para batizar uma conhecida fábrica de fogos de artifício, ainda que o
logo da marca represente um indígena estadunidense, e não um viajante
português). Pretendia, assim, entender de que maneira o perspectivismo
animista, diferentemente do totemismo freudiano, poderia contribuir para um
novo entendimento e tratamento do narcisismo patológico. Minha esperança era
encontrar respostas para essa pergunta.
As
leituras individuais e as conversas com colegas psicanalistas foram me
mostrando que o perspectivismo animista não poderia responder à minha pergunta.
Não porque os povos indígenas fossem incapazes de transmitir um saber ou porque
seus saberes fossem inferiores aos saberes da psicanálise. O que me foi
mostrado é que o perspectivismo ameríndio não poderia responder a uma pergunta
que não fazia sentido a partir de seu horizonte.
Diferentemente
do entendimento estabelecido por Freud, a obra de Viveiros de Castro nos
apresenta um animismo que não pode mais ser situado como o estágio primeiro do
desenvolvimento do indivíduo e da espécie, uma etapa solidária entre as
crianças e os chamados “povos primitivos” – expressão utilizada por Freud. O
perspectivismo animista não é uma etapa comum às diferentes culturas humanas,
mas é o modo como a humanidade dos ameríndios se constituiu. Aponta não somente
para uma outra relação entre natureza e cultura, mas também para o entendimento
de que natureza e cultura não são substâncias como são entendidas por nós,
não-indígenas. Enfim, enquanto o animismo define a dimensão ontológica dos
povos ameríndios, seu equivalente entre nós não-indígenas é o naturalismo.
Estamos falando, assim, de duas dimensões ontológicas distintas (animismo e
naturalismo), com suas potências imanentes e suas problemáticas próprias, e não
de duas etapas subsequentes na história do desenvolvimento humano.
E onde
entraria o totemismo nessa história? Na verdade, ao contrário do que eu
imaginava, no perspectivismo ameríndio o totemismo não se opõe ao animismo.
Animismo e naturalismo possuem dimensão ontológica, mas o totemismo é de
natureza classificatória. Não somente animismo e totemismo não seriam etapas do
desenvolvimento da espécie e do indivíduo como também não seriam
necessariamente categorias antagônicas. A coexistência do animismo e do
totemismo em um mesmo povo nos mostra que essas categorias possuem naturezas
distintas.
Para
mim, o que nos interessa, aqui, são esses dois postulados: nunca fomos
animistas, jamais seremos ameríndios. Isso não significa a interdição de uma
aproximação entre a psicanálise e os resultados das investigações
antropológicas de Viveiros de Castro, mas, talvez, o diálogo entre essas
disciplinas exija um novo personagem conceitual. Não um Narciso, não um
Caramuru, e sim um Estranho ou um Estrangeiro – o que, etimologicamente, dá no
mesmo. Estranho não como efeito do reconhecimento do animismo que supostamente
residiria em nós, mas recalcado, e sim como Estrangeiro em relação a nós
mesmos, psicanalistas. O estudo do perspectivismo animista pode contribuir para
nos provocar, assim como o chá de Ayahuasca, uma espécie de miração, que nos
faça olhar com estranhamento para nossa dimensão ontológica naturalista e,
principalmente, para nossa prática psicanalítica.
Fico
pensando de que maneira podemos nos utilizar dos resultados da antropologia de
Viveiros de Castro para desestabilizar nossas certezas, não com o intuito de
fundarmos uma nova psicanálise, e sim para arejarmos nossa relação com outras
disciplinas. Assim como a psicanálise foi (e é) incontornável para a maior
parte das ciências humanas, talvez hoje seja o momento de verificarmos em que
medida a antropologia pode se tornar incontornável para nossa prática – não por
aquilo que transmite, mas justamente por aquilo que não se pode transmitir.
Não se
trata de colocar, mais uma vez, a psicanálise no divã. Psicanalistas analisando
psicanálise a partir de (outra) psicanálise é uma prática tão antiga quanto a
própria psicanálise. No diálogo com a antropologia conduzida por Viveiros de
Castro, trata-se, a meu ver, de colocar a psicanálise no campo, entendido
enquanto campo de pesquisa do antropólogo, ou seja, trata-se de realizar uma
etnografia da psicanálise a partir do perspectivismo ameríndio.
O
resultado já nos é conhecido. Mais uma ferida narcísica no seio da modernidade:
a psicanálise já não é mais senhora em sua própria casa.
Fonte:
Por Eduardo Guimarães, em Outras Palavras

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